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"Há sonhos perdidos, canções que ninguém canta. Algo inatingível pela lógica humana. E ninguém pode questionar a fé que cada um possui dentro de si mesmo. Existem verdades na vida que ultrapassam todas as barreiras passíveis de entendimento. Como sons adormecidos, calam-se as palavras."
Parecia que tudo havia mudado. De quando em quando, ela ainda se encostava na parede e desejava ouvir o mesmo som que as folhas produziam ao se chocarem com o movimento do vento. Desejava sentir aquela brisa deitada no chão de piso branco. Seus olhos vivos poderiam olhar para o céu de um azul tão azul quanto numa pintura. E as nuvens rajariam o firmamento de branco, esses eram sons adormecidos.
Seus dedos perpassariam aquela parede novamente. Ela veria os coqueiros daquela janela e sorriria ao escutar suas melodias preferidas ecoarem naquele por ali. Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir todo o amor que sentia sem saber, disfarçado em jogos noturnos de baralho e no cheiro do café que todas as tardes enchia a rua inteira. Mas aquilo estava fora de seu entendimento, outrora.
E a vida era mais leve. Uma fantasiosa aventura solitária pelos traços de desenhos que ela mesma compunha, empunhando lápis e deslizando-o sobre o papel. Seus livros eram mais que tesouros, eram seu refúgio para os dias em que sabia estar sozinha. E ela tinha sonhos. Um deles era guardar todos os momentos de plenitude em sua vida, não muitos, mas todos.
Como na noite de 22 de novembro de 2004, as luzes do quintal vizinho irrompiam pelas sombras de seu quarto e ela sorriu ao entrar lá. Sentiu uma sensação que poucas vezes sentira. Como se estivesse completa, em sua visão infantil. Sentou-se sobre o chão, encostada no guarda roupa. Admirou aquela imagem feita de sombras e luz por algum tempo, até ter a certeza de que nunca a esqueceria.
E o vento soprava lentamente para dentro do quarto. Ela sabia que aquele momento registrado estava além de qualquer explicação. E as palavras a calariam, como sons adormecidos.
Tudo havia mudado. Vez ou outra, quando deitada, antes de dormir, ainda lembrava de quando deitava em seu grande cubo e olhava o teto, pedindo para que aquele dia nunca acabasse. Que nunca acabasse... Nunca acabasse... Acabasse... E rendia-se ao sono, dormia. Era apenas uma criança, mas sabia que seus pedidos não seriam atendidos, e se sentia só. Mergulhava em um mundo no qual não entendia, mas não se importou. Se deixou permitir porque sabia a vida ultrapassava qualquer entendimento.
Como no dia em que voltava para casa e o tempo virou. O céu sempre azul vivo transformou-se em branco, como gostava de ver. Cinza. Até escurecer mais e despencar sobre a Terra, em forma de chuva. Grossas gotas de chuva, violentas rajadas de vento. E ela corria. Sozinha na rua, corria. Sentia o vento cortar seu rosto arrendondado infantil e corria de braços abertos. Sorria, então. As casas ao seu redor estavam todas fechadas, a única testemunha de sua pequena loucura era o cachorro de uma delas. Um grande Husk siberiano branco, tinha um olho azul, o outro castanho. Latia alto enquanto ela corria. E a felicidade clandestina que ela sentia naquele momento de vida ultrapassava qualquer entendimento.
Mas ela acordava de seus devaneios, por vezes, e voltava à realidade. Desejava que tudo voltasse, para que aquele frio tão acolhedor retornasse a ser sentido por sua pele. E desejava que sobre seu rosto houvessem gotas de chuva, não lágrimas. Mas tudo havia mudado. Restara a saudade, algumas músicas e uns livros. Todo o seu universo se formou sobre a base de suas lembranças, vivas e em perpétuo movimento. Para sempre e sempre, uma vida que ultrapassaria toda e qualquer tentativa de entendimento.
Porque nem tudo na vida precisa de explicações e teorias. Há momentos em que a beleza reside na falta de verbalidade para ultrapassar as barreiras de entendimento. Então, deixe esse erro de querer compreender tudo. Drene o ar de seus pulmões até que possa inalar as faíscas de sua voz interior. Rasgue todos os pedaços de lógica que possui, ao menos uma vez.
Permita-se não entender o que acontece. Veja as estrelas no céu, elas são a figura eterna de um poema morto. Tão vivas aos nossos olhos, verdadeiramente mortas. Cristais brilhantes que deixaram de existir a tanto tempo e ainda viajam pelo tempo, como fantasmas, e brilham por nossa noite. E quem precisa entender mais que a beleza de poder contemplar o céu noturno? Com sons adormecidos, nada mais é preciso.
As barreiras do entendimento humano são quebradas no momento em que o som das palavras adormece em cada timbre, para que sensações sejam a única explicação.
FM.
O som adormecido das Palavras
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
14:16
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Ainda que o silêncio Permaneça
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
13:01
domingo, 10 de outubro de 2010
'
Aquele que nunca viu a tristeza
Não reconhecerá a alegria
Não verá que cada novo nascer do sol
Possui um brilho que reflete em nós
Aquecendo nossa pele
Fazendo-nos vivos a cada dia
Aquele que nunca provou a dor
Não reconhecerá o alívio
Pois não sentiu o frio cortante de sofrer
Nunca viu a marca do sangue
Jorrando nosso sofrimento
Junto com as lágrimas que caem
Aquele que nunca foi sincero
Não reconhecerá a verdade
Quando ela estiver em frente aos olhos
Pois não sabe que a confiança
É um sentimento nobre
Mas é frágil demais para se restaurar
E não importa o tamanho de sua dor agora
Saiba que por mais forte que ela pareça
Ela pode ser jogada ao vento
Pode ser esquecida pela vida ao seu redor
Ainda que o silêncio permaneça
A alegria que há em você surgirá
Pois a angústia que seu corpo sente doer
Nunca será maior que a vida em você
Ainda que o silêncio permaneça
Tudo na vida é temporário, lembre-se que...
Tudo na vida é temporário. Tudo.
FM.
Aquele que nunca viu a tristeza
Não reconhecerá a alegria
Não verá que cada novo nascer do sol
Possui um brilho que reflete em nós
Aquecendo nossa pele
Fazendo-nos vivos a cada dia
Aquele que nunca provou a dor
Não reconhecerá o alívio
Pois não sentiu o frio cortante de sofrer
Nunca viu a marca do sangue
Jorrando nosso sofrimento
Junto com as lágrimas que caem
Aquele que nunca foi sincero
Não reconhecerá a verdade
Quando ela estiver em frente aos olhos
Pois não sabe que a confiança
É um sentimento nobre
Mas é frágil demais para se restaurar
E não importa o tamanho de sua dor agora
Saiba que por mais forte que ela pareça
Ela pode ser jogada ao vento
Pode ser esquecida pela vida ao seu redor
Ainda que o silêncio permaneça
A alegria que há em você surgirá
Pois a angústia que seu corpo sente doer
Nunca será maior que a vida em você
Ainda que o silêncio permaneça
Tudo na vida é temporário, lembre-se que...
Tudo na vida é temporário. Tudo.
FM.
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Iesu, Rex admirabilis
Et triumphator nobilis,
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Totus desiderabilis.
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