'
Um sonho distante, através das montanhas cobertas de neve. O sopro gélido do vento noturno ressoava como um canto fantasmagórico, por entre os galhos secos das poucas árvores que povoavam os arredores dali. Liberto da luz que o sol se envaidecia em reverberar pelo infinito, o céu transmitia o reflexo leitoso da lua envolvida por um halo esbranquiçado, brevemente escondida por rastros de nuvens que passavam por ali.
O firmamento era modestamente pintado por estrelas que surgiam à medida que escurecia naquele sonho distante. E toda a Terra estava mergulhada numa intensa nevasca. O globo parecia coberto por uma mortalha alva, imaculada. Os prolongamentos dos galhos enregelados tinham um aspecto brilhante, moldado pela fina e delicada camada de gelo que revestia tudo por ali. As sombras se moviam lentamente, acompanhando a posse da lua sobre o céu, para reinar diante de seus súditos e amantes. Não havia sequer signo longínquo de vida através das montanhas cobertas de neve. Até ali.
Escondida pelo gelo e pelas paredes que formavam o vale entre as montanhas, uma pequena cabana erguia-se nostálgica. Como uma lembrança borrada de um tempo antigo, e a corrente de vento e neve passava por ela, tristemente. A imagem soturna de um passado intensamente vivido. Enlevou-se a corrente de vento, aproximando-se daquela pequena casa. Pequenas luzes farfalhavam um brilho colorido, e uma guirlanda pomposa pendia na porta, cheia de pequenos querubins que empunhavam suas cornetas.
A lua ainda resplandecia sua luz placidamente e as estrelas a acompanhavam, impassíveis. As portas trancafiadas e austeras tinham um posicionamento hostil em relação à visitas, ao passo que as pequenas luzes convidavam até o forasteiro da neve mais cruel e rude a entrar. Mas algo se movia dentro da casa, e lá dentro o ambiente possuia uma temperatura confortável. A luz da lareira produzia um calor ameno para o frio entorpecente que fazia lá fora.
O cheiro de biscoitos e café quentes inundava toda a pequena casa de um cômodo. Da lareira pendiam meias vazias, uma poltrona grande de veludo avermelhado compunha a pequena sala e um banquinho de apoio para os pés jazia logo a frente, convidando o corpo cansado a recostar-se ali. Algo com tom de alegria pintava as paredes e circulava junto ao odor quente e apreciável dos biscoitos. Mas algo morria ali.
Uma pequena janela de vidro espelhava toda a alegria interior em sobreposição à paisagem morta das montanhas cobertas de neve. Dedos pálidos escorregavam pelo vidro, assim como as lágrimas que rolavam pelo semblante perdido daquele anjo solitário. Em seus olhos sombrios se destacava a cor azul acinzentada. À despeito do calor da casa, as maçãs de sua face permaneciam lívidas, reveladas pelo reflexo no vidro embaçado, como um fantasma na escuridão da noite exterior. Suas longas vestes branco prateadas pareciam esculpidas em mármore, escorrendo por seu corpo, até o chão.
Em seu coração, o peso de tantos pecados recaía novamente. Sua respiração prestes a sucumbir. A tristeza que caminhava por seu corpo, através de suas veias, espalhava-se por seu peito, subindo por suas faces. Seus olhos queimavam. Derramavam mais lágrimas perfeitamente brilhantes. Lavavam o espírito doente daquele anjo entristecido.
Havia uma percepção frígida da solidão ao seu lado. Sua visão se locomoveu através da pequena casa e abriu a porta, exortando a corrente gélida de vento e neve a entrar no ambiente da pequena cabana. A mesma corrente que impulsionou aquele anjo para além do conforto, sob a lua e em meio às montanhas cobertas de neve. Movimentos frívolos ondulavam por suas vestes, que se confundiam com a cobertura branca da terra. Ele caminhava lentamente pelo lugar ermo, arrastando os pés descalços através da pequena estrada, se afastando da casa. Aproximava-se das árvores de galhos secos cristalizados e fitava o céu, sentindo que as estrelas caíam lentamente, em forma de flocos de neve, sobre aquele lugar.
E só assim ele podia acreditar em sua redenção. Antes o peso sobre seus ombros não cedia, inexorável. Agora, ao caminhar além daquelas colinas, perto do céu, podia acreditar que seu medo e todo o seu sofrimento se dissiparia. Seus olhos prateados eram apedrejados pelo gotejar de lágrimas em sua face. De quando em quando, seus dedos pálidos enxugavam seu semblante. E o vento melodioso percorria todo o lugar, envolvendo-o nos flocos de neve. Sua dor, seu silêncio, a solidão e cair sozinho como uma pedra em um buraco tão profundo a ponto de não conseguir produzir sequer palavra, um pedido de ajuda.
E assim ele se mantinha, perambulando enquanto o amanhecer se escondia, aterrador.
To be continued...
White Night Fantasy 1ª parte
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
12:30
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Pontos Referenciais: Uma questão de opinião?
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
18:26
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
As sombras quase não existiam, num vestígio gritante que anunciava o meio do dia, o sol reinando solitário num céu sem nuvens, lá no alto. A atmosfera inteira parecia mergulhada numa intensa luz quente e seca. Meus olhos perdidos se fixavam em pontos da estrada, enquanto ela ficava para trás. Meus pensamentos divagaram primeiramente na sensação de que estamos parados dentro do carro, enquanto o caminho se move para que cheguemos a casa.
Parece coisa de criança, mas foi justamente o que me ocorreu naquela situação. Talvez um impulso infantil remetido a um mistério ao qual só consegui desvendar durante uma aula de física que dizia que "Tudo depende do referencial".
Considero a Física bonita por isso. Não é trocadilho. Nem brincadeira, tampouco ironia. É que todas as frases da física são perfeitamente aplicáveis à vida. Pense bem no princípio de: Toda ação tem reação.
Bom, mas meus pensamentos se puseram a vaguear sobre o sentido da dependência de um referencial para haver uma comparação. E uma expressão hirta se desenvolveu em minha face. A base da comparação sempre se fez presente em minha vida.
Alguns momentos de minha infância se desdobraram em linhas de pequenas histórias que eu já produzia, conduzindo meus personagens aos lugares que eu queria conhecer. Lembro de uma vez em que um de meus personagens ficou preso dentro de uma loja de brinquedos por uma noite. Que criança nunca sonhou em ficar presa dentro de um lugar repleto de brinquedos à completa disposição, esperando em prateleiras gigantescas para serem usados? Mas, tudo depende de um referencial. Uma criança que possui um quarto de brinquedos exclusivo, não deve pensar em querer ficar presa em uma loja de brinquedos, pela ideia de que já possui tantos brinquedos sem precisar ficar "presa".
Uso isso para representar meu ponto de reflexão. Dependendo do referencial, se pode dizer que a vida é boa ou ruim. Pode-se dizer quantos sorvetes se quer, dependendo da fome. Pode-se descrever uma paisagem como linda, ou como horrível, dependendo da figuração de beleza para cada um. Veja bem, cada um possui suas preferências, e é essa diversidade de pensamentos que forma a raça humana, e que a faz tão interessante. Se fossem todos iguais, não seria tão divertido viver.
Como num informe publicitário de O Boticário, uma legião de mulheres de vestidos cinza, cortes e cor de cabelos iguais, sapatos iguais. Até que uma delas põe a cor vermelha nos lábios e torna a diferença interessante. Dependendo do referencial, aquilo pode ser uma boa propaganda, ou pode ser uma proposta apelativa de dizer que a mulher só vai chamar atenção se usar um batom de O Boticário, ou ainda pode levar uma mulher a comprar aquele batom, sem que ao menos ela tenha entendido a mensagem do informe.
Tudo vai depender de seu referencial de opinião. É aí que reside a chave do discurso. A opinião. Não basta uma opinião sozinha, é necessário analisar-se seu ponto referencial, de onde nascem tais ideias e comentários. Em que cultura está inserida a mente que produz essa opinião? Sobre que influências ela está? Discursos considerados preconceituosos para uns, podem ser a extrema sublimação da verdade para outros. Entenda, eu não defendo preconceitos, eu defendo moderação de ideias. Defendo o respeito às diferenças, às culturas, às influências, às opiniões.
Todos têm suas excentricidades, eu falei hoje. Que vivam com elas, são essas diferenças que moldam as diferentes culturas, e são por elas que se guiam as mais variadas teorias semióticas, os signos de diferenciação e a miscigenação humana. E, para cada ponto referencial, em particular, vão se enraizar conceitos, opiniões, preferências.
Vou me tomar como exemplo disso: Gosto da cor preta. Prefiro livros de literatura estrangeira, assim como prefiro o som de uma guitarra distorcida ou de um piano a uma zabumba e uma sanfona. Não tenho nada contra quem prefere a cor amarela, adora os livros de Paulo Coelho e não vive sem o novo repertório semanal da banda Aviões do Forró. São apenas choques de pontos referenciais diversos, essa é a minha compreensão.
Penso que essas particularidades são essenciais e não desvio da minha opinião de que os referenciais de cada um são a base para seu entendimento. Quando se expõe uma opinião publicamente, ela fica sujeita a críticas e interpelações. É alvo de depreciação, até. Mas não é defendida tão diferentemente quanto a opinião do crítico mais voraz. Afinal, há um embate de ideias.
Se é verdade ou não, eu não sei. Eu preciso analisar segundo meus próprios preceitos. Num piscar de olhos eu posso falar, posso deixar passar, posso me calar. Tudo depende de minhas escolhas, do meu ponto de vista. Se eu não me importar, pode ser até que eu esteja errada, mas isso não é uma questão de opinião.
A questão toma uma vertente problemática quando cada um vive em seu próprio casulo e encara a profundidade das diferentes almas como mentiras e forma preconceitos a respeito de cada um. Cada um em sua direção, sem respeitar as diferenças. Fita-se a vida dos outros e línguas afiadas expurgam comentários ferinos contra os princípios alheios de sua própria perspectiva. Isso demonstra ignorância, do meu ponto referencial.
E todos sugerem soluções para as "doenças" da sociedade, mas não reparam que a única doença é a falta de respeito que existe entre cada um, em sua diferença. E por isso se discute a liquidez das relações humanas. Conhecer verdadeiramente alguém, em nosso mundo individual, pode atingir o íntimo das pessoas e provocar medo, porque todos estão bem certos que a verdade cabe dentro da palma da mão fechada, sem se importar em abri-la para deixar o respeito se instalar.
Mas, tudo bem... Isso é apenas minha opinião, é apenas uma questão de opinião e cada um possui a sua. Ou pode não ser uma questão de opinião, depende de seu ponto referencial.
Algo que imaginei em meu caminho cansado para casa, incialmente fitando a estrada, depois de pálpebras cerradas, hoje mesmo, mais cedo.
FM.
Parece coisa de criança, mas foi justamente o que me ocorreu naquela situação. Talvez um impulso infantil remetido a um mistério ao qual só consegui desvendar durante uma aula de física que dizia que "Tudo depende do referencial".
Considero a Física bonita por isso. Não é trocadilho. Nem brincadeira, tampouco ironia. É que todas as frases da física são perfeitamente aplicáveis à vida. Pense bem no princípio de: Toda ação tem reação.
Bom, mas meus pensamentos se puseram a vaguear sobre o sentido da dependência de um referencial para haver uma comparação. E uma expressão hirta se desenvolveu em minha face. A base da comparação sempre se fez presente em minha vida.
Alguns momentos de minha infância se desdobraram em linhas de pequenas histórias que eu já produzia, conduzindo meus personagens aos lugares que eu queria conhecer. Lembro de uma vez em que um de meus personagens ficou preso dentro de uma loja de brinquedos por uma noite. Que criança nunca sonhou em ficar presa dentro de um lugar repleto de brinquedos à completa disposição, esperando em prateleiras gigantescas para serem usados? Mas, tudo depende de um referencial. Uma criança que possui um quarto de brinquedos exclusivo, não deve pensar em querer ficar presa em uma loja de brinquedos, pela ideia de que já possui tantos brinquedos sem precisar ficar "presa".
Uso isso para representar meu ponto de reflexão. Dependendo do referencial, se pode dizer que a vida é boa ou ruim. Pode-se dizer quantos sorvetes se quer, dependendo da fome. Pode-se descrever uma paisagem como linda, ou como horrível, dependendo da figuração de beleza para cada um. Veja bem, cada um possui suas preferências, e é essa diversidade de pensamentos que forma a raça humana, e que a faz tão interessante. Se fossem todos iguais, não seria tão divertido viver.
Como num informe publicitário de O Boticário, uma legião de mulheres de vestidos cinza, cortes e cor de cabelos iguais, sapatos iguais. Até que uma delas põe a cor vermelha nos lábios e torna a diferença interessante. Dependendo do referencial, aquilo pode ser uma boa propaganda, ou pode ser uma proposta apelativa de dizer que a mulher só vai chamar atenção se usar um batom de O Boticário, ou ainda pode levar uma mulher a comprar aquele batom, sem que ao menos ela tenha entendido a mensagem do informe.
Tudo vai depender de seu referencial de opinião. É aí que reside a chave do discurso. A opinião. Não basta uma opinião sozinha, é necessário analisar-se seu ponto referencial, de onde nascem tais ideias e comentários. Em que cultura está inserida a mente que produz essa opinião? Sobre que influências ela está? Discursos considerados preconceituosos para uns, podem ser a extrema sublimação da verdade para outros. Entenda, eu não defendo preconceitos, eu defendo moderação de ideias. Defendo o respeito às diferenças, às culturas, às influências, às opiniões.
Todos têm suas excentricidades, eu falei hoje. Que vivam com elas, são essas diferenças que moldam as diferentes culturas, e são por elas que se guiam as mais variadas teorias semióticas, os signos de diferenciação e a miscigenação humana. E, para cada ponto referencial, em particular, vão se enraizar conceitos, opiniões, preferências.
Vou me tomar como exemplo disso: Gosto da cor preta. Prefiro livros de literatura estrangeira, assim como prefiro o som de uma guitarra distorcida ou de um piano a uma zabumba e uma sanfona. Não tenho nada contra quem prefere a cor amarela, adora os livros de Paulo Coelho e não vive sem o novo repertório semanal da banda Aviões do Forró. São apenas choques de pontos referenciais diversos, essa é a minha compreensão.
Penso que essas particularidades são essenciais e não desvio da minha opinião de que os referenciais de cada um são a base para seu entendimento. Quando se expõe uma opinião publicamente, ela fica sujeita a críticas e interpelações. É alvo de depreciação, até. Mas não é defendida tão diferentemente quanto a opinião do crítico mais voraz. Afinal, há um embate de ideias.
Se é verdade ou não, eu não sei. Eu preciso analisar segundo meus próprios preceitos. Num piscar de olhos eu posso falar, posso deixar passar, posso me calar. Tudo depende de minhas escolhas, do meu ponto de vista. Se eu não me importar, pode ser até que eu esteja errada, mas isso não é uma questão de opinião.
A questão toma uma vertente problemática quando cada um vive em seu próprio casulo e encara a profundidade das diferentes almas como mentiras e forma preconceitos a respeito de cada um. Cada um em sua direção, sem respeitar as diferenças. Fita-se a vida dos outros e línguas afiadas expurgam comentários ferinos contra os princípios alheios de sua própria perspectiva. Isso demonstra ignorância, do meu ponto referencial.
E todos sugerem soluções para as "doenças" da sociedade, mas não reparam que a única doença é a falta de respeito que existe entre cada um, em sua diferença. E por isso se discute a liquidez das relações humanas. Conhecer verdadeiramente alguém, em nosso mundo individual, pode atingir o íntimo das pessoas e provocar medo, porque todos estão bem certos que a verdade cabe dentro da palma da mão fechada, sem se importar em abri-la para deixar o respeito se instalar.
Mas, tudo bem... Isso é apenas minha opinião, é apenas uma questão de opinião e cada um possui a sua. Ou pode não ser uma questão de opinião, depende de seu ponto referencial.
Algo que imaginei em meu caminho cansado para casa, incialmente fitando a estrada, depois de pálpebras cerradas, hoje mesmo, mais cedo.
FM.
A Menina do Lápis Mágico
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
13:28
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Seus filmes favoritos eram os de aventura, de preferência com seres mitológicos como dragões e fadas. Mas hipogrifos eram sua verdadeira paixão. Imaginar uma águia com corpo de leão atiçava sua imaginação. Sua verdadeira paixão era explorar o desconhecido e caminhar pelas ruas à procura de novas descobertas. As vezes podia-se ver seus olhinhos perspicazes se movimentando ativamente ao redor da casa, em busca de uma nova aventura diária.
Sua música preferida falava de uma menina que tinha um amor não correspondido, e ela achava lindo o jeito como a mocinha dizia:
“E será que vamos terminar juntos?
Não, eu acho que não, não é para ser
Porque eu não sou a pessoa certa”
Seu livro preferido era a tragédia romântica de Shakespeare, Romeu e Julieta. Por vezes e mais vezes se imaginou encenando algumas frases de Julieta, e sorria ao fazê-lo com a emoção de uma atriz.
Fascinava-a sentir o sofrimento daquelas mulheres imaginárias. Toda aquela melancolia da tragédia cotidiana a faziam fantasiar sobre as mais variadas aventuras, com princesas presas em torres altas, esperando por seus príncipes encantados. E ela sonhava, mesmo que acordada, seus olhos se esvaziavam por alguns momentos e a superfície deixava de existir, como em passe de mágica.
Ela tinha os mais variados tipos de situações imaginárias. Sua cabeça parecia um emaranhado indistinto de realidade e imaginação, e ela vivia. Esse emaranhado, no entanto, tinha uma saída de emergência. Aquela não era qualquer menina. Ela possuía um tesouro, tinha em seu poder um lápis que transformava seus sonhos e fantasias em realidade. Bastava desenhar num papel, e para tanto ela tinha um caderno. E tudo em sua vida se baseava em desejos realizados. Aquela era a menina do lápis mágico.
Com seu lápis preso ao punho esquerdo, rabiscava os mais diferentes contornos pelas folhas em branco, dando formas aos dias que se seguiriam. Ela tinha o poder de transformar seus devaneios em vida. E em seu quarto os desenhos se espalhavam pelas paredes, as letras de músicas rabiscadas entre um castelo e outro.
Por isso ela sorria. Como se nada mais precisasse acontecer, ela sorria. E em seus olhos a felicidade era tão plena, porque ao seu redor tudo era seu e seu lápis mágico a ajudaria pelo resto de sua vida. Por isso seu sono era brando. Aquela menina vasculhava sua memória a cada noite, buscava seus novos desejos e os guardava em algum lugar, para logo pela manhã, desenhar tudo e conseguir tudo de novo.
Mas, num belo dia, a névoa matutina sumia lentamente com o surgimento do sol. As pessoas despertavam de seu sono, interrompendo seus sonhos. Alguns perturbadores. Outros quietos. Uns felizes. Outros nem lembravam do que sonhavam.
Outros nem sonhavam.
A menina teve uma dessas noites. Em sua memória não jazia nenhum indício de sonho ou devaneio, e ela acordou sobressaltada de seu sono sem sonhos. Suas pálpebras se abriram com dificuldade, a visão ainda acostumando-se ao sol que entrava insistentemente pela janela, acordando. Sentada sobre a cama, ela bocejou. Uma interrogação pairou sobre sua lembrança e ela se perguntou:
“Mas o que irei desenhar hoje? Que sonho eu realizarei hoje?”
A menina não soube responder a sua pergunta. Seus olhos procuraram pelas próprias mãos e, em seu campo de visão, ela encontrou sua tragédia cotidiana mais grave. Um lado da cama estava sujo por pedaços negros de um lápis que jurava ser mágico. Seu lápis se partira. Não haveria mais sonhos a realizar, não haveria mais imaginação para desenhar sobre as folhas brancas de papel.
E a menina do lápis mágico deixou os ombros caírem, sem conseguir acreditar no que seus olhos viam. Um soluço se prendeu em sua garganta e a menina saltou diante do lápis quebrado, sujando as pequenas e pálidas mãos com o carvão de que o lápis era feito.
”O que será de mim agora? Como farei tudo ser verdade? Porque isso aconteceu comigo?”
Mais perguntas que pairaram no ar e permaneceram sem a devida resposta. A pobre menina pôs-se a deixar um pranto morno e triste cair diante de sua expressão recém acordada.
Os dias se passaram e aquela menina deixara de sonhar. Havia uma sombra pintada com os restos do lápis de carvão em seus olhos, como um fantasma que revestia seu discernimento sobre o que era a verdade.
E a chuva do alto verão era torrencial, àquela época. Mas, naquele dia nublado, a menina do lápis mágico resolveu sair para explorar. Talvez na esperança de encontrar um novo lápis e só então voltar a sonhar e realizar seus sonhos num passe de mágica. Os passos que suas galochas amarelas davam eram pesados e espalhavam a água das poças formadas pela irregularidade do revestimento na estrada.
Ela fitava todos os lugares com seu olhar vivo, mas, um pássaro avermelhado chamou sua atenção e a menina começou a segui-lo. Olhava o céu e seguia os passos do pequeno passarinho. Esbarrou em algo e arregalou os olhos ao perceber, o velho senhor do fim da rua estava bem em pé, em sua frente. A menina deu dois passos para trás, mas o velho a impediu e ela sentiu medo.
“Não tenha medo, garotinha. Eu só queria dizer algo.”
A menina do lápis mágico permaneceu em silêncio. Algo além do medo instalou-se em seu íntimo. Ela se sentiu curiosa.
“Os sonhos não são feitos de carvão e, para realiza-los, não é preciso mágica.”
A menina entreabriu os lábios, pensando no que o velho proferia com a voz rouca e gasta pelo tempo.
“Os sonhos são feitos da esperança que você guarda aqui.”
Seu dedo grosseiro apontou diretamente ao peito da menina do lápis mágico.
“Existem coisas que não podem ser medidas pelos padrões convencionais. Elas têm outra dimensão, outro peso. É o caso da imaginação. É o caso da fantasia. É o caso dos sonhos. Não existe nada impossível, se você acreditar de verdade. Aquiete seu coração, ponha um sorriso em sua voz. Persiga aquele passarinho, julgando-o liberdade. Lembre-se sempre de seus desenhos e do que você ainda pode desenhar. Antes de dormir, saiba que o que acontece é apenas um boa noite, não haverá adeus. Seja feliz, e realize todos os seus desejos pela força que existe dentro de você, essa é a maior mágica de todas...”
A menina não conseguia produzir sequer palavra. Mas imaginava tanto que sua mente se embaralhou novamente, num emaranhado de fantasias que havia se desfeito no dia em que seu lápis se partiu.
Seus olhos se fecharam por um segundo e uma onda de arrepios cruzou seu corpo, precedendo uma corrente de vento ágil que se espalhou pela rua e ela se decidiu a abrir os olhos e agradecer as palavras daquele senhor. Porém, quando suas pálpebras permitiram a entrada de luz em seus olhos, não havia ninguém na rua. Ela voltou para casa e, no fim da noite, pensou em cada palavra que havia escutado daquela voz. Pegou um lápis qualquer de seu estojo e seu caderno antigo.
Folheou sorrindo e na última página, escreveu:
Aqui é o território dos meus sonhos, e nada nem ninguém jamais os quebrarão, por mais fortes ou menos felizes que sejam. O poder dos meus sonhos é somente meu.
Ao terminar, sua despedida do dia se fez num boa noite... E boa noite não quer dizer adeus. No alvorecer seguinte, ela acordaria e perseguiria seus sonhos novamente, para sempre e sempre, sem cessar. Seria sua mais nova aventura, e, por mais que houvessem tragédias cotidianas, decepções e perdas, a menina do lápis mágico decidiu que aquela seria a aventura mais interessante de sua vida.
Fim
FM.
Sua música preferida falava de uma menina que tinha um amor não correspondido, e ela achava lindo o jeito como a mocinha dizia:
“E será que vamos terminar juntos?
Não, eu acho que não, não é para ser
Porque eu não sou a pessoa certa”
Seu livro preferido era a tragédia romântica de Shakespeare, Romeu e Julieta. Por vezes e mais vezes se imaginou encenando algumas frases de Julieta, e sorria ao fazê-lo com a emoção de uma atriz.
Fascinava-a sentir o sofrimento daquelas mulheres imaginárias. Toda aquela melancolia da tragédia cotidiana a faziam fantasiar sobre as mais variadas aventuras, com princesas presas em torres altas, esperando por seus príncipes encantados. E ela sonhava, mesmo que acordada, seus olhos se esvaziavam por alguns momentos e a superfície deixava de existir, como em passe de mágica.
Ela tinha os mais variados tipos de situações imaginárias. Sua cabeça parecia um emaranhado indistinto de realidade e imaginação, e ela vivia. Esse emaranhado, no entanto, tinha uma saída de emergência. Aquela não era qualquer menina. Ela possuía um tesouro, tinha em seu poder um lápis que transformava seus sonhos e fantasias em realidade. Bastava desenhar num papel, e para tanto ela tinha um caderno. E tudo em sua vida se baseava em desejos realizados. Aquela era a menina do lápis mágico.
Com seu lápis preso ao punho esquerdo, rabiscava os mais diferentes contornos pelas folhas em branco, dando formas aos dias que se seguiriam. Ela tinha o poder de transformar seus devaneios em vida. E em seu quarto os desenhos se espalhavam pelas paredes, as letras de músicas rabiscadas entre um castelo e outro.
Por isso ela sorria. Como se nada mais precisasse acontecer, ela sorria. E em seus olhos a felicidade era tão plena, porque ao seu redor tudo era seu e seu lápis mágico a ajudaria pelo resto de sua vida. Por isso seu sono era brando. Aquela menina vasculhava sua memória a cada noite, buscava seus novos desejos e os guardava em algum lugar, para logo pela manhã, desenhar tudo e conseguir tudo de novo.
Mas, num belo dia, a névoa matutina sumia lentamente com o surgimento do sol. As pessoas despertavam de seu sono, interrompendo seus sonhos. Alguns perturbadores. Outros quietos. Uns felizes. Outros nem lembravam do que sonhavam.
Outros nem sonhavam.
A menina teve uma dessas noites. Em sua memória não jazia nenhum indício de sonho ou devaneio, e ela acordou sobressaltada de seu sono sem sonhos. Suas pálpebras se abriram com dificuldade, a visão ainda acostumando-se ao sol que entrava insistentemente pela janela, acordando. Sentada sobre a cama, ela bocejou. Uma interrogação pairou sobre sua lembrança e ela se perguntou:
“Mas o que irei desenhar hoje? Que sonho eu realizarei hoje?”
A menina não soube responder a sua pergunta. Seus olhos procuraram pelas próprias mãos e, em seu campo de visão, ela encontrou sua tragédia cotidiana mais grave. Um lado da cama estava sujo por pedaços negros de um lápis que jurava ser mágico. Seu lápis se partira. Não haveria mais sonhos a realizar, não haveria mais imaginação para desenhar sobre as folhas brancas de papel.
E a menina do lápis mágico deixou os ombros caírem, sem conseguir acreditar no que seus olhos viam. Um soluço se prendeu em sua garganta e a menina saltou diante do lápis quebrado, sujando as pequenas e pálidas mãos com o carvão de que o lápis era feito.
”O que será de mim agora? Como farei tudo ser verdade? Porque isso aconteceu comigo?”
Mais perguntas que pairaram no ar e permaneceram sem a devida resposta. A pobre menina pôs-se a deixar um pranto morno e triste cair diante de sua expressão recém acordada.
Os dias se passaram e aquela menina deixara de sonhar. Havia uma sombra pintada com os restos do lápis de carvão em seus olhos, como um fantasma que revestia seu discernimento sobre o que era a verdade.
E a chuva do alto verão era torrencial, àquela época. Mas, naquele dia nublado, a menina do lápis mágico resolveu sair para explorar. Talvez na esperança de encontrar um novo lápis e só então voltar a sonhar e realizar seus sonhos num passe de mágica. Os passos que suas galochas amarelas davam eram pesados e espalhavam a água das poças formadas pela irregularidade do revestimento na estrada.
Ela fitava todos os lugares com seu olhar vivo, mas, um pássaro avermelhado chamou sua atenção e a menina começou a segui-lo. Olhava o céu e seguia os passos do pequeno passarinho. Esbarrou em algo e arregalou os olhos ao perceber, o velho senhor do fim da rua estava bem em pé, em sua frente. A menina deu dois passos para trás, mas o velho a impediu e ela sentiu medo.
“Não tenha medo, garotinha. Eu só queria dizer algo.”
A menina do lápis mágico permaneceu em silêncio. Algo além do medo instalou-se em seu íntimo. Ela se sentiu curiosa.
“Os sonhos não são feitos de carvão e, para realiza-los, não é preciso mágica.”
A menina entreabriu os lábios, pensando no que o velho proferia com a voz rouca e gasta pelo tempo.
“Os sonhos são feitos da esperança que você guarda aqui.”
Seu dedo grosseiro apontou diretamente ao peito da menina do lápis mágico.
“Existem coisas que não podem ser medidas pelos padrões convencionais. Elas têm outra dimensão, outro peso. É o caso da imaginação. É o caso da fantasia. É o caso dos sonhos. Não existe nada impossível, se você acreditar de verdade. Aquiete seu coração, ponha um sorriso em sua voz. Persiga aquele passarinho, julgando-o liberdade. Lembre-se sempre de seus desenhos e do que você ainda pode desenhar. Antes de dormir, saiba que o que acontece é apenas um boa noite, não haverá adeus. Seja feliz, e realize todos os seus desejos pela força que existe dentro de você, essa é a maior mágica de todas...”
A menina não conseguia produzir sequer palavra. Mas imaginava tanto que sua mente se embaralhou novamente, num emaranhado de fantasias que havia se desfeito no dia em que seu lápis se partiu.
Seus olhos se fecharam por um segundo e uma onda de arrepios cruzou seu corpo, precedendo uma corrente de vento ágil que se espalhou pela rua e ela se decidiu a abrir os olhos e agradecer as palavras daquele senhor. Porém, quando suas pálpebras permitiram a entrada de luz em seus olhos, não havia ninguém na rua. Ela voltou para casa e, no fim da noite, pensou em cada palavra que havia escutado daquela voz. Pegou um lápis qualquer de seu estojo e seu caderno antigo.
Folheou sorrindo e na última página, escreveu:
Aqui é o território dos meus sonhos, e nada nem ninguém jamais os quebrarão, por mais fortes ou menos felizes que sejam. O poder dos meus sonhos é somente meu.
Ao terminar, sua despedida do dia se fez num boa noite... E boa noite não quer dizer adeus. No alvorecer seguinte, ela acordaria e perseguiria seus sonhos novamente, para sempre e sempre, sem cessar. Seria sua mais nova aventura, e, por mais que houvessem tragédias cotidianas, decepções e perdas, a menina do lápis mágico decidiu que aquela seria a aventura mais interessante de sua vida.
Fim
FM.
Como se chegou a isso?
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
13:35
sábado, 6 de novembro de 2010
'
Como chegou a isso?
O tempo passa e toda a vida perpassa as esquinas de cada olhar, sem dar um aviso prévio de que tudo vai morrer um dia.
Mas, como se chegou a isso?
Anos e meses e semanas e dias são apenas a noção cronológica do que está acima de nossa compreensão.
Porque se chegou a isso?
Acho que simplesmente por eu ter notado que tudo tem passado tão rápido que mal tenho tempo de apreciar meu tempo psicológico. Sim, eu tenho estado tonta com a velocidade com que os números cronológicos tem passado. E o presente já é passado, que já é um passado longe, um passado que já quase não tenho lembrança, e se perde. E minhas perguntas mais uma vez se formam.
Como se chegou a isso? Porque se chegou a isso? Mas... Como se chegou a isso?
É mais do que eu consigo imaginar. Entorpecidos pelos caminhos da pressa dos prazos, talvez se exija mais que palavras para constatar a verdade que abate nossa noção de tempo. Eu só queria entender porque não consigo achar tão simples que tudo passe rápido. Eu sinto que conforme os dias se vão, menos tempo eu tenho para viver tudo o que quero.
Ou talvez seja uma forma simples de perguntar quando vou morrer. Mas sei que não vou obter resposta. É tudo uma grande surpresa, o dia do fim. Indefinidamente, pode ser daqui a um século, ou pode ser no próximo segundo. Só temos a obrigação de esperar, e viver. E o tempo está passando. Mas o tempo não está acabando, só passando.
Eu só estou cansada de tomar uma dose de dor todos os dias e ter a consciência de que o tempo está passando. E eu ainda não vivi tudo o que quero. Injetar liberdade nas veias e realizar todos os meus sonhos. Mas eu tenho uma pequena lista que quero realizar. Sim, acho que todos tem, mesmo que só na caixinha de desejos do inconsciente de cada um. Aí estão alguns dos meus desejos:
1- Comprar um panda de pelúcia anti-alérgico.
2- Observar as estrelas através de uma luneta.
3- Assistir a um show da minha banda preferida.
4- Ganhar um presente que venha numa caixa com fita. (quem se habilita a me ajudar a realizar esse?)
5- Esquecer de tudo por um instante.
6- Comer uma caixa de chocolates sozinha.
7- Terminar de escrever meu livro.
8- Aprender a tocar piano, harpa e flauta transversal.
9- Tomar banho de chuva e estender a língua, para apanhar alguma gota do céu.
10- Ver o sol nascer sem ter dormido, na passagem do ano novo.
Como cheguei a isso?
Só percebi que tenho tanto a fazer e desejo que se torne verdade, sei que vai se tornar verdade, eu espero que se torne verdade. Mas, como vai chegar a isso? Basta acreditar. Confiar que vai acontecer. Eu não vou espirrar ao chegar perto de uma pelúcia. Vocês ainda me verão dedilhar um piano e as notas não vão ser um emaranhado confuso e leigo. Eu colocarei um ponto final na história que escrevi. Um dia eu vou comprar o ingresso pro show e esse dia só não vai ser melhor que o show em si.
As estrelas serão enormes aos meus olhos, porque lentes de aumento me ajudarão a ver e alguém um dia vai chegar perto de mim e estenderá uma caixa prateada com uma fita grande e sedosa vermelha, formando um laço bonito. E, não importa o que tenha dentro, eu vou abrir a fita e a tampa da caixa e só esse ato já vale pelo presente. E, mesmo parecendo egoísta, quero comprar uma caixa de chocolates e comer um a um, sem dividir com ninguém.
E, como já fiz quando criança, na imensidão branca e cinza da chuva e das nuvens, apanharei algumas gotas com a língua, imaginando o gosto do céu em minha boca. Um novo ano se erguerá majestosamente impulsionado pelo sol, e eu estarei lá para testemunhar.
Um dia, eu sei... Conseguirei esvaziar a mente por completo, e a sensação de alegria se espalhará de tal maneira sobre meu peito que se extinguirão o medo e a desconfiança no futuro em mim. E tudo será melhor.
Você também deve ter uma listinha de tudo o que te torna essa figura tão humana. Mesmo que não admita, todos temos sonhos. O anseio de realizar algo nos empurra para uma palavrinha chamada: Vida. Não é um clichê, é a verdade. Na sua listinha pode ter um desejo como:
- Tocar em alguma peça de museu que tenha uma plaquinha do lado que diz: "Proibido tocar" pelo prazer que existe na palavra: Proibido. -
Ou algo como:
- Sentar na cadeira do cobrador só pra saber como é viajar de ônibus sentado de lado. -
Ou ainda:
- Passar no vestibular de Moda e Design e cursar, mesmo sem saber desenhar um boneco de palitinhos. -
Você tem desejos, todos temos. Que tal contar algum? O tempo está apenas passando, então, como você vai chegar a isso?
FM.
Como chegou a isso?
O tempo passa e toda a vida perpassa as esquinas de cada olhar, sem dar um aviso prévio de que tudo vai morrer um dia.
Mas, como se chegou a isso?
Anos e meses e semanas e dias são apenas a noção cronológica do que está acima de nossa compreensão.
Porque se chegou a isso?
Acho que simplesmente por eu ter notado que tudo tem passado tão rápido que mal tenho tempo de apreciar meu tempo psicológico. Sim, eu tenho estado tonta com a velocidade com que os números cronológicos tem passado. E o presente já é passado, que já é um passado longe, um passado que já quase não tenho lembrança, e se perde. E minhas perguntas mais uma vez se formam.
Como se chegou a isso? Porque se chegou a isso? Mas... Como se chegou a isso?
É mais do que eu consigo imaginar. Entorpecidos pelos caminhos da pressa dos prazos, talvez se exija mais que palavras para constatar a verdade que abate nossa noção de tempo. Eu só queria entender porque não consigo achar tão simples que tudo passe rápido. Eu sinto que conforme os dias se vão, menos tempo eu tenho para viver tudo o que quero.
Ou talvez seja uma forma simples de perguntar quando vou morrer. Mas sei que não vou obter resposta. É tudo uma grande surpresa, o dia do fim. Indefinidamente, pode ser daqui a um século, ou pode ser no próximo segundo. Só temos a obrigação de esperar, e viver. E o tempo está passando. Mas o tempo não está acabando, só passando.
Eu só estou cansada de tomar uma dose de dor todos os dias e ter a consciência de que o tempo está passando. E eu ainda não vivi tudo o que quero. Injetar liberdade nas veias e realizar todos os meus sonhos. Mas eu tenho uma pequena lista que quero realizar. Sim, acho que todos tem, mesmo que só na caixinha de desejos do inconsciente de cada um. Aí estão alguns dos meus desejos:
1- Comprar um panda de pelúcia anti-alérgico.
2- Observar as estrelas através de uma luneta.
3- Assistir a um show da minha banda preferida.
4- Ganhar um presente que venha numa caixa com fita. (quem se habilita a me ajudar a realizar esse?)
5- Esquecer de tudo por um instante.
6- Comer uma caixa de chocolates sozinha.
7- Terminar de escrever meu livro.
8- Aprender a tocar piano, harpa e flauta transversal.
9- Tomar banho de chuva e estender a língua, para apanhar alguma gota do céu.
10- Ver o sol nascer sem ter dormido, na passagem do ano novo.
Como cheguei a isso?
Só percebi que tenho tanto a fazer e desejo que se torne verdade, sei que vai se tornar verdade, eu espero que se torne verdade. Mas, como vai chegar a isso? Basta acreditar. Confiar que vai acontecer. Eu não vou espirrar ao chegar perto de uma pelúcia. Vocês ainda me verão dedilhar um piano e as notas não vão ser um emaranhado confuso e leigo. Eu colocarei um ponto final na história que escrevi. Um dia eu vou comprar o ingresso pro show e esse dia só não vai ser melhor que o show em si.
As estrelas serão enormes aos meus olhos, porque lentes de aumento me ajudarão a ver e alguém um dia vai chegar perto de mim e estenderá uma caixa prateada com uma fita grande e sedosa vermelha, formando um laço bonito. E, não importa o que tenha dentro, eu vou abrir a fita e a tampa da caixa e só esse ato já vale pelo presente. E, mesmo parecendo egoísta, quero comprar uma caixa de chocolates e comer um a um, sem dividir com ninguém.
E, como já fiz quando criança, na imensidão branca e cinza da chuva e das nuvens, apanharei algumas gotas com a língua, imaginando o gosto do céu em minha boca. Um novo ano se erguerá majestosamente impulsionado pelo sol, e eu estarei lá para testemunhar.
Um dia, eu sei... Conseguirei esvaziar a mente por completo, e a sensação de alegria se espalhará de tal maneira sobre meu peito que se extinguirão o medo e a desconfiança no futuro em mim. E tudo será melhor.
Você também deve ter uma listinha de tudo o que te torna essa figura tão humana. Mesmo que não admita, todos temos sonhos. O anseio de realizar algo nos empurra para uma palavrinha chamada: Vida. Não é um clichê, é a verdade. Na sua listinha pode ter um desejo como:
- Tocar em alguma peça de museu que tenha uma plaquinha do lado que diz: "Proibido tocar" pelo prazer que existe na palavra: Proibido. -
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