As sombras quase não existiam, num vestígio gritante que anunciava o meio do dia, o sol reinando solitário num céu sem nuvens, lá no alto. A atmosfera inteira parecia mergulhada numa intensa luz quente e seca. Meus olhos perdidos se fixavam em pontos da estrada, enquanto ela ficava para trás. Meus pensamentos divagaram primeiramente na sensação de que estamos parados dentro do carro, enquanto o caminho se move para que cheguemos a casa.
Parece coisa de criança, mas foi justamente o que me ocorreu naquela situação. Talvez um impulso infantil remetido a um mistério ao qual só consegui desvendar durante uma aula de física que dizia que "Tudo depende do referencial".
Considero a Física bonita por isso. Não é trocadilho. Nem brincadeira, tampouco ironia. É que todas as frases da física são perfeitamente aplicáveis à vida. Pense bem no princípio de: Toda ação tem reação.
Bom, mas meus pensamentos se puseram a vaguear sobre o sentido da dependência de um referencial para haver uma comparação. E uma expressão hirta se desenvolveu em minha face. A base da comparação sempre se fez presente em minha vida.
Alguns momentos de minha infância se desdobraram em linhas de pequenas histórias que eu já produzia, conduzindo meus personagens aos lugares que eu queria conhecer. Lembro de uma vez em que um de meus personagens ficou preso dentro de uma loja de brinquedos por uma noite. Que criança nunca sonhou em ficar presa dentro de um lugar repleto de brinquedos à completa disposição, esperando em prateleiras gigantescas para serem usados? Mas, tudo depende de um referencial. Uma criança que possui um quarto de brinquedos exclusivo, não deve pensar em querer ficar presa em uma loja de brinquedos, pela ideia de que já possui tantos brinquedos sem precisar ficar "presa".
Uso isso para representar meu ponto de reflexão. Dependendo do referencial, se pode dizer que a vida é boa ou ruim. Pode-se dizer quantos sorvetes se quer, dependendo da fome. Pode-se descrever uma paisagem como linda, ou como horrível, dependendo da figuração de beleza para cada um. Veja bem, cada um possui suas preferências, e é essa diversidade de pensamentos que forma a raça humana, e que a faz tão interessante. Se fossem todos iguais, não seria tão divertido viver.
Como num informe publicitário de O Boticário, uma legião de mulheres de vestidos cinza, cortes e cor de cabelos iguais, sapatos iguais. Até que uma delas põe a cor vermelha nos lábios e torna a diferença interessante. Dependendo do referencial, aquilo pode ser uma boa propaganda, ou pode ser uma proposta apelativa de dizer que a mulher só vai chamar atenção se usar um batom de O Boticário, ou ainda pode levar uma mulher a comprar aquele batom, sem que ao menos ela tenha entendido a mensagem do informe.
Tudo vai depender de seu referencial de opinião. É aí que reside a chave do discurso. A opinião. Não basta uma opinião sozinha, é necessário analisar-se seu ponto referencial, de onde nascem tais ideias e comentários. Em que cultura está inserida a mente que produz essa opinião? Sobre que influências ela está? Discursos considerados preconceituosos para uns, podem ser a extrema sublimação da verdade para outros. Entenda, eu não defendo preconceitos, eu defendo moderação de ideias. Defendo o respeito às diferenças, às culturas, às influências, às opiniões.
Todos têm suas excentricidades, eu falei hoje. Que vivam com elas, são essas diferenças que moldam as diferentes culturas, e são por elas que se guiam as mais variadas teorias semióticas, os signos de diferenciação e a miscigenação humana. E, para cada ponto referencial, em particular, vão se enraizar conceitos, opiniões, preferências.
Vou me tomar como exemplo disso: Gosto da cor preta. Prefiro livros de literatura estrangeira, assim como prefiro o som de uma guitarra distorcida ou de um piano a uma zabumba e uma sanfona. Não tenho nada contra quem prefere a cor amarela, adora os livros de Paulo Coelho e não vive sem o novo repertório semanal da banda Aviões do Forró. São apenas choques de pontos referenciais diversos, essa é a minha compreensão.
Penso que essas particularidades são essenciais e não desvio da minha opinião de que os referenciais de cada um são a base para seu entendimento. Quando se expõe uma opinião publicamente, ela fica sujeita a críticas e interpelações. É alvo de depreciação, até. Mas não é defendida tão diferentemente quanto a opinião do crítico mais voraz. Afinal, há um embate de ideias.
Se é verdade ou não, eu não sei. Eu preciso analisar segundo meus próprios preceitos. Num piscar de olhos eu posso falar, posso deixar passar, posso me calar. Tudo depende de minhas escolhas, do meu ponto de vista. Se eu não me importar, pode ser até que eu esteja errada, mas isso não é uma questão de opinião.
A questão toma uma vertente problemática quando cada um vive em seu próprio casulo e encara a profundidade das diferentes almas como mentiras e forma preconceitos a respeito de cada um. Cada um em sua direção, sem respeitar as diferenças. Fita-se a vida dos outros e línguas afiadas expurgam comentários ferinos contra os princípios alheios de sua própria perspectiva. Isso demonstra ignorância, do meu ponto referencial.
E todos sugerem soluções para as "doenças" da sociedade, mas não reparam que a única doença é a falta de respeito que existe entre cada um, em sua diferença. E por isso se discute a liquidez das relações humanas. Conhecer verdadeiramente alguém, em nosso mundo individual, pode atingir o íntimo das pessoas e provocar medo, porque todos estão bem certos que a verdade cabe dentro da palma da mão fechada, sem se importar em abri-la para deixar o respeito se instalar.
Mas, tudo bem... Isso é apenas minha opinião, é apenas uma questão de opinião e cada um possui a sua. Ou pode não ser uma questão de opinião, depende de seu ponto referencial.
Algo que imaginei em meu caminho cansado para casa, incialmente fitando a estrada, depois de pálpebras cerradas, hoje mesmo, mais cedo.
FM.
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