Esta é a minha versão da história de A Pequena Sereia.
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A brisa marinha circulava como se dançasse pelo céu, através da noite. Uma névoa úmida e esbranquiçada bruxuleava lentamente acima do oceano de ondas plácidas e cor tão escura quanto o ébano. Na linha do horizonte noturno, mar e céu se confundiam, pela falta que a lua fazia ali. As estrelas, no entanto, brilhavam solitárias, sujando o céu negro com suas formas e constelações. Aquele era o céu mais cheio de estrelas que existia sobre a face da Terra.
No espelho d'água não havia reflexos. Tudo tão obscuro e tranquilo que amedrontava até os mais corajosos humanos que tentavam entrar naquelas águas que banhavam corais. Os corais. A despeito da ausência de cor de todo o lugar, os corais eram como um refúgio de tonalidades diversas, logo embaixo da água. E havia vida ali. Os murmúrios do vento superior não se comparavam à vida em sua plenitude, como na civilização abaixo da água.
Cardumes de peixes escuros se confundiam com a água pela ausência de luz. Outros peixes vagavam solitários por ali. Uns pequenos se escondiam entre os poríferos, corais coloridos. Alguns pequenos crustáceos se movimentavam pela terra embaixo da água. E algo como uma luz emanava distante, através dos movimentos lentos que a água produzia na escuridão. Um reino submarino se erguia imponente, de onde surgia a luz. Grandes torres que pareciam emergir a superfície, tudo edificado na mais branca rocha que havia nos oceanos. Por ali, segredos jaziam escondidos entre água e rocha.
Essa é a história de seis irmãs sereias. Princesas dos mares. Filhas do rei daquele reino, as seis irmãs perderam a mãe. Eram, no entanto, jovens demais para lembrar seus traços, seu perfume, seu sorriso. Foram criadas pela avó, uma anciã sábia do reino.
Desde a mais velha à mais nova, foi informado pela avó que, a cada ano que passasse, quando completassem quinze anos, cada uma receberia como presente a permissão para visitar a superfície e conhecer o que havia além da água.
Mesmo que a nenhuma delas fosse permitido falar com humanos. Mesmo que nenhuma delas fosse permitida de sair da água. Mesmo que nenhuma delas fosse permitida deixar o reino. Ao completar quinze anos, ver a superfície que estava acima delas era uma convidativa, fantasiosa, porém perigosa, aventura.
Assim, a cada ano, quando cada uma das seis irmãs completava seus quinze anos, iam à superfície e viam tudo ao redor, encantadas.
Voltavam ao reino contando cada mínimo detalhe do que havia além da água. Como tudo era límpido e contavam sobre como era sentir o vento cortar o rosto. Se havia chuva, a água, diferentemente da água do mar, tinha um sabor adocicado. Se fazia sol, aquela era a luz mais radiante que existia no infinito. Se era noite, o céu era tão denso quanto o mar, mas se era dia, a cor do céu podia variar, dependendo da hora. E era tão maravilhoso poder apreciar a variação de matizes que havia no céu. Laranjas, rosas, amarelos, azuis. O arco-íris. Tão belo quanto os corais que adornavam o chão do oceano, as flores do mar.
E a cada palavra, a mais nova das irmãs fantasiava acerca das experiências das irmãs. Até que uma delas disse que em uma de suas visitas, o céu estava tão vermelho quanto suas longas madeixas, e tocou os cabelos da irmã mais nova, que se chamava Ariel.
-O céu estava tão vermelho quanto seus cabelos, Ariel... Era tão assustadoramente bonito! E então, das grandes nuvens escuras que manchavam o céu avermelhado, surgiram gotas de água adocicada, numa chuva tão forte que me fez confundir o que era superfície e a nossa água de verdade.
A menina mexeu a mão na água, fazendo pequenas bolhas entre os dedos.
-O céu parecia sangrar, como seus cabelos, Ariel.
A pequena princesa sereia ouvia a irmã mais velha, suspirando e esperando pelo dia em que também veria tudo aquilo que as irmãs viam. E um dia ela também contaria às crianças como era lá em cima. E sentiria o prazer de ver a surpresa, a admiração e o medo presentes nos olhares de seus futuros ouvintes. E sorriria ao fazê-lo.
Aquele dia chegou. O amanhecer traria consigo uma nova idade a Ariel e em seu destino havia mais que um colorido céu para ver, pois seu futuro se desenrolaria a partir dali.
***
Longe dali, um homem fitava o mar com o olhar perdido. Pensava nas nuvens que se aproximavam na linha do horizonte, fazendo-o chorar mais uma vez, naquele início de manhã. Mas ele não podia adiar sua viagem por mais um dia. Encheu o peito de coragem, trocando a lâmpada do farol.
Um homem do litoral no início do dia
olha fixo o horizonte com ventos do mar em seu rosto
Ilha tempestuosa, estações todas iguais
Ancoragem com registro e o barco com o nome de Princesa do Mar
Um mar com um litoral para um conhecido príncipe
Ele acende o farol, luz na extremidade do mundo.
Mostrando o caminho para iluminar a esperança em seu coração
Esse que veio de longe em suas jornadas para casa
Isso não está há muito tempo esquecido
Essa é a luz no fim do mundo
Mesmo que veja o horizonte chorar
As lágrimas que ele deixou pra trás há muito tempo
O albatroz está voando, fazendo dele um sonho
No tempo antes dele tornou-se um dos mundos não vistos
Princesas nas torres, crianças no campo
A vida deu tudo a ele, uma ilha do universo
Agora precisa de um amor além de uma lembrança
Além de um fantasma na névoa
Ele arma as velas uma última vez, dizendo adeus para o mundo
Âncora ao mar, o leito do mar longe abaixo
Grama ainda nos seus pés e um sorriso abaixo da testa
Isso está há muito tempo esquecido
Agora há uma luz no fim do mundo
O horizonte ainda chora
As lágrimas que ele deixou pra trás há muito tempo
Há muito tempo...
Não há muito tempo...
***
Continua.
FM.
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