Open Your Eyes

terça-feira, 26 de abril de 2011
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Eu pensei em nem escrever, hoje. Mas alguns fatos mereceram minha atenção extrema, diante da lembrança do dia de hoje. Me ocorreu nem me importar com isso, passar por cima da data como outra qualquer. É que eu nunca fui muito boa com esse negócio de datas especiais. Todos os que me conhecem de verdade sabem que não é natural de mim costumar dar parabéns e etc. Acho que não tenho muito jeito de chegar em ninguém dessa forma, está além das minhas habilidades.

Não é que eu não goste ou não lembre, não me leve a mal. Não é insensibilidade, é só uma falta de tato da minha parte. Para mim, aniversários são como qualquer outro dia. Aprendi assim para sobreviver, e eu não vou comentar a história cansada do meu aniversário de 15 anos. O negócio é que hoje eu tive meus motivos para largar uma bolsa em mossoró e correr pra casa, só pra falar sobre o dia de hoje. Sobre o que me remete o dia de hoje, apesar da distância.

Bom, é que das minhas lembranças de infância sempre guardo lugares especiais e momentos que me marcaram de forma a mudar tudo o que eu posso chamar de futuro presente. Mas foi com um pequeno abrir de olhos e eu posso recordar tudo novamente, todo o melhor, pois são esses momentos que me mostraram que não havia só dor. As luzes da cidade me mostraram um dia que eu posso guardar o melhor de cada um e cada um será especial, à sua maneira.

E eu abri os olhos para ver seu sorriso aberto novamente. Seu abraço acolhedor pareceu tão familiar em algum tempo, hoje sobra saudade de um tempo em que eu tinha ao alcance das mãos. Suas palavras as vezes repreensivas, as vezes divertidas, sempre tinham uma mensagem a passar. Sua vida tão marcada e tão visivelmente crua, suas histórias que agradavam os ouvidos dos que escutavam. Sua voz e timbre que guardo tom a tom, na memória.

Suas maneiras meio rudes, porém sinceras. Suas risadas altas que ecoavam pela casa e seu gosto por música e leitura. Até seu gosto pelo desenho de plantas baixas de casas e suas manias de organização. Um perfeccionista que me ensinou a querer ser tudo quanto as ferramentas me possibilitassem. O autor das heranças que guardo com apreço, diante de fotografias de família e lembranças. Até sua mania de perguntar até o último instante, eu herdei. Mas minha curiosidade maior, hoje, é saber se ao abrir os olhos, ele estava feliz, nesta manhã.

Porque ele nunca será um estranho pra mim. Porque eu nunca o odiaria o bastante para negar que o amo, apesar da distância que existe. Porque eu sou bastante humana para reconhecer que sinto falta de sua presença e, sim, eu sinto saudade dele. Mais uma das dores que me cortam o peito, de vez em quando. Como agora. E, por mais que eu nem tenha ideia de se um dia ele vai ler isso aqui, escrevo.

Escrevo com a sinceridade mais pura que consigo produzir.

E por isso abro os olhos mais uma vez para presenciar sua maneira tão desajeitada de desejar parabéns e entregar o CD da minha banda favorita, tudo mandado por outra pessoa. Ou como nos dias em que eu me senti mais abandonada, em fevereiro de 2002, e, quando abri meus olhos, eles se encheram com uma grande caixa embrulhada num papel vermelho. Não havia presença, mas eu sabia que ele havia lembrado de mim em algum momento, e, por isso, eu amaria abrir a caixa e perceber que a boneca ali dentro era escolhida a dedo.

Eu não sei se ele lembra, mas eu lembro bem das noites coloridas com histórias sobre as aventuras de um macaco metido a pica-pau. Todas as noites, naquela casa na rua Pico da Tijuca, ele deitava em uma das duas camas e relatava de uma maneira a nos fazer rir até dormir. E eu podia escapar da minha tragédia infantil, nessas horas. E tudo era sincero. Tudo era verdade, e era meu. Particularmente meu. Como meus sonhos, minhas lembranças mais tenras são as de sua maneira metódica de organizar cada minúsculo trajeto de seus próximos passos, acompanhado dos registros já passados, e acho que herdei isso também.

Herdei muito, semelhança todos apontam de qualquer lado. "Fernanda só se parece com o pai." Pois é... Mas eu não estou escrevendo para falar somente de lembranças, até porque aniversários servem para mostrar que o passado passou e há um futuro com idade nova para acontecer, não é verdade?

Abri os olhos mais uma vez para poder dizer que cada um possui sua virtude e a virtude que eu mais aprecio nele é seu poder de autenticidade, sua palavra de verdade, eu sei que ele tem. Em algum lugar, eu sei, há mais que um deserto me separando dele, mas não há grão de areia que se conte diante de tudo o que eu sei que ele é. Há uma vida por trás de tudo o que eu digo e ele esteve lá, até que tudo se desfizesse em laços de saudade e dor.

Mas eu acredito que dentro da minha dor hoje só reside o desejo de poder abraçá-lo e desejar algo clichê, como todo mundo faz. Porque pode até ser que ele nem se importe, mas eu sinto muito por nunca ter dito nada do que vou dizer.

São simples e claras, são palavras que sempre rondaram minha mente, mas eu nunca tive coragem de dizer, para nenhum deles.

Quem está falando não é a atual pessoa que transfere as palavras para este lugar. Há um espectro menor que eu, que olha para cima e vê um teto branco, que abraça o irmão e pede para que ele pare de chorar. Porque tudo vai melhorar. Tudo vai mudar. Nada vai ficar. Há só um fantasma de uma criança que ama tanto uma vida que sabe que vai desmoronar, só não sabe quando. Há tanta incerteza em seu coração, e existe tanta tristeza por saber que o fim é necessariamente doloroso. Mas há tanto amor num perdão imediato. E não importa o quanto esse espectro sinta-se abandonado.

No momento em que as lágrimas queimam meus olhos e você se vai, sozinho, eu quero voltar para casa e esquecer que tudo aconteceu, eu só o quero de volta e fingir novamente que nada aconteceu. Pois, apesar de tempestade, você é o abrigo que me mantém segura. Você é tudo pra mim. E, enquanto você precisa ir, eu peço que fique, mesmo que em silêncio. E você sobrevive como uma das lembranças mais latentes dentro de mim, e, quando eu abro meus olhos, eu posso vê-lo novamente, em meus sonhos.

Eu sinto muito.

Sinto por viver metade viva, e uma das causas é sua ausência. Eu só queria poder estender a mão e te abraçar e te desejar o melhor. Só queria poder abrir seus olhos e mostrar que há mais escondido por trás dos meus olhos, que tristeza, que frieza. Mas, na sua ausência, eu desejo em silêncio, mais uma vez. Eu o amo, é, reconheço.

Eu sinto sua falta, mesmo que não sinta minha. Eu reconheço.

Feliz aniversário, papai.

PS: E eu nunca esqueço aniversários, não mesmo. Só não tenho jeito para isso.

PS.²: Feliz aniversário, Isabele. s2


FM.

Layout Novo

domingo, 24 de abril de 2011
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Owwwn, sim. Eu tinha que postar sobre isso. Mudei o layout do blog porque eu adoro mudar as aparências de tudo e nunca mais eu tinha mudado nada por aqui. Mas agora ta tudo novinho em folha. Que bonitinho.

Enjoy, guys!


FM.

Qual o sentido?

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E de repente você se acha em um buraco profundo na terra, novamente. Sente outra vez como se não houvesse muito a fazer, e o tédio consome os segundos que restam até a próxima vez na qual você se sinta vivo de novo. Há mais que poucas palavras para serem ditas, nesse sentido.

Porque eu gostaria de saber qual o sentido de se sentir vivo? Eu preciso de uma música tão alta que reverbere dentro do peito e me diga que eu sinto? Eu preciso de versos incertos que tratem de uma situação genérica e precise disso para dizer: Essa música foi feita pra mim. Não sei, de verdade. Só que as vezes eu queria sentir algo além de estímulos provocados por mim mesma. E as vezes eu sinto que até mesmo a morte pode falar com todos os sons que eu estou viva, porque eu estou aqui. E eu acho que isso aqui é a realidade, né?

Porque se a dimensão dos sonhos fosse a realidade, meu pesadelo seria essa vida que compartilho aqui. E não teria fim. E eu não conseguiria acordar. E eu sentiria um calor infernal, como o de agora.

Mas qual o sentido de eu pensar sobre esse tipo de coisa? Vai saber. Eu não sou psicóloga, nem tampouco entendo da mente humana. Sou um tipo de pessoa que divaga, somente. Mas qual o sentido de julgar tanto, e não olhar no espelho para ver as marcas da escuridão que há dentro de cada um? Não falo de trevas bíblicas, daquelas do inferno e do mal, não me entenda mal, você fanático. Falo do desconhecido de cada pessoa, porque cada um esconde por trás dos olhos o qeue há de mais profundo em cada um.

Não queira mentir para si mesmo. Todos já choraram por uma tristeza, pelo menos os seres humanos normais. Quer saber a verdade? Nem eu sei o porque de estar escrevendo isso. As frases podem estar soltas e você pode até nem me entender, mas é que suportar muita coisa calada me faz escrever. E qual o sentido de você acordar para voltar ao lugar onde é recebida com silêncio e solidão? Eu deveria me sentir feliz por isso?

Ah, qual é. Eu sou normal, certo? Pode até ser que não. É... Acho que não. Mas eu não gosto de me sentir abandonada dessa forma. Não digo que os outros me abandonaram, é só o sentimento que me cobriu pela manhã. E agora é o momento em que eu penso: Será que eu posto essa merda emo? É, vou.

As vezes é legal dizer as coisas sem ter medo de retaliação. E se ela ocorrer, dane-se. Cansei de me perguntar qual o sentido de me esconder tanto por medo. Cansei de só obter respostas se eu incitar perguntas. Se não quiser, não perguntarei mais. (Fernanda sem perguntar nada, duvide.) Mas eu cansei. Poxa, as vezes é bom você receber uma ligação que te deixe feliz.

As vezes é bom receber um chocolate na páscoa, por mais que você não goste de chocolate. É só pela lembrança, te faz sentir especial. Pode ser enganação, mas a sensação é ótima. E qual o sentido disso? Procurar a felicidade nos pequenos momentos e gestos agora virou pecado? Como diria Babi: Fruta que caiu, para e pensa. Se eu me ocupar em favorecer a felicidade de outra pessoa, eu me sinto feliz, porque não há recompensa maior do que ver um sorriso na boca da pessoa que você quer fazer bem.

Não há mais ninguém que pense assim?

Porque não abraçar alguém hoje sem ter medida de convenção? Só pelo simples gesto de carinho com o próximo. Porque não se deixar levar por qualquer coisa melhor? Porque ficar pensando nas pessoas que te fazem mal? Isso só faz mal a você mesmo, afinal de contas.

Qual o sentido disso? Ora... E eu sei lá!

Só sei que as palavras estão saindo assim e eu vou continuar falando até onde meu raciocínio chegar a conclusões. Sabe qual o sentido disso? Nada, ou tudo. Mas o que significa o nada? Pense. É vazio, né? Parece ser silencioso e calmo. Mas é triste. Porque não existe. Não existir, sabe o que isso significa para humanos vivos? A morte. A morte é triste, né?

Logo nada é tão triste quanto a morte. (Poutz, isso foi uma viagem mesmo. Acho que foi o Fandangos e a Fanta choca.)

Mas será que não tem sentido nenhum? Então, ao invés do nada... Porque não surpreendeer hoje? Uma atitude pode atrair um sorriso, e saiba que você se sentirá mais feliz. Não há nada melhor que rir, e disso eu sei. Eu adoro rir. Eu aproveito todo segundo no qual eu posso rir e eu me sinto bem ao fazê-lo. As vezes, até chorar pode parecer bom. Mas rir... Sorrir...

Qual o sentido? Vou dizer. Ser ignorado talvez não atinja quem ignorou, mas eu já li numa fonte segura que o mal que você faz aqui, só atinge as pessoas que estão próximas a você, e logo elas estarão longe de você. E, como diria Vinícius, é impossível ser feliz sozinho. Não negue, em hipótese alguma. Você sabe que é verdade, admita. Por mais seco, mais auto suficiente, mais frio que você seja.

Sabe qual o sentido disso? Seja sincero, ao menos com você mesmo. Talvez esse nevoeiro que corre por seus olhos hoje precipite. E você chorará, é verdade. Mas será de verdade.

Uma vida falsa não leva ninguém a lugar nenhum, a não ser pela aparência. Eu quero um teatro verdadeiro, não uma peça mal escrita e rabiscada. Esse é o sentido. Viva como puder tudo o que puder, e depois não haverá arrependimentos. Mas pense nas consequências, para você e para quem está ao seu lado. Qual o sentido disso? (Passei um tempo pensando nesse sentido, não vou mentir. Travei. Mas achei uma resposta conveniente.) No fim... Busque seu próprio sentido, pois é tudo uma questão de opinião.

Você já fez alguém sorrir hoje? Você já abraçou alguém hoje? Você já olhou nos olhos de alguém e soube que havia verdade ali?

Qual o sentido disso?

FM.

Don't Leave me Behind

sexta-feira, 15 de abril de 2011
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A escuridão do céu era manchada por nuvens acinzentadas. Comparava-se, pois, à névoa fria que circulava pela noite silenciosa. As vielas daquele lugar estavam completamente vazias e poucas luzes se moviam através da névoa. O silêncio se contava pelo som de gotas de água que caíam pelo telhado das casas e do latido dos cães na rua.

Mas uma guerra era travada ali.

Entre o barro escorregadio e fétido se estendiam feridos e mortos, como se enterrados em valas a céu aberto, indigentes vítimas de uma guerra sem sentido algum, vidas que presenciaram o horror e morreram numa esperança vaga de alcançar a paz. Persistiam em sangrar, numa terra em que a morte aprendeu a viver. E sobre sua face haviam lágrimas secas unidas à lama, mas sua visão era cega pela escuridão.

Naquele lugar, não havia movimento, exceto por um fio tênue, lívido, de vida. Através da névoa e do medo podiam-se ver olhos assustados e uma respiração falha. Podia-se divisar a solidão e as esperanças partidas de um anjo entre cadáveres e lama. Seus pés pálidos não guardavam receio de pisar sobre a terra, suas asas tão marcadas por cicatrizes e sangue quanto todos os mortos deitados sobre o chão. Suas vestes queimadas reluziam um brilho amarelado, ao entrar em contato com a luz fraca da rua.

Em seus olhos haviam tantas lágrimas quanto gotas de chuva no céu, à espera de sua queda livre e paciente. Mas tudo ao redor tornava-se cinza e só havia um espectro do que poderia existir em toda a parte. Vida. Arrasada pelo mais egoísta desejo humano, o poder. E o anjo não compreendia o porquê da morte em seu caminho, não entendia como funcionava a criação humana de matar. Não entendia sua dor, seu medo. A escuridão. Não entendia os olhos cegos que se admiravam o interior de si mesmos. Não se deixou compreender sobre o porquê de existir tanto rancor e inveja, tantas mentiras ao redor das mais belas criações.

E por seu corpo, como veneno, espalhou-se a angústia. De joelhos ele se jogou à terra e puxou suas vestes, apertando-as contra a palma da mão, onde deveria residir seu coração. Sua expressão era de terror pela visão, seus olhos temiam o futuro. E sentiu outro fio de vida se aproximar ligeiramente à sua presença, mas esse deixava um rastro de morte pelo caminho. O suspiro de seus lábios era gélido e seus dentes rangiam em sede do sangue de mais algumas vítimas, mas o escolhido já estava em sua mira.

Seus dedos cambalearam na pistola que empunhava. Um sorriso negro de satisfação traçou-se em sua face e as veias de sua mão saltaram quando o projétil foi disparado. Por um segundo em sua trajetória, cruzou o ar com a velocidade de torna-lo invisível ao olhar humano. Mas, ao perfurar vestes escurecidas pelo fogo e amareladas pela sujeira que havia no lugar, nada se sentiu além de uma dor sem som. Os olhos do anjo estreitaram-se por um instante e ele engoliu em seco, caiu sobre a terra como mais um humano sem identidade, entre todos os que jaziam ali.

Seus lábios tremiam, enquanto sua respiração falhava e diminuia, aos poucos. Seus olhos liberaram umas últimas lágrimas e a dor lacerante o consumiu em delírio. O anjo se contorceu em dor e fitou o céu uma última vez, para lembrar das estrelas como pontos de luz e esperança de que um dia tudo aquilo acabaria. Sua face pálida já tinha traços de frieza, tal qual as dos cadáveres ali. E seu último traço cálido esvaeceu. O suspiro o deixou. Mas a dor também o deixou.

Foi por uma réstia de segundo, e uma corrente de vento acariciou toda a rua, até o céu. Os pontos de luz continuavam estáticos, em meio às nuvens cinzentas e a lua surgiu em seu esplendor. Os olhos do anjo tomaram um brilho difuso com a luz que refletia da lua e seus lábios se moveram novamente. Até que sua cabeça se movesse; Até que suas mãos tomassem o tato do chão e o erguessem; Até que suas pernas o removessem de sua alcova e o anjo pudesse caminhar pela rua lamacenta outra vez.

Ao redor de seus pés haviam correntes que o prendiam ao chão, e não haviam asas. À sua volta haviam mentiras e medos, haviam lágrimas. Árvores austeras se erguiam altas e escurecidas. Nas copas muitas folhas cobriam a matiz leitosa da lua sobre a terra. Seus troncos sangravam como se houvessem veias e artérias, e elas pulsassem por dentro. O anjo se sentiu perdido por dentro, perseguindo um fim que ele não sabia bem como identificar.

No fim da rua coberta pelas árvores um palácio para loucos admitia que a luz sobrepujasse suas paredes, mas nada era visto além da escuridão. E o anjo moveu-se até lá, por entre as cinzas das mentiras que queimavam às suas costas, enquanto as pessoas gritavam e clamavam em sua dor. Tudo se tornou silencioso ao passar pela porta do lugar.

Um corredor longo e deserto se estendeu pela vereda. Todo o piso branco refletia a luz da lua, mas, em torno do corredor, os caminhos se formavam por fotografias recortadas, quadros quebrados e luminárias apagadas. Haviam móveis antigos, sem utilidade. Tudo coberto por uma poeira que obscurecia os labirintos intermináveis dos cômodos laterais. E, por um instante, o silêncio pacífico foi tudo o que se escutou, além do arrastar das correntes que o prendiam ao chão. Mas foi por pouco tempo.

Um murmúrio surgiu, ecoou pelo palácio e se ergueu até o teto do lugar, o céu. As palavras imaginadas pelo anjo ecoaram em sua própria consciência, e diziam somente:

"Não me deixe para trás."

Mas o murmúrio continuava mais forte, até se tornar uma voz viva dentro do corredor. As correntes perderam o peso, se retorceram e prenderam os membros do anjo, que se elevou pelo céu, como se voasse sem asas. Uma manta branca o envolveu, prendendo-o. Ele fitou o chão e uma mulher de idade avançada o visualizava de baixo, murmurava palavras desconexas. O anjo tentou soltar a voz para falar, mas uma mordaça invisível o prendeu fortemente. Seus olhos se arregalaram, mas ele não conseguia chorar.

O terror o cobriu. À medida em que agouros tornavam o ambiente ruidoso de uma maneira fantasmagórica, ele tentava soltar-se de sua prisão imaginária. A mulher andava com dificuldade, se arrastava para acompanhar o vôo da assombração que o assolava. Suas palavras foram então entendidas.

"Descance em Mim e Eu lhe Confortarei. Eu Vivi e Morri por você. Permaneça em Mim e Eu te prometo, Eu nunca te Abandonarei."

E seu vôo terminou. Foi uma queda violenta sobre o chão e o anjo sentou-se encolhido no piso branco. A velha mulher estendeu a mão ainda se aproximando, suas vestes mudavam de cor e sua aparência transfigurava-se. O anjo sentiu uma dor transpassar suas costas e tocou-as com as pontas dos dedos, mas sentiu algo quente e viscoso encharcar sua mão e a olhou, o branco pálido de seus dedos iluminados pela lua estava manchado por seu sangue. A velha senhora agora ereta em sua postura parecia maior.

Ela estendeu a mão novamente e não havia cor ali. Tampouco forma, era só luz. Não havia mais forma em nenhum de seus traços, era só luz. Como as das estrelas no céu, como a luz da lua. Apenas luz. Uma luz indistinta, sem cor. Uma luz liberta. E passou a existir tanta paz em todo o corpo do anjo que sua dor desapareceu. E todas as correntes esvaeceram. Todas as lágrimas sumiram.

E um brando sorriso se espalhou pela face da luz, tal qual ao do anjo. Distante de todo o sofrimento, sussurros vibrantes pausaram o sorriso. A melodia repetitiva de um piano inundou o palácio e todos os labirintos vieram por terra. Tudo se tornou luz, e tudo desapareceu.

***

Porque eu acordei. ¬¬'

FM.

Medo do Escuro

quarta-feira, 6 de abril de 2011
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...O meu coração está dolorido... Dentro de mim. E terrores da morte caíram sobre mim... Temor e tremor vieram sobre mim. E o horror me cobriu...

Meus olhos são profundamente vazios
Minhas palavras são como o vento frio
Eu não tenho certeza de onde estou
E há momentos em que não me importo

Submetido mais uma vez ao silêncio
Levado ao esquecimento pelos anjos
As vezes minha mente é tudo o que eu conheço
E entendo que caí sozinho em meio a escuridão

Ao redor de mim...

Em mim mesmo eu caí
E os terrores que sempre me assombraram
Puderam me atormentar, outra vez
E a morte pode me tocar, mais uma vez

Os dias passam e as nuvens cobrem meu lugar
Fecho meus olhos e inclino minha cabeça
E eu não choro sozinho como fiz
E talvez assim eu possa me olhar nos olhos

Para sentir as lágrimas do céu
Se a chuva sentisse meu temor pela escuridão
Sentiria meu tremor pelo frio em mim
E logo o horror me levaria ao buraco profundo...

Ao redor de mim...

Em mim mesmo eu caí
E os terrores que sempre me assombraram
Puderam atormentar, outra vez
E a morte pode me tocar, mais uma vez
E me prender entre os túmulos do passado
Eu queria fugir para longe, um deserto
Escaparia de toda tormenta
Entre o vento da tempestade ao redor de mim

Assim eu disse: Oh! Quem me dera asas como de pomba!

Nunca pude gritar e fazer tudo desaparecer
Dentro da escuridão eu não sou confortável
Minha indiferença frágil se conta em lágrimas
Hoje sinto medo do escuro que se move...

...Ao redor de mim...

Em mim mesmo eu caí
E os terrores que sempre me assombraram
Puderam atormentar, outra vez
E a morte pode me tocar, mais uma vez
E me prender entre os túmulos do passado
Eu queria fugir para longe, um deserto
Escaparia de toda tormenta
Entre o vento da tempestade...

...Ao redor de mim.

...Então voaria... E estaria em descanso... Eis que fugiria para longe, e pernoitaria no deserto... Apressar-me-ia a escapar da fúria do vento e da tempestade.

 
Ps.: Ver Sl. 55.

FM.

Parque da Ilusão

domingo, 3 de abril de 2011
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Em algum lugar, não me lembro onde, eu caí. Foi quase sem que eu percebesse, e meu mundo desmoronou de um modo violento. Foi como se tudo a minha volta estivesse colidindo e se partindo. A areia barrenta e avermelhada das ruas subia com o vento e tudo sumia num furacão de ilusões perdidas e sonhos destruídos. Edições de concreto caíam em frente aos meus olhos, como se um terremoto fizesse tudo sumir em meio ao vendaval. Era como se um fim tortuoso aguardasse para me engolir de forma crua e fria.

Foi sob a luz do sol que, de forma que já quase me escapa à memória, eu aprendi sobre todos os significados que me perseguem até hoje. Talvez, por causa dessa época, eu goste tanto de árvores grandes e com copas enormes. Principalmente se há tantas folhas no chão que quase é preciso mergulhar os pés entre elas para andar. E um dos barulhos que mais me agrada são os estalos que as folhas secas fazem quando se pisa nelas.

Foi naquele lugar que eu percebi que tudo havia caído, assim como as folhas secas. Ou talvez nunca tivesse existido de verdade. Ou talvez fosse tudo uma grande ilusão, um sonho, uma utopia. E, se fosse, ainda sinto a mesma formigação que sentia antes, numa inocência iluminada, como se tudo fosse dar certo.

São lampejos de alegria e esperança que ainda possuo, de tempos em tempos. São, de alguma forma, meu porto seguro. Por mais que eu saiba, hoje, que tudo não passa de uma ilusão, só pela sensação, nada mais importa. Pois é dessa época que guardo os meus maiores sonhos, por mais que todos tenham se partido, quando eu caí.

Talvez tivessem se perdido entre aquelas fileiras intermináveis de coqueiros, ou ainda se situem debaixo daquela palmeira. Porque ali a grama era tão verde e o céu era tão azul, e a brisa era tão amena. Um sonho meu era sentar ali, à sombra daquela palmeira, e ler um livro de minha preferência, talvez beber alguma coisa, um suco de laranja. Sonhos de criança, vai entender.

Mas, se tudo não passasse de ilusão, se todo o meu mundo não tivesse colidido e se quebrado em frente aos meus olhos, talvez eu ainda vivesse de uma fantasia. E, hoje, eu entendo que tudo o que se passou na minha vida teve um propósito. É nessas horas que minha fé se transforma em algo mais forte, é nesse ponto que eu entendo que eu estou exatamente no lugar onde eu deveria estar. Talvez esse seja meu propósito. Porque por mais que minha infância tenha sido um parque de ilusões, essas ilusões toda criança carrega, e muitas delas se partem, partem.

Muitas delas nem chegam ao ponto da vida em que podem entender. Só posso concluir que sinto falta de certas coisas que eu sei que nunca vão voltar. Sinto falta da formigação intensa que meus pés tinham quando eu deitava no chão do meu quarto e recebia correntes fortes de vento, pela janela. Sinto falta olhar pela janela e ver um mundo além do que existia de verdade, e tudo era mais feliz. Porque era ilusão.

A realidade, às vezes, pode machucar. Se foi assim, então, havia um propósito. Se meu coração se aperta em um sentimento de falta, há um propósito. Se, a cada ciclo, meu mundo se parte outra vez, me mostrando que nada passou de ilusão, assim é que a vida humana funciona. Hoje guardo experiências, guardo semblantes, guardo lugares que me marcaram, como a rua Pico da Tijuca e as quatro casas daquele quarteirão. Guardo imagens do passado, como todos guardam.

Guardo sabores e aromas e tatos. Guardo nomes e expressões, e tudo me parece vivo novamente, por mais que perdido por dentro. Guardo portões de madeira intransponíveis. Guardo músicas que nunca se perderam dentro de mim. Guardo melodias que ainda me fazem lembrar de um tempo que não voltará.

Mas, se há um tempo que não voltará, um novo tempo sempre virá.

E é por isso que eu estou exatamente onde deveria estar. É por isso que eu mantenho uma esperança que, mesmo que sem fundamentos sólidos, me faz sentir que tudo vai ser como eu sonho. E se assim não for, de alguma maneira tudo vai ser do jeito que deve ser. Eu não vivo mais no Parque de ilusões, vivo numa realidade com fios de sonhos que eu mesmo pinto todos os dias, no céu que eu criei para servir de mural. E de lá eles não sairão, não se partirão novamente. Pois, assim como as estrelas, atravessarão o tempo sem perder o espectro de luz.

Num novo parque de ilusões.

FM.