Desert Rose

segunda-feira, 2 de maio de 2011
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Eu sonho com a chuva
Sonho com jardins na areia do deserto
Acordo com dores
Sonho com amor enquanto o tempo escorre pelas minhas mãos

Num tempo distante, quando o sol retinha o poder da luz por completo, nos caminhos de areia clara e rarefeita do deserto, um homem fatigado vagava obstinado. Seu único sonho pairava no oásis de água límpida, sua sede. Sua razão era tão dissipada quanto a terra na qual pisava. Ele pedia para que a água caisse do céu, como numa utopia, inatingível. Ele sonhava.

A visão de Matthew debilitava em meio ao deserto. Sua garganta seca e as pernas trêmulas pediam por um descanso que só viria quando o sol deitasse no horizonte, coberto por areia. Quando a lua se elevasse nas trevas do céu límpido. Quando seus joelhos decairiam sobre a terra, impossibilitados de continuar.

Haviam flores naquele lugar. Flores esculpidas pelo tempo, em meio ao nada. Flores que formavam o mais belo jardim, um oásis. O recanto que ele tanto pedira durante todo aquele dia.

Matthew entreabriu os lábios, sugando o ar que seus pulmões conseguiam captar. Correu o máximo que suas pernas podiam. Caiu sobre a areia fina e esbranquiçada. Ele cerrou o punho no chão, enquanto a areia que havia esculpido as flores se esvaia entre suas mãos, como seu amor que escorreu pelas pontas dos dedos, num tempo distante.

Por isso ele vagava. Como se a dor de seu amor transformasse sua vida em nada. Como se bastasse caminhar de pés descalços ali. Seu coração errante percorria o oasis da solidão e seu olhar se perdia no horizonte.

E ele vagava.

Sonho com fogo
Esses sonhos estão atados a um cavalo que nunca cansa
E nas chamas
Sua sombra brinca na forma de um desejo masculino

Havia fogo em seu olhar. Um fogo antes instinto pela linha do tempo que cuspira sua empatia na alma de Matthew. Uma doce cólera a pestear a mente e as veias dele. Nunca passaria. O tempo não curava suas feridas, transferia sru foco para a sede, fome, cansaço. Sem direção, ele caminhava pelo deserto.

Mas o sol já queimara sua pele, sem piedade.

Dentro das chamas de seu corpo uma sombra lhe sorria, com lascívia. Brincava com o estado debilitado daquele homem. Seu olhar morbidamente sedutor zombava com irrisão. Jogava sujo com os desejos que habitavam aquele corpo masculino, naquele fim de dia carregado pelo vento, como a terra.

Aquela sombra vagava. Serpenteava através dos passos de Matthew e brincava com seu ódio.

Essa rosa do deserto
Cada um de seus véus, uma promessa escondida
Essa flor do deserto
Nenhum outro doce perfume me torturou mais do que esse

Mas o dia se despedia friamente aos olhos dele. Como automaticamente, dava um tom poente ao tempo ao redor. Aquelas eram as cores da rosa do deserto. Congelado por sua fadiga, Matthew fitava o horizonte colorido pelo fim do dia.

Em cada uma das cores que compunham o céu existia uma promessa escondida, mas ela estava pisoteada, conspurcada, empoeirada. Era uma verdade morta, estendida sobre o lugar onde ele se deitava. A promessa que morria como seu amor. A rosa do deserto.

Doce tortura que corroia os pensamentos dele.

Perfume do ocidente vazio que fazia sua epiderme arrepiar a cada toque, olhar. Uma crítica à sua razão se sobrepunha no instante em que a rosa do deserto, despetalada, o deixava. Uma tortura e sua promessa inexistente.

Sua expressão lívida possuia lágrimas profusamente mudas. Matthew procurou em algum lugar pela vegetação que habitava seus sonhos, dentro da dor que o instigava a morte, pela flor do deserto.

Ele não cansaria até ter a certeza de que deixaria aquele lugar, carregando entre os dedos a pétala rosada de seus cabelos.

E quando ela vira
Desse jeito como ela caminha, na lógica de todos os meus sonhos
Esse fogo queima
Me dou conta de que nada é como parece ser

E seus pedidos internos, por intervenção do vento, foram atendidos. Matthew sentia sua maneira de caminhar, sinuosa. O sorriso caçoador que se espalhava por sua face. Os lábios convidativos da flor do deserto eram acariciados pelos cabelos escuros e longos que desciam por seu corpo vestido pelas pétalas coloridas do horizonte poente.

Na lógica de todos os sonhos de Matthew, ela se aproximava. Maliciosa e sensual. Ferina, cruel, mortal. O refino de suas curvas era desenhado pelas réstias de luz da lua, a qual surgia enquanto o sol se despedia, o crepúsculo. Cristalina, sua voz retorcia a verdade em sua audição.

Seus lábios se moviam. A voz sussurrada vibrava nos tímpanos dele. O timbre de uma sereia. Feiticeira e mordaz, o chamava. Ela era o fogo que queimava por cada centímetro do corpo de Matt, numa paixão febril.

Sonho com a chuva
Ergo meu intenso olhar ao céu vazio
Fecho meus olhos, esse raro perfume
É a doce intoxicação de seu amor

E por todo esse caminho, ele se curvava, pendia, caía. Fitava a luz de sua rosa do deserto e a sentia em sua plenitude. O olhar de Matthew se erguia em meio a dor mortal que pesteava seu corpo. Sua íris esverdeada absorvia cada mínimo detalhe daquela imagem rara. Seus dedos tentava acompanhar o movimento de seus olhos, mas, como inebriado, ele estava estático. E seus olhos se fechavam.

Pois o perfume que emanava de seu amor era como bálsamo em suas feridas mais profundas. Pulsando sem força, suas veias distribuíam aquele entorpecente, aquele perfume. Intoxicante.

Matt debilitava.

Doce rosa do deserto
Essa memória do éden assedia a nós todos
Essa flor do deserto, esse raro perfume
É a doce intoxicação do outono

Havia um cadáver solitário enterrado pela areia das dunas desérticas. Havia uma memória morta em seu caminho tortuoso e frígido. Uma memória que o assediava tenebrosamente, aquela flor do deserto, um raro perfume.

Uma bela, sinuosa, doce e rara mentira. Aquele amor ao qual ele dedicou os últimos momentos. Pequenas gotículas padeciam de sua dor e esmoeceram o cadáver. Brilhantes e frias, contornavam o firmamento e se puseram de luto diante da flor que sangrava, dentro de sua dor. Gotas humildes e pacientes que embalsamavam seu coração. Dor pulsante de perder, sentimentos que nunca seriam realmente esquecidos. A doce intoxicação de se prender a mais pura promessa secreta de um amor verdadeiro, a mentira.

As vestes queimadas dos anjos pousaram sobre seu corpo. Suas pálpebras iluminaram a imensidão da noite pela última vez. Seu último traço cálido esvaeceu. E a areia era carregada pelo vento, como a morte. O outono passaria e seu corpo permaneceria ali para sempre.

FIM.

Ps.: É daí se eu gosto do nome Matthew? o Manoel Carlos não tem a Helena? Eu tenho o Matthew, dá licença?

FM.