À volta de Sophie.

terça-feira, 14 de agosto de 2012
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Num dado momento de sua vida, as lágrimas voltaram aos olhos. Pacíficas e ácidas e mortas. Retalharam pequenos fragmentos, até restar apenas o pó do que antes eram momento fugidios. Espalharam-se pelo mundo. Inexistiram. Não havia mais passos pelo caminho, nem dor. Um dia foi dito por seus lábios palavras tristes que secaram seu sentido de completo.

Porque anjos sangram em silêncio para proteger.
Anjos morrem para esquecer a dor.

Mas restava apenas pó, onde antes havia vida. Nunca mais pulsação, nunca mais sorrisos ternos, tênues, vivos, espalhados pelo rosto. Havia apenas um fantasma do passado, que ressurgia enquanto a profusa casca brilhante se partia. Apenas pó. Camadas leves e finas de areia que se dissipavam no ar, rarefeitas. Morria enfim a lembrança. O descontentamento. O nó insistente em uma garganta que permitiu ser cortada pelas mãos hábeis do silêncio.

Morria enfim a esperança. Ladeavam lágrimas e gritos. Aquela mão que um dia subiu ao céu e, trêmula, incerta, pediu ajuda. Agora restava apenas o pó. Em espirais no ar, subiam até o infinito, num céu desbotado, opaco, soturno. Onde antes havia um buraco, ao redor de seu coração, atingiu-se uma plenitude, o nada. Transpareceu todo o sofrimento mudo, amordaçado, conspurcado e perdido. Eram apenas lágrimas.

Pacíficas. Ácidas. Mortas. Palavras que não conseguiram ser produzidas pela voz. Se foram, como segredos presos em nós, em sua garganta. E não havia nada além de dor, em suas memórias. Nada a atingiu tanto desde que sua esperança se foi. Suspensos em grãos de areia ondulando no ar, estavam todos os frágeis momentos. Agora, esquecidos, pois não restou nada. Nem a lembrança.

Embora todo o seu sofrimento latente tenha sido a marca em sua vida.
E todos os dias Sophie agradecesse por mais um dia sem chorar.
Sem lágrimas o suficiente para acalentar seu coração.
Até o dia em que desistiu de prosseguir.

FM.