Cidade Elétrica

sábado, 17 de setembro de 2016

Oh, Electricity, doesn't flow in me,And I don't think that I will wake up



Nessa cidade não há estrelas
Os pequenos pontos de luz que infestam o céu
São satélites artificiais que poluem o infinito

Mas essa é a cidade elétrica
Tudo aqui é feito de luz e tecnologia
Por isso as estrelas se perderam
Em sonhos oníricos de poetas abandonados
Antepassados esquecidos pelo tempo

Nessa cidade já não há humanos
Os corpos em movimento nas ruas são reflexos
Do que a humanidade já foi um dia

Porque essa é a cidade elétrica
Aqui tudo é feito de aço e tecnologia
Por isso as emoções se perderam
Em pesadelos míticos do passado animalesco
Dos instintos mais perigosos...

Dos sabores mais sádicos

Na cidade elétrica há regozijo e plenitude
A civilização brinda seu apogeu
O monopólio da inteligência premia seus campeões
A nova era do Renascimento
Sentimos a luz nos guiar

Na cidade elétrica há frustração e escassez
A civilização rasteja na sarjeta
O monopólio da cegueira favorece os indignos
A nova era é feita de Trevas
Assim sentimos a luz nos trair

Na cidade elétrica somos apenas humanos
Tanto quanto já fomos nos longínquos tempos
Só que mais torpes, menos sinceros

Na cidade elétrica fingimos ser mais que humanos
A evolução do que ficou para trás
Não passamos de uma sociedade senil
Debilitada em valores e moral

Na cidade elétrica fingimos ser mais que livres
A supremacia do intelecto no futuro
Não passamos de uma massa decadente
Somos superados, dominados, vencidos, corrompidos

Assim vivemos na Cidade Elétrica
Aqui não há estrelas e não há humanos
Mas há cópias verossímeis
Não há sentimentos e suas compreensões passionais
Somos apenas engrenagens de uma máquina universal
E não há sabores sádicos...

Mas alguém poderia tentar.

FM.

I don't care.

Just go and leave this all behind
Cause I swear (I swear)
I don't care


Meu desafio aqui é não apagar qualquer palavra que eu escreva. E assim farei.

***

Violoncelos se partem em melodias tórridas e quentes, quebrando labaredas de músicas que me afogam e roubam minha sanidade. Suor e saliva se unem em pesadelos intermináveis, poluídos por fumaça púrpura, por negligência pútrida, por corpos que se expressam em uma dança macabra. Se estamos mortos ou vivos, não importa, porque esta será a última vez.

Bocas se abrem, cheias de veneno. Línguas sedentas absorvem, sorvem, saboreiam, engasgam e morrem. O negrume cobre todo o lugar, com vinhas de luzes brilhantes em púrpura e carmim, como veias pulsantes de um monstro nobremente ferido. Expulsam lava misturada ao sangue que explode em quadros e ganham vida. E o calor abrasa toda superfície, toda risada soturna, todo olhar mórbido.

Nada importa se as sonatas permanecem, delatadas e declamadas sob as sombras de fogo que se erguem ao redor. Os violoncelos não se acomodam tristes, e soltam mais de suas sinfonias malditas, pungentes e enlouquecedoras. Ensandecidas. Mãos mortas ostentam seus anéis de glória e honra, erguendo suas taças de peçonha e brindando ao fim. Olhos perspicazes esquadrinham as danças, as feridas purulentas, os restos, os vermes e os nomes marginais.

O horror permanece intacto, imponente, vivo. Toda garganta que expulsa vozes arranhadas em gritos de temor exangue se perde nas chamas, e ela se ergue. Em seu peito não pulsa nenhum coração. Sobre sua pele de cera repousam tecidos manchados pelas poeiras do tempo, chamuscados pelas chamas, pelos vinhos mortais, pelo sangue dos que imploram. Ataduras em seus pulsos caem pelos dedos, enroscadas nas necroses abaixo das unhas. Seus dentes negros sorriem, as bochechas encovadas se enrugam, os olhos fundos e escuros reverberam o fogo.

Seus cabelos pretos como ônix esvoaçam na escuridão, como bandeiras que flamejam um orgulho torpe. Ela estende os braços ossudos para a festa dos mortos ao seu redor, rainha da morbidez. Pouco importam se estão vivos ou mortos, nós dançamos. Ela acaricia as faces empapadas em suor e sangue e parte dos tecidos em sua superfície é comida pelos pequenos vermes que se acumulam.

Então as labaredas assumem novas formas, desafiadas, desafiadoras, ameaçadoras. Cruas em suas barreiras mais insuportáveis, as loucuras enervam, os corpos tremem e crepitam, retorcidos como troncos sem vida. Os tecidos que cobrem a rainha flamejam, como se de si própria tamborilassem em incêndios para além daquele lugar. Ermo, exposto, poente. Os matizes desenvolvem novos conceitos de cor, como se o espectro não fosse comum, e todos nós voltamos a dançar ao som dos violoncelos.

A dança torpe e suja que expressa medo e toda gama de sentimentos presentes no vazio. Pouco importa se estamos vivos ou mortos. A rainha nos celebra, nos acolhe, estende sua mão, nos orquestra. Ela se diverte com o cheiro de decadência, com o gosto de podridão, com a visão de coreografias feitas pelos fantasmas mais fétidos em agonia e cinzas. E lá estamos, para sempre entre venenos e danças macabras, possuídos pela luxúria que o terror apresenta, em sua forma mais nua.

O silêncio... Quebrado apenas pelos tórridos violoncelos.

***

Eu estava precisando soltar um pouco a imaginação... Credo, detesto esse pessoal que precisa de um quadradinho pra encaixar tudo o que é necessário, pelo simples fato de ser incompetente ao ponto de não possuir imaginação fértil.


FM.