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Era noite num mundo morto. Frio, calmo e sem sonhos. Por muito tempo, era noite naquele lugar. E alguém vagava entre os augúrios do vento constante no vazio. E não havia dor, só algumas lágrimas tão perdidas quanto seus pés, em um caminhar lento e relutante. Era apenas mais uma noite. O silêncio era interrompido pelo chamado de suas lágrimas eternas. Mas ela gritava por dentro, rompendo as barreiras de um amor que poderia ser visto através da morte.
Emily chorava. Pois eram as evidências de seu fim que a faziam começar. Seus dedos outrora ágeis e corados agora se preenchiam num azulado exangue. Seus olhos tinham um aspecto perdido, entristecido. E suas mãos buscaram, numa tentativa de sanar sua loucura, tocar a chama de uma vela. E não havia calor. Buscou uma adaga, se cortou. Mas em Emily não havia mais dor. Era verdade que a vida tinha partido, e que a morte nela estava. Mas ela não deixava de sofrer, e não demorou. Em seu rosto se viu lágrimas a rolar.
A presunção da morte era aterradora, como o amanhecer seria, ao ignorar Emily, perdida na escuridão. Pois ela não mais sentiria calor. Ficaria muito abaixo dos pesadelos e da solidão. Emily logo percebeu que sua respiração era inexistente e ela não sentia mais nada, a não ser seu vazio peculiar. Ela havia perdido seu caminho, mas nada empobreceria seu amor real, algo que ela deixara para trás, contra a vontade, de luto por ela. Todos os caminhos a levavam de volta à escuridão.
Emily repousava fria na Terra. Ela sussurrava, talvez assombrando algum lugar lá fora. Mas ela acreditava que seu amor a veria através da morte. Porém, ela repousava. E não havia espaço pra mais ninguém. Ela estava sozinha. Ou não. Seu amor dissera que não a abandonaria, ela não estaria sozinha. Mas ela estava sozinha.
Ela não estava sozinha. Haveria alguém sempre ao seu lado. Deitado ao seu lado numa felicidade silenciosa. E sua morte faria sentido, ou não. Quem poderia lhe dizer? Se ela tocasse uma vela, não sentiria dor, isso era irreal. Tanto fazia o frio ou o calor, pois seu corpo não sentia mais. Seu coração estava despedaçado, mesmo que parado. A morte nela estava, mas Emily ainda teria muitas lágrimas para dar.
Enquanto isso suas dúvidas a corroiam, numa caminhada lenta e relutante, através das sombras que escondiam o acorde do amanhecer, que trazia suas respostas.
Quando toco a vela acesa, falta seu calor
Se me corto com uma faca não há dor
É verdade que ela vive e que a morte em mim está
Mas não deixo de sofrer
Não demora vai se ver no meu rosto uma lágrima rolar
Quando toco a vela acesa eu não sinto dor
Tanto faz se estou no frio ou no calor
O meu coração não bate mas ainda assim se parte
E não deixa de sofrer recusando se render
A morte em mim está mas ainda tenho lágrimas pra dar
FM.
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