'
Era a pior parte de seus sonhos, desistir deles. A pior parte eram as coisas ruins que havia presenciado. Todo o horror de se deixar para trás, em silêncio. Coberta por uma máscara, Sophie continuava seu caminho. Um sorriso costurado em seu rosto, pintura que cobria olheiras profundas. Sua presença denotava cores e vida e sons, como música de festa. Seu coração, no entanto, festejava na casa do luto. Nada havia mais para ser arrancado de sua vida, só restaram a dor e a saudade do que nunca se teve.
Lá estava ela, de joelhos sobre um musgo que nascera anos atrás. Mas ao seu redor, a paisagem fria recoberta de neve e cinzas continuava igual. Permanente. Como o amor em seu coração, ainda que despedaçado.
Seus olhos elevaram-se ao seu céu de papel borrado com estrelas difusas, que formavam figuras pontilhadas de seu passado. Em seu interior, ela sabia exatamente cada marca que seu coração possuía. E aquele céu revelava aos olhos de seu interior, quanto de sua mente intricada se elevava até a superfície de sua pele, apresentando aos Outros o que Sophie era na verdade. Que ela resultava de cada pedaço de seus sonhos. Ainda que ela desistisse deles, e sofresse.
Era necessário. Ninguém além dela sabia. Era necessário. Ou pelo menos ela tentava dizer a si mesma que sacrifícios deveriam ser feitos. Sacrifícios que lhe custaram sua maior esperança, e, ainda assim, era necessário. Nem que suas lágrimas caíssem como um turbilhão. Ou que sua garganta se rasgasse em gritos de dor. Ainda que todo o seu sangue se esvaísse pelo chão frio e torpe. Nada passaria de uma ilusão.
Era necessário.
Mais uma sombra em seu coração
Que aos poucos morria, lentamente parava.
Porque merecia.
Não eram tremores que seu corpo abrigava, eram piores.
Era uma espécie de terror em sua alma.
Algo segurava sua garganta.
Apertava.
Sufocante penumbra sobre seus olhos.
Porque estava presa em sua própria escuridão.
Logo ela se tornou escuridão.
Sua voz produziria um último suspiro. Outra nova despedida, tão nova e dolorosa quanto as outras.
Mais uma.
FM.
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