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Era repugnantemente vazio e banhado em escuridão. Frestas de luzes difusas formavam caminhos envoltos em cinzas e poeira, revestidos de silêncio e de uma paz sepulcral. O cheiro infestado no ar era acre e travava a garganta. Como bolor e mofo, misturados a uma espécie barata e falsificada de Whisky. Era empoeirado, sordidamente despedaçado, tinha um aspecto soturno.
A porta do cômodo abriu-se lentamente, como se temesse o que estava por vir. Hesitante, taciturno, o corpo se moveu, desprovido de alma. Sob a penumbra, podia-se vislumbrar a falta de expressão em sua face. Seus olhos não possuíam brilho ou, sequer, vida. Eram janelas quebradas, conspurcadas, despedaçadas. E suas pálpebras não vacilavam, como se não pudessem se mover. Bolsas arroxeadas cresciam logo abaixo dos olhos, vítimas de olheiras profundas e de algo como maquiagem borrada.
Seus passos leves apresentavam uma eloquência quase verbal. Transmitiam seu medo inexorável, transpareciam as lágrimas que escorreram outrora, num momento de terror interno. Seu coração, logo, parou de bater. A vida em seu suspiro dava uma última chance para recuperar algo perdido. E Sophie rompeu a escuridão com o feixe de luz que se expandia a medida em que a porta se abria com o vento. Iluminava seu caminho até que sua visão se tornou menos turva. Detalhes imersos em segredo começavam a surgir, como se renascessem e abrissem seus túmulos no tempo, para se tornarem novamente vivos.
Logo Sophie divisou uma cena. Ali estavam uma cadeira de madeira aparentemente pesada demais, caída sobre o chão empoeirado. Seus olhos percorreram a madeira riscada e envelhecida, de aspecto austero e abandonado. E logo ela encontrou uma mesa que ela conhecia, de outra rachadura em suas memórias mortas. Mais fantasmas escapavam por seus pensamentos e bruxuleavam sobre sua mente, em torno da madeira que ela sabia ser carvalho.
Seus lábios formaram uma linha fina e doente. Dolorosamente, sua pele pálida e translúcida arrepiou-se em um sentimento animalesco, análogo ao horror. Seu semblante apático arqueou-se em um tipo de desespero só sentido por quem já presenciou a ação da Morte. A iminência do que estava por vir a fez fitar todo o lugar, para constatar que o cinzeiro de vidro lapidado ainda estava ali. O cigarro ainda descansava marcado pelo batom vermelho, as cinzas espalhadas pelo vidro, outras ainda incandescentes, espiralando uma fumaça com o odor forte e marcante da nicotina.
O silêncio bradava com toda a força naquele lugar. Atraía mais lágrimas aos olhos dela. Angustiantes segundos que demoravam tanto tempo para transformarem o presente em passado. Angustiante frigidez que se contava no dinheiro espalhado em cédulas pelo chão. Entre os valores se perdia um segredo que pertencia somente a ela.
Espelhos de reflexos distorcidos espalharam-se ao redor do lugar, como se surgissem de dentro das paredes, para provar que Sophie não era mais o corpo que pensava ser. Ela baixou o olhar sobre si própria, em um dos reflexos, e não se reconheceu. A mão ectoplásmica tocou a face diáfana e ela se permitiu chorar por mais um momento. Um líquido viscoso molhava o chão, amparado pelo Whisky barato, que escorria da garrafa quebrada. Álcool e sangue misturavam-se lentamente, umedecendo o dinheiro.
Instantes de explosões em novos túmulos dentro de sua mente. O fantasma ajoelhou-se sobre o chão e permitiu que sua tristeza pairasse sobre o cômodo. Sophie viu seu corpo anterior deitado sobre o chão, banhado em sangue e escuridão. Repugnantemente frio. Morto.
Não havia mais dor em seu coração. Tudo agora era passado. Seus túmulos estavam fechados novamente, como se nunca exumados antes, covas profundas em sua cabeça estavam novamente em paz. Ou não. Porque anjos sussurraram algo em seus ouvidos.
Servatis a periculum. Servatis a malificum.
Sophie deitou-se ao lado de seu corpo e fitou o teto. Ela sentia o sono cobri-la, mas persistia. Nunca dormiria, nunca morreria. Então prosseguiria. E nunca voltaria atrás.
Pois dessa vez a dor não a engoliria em sua própria sepultura.
FM.
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