Corsário Fantasma

quarta-feira, 30 de novembro de 2016
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Incorpóreas seduções me desvirtuaram antes que eu percebesse o adeus. Poderosos cânticos me enfeitiçaram efêmeros, e me arpearam em uma armadilha deleitável, mortífera. Abalroei minha nau, sacrifiquei meu suspiro. Barganhei minha alma com os olhos graciosos, de gestos tênues, da bela mortal. Pressionado ao timão, perdi o leme, e águas turbulentas me encurralaram. Misteriosas sinas que me afundaram. Muito acima o meio dia ardia violento, impetuoso em sua majestade singular. Afoguei-me.

Submergi nas ondas do esquecimento.
Ancorei-me no silêncio do azul, nas profundezas do mar.

Vaguei no limo das ruínas depredadas pelo tempo, fui andarilho submarino. Nunca mais senti ar em meus pulmões, foi-me concedida vida além da vida. Enganei a morte e seus tentáculos lúgubres. Minha existência ecoou nas correntes marítimas, findou nas borbulhas alastradas no espelho d'água. Apodreceu, espectral.

Tornei-me penumbra escura como fendas abissais.
Persegui amores atlânticos que me devastaram.

Meu coração não batia, mas amava Lunaris, a bela mortal. Fui cativo de seus desejos obscuros, realizei seus caprichos mais mórbidos. Mendiguei suas canções, acorrentado a sua voz. Então ela me fez seu escravo, e do cemitério de carcaças fez ascender a embarcação mais suntuosa. Aflou-me uma tripulação náufraga como eu. Deu-me sua ordem.

O meio dia ainda ardia lá fora, em algum lugar.
A bela mortal cantou a mais fascinante canção marinha.

Agora persigo o dia que outrora assisti morrer, engolido pelas brumas náuticas, sargaços silentes, espumas do devir. Agora respiro auras fantasmagóricas que emergem e drapejam minha jornada, transcendo o som das ondas que quebram contra meu navio de ossos náufragos, entoo a canção peregrina das ruínas do mar. Anseio pelo meu regresso com arcas cataclísmicas, para contemplar minha bela mortal.

Para ver o esplendor do sol em seus lábios.
Para ser com ela uma só... Alma oceânica.



FM.

A Terra do Sol Eterno

quarta-feira, 23 de novembro de 2016
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O som das gaivotas é sempre igual
Elas circulam pelos céus brilhantes
Aves que não viram a estrela auroral
Voam entre névoa marinha e sextantes

O Sol Eterno e inclemente banha a areia
Nessa cidade só existe o alto dia
Do deserto, pela praia, o porto, até a aldeia
Em que pisa o viajante, com ousadia

Embarcações viajam no céu e no mar
Através do sargaço singram as naus
Forasteiros narram mitos de seu lar

No Dia Eterno os fantasmas suspiram
Horizontes lamentam suas partidas
Marujos ectoplásmicos se vingam

Espectros navegam em sua maldição
Perpétuos cânticos de almas perdidas
Sua sina, consequência da lassidão
Destinos que segredam suas ilíadas

A voz da sereia seduz tripulações
Fascina o pirata de mãos atadas
Enfeitiça as marés e traz as monções
Sopra veneno nas bocas tomadas

Infeliz! Rompeu a dor, fugiu da morte
Está preso nos grilhões da sirena
Em um navio fantasma, entregue à sorte

Ingrata prisão sombria, sua saudade
Singra esquecido em melodias marítimas
Em busca do sol pela eternidade

Beijos salgados deitam no relento
Sussurro atroz na espuma das ondas
A língua ferina revela seu contento
Sereia que entoa canções hediondas

E solfeja: "Atrairei... Amarei... Beijarei..."
E contra as pedras seu timbre retine
"No zodíaco ecoarei... Você, eu levarei..."
Coração amedrontado, se confine

Em sua boca a virtude ferverá
Suas lágrimas a voz pérfida roubou
No naufrágio sua alma repousará

Pirata audaz, em suas sombras mergulhou
Forjou-se cativo da ária nefasta
E o sol, na arca obscura o homem guardou

FM.


Once upon a December

segunda-feira, 7 de novembro de 2016
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Dancing bears, painted wings,
Things I almost remember,
And a song someone sings
Once upon a December.

Someone holds me safe and warm.
Horses prance through a silver storm.
Figures dancing gracefully
Across my memory...

Far away, long ago,
Glowing dim as an ember,
Things my heart used to know,
Things it yearns to remember...


And a song someone sings

Once upon a December