Incorpóreas seduções me desvirtuaram antes que eu percebesse o adeus. Poderosos cânticos me enfeitiçaram efêmeros, e me arpearam em uma armadilha deleitável, mortífera. Abalroei minha nau, sacrifiquei meu suspiro. Barganhei minha alma com os olhos graciosos, de gestos tênues, da bela mortal. Pressionado ao timão, perdi o leme, e águas turbulentas me encurralaram. Misteriosas sinas que me afundaram. Muito acima o meio dia ardia violento, impetuoso em sua majestade singular. Afoguei-me.
Submergi nas ondas do esquecimento.
Ancorei-me no silêncio do azul, nas profundezas do mar.
Vaguei no limo das ruínas depredadas pelo tempo, fui andarilho submarino. Nunca mais senti ar em meus pulmões, foi-me concedida vida além da vida. Enganei a morte e seus tentáculos lúgubres. Minha existência ecoou nas correntes marítimas, findou nas borbulhas alastradas no espelho d'água. Apodreceu, espectral.
Tornei-me penumbra escura como fendas abissais.
Persegui amores atlânticos que me devastaram.
Meu coração não batia, mas amava Lunaris, a bela mortal. Fui cativo de seus desejos obscuros, realizei seus caprichos mais mórbidos. Mendiguei suas canções, acorrentado a sua voz. Então ela me fez seu escravo, e do cemitério de carcaças fez ascender a embarcação mais suntuosa. Aflou-me uma tripulação náufraga como eu. Deu-me sua ordem.
O meio dia ainda ardia lá fora, em algum lugar.
A bela mortal cantou a mais fascinante canção marinha.
Agora persigo o dia que outrora assisti morrer, engolido pelas brumas náuticas, sargaços silentes, espumas do devir. Agora respiro auras fantasmagóricas que emergem e drapejam minha jornada, transcendo o som das ondas que quebram contra meu navio de ossos náufragos, entoo a canção peregrina das ruínas do mar. Anseio pelo meu regresso com arcas cataclísmicas, para contemplar minha bela mortal.
Para ver o esplendor do sol em seus lábios.
Para ser com ela uma só... Alma oceânica.
FM.



