Acho que vivo em permanente estado de reflexão. Ao menos uma vez por dia penso em algum arrependimento, ou alguma lembrança feliz, que ganha vozes, cores e tatos, à medida que se prolifera em minha mente. Porém há dias em que a tristeza se abate de maneiras inimagináveis, e me sufoca. Nesses momentos eu me dedico exclusivamente a vivê-la, e a sinto em seus âmbitos mais profundos.
Porque somente comigo posso ser livre, inteira. E reclusa. Em meus momentos de solidão posso me ligar mais profundamente ao que chamam de criatividade, e que eu chamo de fiel amiga.
Eventualmente fico desamparada pelo silêncio, e preencho o vazio com música. As que escrevo, as que canto, as que reproduzo. Mas, principalmente, as que me cavam profundamente, num buraco bem dentro do peito, e me adormecem na piscina de piche em que secretamente vivo. Conectada ao meu mundo, mergulhada em minhas sombras, o único lugar em que verdadeiramente me conheço.
Calo-me.
É aí que encontro minha arte. Às vezes seca, impiedosa, dura, difícil de mastigar e engolir, por ser franca e indelicada. A mais pura forma de ferir. Essas ondas se chocam contra mim em textos prolíficos, sonhos estapafúrdios, notas de rodapé que nunca deixo escapar. Vem em forma de prosa, ou em poemas oníricos, em melodias que componho para afundar minha voz em lamentos. Essas eu geralmente evito tornar públicas, por serem ofensivas mesmo para mim. Mantenho-as secretas em um diário, porque não me vejo sem um, desde os treze anos.
Todavia, em alguns arroubos mais gentis, encontro-me diante de um espelho que não precisa se partir para revelar o que há por trás. Eu só preciso olhar para mim mesma, e a arte se floreia em nuances sutis e perfumes suaves. Como se arabescos pudessem se pintar no ar, enquanto imagino. Nesses momentos trago à tona composições menos claras e óbvias. Elas são cheias de simbolismos, de suspiros, adornos linguísticos ou não-verbais, quando as desenho. Elas nascem em mim como o sol se põe todos os dias, ou como a lua que brota no horizonte no ápice de suas fases, minha preferida.
Elas respiram em mim a poesia mais sombria e doce que há em minha noite.
Essa é a parte que mais amo em minha alma. Esse fragmento não é frio e alheio à realidade como o resto de mim. Essa parte da minha alma não é podre, nojenta, infestada de incertezas adultas sobre um futuro que já parece ser um passado fadado ao fracasso.
Ela é uma criança feita de melodias espectrais que me assombram e saltam aos sentidos, pois ela é cega. É feita de sombras, sem nenhuma cor, porque matizes não florescem na escuridão. Feita de noites, suspiros oníricos e alguns arabescos que surgem em minhas palavras, minhas escalas, em cada rasto de olhos mortos que desenho. Feita da quietude e do aprisionamento.
Da delicadeza de fazer... arte.
FM.



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