Seus filmes favoritos eram os de aventura, de preferência com seres mitológicos como dragões e fadas. Mas hipogrifos eram sua verdadeira paixão. Imaginar uma águia com corpo de leão atiçava sua imaginação. Sua verdadeira paixão era explorar o desconhecido e caminhar pelas ruas à procura de novas descobertas. As vezes podia-se ver seus olhinhos perspicazes se movimentando ativamente ao redor da casa, em busca de uma nova aventura diária.
Sua música preferida falava de uma menina que tinha um amor não correspondido, e ela achava lindo o jeito como a mocinha dizia:
“E será que vamos terminar juntos?
Não, eu acho que não, não é para ser
Porque eu não sou a pessoa certa”
Seu livro preferido era a tragédia romântica de Shakespeare, Romeu e Julieta. Por vezes e mais vezes se imaginou encenando algumas frases de Julieta, e sorria ao fazê-lo com a emoção de uma atriz.
Fascinava-a sentir o sofrimento daquelas mulheres imaginárias. Toda aquela melancolia da tragédia cotidiana a faziam fantasiar sobre as mais variadas aventuras, com princesas presas em torres altas, esperando por seus príncipes encantados. E ela sonhava, mesmo que acordada, seus olhos se esvaziavam por alguns momentos e a superfície deixava de existir, como em passe de mágica.
Ela tinha os mais variados tipos de situações imaginárias. Sua cabeça parecia um emaranhado indistinto de realidade e imaginação, e ela vivia. Esse emaranhado, no entanto, tinha uma saída de emergência. Aquela não era qualquer menina. Ela possuía um tesouro, tinha em seu poder um lápis que transformava seus sonhos e fantasias em realidade. Bastava desenhar num papel, e para tanto ela tinha um caderno. E tudo em sua vida se baseava em desejos realizados. Aquela era a menina do lápis mágico.
Com seu lápis preso ao punho esquerdo, rabiscava os mais diferentes contornos pelas folhas em branco, dando formas aos dias que se seguiriam. Ela tinha o poder de transformar seus devaneios em vida. E em seu quarto os desenhos se espalhavam pelas paredes, as letras de músicas rabiscadas entre um castelo e outro.
Por isso ela sorria. Como se nada mais precisasse acontecer, ela sorria. E em seus olhos a felicidade era tão plena, porque ao seu redor tudo era seu e seu lápis mágico a ajudaria pelo resto de sua vida. Por isso seu sono era brando. Aquela menina vasculhava sua memória a cada noite, buscava seus novos desejos e os guardava em algum lugar, para logo pela manhã, desenhar tudo e conseguir tudo de novo.
Mas, num belo dia, a névoa matutina sumia lentamente com o surgimento do sol. As pessoas despertavam de seu sono, interrompendo seus sonhos. Alguns perturbadores. Outros quietos. Uns felizes. Outros nem lembravam do que sonhavam.
Outros nem sonhavam.
A menina teve uma dessas noites. Em sua memória não jazia nenhum indício de sonho ou devaneio, e ela acordou sobressaltada de seu sono sem sonhos. Suas pálpebras se abriram com dificuldade, a visão ainda acostumando-se ao sol que entrava insistentemente pela janela, acordando. Sentada sobre a cama, ela bocejou. Uma interrogação pairou sobre sua lembrança e ela se perguntou:
“Mas o que irei desenhar hoje? Que sonho eu realizarei hoje?”
A menina não soube responder a sua pergunta. Seus olhos procuraram pelas próprias mãos e, em seu campo de visão, ela encontrou sua tragédia cotidiana mais grave. Um lado da cama estava sujo por pedaços negros de um lápis que jurava ser mágico. Seu lápis se partira. Não haveria mais sonhos a realizar, não haveria mais imaginação para desenhar sobre as folhas brancas de papel.
E a menina do lápis mágico deixou os ombros caírem, sem conseguir acreditar no que seus olhos viam. Um soluço se prendeu em sua garganta e a menina saltou diante do lápis quebrado, sujando as pequenas e pálidas mãos com o carvão de que o lápis era feito.
”O que será de mim agora? Como farei tudo ser verdade? Porque isso aconteceu comigo?”
Mais perguntas que pairaram no ar e permaneceram sem a devida resposta. A pobre menina pôs-se a deixar um pranto morno e triste cair diante de sua expressão recém acordada.
Os dias se passaram e aquela menina deixara de sonhar. Havia uma sombra pintada com os restos do lápis de carvão em seus olhos, como um fantasma que revestia seu discernimento sobre o que era a verdade.
E a chuva do alto verão era torrencial, àquela época. Mas, naquele dia nublado, a menina do lápis mágico resolveu sair para explorar. Talvez na esperança de encontrar um novo lápis e só então voltar a sonhar e realizar seus sonhos num passe de mágica. Os passos que suas galochas amarelas davam eram pesados e espalhavam a água das poças formadas pela irregularidade do revestimento na estrada.
Ela fitava todos os lugares com seu olhar vivo, mas, um pássaro avermelhado chamou sua atenção e a menina começou a segui-lo. Olhava o céu e seguia os passos do pequeno passarinho. Esbarrou em algo e arregalou os olhos ao perceber, o velho senhor do fim da rua estava bem em pé, em sua frente. A menina deu dois passos para trás, mas o velho a impediu e ela sentiu medo.
“Não tenha medo, garotinha. Eu só queria dizer algo.”
A menina do lápis mágico permaneceu em silêncio. Algo além do medo instalou-se em seu íntimo. Ela se sentiu curiosa.
“Os sonhos não são feitos de carvão e, para realiza-los, não é preciso mágica.”
A menina entreabriu os lábios, pensando no que o velho proferia com a voz rouca e gasta pelo tempo.
“Os sonhos são feitos da esperança que você guarda aqui.”
Seu dedo grosseiro apontou diretamente ao peito da menina do lápis mágico.
“Existem coisas que não podem ser medidas pelos padrões convencionais. Elas têm outra dimensão, outro peso. É o caso da imaginação. É o caso da fantasia. É o caso dos sonhos. Não existe nada impossível, se você acreditar de verdade. Aquiete seu coração, ponha um sorriso em sua voz. Persiga aquele passarinho, julgando-o liberdade. Lembre-se sempre de seus desenhos e do que você ainda pode desenhar. Antes de dormir, saiba que o que acontece é apenas um boa noite, não haverá adeus. Seja feliz, e realize todos os seus desejos pela força que existe dentro de você, essa é a maior mágica de todas...”
A menina não conseguia produzir sequer palavra. Mas imaginava tanto que sua mente se embaralhou novamente, num emaranhado de fantasias que havia se desfeito no dia em que seu lápis se partiu.
Seus olhos se fecharam por um segundo e uma onda de arrepios cruzou seu corpo, precedendo uma corrente de vento ágil que se espalhou pela rua e ela se decidiu a abrir os olhos e agradecer as palavras daquele senhor. Porém, quando suas pálpebras permitiram a entrada de luz em seus olhos, não havia ninguém na rua. Ela voltou para casa e, no fim da noite, pensou em cada palavra que havia escutado daquela voz. Pegou um lápis qualquer de seu estojo e seu caderno antigo.
Folheou sorrindo e na última página, escreveu:
Aqui é o território dos meus sonhos, e nada nem ninguém jamais os quebrarão, por mais fortes ou menos felizes que sejam. O poder dos meus sonhos é somente meu.
Ao terminar, sua despedida do dia se fez num boa noite... E boa noite não quer dizer adeus. No alvorecer seguinte, ela acordaria e perseguiria seus sonhos novamente, para sempre e sempre, sem cessar. Seria sua mais nova aventura, e, por mais que houvessem tragédias cotidianas, decepções e perdas, a menina do lápis mágico decidiu que aquela seria a aventura mais interessante de sua vida.
Fim
FM.
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