White Night Fantasy 1ª parte

sexta-feira, 26 de novembro de 2010
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Um sonho distante, através das montanhas cobertas de neve. O sopro gélido do vento noturno ressoava como um canto fantasmagórico, por entre os galhos secos das poucas árvores que povoavam os arredores dali. Liberto da luz que o sol se envaidecia em reverberar pelo infinito, o céu transmitia o reflexo leitoso da lua envolvida por um halo esbranquiçado, brevemente escondida por rastros de nuvens que passavam por ali.

O firmamento era modestamente pintado por estrelas que surgiam à medida que escurecia naquele sonho distante. E toda a Terra estava mergulhada numa intensa nevasca. O globo parecia coberto por uma mortalha alva, imaculada. Os prolongamentos dos galhos enregelados tinham um aspecto brilhante, moldado pela fina e delicada camada de gelo que revestia tudo por ali. As sombras se moviam lentamente, acompanhando a posse da lua sobre o céu, para reinar diante de seus súditos e amantes. Não havia sequer signo longínquo de vida através das montanhas cobertas de neve. Até ali.

Escondida pelo gelo e pelas paredes que formavam o vale entre as montanhas, uma pequena cabana erguia-se nostálgica. Como uma lembrança borrada de um tempo antigo, e a corrente de vento e neve passava por ela, tristemente. A imagem soturna de um passado intensamente vivido. Enlevou-se a corrente de vento, aproximando-se daquela pequena casa. Pequenas luzes farfalhavam um brilho colorido, e uma guirlanda pomposa pendia na porta, cheia de pequenos querubins que empunhavam suas cornetas.

A lua ainda resplandecia sua luz placidamente e as estrelas a acompanhavam, impassíveis. As portas trancafiadas e austeras tinham um posicionamento hostil em relação à visitas, ao passo que as pequenas luzes convidavam até o forasteiro da neve mais cruel e rude a entrar. Mas algo se movia dentro da casa, e lá dentro o ambiente possuia uma temperatura confortável. A luz da lareira produzia um calor ameno para o frio entorpecente que fazia lá fora.

O cheiro de biscoitos e café quentes inundava toda a pequena casa de um cômodo. Da lareira pendiam meias vazias, uma poltrona grande de veludo avermelhado compunha a pequena sala e um banquinho de apoio para os pés jazia logo a frente, convidando o corpo cansado a recostar-se ali. Algo com tom de alegria pintava as paredes e circulava junto ao odor quente e apreciável dos biscoitos. Mas algo morria ali.

Uma pequena janela de vidro espelhava toda a alegria interior em sobreposição à paisagem morta das montanhas cobertas de neve. Dedos pálidos escorregavam pelo vidro, assim como as lágrimas que rolavam pelo semblante perdido daquele anjo solitário. Em seus olhos sombrios se destacava a cor azul acinzentada. À despeito do calor da casa, as maçãs de sua face permaneciam lívidas, reveladas pelo reflexo no vidro embaçado, como um fantasma na escuridão da noite exterior. Suas longas vestes branco prateadas pareciam esculpidas em mármore, escorrendo por seu corpo, até o chão.

Em seu coração, o peso de tantos pecados recaía novamente. Sua respiração prestes a sucumbir. A tristeza que caminhava por seu corpo, através de suas veias, espalhava-se por seu peito, subindo por suas faces. Seus olhos queimavam. Derramavam mais lágrimas perfeitamente brilhantes. Lavavam o espírito doente daquele anjo entristecido.

Havia uma percepção frígida da solidão ao seu lado. Sua visão se locomoveu através da pequena casa e abriu a porta, exortando a corrente gélida de vento e neve a entrar no ambiente da pequena cabana. A mesma corrente que impulsionou aquele anjo para além do conforto, sob a lua e em meio às montanhas cobertas de neve. Movimentos frívolos ondulavam por suas vestes, que se confundiam com a cobertura branca da terra. Ele caminhava lentamente pelo lugar ermo, arrastando os pés descalços através da pequena estrada, se afastando da casa. Aproximava-se das árvores de galhos secos cristalizados e fitava o céu, sentindo que as estrelas caíam lentamente, em forma de flocos de neve, sobre aquele lugar.

E só assim ele podia acreditar em sua redenção. Antes o peso sobre seus ombros não cedia, inexorável. Agora, ao caminhar além daquelas colinas, perto do céu, podia acreditar que seu medo e todo o seu sofrimento se dissiparia. Seus olhos prateados eram apedrejados pelo gotejar de lágrimas em sua face. De quando em quando, seus dedos pálidos enxugavam seu semblante. E o vento melodioso percorria todo o lugar, envolvendo-o nos flocos de neve. Sua dor, seu silêncio, a solidão e cair sozinho como uma pedra em um buraco tão profundo a ponto de não conseguir produzir sequer palavra, um pedido de ajuda.

E assim ele se mantinha, perambulando enquanto o amanhecer se escondia, aterrador.

To be continued...

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