A Princesa Dos Mares - 5ª parte

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

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-Então é um humano? – a sereia se aproximou, o fantasma se debatia com mais força dentro de sua íris azulada. Ariel assentiu, enquanto os cabelos cor de ouro da sereia bruxuleavam ao redor do belo corpo. – Não é perigoso, Ariel?
-Não me importo. O mundo não parece mais o mesmo, desde que o vi. Eu sei que nada mudou, que está apenas dentro de minha mente... Mas eu não posso deixar isso para trás e continuar. Por isso estou aqui. Para tentar, para lutar pelo meu amor.
-Para isso precisa desobedecer as ordens de seu pai, vir pedir ajuda a mim e se atrever a pisar no mundo humano com pernas... Não tem medo? Valerá a pena? – as vozes balbuciaram, a Bruxa do Mar arqueou a sobrancelha perfeitamente esculpida.
-Tenho que confiar que vai dar certo, entende? Apesar de sentir, sim, medo. O que eu não posso fazer é continuar como morta, vagando aqui. – a bela sereia exibiu um sorriso plástico e curto, nem um pouco verdadeiro.
-Tudo bem. Mas sabe que te darei as pernas que precisa com algumas condições. – Ariel sentiu algo como um soco no estômago e baixou o olhar, engoliu em seco.
-Sei.

A Bruxa do Mar floreou uma das mãos e nadou até a parte mais interna da caverna adornada com caveiras e vidros com os ingredientes mais estranhos que Ariel já tinha visto. A pequena sereia perpassou os olhos por alguns vidros e se encolheu um pouco, sentindo o olhar atormentado e frio da bruxa cair sobre si. Com outro sorriso plástico, mais um floreio mecânico e uma das mãos erguidas, Ariel viu uma pérola grande e rosada.

-Darei as pernas que você tanto quer. – as vozes femininas pareciam mais vorazes, os lábios da bruxa tremulavam infimamente. O fantasma parecia gritar dentro da íris da sereia e seus cabelos se mexiam muito mais que os de Ariel, a pequena sereia arregalou os olhos.
-E o que eu preciso fazer?
-Preciso de garantias, menina, garantias. – a bruxa nadou de volta até o salão de luzes da caverna, fazendo Ariel tornar até lá.
-Eu sei disso.
-Para receber as pernas, preciso de algo em troca. – as vozes guincharam, ansiosas.
-O que quer?
-Sua voz ficará sob meu poder, presa nesta pérola, até que encontre o rapaz, até que ele se apaixone por você, até que ele se case com você. – Ariel se encolheu mais, fixando as mãos ao redor do próprio pescoço.
-Minha voz...? – a Bruxa do Mar sorriu sombriamente, assentindo. O fantasma em sua íris parecia cansado, encostando a mão pálida na barreira do olhar da sereia, que cerrou as pálpebras por alguns instantes, parecia incomodada.
-É, Ariel... – as várias vozes murmuraram macias, como algodão.
-Mas é só até que...?
-Até que ele diga que ama você e te peça em casamento. – a sereia sorriu mecanicamente, à contragosto.

Ariel pensou por alguns instantes.

-Tudo bem. Eu fico sem a voz. – ela suspirou, fazendo algumas bolhas se formarem a sua frente.
-E a cada passo que der sobre a terra, com suas pernas... – e um sorriso não tão gracioso quanto as vozes se espalhou pela face perfeita. – Será como se pisasse sobre os espinhos mais cortantes das flores que adornam a Terra. – Ariel se afastou.
-Como?
-São minhas condições. Está disposta a lutar por seu amor, está mesmo disposta a tentar se libertar dessa dor que corrói seu coração? – o nariz da Bruxa do Mar se ergueu, presunçoso. Ariel assentiu com firmeza.
-Eu quero. Tudo o que eu quero no mundo é ter aquele humano. – A bruxa do mar sorriu mais uma vez. Todas as luzes se apagaram e a pérola rosada na mão da sereia piscou lentamente, preenchendo-se com uma luz, aos poucos. Até todas as luzes brilharem novamente. Até a nova pérola se encontrar com as que já existiam ali.

Ariel tentou falar, mas sua voz não existia mais. Havia se esvaído com a luz que habitava na pérola. E ela escutou a própria voz misturada às outras vozes femininas da Bruxa.

-Vá, siga seu destino. Eu sei que não durará muito tempo e perderei a mais bela voz de minhas aquisições. Não perca um tempo precioso, você não pode dizer adeus a essa oportunidade que te dou. Assim que sair na areia, terá suas pernas. É uma promessa.

O mundo não parece o mesmo
Apesar de saber que nada mudou
Tudo isso é apenas meu estado mental
Eu não posso deixar tudo isso para trás
Tenho que me levantar para ser mais forte

Tenho que tentar
Para me libertar dos pensamentos em minha mente
Usar o tempo que tenho, eu não posso dizer adeus
Tenho que fazê-lo corretamente
Tenho que lutar
Porque no fim isso valerá
Que a dor que eu sinto devagar desvaneça
Ficará tudo bem

Eu sei que deveria perceber
O tempo é precioso, isto é o que vale
Apesar de como me sinto por dentro
Tenho que confiar que estará tudo bem
Tenho que me levantar para estar mais forte

Tenho que tentar
Para me libertar dos pensamentos em minha mente
Usar o tempo que tenho, eu não posso dizer adeus
Tenho que fazê-lo corretamente
Tenho que lutar
Porque no fim isso valerá
Que a dor que eu sinto devagar desvaneça
Ficará tudo bem

Essa noite é tão longa
Não tenho força para continuar
Sem mais dor estou caindo
Através da névoa vejo o rosto
De um anjo, chama meu nome
Eu me lembro que você é a razão que eu tenho para ficar

Tenho que tentar
Para me libertar dos pensamentos em minha mente
Usar o tempo que tenho, eu não posso dizer adeus
Tenho que fazê-lo corretamente
Tenho que lutar
Porque no fim isso valerá
Que a dor que eu sinto devagar desvaneça
Ficará tudo bem
 
***

Continua... 

FM.

Quebrando o Hábito

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"Quantas vezes você se olhou no espelho e quis mudar tudo em si mesmo? Quantas vezes você se olhou no espelho para ver o interior? Quantas vezes você só conseguiu ver sua aparência e se contentou com isso? Quantas vezes o espelho formou uma imagem distorcida de você mesmo?"

Todos tem seu próprio modo de seguir a vida e viver cada momento. Cada um tem seus valores e suas crenças, como tantas vezes já disse aqui. Cada um tem seus hábitos e suas preferências, é a diferença que faz o mundo tão diversificado, certo? Eu nunca duvidei de meus pontos de vista quanto a isso. Construi minha opinião baseada na experiência que obtive durante a minha vida. Com o que li, vi, observei e ouvi. Meus sentidos só me trairam na inflexibilidade de quebrar hábitos e diversificar meu próprio ponto de vista.

Então eu olhei no espelho ontem à noite. No escuro, a única fonte de luz vinha do banheiro ao meu lado. O resto era escuridão e dali eu podia ver uma imagem distorcida de mim. Era como um fantasma branco. Sem expressão, quase sem olhos. E mais uma vez minha mente divagou, como sempre voa, acima de um questionamento. Quantas vezes eu me olhei no espelho e me senti tão desprotegida de mim mesma? Porque ver a si mesmo e dizer quem você é pode ser tão simples e ao mesmo tempo tão difícil?

Um poema de Cecília Meireles então correu por entre as possíveis respostas:

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"

É certo que essa passagem de tempo usada por Cecilia era meramente cronológica. Ela falou do envelhecimento do corpo. Mas eu me utilizo de suas palavras para questionar mais uma vez: E quanto ao seu interior? Somente você pode se ver como realmente é. Não há momento mais íntimo que se olhar no espelho sozinho. É quando você pode dizer a si mesmo quem você é. Suas verdadeiras preferências, suas vontades, seus desejos e seus sonhos, sem culpa. Quando não puder mais fazer isso, pense que sua identidade pode ter se perdido em algum lugar. E então você pode estar se olhando no espelho e simplesmente não se reconhecer.

Será preciso tocar em si mesmo para saber que é você. Quer situação mais embaraçosa que não saber quem você é? Sua imagem exterior não se confunde com a interior. É de sua alma que surgirão os vínculos com o resto do mundo. Uma bela face exterior morre à medida que o conteúdo não preencher as expectativas. Seus traços exteriores são mutáveis, como seu interior. Mas é de dentro que sairá a maior beleza do ser humano, o ato de pensar. Eu sei que muitas pessoas não concordarão comigo, e que seja. Cada um com seu ponto de vista. Mas, veja bem meu ponto, quando você possui uma opinião sobre algo, não soa tão vazio. Eu vivo falando que o silêncio é confortável, que nos ajuda a pensar, mas eu também afirmo que é triste e vazio.

E ninguém pode questionar, porque isso é aquele tipo de verdade absoluta. Aquela bela mulher pode se transformar num bicho esquisito quando pronuncia 30 segundos de palavras. Aquele homem charmoso pode se fazer perder o interesse no momento em que expor o oco interior. E tem gente que insiste em ser vazio, porque fica mais legal na hora da farra. Pra que pensar quando se tem um som ligado na última altura? Não vai ter ninguém se comunicando mesmo. Todas as pessoas ficarão presas a seus copos e a uma dança qualquer. Não haverá comunicação que não seja pelo exterior, e pra isso servirá a beleza.

Um comentário: À primeira vista, é... Não saber quem você é, não sentir nada por dentro, não ter o que falar, não será necessário. Mas e depois? Aonde você irá? Que tipo de futuro o aguarda?

É disso que eu falo. Não adianta ter todo o dinheiro do mundo, a beleza mais angelical e não ter o que compartilhar. Olhe dentro de sua alma e compreenda por si mesmo se você é tão bonito assim dentro de seu coração. Se faltar um pedaço, nada será igual. Se tiver uma réstia de sombra, não será a mesma coisa. A verdadeira felicidade habita em quem irradia um interior completo. Pense um pouco sobre isso, mesmo que seja rapidamente. Olhe-se no espelho e veja se não está faltando nada. É óbvio que sempre faltará, porque eu nunca vi alguém realmente satisfeito com tudo, mas... Até onde isso captura o resto de você?

E você pode mudar alguma coisa? Pode quebrar um hábito em troca de uma noite tranquila? Pode ser mudar o penteado, trocar de roupa. Pode ser mudar de opinião, aprender a tocar um instrumento. Pode ser mudar de emprego, jogar fora os arquivos de secretária e pintar um quadro. Que tal observar sua imagem no espelho e fugir do mesmo de cada dia? Experimente fazer algo que te agrade verdadeiramente. Eu não sei se estou certa, mas... A partir do momento em que eu faço algo que gosto, eu me sinto melhor. Só por hoje, quebre um hábito. Talvez você adquira uma experiência e tenha algo a dividir com o resto do mundo, além do exterior.

E somar experiências te trará um conteúdo que ninguém, nem o tempo, poderão tirar de você. Que tal quebrar um hábito hoje? Ao fim disso, você até poderia se olhar no espelho e ver um pouco do que você realmente é, seria tão vazio quanto outrora? Só você pode responder a isso. Essa é a eterna busca pelo significado verdadeiro de quem você é, quem eu sou. Somos diferentes, e essa é minha única certeza.

FM.

Numb

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Eu estou cansado de ser o que você quer que eu seja
Me sentindo tão sem fé, perdido debaixo da superfície
Eu não sei o que você está esperando de mim.
Me pondo sobre a pressão, de me fazer caminhar com seus pés

(Preso na contra corrente, simplesmente preso na corrente)
Cada passo que eu dou é outro erro para você.
(Preso na contra corrente, simplesmente preso na corrente)

Eu me tornei tão entorpecido
Eu não posso sentir você
Me tornei tão cansado
Muito mais ciente.

Eu estou me tornando isso
Tudo que eu quero fazer
É ser mais como eu
E ser menos como você

Você não consegue ver que está me sufocando
Me segurando tão forte, com medo de perder o controle
Porque tudo o que você pensou que eu poderia ser
Desmoronou bem na sua frente

(Preso na contra corrente, simplesmente preso na corrente)
Cada passo que eu dou é outro erro para você.
(Preso na contra corrente, simplesmente preso na corrente)
E cada segundo perdido é mais do que eu posso suportar

Eu me tornei tão entorpecido
Eu não posso sentir você
Me tornei tão cansado
Muito mais ciente

Eu estou me tornando isso
Tudo que eu quero fazer
É ser mais como eu
E ser menos como você

E eu sei:
Que eu posso acabar falhando também.
Mas eu sei: Você era como eu
Até alguém desapontar você

Eu me tornei tão entorpecido
Eu não posso sentir você
Me tornei tão cansado
Muito mais ciente

Eu estou me tornando isso
Tudo que eu quero fazer
É ser mais como eu
E ser menos como você

Eu me tornei tão entorpecido
Que eu não posso sentir você
(Eu estou cansado de ser o que você quer que eu seja)

Eu me tornei tão entorpecido
Eu não posso sentir você
(Eu estou cansado de ser o que você quer que eu seja)

 Numb - Linkin Park

FM.

My Way

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Só mais uma briga sobre a sua liderança
E eu vou direto
Porque eu já aturei demais
E agora eu me irritei

Desta vez vou falar tudo
Desta vez vou levantar e gritar
E fazer as coisa do meu jeito
Do meu jeito
Ou é do meu jeito, ou eu caio
Ou é do meu jeito, ou eu caio fora

Mais uma briga sobre um monte de coisas
E eu desistirei de tudo
Para ficar na minha outra vez
Livre
Desta vez vou falar tudo
Desta vez vou levantar e gritar
E fazer as coisa do meu jeito
Do meu jeito
Ou é do meu jeito ou eu caio fora

Um dia vai ver as coisas do jeito que eu vejo
Pois você nunca sabe
Você nunca sabe
Onde está indo

My Way - LimpBizkit

FM.

Trovoada do Norte

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
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É incrível como as vezes as palavras me faltam e como isso influencia na minha vida. Por não conseguir transferir pensamentos em palavras, eu engasgo. E meus dias se arrastam. Aos poucos, mal consigo esconder o vazio em meus olhos. Num segundo eu posso desmentir todas as minhas vontades em favor de uma só, a de escrever. Mas, como quase sempre acontece, em meus momentos de observação, atentei em sobre o que falar. Sobre o que comentar. Como uma chuva cheia de raios e trovões, a frieza reverberante do cinza me fez pensar.

Alguns momentos eu poderia pensar em não ser como minha essência me realiza. Mas eu bem sei que há algo enraizado em meus princípios e me faz da maneira que sou. Eu sou um pouco de solidão, um pouco de negligência, uma plenitude de reclamações. E eu não posso evitar o fato de que todas as minhas cicatrizes vivem expostas à novas feridas. É o que eu sou. Eu sou o que eu quero que as pessoas queiram. O que eu quero que as pessoas sintam. Mas é como se não importasse o que eu fizesse, nada mudaria o fato de eu não poder convencer a mim mesma que nem tudo na minha vida é real. Porque?

Eu caminho sozinha. As vezes eu queria correr pela rua encharcada pela chuva. Sentir o vento frio cortar meu rosto e sorrir como se não houvesse mais nada a fazer.

Minha vida como algo que eu poderia experimentar.

Sentir nas mãos, propagar meu conhecimento além das palavras e da imaginação. Porque quando eu o faço, é como se me sentisse preenchida pela experiência de ter vivido. E isso me faz bem, por mais que sejam raras as experiências de vida que eu tenho. Mas eu caminho sozinha e isso restringe o relâmpago que ilumina minha vida, dando contornos ao meu caminhar. O que resta?

Apenas uma trovoada indistinta. A trovoada do Norte. O irreal, o ilusório. Apenas um som adormecido, que se tranforma em silêncio em segundos. Eu deixo acontecer tudo à minha volta, e eu observo. Eu viro as costas para o que não me interessa, deixo as pessoas abaixarem a cabeça e fingirem que eu não existo. Mas eu sempre estou por aí, observando a todo fato.

Eu sei menos que tudo, sei mais que nada.

Eu sei que não posso sentir como sentia antes. Sei que há fatos aos quais nunca poderei virar as costas e esquecer. Nada é totalmente ignorado, nada é realmente esquecido. O tempo não vai curar, eu sei. São apenas cicatrizes, e nada mudará a constância das lembranças em minha vida. Aí está uma verdade que não posso ignorar.

Eu sou um pouco insegura, receosa, hesitante. É que as vezes eu acho que ninguém entende que eu faço tudo o que eu posso, mas nem sempre eu faço sentido. O ato de pensar antes de agir me deu a alcunha de fria, calculista. Não de hoje, mas de um passado quase infantil. Quando meus apelidos eram Visconde de Sabugosa, Mortícia e Branca de Neve. Esses eram os mais simpáticos e diziam, infantilmente, tudo sobre mim. O ato de escolher a cautela e a manipulação me fizeram enérgica em minhas resoluções, inflexível. Dura, em certos momentos, mas foi com os obstáculos e quedas que eu aprendi a ser assim. E essa sou eu.

Uma pessoa feita de neve. Apesar de frágil e amável. Não passo de uma trovoada. Cega, porém toda ouvidos. Eu ouço. Adoro escutar tudo o que querem me dizer, o que me interessa. O resto é o resto. Mas, momentaneamente eu pensei que ninguém nunca quis me dizer o que pensa de verdade, as vezes eu penso que a transparência se perdeu.


É que cada um possui sua própria máscara, seus dedos de confiança. Contudo, eu posso dizer que eu sou como a trovoada do norte, implacável e efêmera. E quem quiser me escutar, me escute no momento em que eu falo. Porque não é sempre que eu detenho o poder de ousar falar. Goste disso ou não, quem me escutou verdadeiramente sabe quem eu sou.

Essa sou eu, um pouco de cada sentimento que possuo, presos na edificação do meu nome. E você só poderá ouvir o eco do que realmente sou, como a trovoada do Norte. Foi algo que pensei enquanto fixava os olhos na chuva que caía hoje mesmo, mais cedo.

FM.

A Morte da Luz

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
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Podia ser mais um dia qualquer, com algumas observações e distração. Podia ser como qualquer outra manhã de sol e céu de um azul tão forte que dói nos olhos. Podia ser tão saudosa quanto qualquer outra. E a luz do sol se desfaria como em qualquer dia, num momento do dia que muitos apreciam. E não haveria tanto do quanto eu posso chamar de saudade. Eu forneci os rumores, recebi, em troca, algo que o acaso providenciou. O acaso me forneceu imagens, esculturas desenhadas na terra diante de mim, e eu providenciei o sentimento que já me habituei a sentir, de tempos em tempos.

Tenho algumas manias, e uma delas é ler dicionários. Mas para identificar o significado de saudade eu não preciso nem sequer por um momento pesquisar em dicionários. Eu sinto diariamente. E eu já falei tanto em pequenos trechos de textos postados aqui, mas nunca dediquei um momento para isso, somente. Como tema principal.

So, Let's go.

É como se faltasse nescau no leite. Não ficou bom. É. É como se faltasse a guitarra no rock. Esse ficou muito ruim. Mas... É como se você estivesse assistindo aquele seriado que você gosta e, quando você assistia acompanhado, você ria. Mas quando assistia só, faltava um toque pra fazer rir. É bem como eu me sinto. É como se seus bordões de piada interna só fizessem sentido pra você, agora. E você precisa rir sozinha deles, porque as outras pessoas não vão entender a graça do momento no qual você criou a piada.

É sentir o cheiro de um perfume e lembrar de quando você usava ele pra ir à escola, porque era lá que você ia todo dia e gostava de ir, se não pela aula, mas pela companhia. É como ouvir aquela música que vocês cantavam juntos, gritando no meio da rua, às 7 da noite. Morrendo de fome. E se você olhar bem um pacotinho de biscoito Club Social de Pizza, você ri de um fato passado regado à fanta uva choca.

E quando você procura uma pessoa com quem dividir aquela música que você descobriu e adorou... E não encontra ninguém. É vazio. Ou quando você faz uma burrada e quer contar pra alguém, mas olha em volta e não tem ninguém. É vazio. Ou ainda quando você quer rir e olha em volta, sem encontrar ninguém pra compartilhar uma risada. É vazio. E vem aquele sentimento chato que primeiramente aperta alguma coisa na barriga, sobe até a garganta e prende tudo. Até subir aos olhos. E você enfraquece.

Porque há espaços na vida nos quais tudo o que se precisa é de um abraço apertado. Ou daquele sorvete de Abacaxi ao Vinho. Ou de pão com mortadela e café. Ou bolacha recheada mergulhada no café. Miojo com catchup. Bolacha passada no leite. Ou alguma dessas comidas loucas que você inventa com seus amigos e todo mundo come achando uma delícia de Creuza.

E tem momentos nos quais você só quer ter pra quem contar aquela novidade sem graça que você sabe que, mesmo sem ter nada de interessante, pra alguém ela vai ser importante. Mas aí você olha em volta e não encontra ninguém, e é vazio. E a ausência machuca mais que qualquer coisa em mim. É.

É sempre assim. Alguém, eu tenho que deixar. Outros tem que me deixar. Circunstâncias me separam de algum lugar, ou de uma data especial. E tem vezes que eu penso no quão injusto é o momento no qual a luz morre e leva embora minhas melhores horas, transformando-as em memória. Chego até a pensar em sentir raiva do passado, por ele não poder ser presente novamente. Porque nenhum tempo voltará. Porque não há muito depois da morte da luz, além de resquícios do que se conheceu, porque assim é a vida, e tudo passa, tudo sempre passará, já dizia o poeta.

Mas, por um instante, eu daria meus cabelos em troca de ver o novo tempo que virá. Enquanto isso eu aprecio a morte da luz, que providencia minhas memórias e me dá novos motivos para sentir algo como solidão, mas se chama saudade.

FM.

Ciranda da Bailarina

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
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Talvez a lembrança de outro tempo possa trazer saudade, e possa te fazer pensar em reverter o tempo, ou não. Mas, não se engane, há muitas armadilhas em torno das memórias, e tudo pode se voltar contra você, se mexer nelas. Eu vivo fazendo isso, e às vezes não me faz bem. Acredite, é um pequeno conselho que eu tenho pra hoje, depois de reviver CD's de Oswaldo Montenegro, Toquinho, Vinícius de Morais, Elis Regina, Tom Jobim, Djavan e Lenine.

Eu gosto das músicas, não me entenda mal. É que é meio complicado com as lembranças que elas trazem. Não é muito agradável, e não é bem o que eu gosto de lembrar. Eu adoro viver de passado, mas das coisas que me faziam rir. Das que me faziam ter saudade de ser criança, e eu acho que todo mundo tem saudade. Mas tem certas lembranças que só cutucam minhas feridas, e essas eu quero esquecer.

Mas, apesar da nostalgia dark de hoje... Uma musiquinha que eu cantava quando era criança me fez sorrir, também. É ela que eu posto hoje aqui:

Ciranda da Bailarina
Composição: Edu Lobo / Chico Buarque


Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem...


FM.