O toque das luzes do amanhecer fez-se lentamente no espelho d’água do oceano. O céu tomava tons de azul mais claro e as nuvens rarefeitas maculavam o firmamento. A brisa bruxuleava junto à névoa matutina e as gaivotas riscavam o horizonte, ruidosamente. O sol surgia e levava mais uma noite para o passado. A manhã batia as portas do tempo e se anunciava na inundação de luz que passou a revestir a terra, o mar, o céu, mas ainda era cedo demais para um príncipe acordar. Matthew nem havia dormido.
Sentado perto do parapeito da janela lateral de seu quarto, sentia o sol começar a aquecer a pele de sua face, à despeito da névoa gélida carregada pelo vento até a janela. Seus olhos agora fracamente iluminados exibiam o tom mais amarelado de seu verde, perdidos no mar. Ele admirava o movimento das marés e esperava que a luz do farol da ilha perdesse espaço para a estrela que subia aos poucos pela linha do horizonte. Aquele era seu momento preferido para a solidão, mas tudo o que Matthew não queria àquela hora, era ficar sozinho.
Pois os pensamentos caminhavam velozmente por sua mente. Várias vozes de sua consciência repetiam frases e imaginavam possibilidades. E a cada decepção, a cada perda de esperança, mais sua cabeça girava ao redor de ideias, como poderia ter sido. As buscas da guarda real geralmente falhavam e, quando algum deles conseguia uma princesa parecida com a princesa de Matthew, não era a verdadeira. E seu coração se partia mais uma vez, a cada nova decepção, sem mais alarmes, sem muitas surpresas. Um coração outrora desprendido e aventureiro, destemido e nobre. Agora enterrado nas alvas areias daquela praia, ao lado da lembrança da princesa de cabelos vermelhos que o salvou da morte.
E sua garganta apertou mais uma vez, ao pensar que a estava perdendo a cada dia. E que seu amor por ela somente crescia, como uma praga. Em seu julgamento não era saudável, mas era inevitável. E seus olhos brilharam, não com alegria, porém com um tipo de tristeza que se expõe em lágrimas. Estas não caíram. Guardaram-se no íntimo de sua mente, pela lembrança. Matthew deixou a brisa marítima penetrar suas narinas e franziu a testa, recuperando sua consciência novamente.
E assim rastejavam seus dias, desde aquela manhã fatídica. E alguns fantasmas já sussurravam em sua cabeça, com a estranha ideia de que sua princesa era uma alucinação, e nada mais. Seus olhos percorriam a areia da praia na ínfima esperança de reencontrá-la. Matthew apoiou a cabeça ao lado da janela, fitou o mundo lá fora, e algo prendeu sua atenção. Havia algo jogado na areia. Ele ergueu-se e tentou visualizar melhor, só conseguiu pensar em correr até lá para saber com certeza absoluta de que não era sua imaginação.
Matthew avançou pelos corredores perpassando os dedos pelas paredes ásperas de pedra do castelo. Em pouco tempo já descia pelas escadarias até a praia, onde tinha plena certeza de haver uma pessoa jogada no chão. Seus pés descalços chutavam a areia, enquanto ele corria. Estreitou os olhos e caiu de joelhos ao lado da figura desacordada. Tinha traços delicados e lábios tão vermelhos quanto os cabelos, quase a achou parecida com sua salvadora. Matthew tocou a face dela e percebeu sua reação, a menina inspirou fundo e franziu o cenho, como se sentisse dor.
-Você está bem? - Ele retirou os cabelos que cobriam a face dela e sorriu de leve, os olhos dela tinham a cor do profundo mar, num dia de sol. Mas não obteve resposta à pergunta. - Qual o seu nome?
A menina parecia ter medo no olhar, aos poucos ergueu o tronco, ajudada por Matthew, e sentou-se. Ela o fitou novamente e tossiu, mas não havia som algum produzido por sua garganta. Ela o olhou e puxou o ar pela boca, tentou falar mas tudo o que obteve foi um tipo de mímica labial estranha. Ela baixou o olhar e permitiu que um suspiro escapasse de seus lábios. Matthew sorriu de lado e colocou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.
-Você não consegue falar. Eu entendi. - Ele piscou e a menina sorriu, olhando-o pela primeira vez. E seus olhos brilharam intensamente, ao fazê-lo. Matthew deixou-se levar por ela e se distraiu. Ela tentou levantar-se, mas fez uma careta de dor e sentou-se novamente. Matthew acordou do devaneio. - Deve ter machucado os pés ou tornozelos. Eu te levo pro castelo... Ahm... Você pode me mostrar de alguma forma qual o seu nome? - A menina meneou a cabeça, com a expressão subitamente triste. Matthew franziu o queixo. - Tudo bem, o meu é Matthew. Eu vou te ajudar...
Ele ergueu a menina nos braços e a levou para o castelo, e, apesar de muda e machucada, perdida, com certeza, Matthew teve a impressão de que ela estava feliz. Ele sorriu e quebrou o silêncio dela com sua própria história, para afastar o medo da pobre menina do desconhecido.
***
O sol já estava no alto do céu quando Ariel recobrou os sentidos novamente, e ela sabia que não estava mais em seu mundo. Agora fazia parte do mundo dos mortais. Depois de ouvir toda a história do humano por quem se apaixonara, por nome Matthew, ela conseguiu entender que seu sentimento era tão recíproco quanto um amor podia ser.
E tudo o que ela podia sentir era aquele momento. Ela podia até respirar a vida de Matthew tão perto de si. A última coisa que ela desejaria naquele instante era voltar para casa, porque, ao ouvir sua voz, ao sentir seu toque, ao ver o brilho dos olhos dele novamente, Ariel podia jurar que tinha visto o paraíso.
Ela tinha ciência de que desistira da eternidade para poder chegar ao seu amor, porém, em seu íntimo, algo dizia que ele sentia da mesma maneira. E seu êxtase foi quase tão intenso quanto a nova visão da vida de Ariel. Foram quase instintos segundos de felicidade e uma voz martelou em sua cabeça.
Ela havia mentido sobre sua verdadeira condição de sereia, e que o momento em que sua vida se assemelhou aos romances que sua avó contava, sangrou até se esvair, apresentando a realidade feita para não durar, para Ariel. Ela sabia que o mundo não entenderia se a vissem como ela era na verdade. E, por mais amor que Matthew devotasse a sua salvadora, somente Ariel sabia quem ela era, pois ele não distinguiu a verdade no olhar de sua secreta amada.
Ariel desejou com todas as forças que ele soubesse quem ela era na verdade. E que ele entendesse. Que ele a reconhecesse e poderia então definitivamente viver seu amor, como nos contos.
E eu desistiria da eternidade para te tocar
Pois eu sei que você me sente de alguma maneira
Você é o mais próximo do paraíso que jamais estarei
E eu não quero ir para casa agora
E tudo que posso sentir é este momento
E tudo que posso respirar é a sua vida
E mais cedo ou mais tarde se acaba
Eu só não quero ficar sem você essa noite
E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito para não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu
E você não pode lutar contra as lágrimas que não virão
Ou o momento da verdade em minhas mentiras
Quando tudo se parece como nos filmes
É, você sangra apenas para saber que está viva
E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito pra não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu
E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito pra não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu
E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito pra não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu
Eu só quero que você saiba quem sou eu
Eu só quero que você saiba quem sou eu
Eu só quero que você saiba quem sou eu
Pois eu sei que você me sente de alguma maneira
Você é o mais próximo do paraíso que jamais estarei
E eu não quero ir para casa agora
E tudo que posso sentir é este momento
E tudo que posso respirar é a sua vida
E mais cedo ou mais tarde se acaba
Eu só não quero ficar sem você essa noite
E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito para não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu
E você não pode lutar contra as lágrimas que não virão
Ou o momento da verdade em minhas mentiras
Quando tudo se parece como nos filmes
É, você sangra apenas para saber que está viva
E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito pra não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu
E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito pra não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu
E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito pra não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu
Eu só quero que você saiba quem sou eu
Eu só quero que você saiba quem sou eu
Eu só quero que você saiba quem sou eu
***
Continua...
FM.

