A Princesa Dos Mares - 6ª parte

domingo, 27 de março de 2011
'


O toque das luzes do amanhecer fez-se lentamente no espelho d’água do oceano. O céu tomava tons de azul mais claro e as nuvens rarefeitas maculavam o firmamento. A brisa bruxuleava junto à névoa matutina e as gaivotas riscavam o horizonte, ruidosamente. O sol surgia e levava mais uma noite para o passado. A manhã batia as portas do tempo e se anunciava na inundação de luz que passou a revestir a terra, o mar, o céu, mas ainda era cedo demais para um príncipe acordar. Matthew nem havia dormido.

Sentado perto do parapeito da janela lateral de seu quarto, sentia o sol começar a aquecer a pele de sua face, à despeito da névoa gélida carregada pelo vento até a janela. Seus olhos agora fracamente iluminados exibiam o tom mais amarelado de seu verde, perdidos no mar. Ele admirava o movimento das marés e esperava que a luz do farol da ilha perdesse espaço para a estrela que subia aos poucos pela linha do horizonte. Aquele era seu momento preferido para a solidão, mas tudo o que Matthew não queria àquela hora, era ficar sozinho.

Pois os pensamentos caminhavam velozmente por sua mente. Várias vozes de sua consciência repetiam frases e imaginavam possibilidades. E a cada decepção, a cada perda de esperança, mais sua cabeça girava ao redor de ideias, como poderia ter sido. As buscas da guarda real geralmente falhavam e, quando algum deles conseguia uma princesa parecida com a princesa de Matthew, não era a verdadeira. E seu coração se partia mais uma vez, a cada nova decepção, sem mais alarmes, sem muitas surpresas. Um coração outrora desprendido e aventureiro, destemido e nobre. Agora enterrado nas alvas areias daquela praia, ao lado da lembrança da princesa de cabelos vermelhos que o salvou da morte.

E sua garganta apertou mais uma vez, ao pensar que a estava perdendo a cada dia. E que seu amor por ela somente crescia, como uma praga. Em seu julgamento não era saudável, mas era inevitável. E seus olhos brilharam, não com alegria, porém com um tipo de tristeza que se expõe em lágrimas. Estas não caíram. Guardaram-se no íntimo de sua mente, pela lembrança. Matthew deixou a brisa marítima penetrar suas narinas e franziu a testa, recuperando sua consciência novamente.

E assim rastejavam seus dias, desde aquela manhã fatídica. E alguns fantasmas já sussurravam em sua cabeça, com a estranha ideia de que sua princesa era uma alucinação, e nada mais. Seus olhos percorriam a areia da praia na ínfima esperança de reencontrá-la. Matthew apoiou a cabeça ao lado da janela, fitou o mundo lá fora, e algo prendeu sua atenção. Havia algo jogado na areia. Ele ergueu-se e tentou visualizar melhor, só conseguiu pensar em correr até lá para saber com certeza absoluta de que não era sua imaginação. 

Matthew avançou pelos corredores perpassando os dedos pelas paredes ásperas de pedra do castelo. Em pouco tempo já descia pelas escadarias até a praia, onde tinha plena certeza de haver uma pessoa jogada no chão. Seus pés descalços chutavam a areia, enquanto ele corria. Estreitou os olhos e caiu de joelhos ao lado da figura desacordada. Tinha traços delicados e lábios tão vermelhos quanto os cabelos, quase a achou parecida com sua salvadora. Matthew tocou a face dela e percebeu sua reação, a menina inspirou fundo e franziu o cenho, como se sentisse dor.

-Você está bem? - Ele retirou os cabelos que cobriam a face dela e sorriu de leve, os olhos dela tinham a cor do profundo mar, num dia de sol. Mas não obteve resposta à pergunta. - Qual o seu nome?

A menina parecia ter medo no olhar, aos poucos ergueu o tronco, ajudada por Matthew, e sentou-se. Ela o fitou novamente e tossiu, mas não havia som algum produzido por sua garganta. Ela o olhou e puxou o ar pela boca, tentou falar mas tudo o que obteve foi um tipo de mímica labial estranha. Ela baixou o olhar e permitiu que um suspiro escapasse de seus lábios. Matthew sorriu de lado e colocou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.

-Você não consegue falar. Eu entendi. - Ele piscou e a menina sorriu, olhando-o pela primeira vez. E seus olhos brilharam intensamente, ao fazê-lo. Matthew deixou-se levar por ela e se distraiu. Ela tentou levantar-se, mas fez uma careta de dor e sentou-se novamente. Matthew acordou do devaneio. - Deve ter machucado os pés ou tornozelos. Eu te levo pro castelo... Ahm... Você pode me mostrar de alguma forma qual o seu nome? - A menina meneou a cabeça, com a expressão subitamente triste. Matthew franziu o queixo. - Tudo bem, o meu é Matthew. Eu vou te ajudar...

Ele ergueu a menina nos braços e a levou para o castelo, e, apesar de muda e machucada, perdida, com certeza, Matthew teve a impressão de que ela estava feliz. Ele sorriu e quebrou o silêncio dela com sua própria história, para afastar o medo da pobre menina do desconhecido.
***

O sol já estava no alto do céu quando Ariel recobrou os sentidos novamente, e ela sabia que não estava mais em seu mundo. Agora fazia parte do mundo dos mortais. Depois de ouvir toda a história do humano por quem se apaixonara, por nome Matthew, ela conseguiu entender que seu sentimento era tão recíproco quanto um amor podia ser. 

E tudo o que ela podia sentir era aquele momento. Ela podia até respirar a vida de Matthew tão perto de si. A última coisa que ela desejaria naquele instante era voltar para casa, porque, ao ouvir sua voz, ao sentir seu toque, ao ver o brilho dos olhos dele novamente, Ariel podia jurar que tinha visto o paraíso.

Ela tinha ciência de que desistira da eternidade para poder chegar ao seu amor, porém, em seu íntimo, algo dizia que ele sentia da mesma maneira. E seu êxtase foi quase tão intenso quanto a nova visão da vida de Ariel. Foram quase instintos segundos de felicidade e uma voz martelou em sua cabeça. 

Ela havia mentido sobre sua verdadeira condição de sereia, e que o momento em que sua vida se assemelhou aos romances que sua avó contava, sangrou até se esvair, apresentando a realidade feita para não durar, para Ariel. Ela sabia que o mundo não entenderia se a vissem como ela era na verdade. E, por mais amor que Matthew devotasse a sua salvadora, somente Ariel sabia quem ela era, pois ele não distinguiu a verdade no olhar de sua secreta amada.

Ariel desejou com todas as forças que ele soubesse quem ela era na verdade. E que ele entendesse. Que ele a reconhecesse e poderia então definitivamente viver seu amor, como nos contos.



E eu desistiria da eternidade para te tocar
Pois eu sei que você me sente de alguma maneira
Você é o mais próximo do paraíso que jamais estarei
E eu não quero ir para casa agora
E tudo que posso sentir é este momento
E tudo que posso respirar é a sua vida
E mais cedo ou mais tarde se acaba
Eu só não quero ficar sem você essa noite

E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito para não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu

E você não pode lutar contra as lágrimas que não virão
Ou o momento da verdade em minhas mentiras
Quando tudo se parece como nos filmes
É, você sangra apenas para saber que está viva

E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito pra não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu
E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito pra não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu

E eu não quero que o mundo me veja
Porque eu não acho que eles entenderiam
Quando tudo é feito pra não durar
Eu só quero que você saiba quem sou eu
Eu só quero que você saiba quem sou eu
Eu só quero que você saiba quem sou eu
Eu só quero que você saiba quem sou eu


***

Continua...

FM.

Uma nota antes da despedida

sexta-feira, 25 de março de 2011
'

Qual o motivo de ser o vilão?

Quando a impaciência e as palavras vem à tona, parece que tudo ao redor se transforma. E finalmente as palavras se transformam em inimigas próprias. Aos poucos você se transforma, sem ao menos perceber. É a falta de tato e da interpretação correta. E você se transforma numa vítima de um jogo que não participou. Todos te julgam como se você fosse o mais errado.

Mas quem é o mais errado? 

É uma questão de opinião, pois. O fato de todos acharem que você não se importa com nada, que não quer ninguém por perto. O modo como você age é distorcido. E você se transforma no vilão. Porque não há nada em seu coração, além de frieza e desprendimento. Porque encontrarão todos os adjetivos que você puder imaginar. E será sempre assim. Você é o estranho, o diferente. Aquele do qual as pessoas não se aproximarão pois pensarão que não será bom, ou interessante. Ou que tudo ao seu redor é diferente demais para se acostumar.

E todos pensarão que não te conhecem.  E a música que escutará será como We might as Well be strangers.

Eu não reconheço mais seu rosto
Ou sinto o toque que eu adoro
Eu não reconheço mais seu rosto
É apenas um lugar que estou procurando

Nós podemos muito bem ser estranhos em outra cidade
Nós podemos muito bem estar vivendo num mundo diferente
Nós podemos muito bem...


Eu não reconheço seus pensamentos esses dias
Nós somos estranhos num lugar vazio
Eu não entendo seu coração
É mais fácil ficar afastado

Nós podemos muito bem ser estranhos em outra cidade
Nós podemos muito bem estar vivendo num mundo diferente
Nós podemos muito bem...
Nós podemos muito bem ser estranhos ser estranhos

Por tudo que eu sei sobre você agora


E ninguém pensará que você poderá se machucar com isso. Porque o sabor amargo da solidão não será sentido por outro além de você. Não imagine que as pessoas pensam mesmo que você não se importa com nada nem ninguém. Só você sabe que não é assim, e sua sinceridade por si só basta.

Olhe no espelho e veja que nada mudou, e nada mudará.

E nunca mais você precisará gastar saliva e voz para negar que detesta a presença. Que não quer. Por mais que todos digam que você é um estranho que não ama a nada. Que você um dia viverá sozinho e que ficará feliz por isso. Você sabe que não é verdade, abstenha-se, pois.


FM.

O Colecionador de Lágrimas

'

As folhas caíram sobre o chão e mais uma vez o tempo passou. As melhores horas do dia eram representadas por toda lágrima depositada em nome de um sorriso perdido. As melhores sensações provadas faziam parte de uma memória que estaria por vir, dentro das possibilidades que se apresentavam pelo caminho. Como numa festa envenenada, injeções de ânimo e alegria pela melodia alcançada com êxito, o brilho de uma palavra conteve-se pelo simples prazer de sentir mais do que as letras podem expressar. Porque toda a marca jazia na sombra do passado e a luz das lembranças tornaram-se devastadas por uma sensação sem som. O perdão da regalia, um amor corrompido tempos atrás.

Entre os feridos, as folhas persistiam em cair. Diante da força de uma voz solitária, com o coração partido entre o céu e a terra, flutuavam os fantasmas que compunham o balé das sombras. Vidas tórridas e límpidas no momento da intoxicação.

Toda cor se desprendia. Em tons de sépia subiam a lua e as estrelas, penduradas pelo liame de vida que as faziam farfalhar uma luz indistinta. E as folhas insistiam em cair. O dia desbotava e a noite crescia diante da suave melodia impregnada na voz solitária, enquanto todas as estrelas caíam distantes, abaixo do céu, como numa chuva de luzes. Ao redor de todo o campo de visão não podia-se ver nada além do já esquecido, do perdoado. Era o fim daquela festa envenenada, era o início de um novo caminho trilhado acima do sofrimento e da dor.

A voz, colecionadora de lágrimas, presenciou a crescente onda de euforia contagiante em seu coração, outrora despedaçado. Enquanto as estrelas caíam, mais que luzes subiam. Seus olhos iluminados pelo torpor de se sentir feliz. As folhas não caíam mais. Eram estrelas que caíam. Eram velhas lembranças que se partiam sobre o chão, deixavam cacos e refletiam fantasmas que nunca se apagariam, mas partiam. Era o fim daquele mundo, diante do colecionador de lágrimas. Ou era a última cena presenciada por seus olhos. E, por mais que nunca fosse possível voltar ao passado, ele deveria? Ou ele poderia?

O brilho de seu sentimento o manteve no silêncio pronunciado na forma da melodia que entoava. E se feria com o apagar do dia, se feria quando a noite surgia, se feria com as palavras nunca ditas. Se feria com os sorrisos que nunca aconteceriam. Mas não sofria. Se feria quando as estrelas caíam, se feria com as lágrimas que escorriam, se feria com a falta dos momentos que não viveu. Mas não sofria. Porque, enquanto as estrelas caíam, se partiam sobre o chão, entre as folhas amareladas, tudo se quebrava. Era sua redenção, seu perdão precioso diante de toda a cicatriz.

Era sua maior demonstração de amor incondicional. Poderia ser sua festa envenenada, poderia estar errado, poderia se enganar. Mas era correto, era belo. Era sua maior demonstração de amadurecimento. Naquele momento, tatuado em sua pele, foram pronunciadas as únicas palavras que descreveriam sua sensação.

"Nós mostraremos a todos eles o que nós significamos."

O céu se desfazia. Os elos que suspendiam a noite caíam. Toda a escuridão tornou-se depósito de luzes mortas pelo tempo e pelo significado de perdoar. Pelo modo mais bonito, menos tortuoso. Pelo modo mais generoso ele mostrou a grandeza que havia dentro de si, o significado mais humilde já mostrado em nome do amor conspurcado. O perdão. Não havia sacrifício nem dor. Não havia ressentimento. O deserto árido de sua mente tomou as lágrimas e se tornou paciente.

Outrora esconderia as cicatrizes para disfarçar o espanto dos olhos alheios. Agora se feria mais uma vez para garantir o perdão de seu algoz.

Em seus olhos havia perdão.
Em seus pensamentos, havia o perdão.
Em seu coração, havia o perdão. E isso bastava, pois confiava em seu direito de dar uma última demonstração de afeto, antes de partir para o fim do mundo, ou para a última coisa que veria. Talvez caminhasse para uma armadilha, para uma festa envenenada. Mas seu coração estaria limpo do sangue que correu por seus olhos, em outro tempo.

O colecionador de lágrimas deixou os fantasmas para trás, limpou os olhos da cegueira que o ódio o causou. Na total escuridão, as estrelas caídas reverberavam uma luz ínfima.

Mas, exaurida naquele timbre, a voz do colecionador de lágrimas não tinha medo, ou ódio. Havia paz. Ou sonhos.

Ou nada.

Apenas uma página em branco, pronta para recomeçar. Entre os feridos, restavam cicatrizes curadas pelo poder que o tempo instituiu nos corações humanos, o poder do perdão que restituiu a serenidade na voz outrora silenciosa, agora entoada ao redor de injeções de ânimo daquela festa. Se era envenenada, se eram estrelas, se haveria luta, ou se era apenas o eco de sua nova realidade, a felicidade, ninguém jamais saberia.

Porque o colecionador de lágrimas partiu para o fim do mundo, ou para a última coisa que veria, no mundo de seus sonhos. Marcado pelas cicatrizes, porque nada seria realmente esquecido. Mas aqueles fantasmas nunca o atormentariam novamente, porque um novo entendimento se estendeu diante de seus próprios conceitos.

Não haveria como chorar para que tudo acabasse, como gritar para que tudo acabasse. Não haveria como desejar que tudo acabasse. Não era possível rabiscar as linhas que traçaram a história de um passado, antes que ele acabasse.

Não se pode lutar contra tudo, mas tudo tem um tempo determinado por Deus.

Quando o passado foi passado e o tempo mostrou que a maior dor é não esquecer a dor, a verdade libertou seu coração e o colecionador de lágrimas se soltou das correntes que o prendiam nas lembranças, fazendo-as cair, estilhaçando estrelas.

Aquele era seu anúncio de perdão. Sua partida ao desconhecido que se chamava futuro. Poderia ser errante, ou errado. Poderia ser envenenado. Mas era verdadeiro, valioso.


FM.

Um Mundo Solitário

terça-feira, 8 de março de 2011
'

Outro dia ou outra noite, em mim existe um mundo solitário
Outro jogo, somente outra briga em mim, um mundo solitário
Outro erro ou outro acerto, em mim, um mundo solitário

Um mundo solitário, um mundo tão solitário

Não importa o quanto seja difícil pra que eu possa tentar, em um mundo solitário
Ninguém pode me ouvir quando eu choro, no meu mundo solitário
Eu nunca saberei as razões porque em mim existe um mundo solitário

Um mundo tão solitário

FM.