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As folhas caíram sobre o chão e mais uma vez o tempo passou. As melhores horas do dia eram representadas por toda lágrima depositada em nome de um sorriso perdido. As melhores sensações provadas faziam parte de uma memória que estaria por vir, dentro das possibilidades que se apresentavam pelo caminho. Como numa festa envenenada, injeções de ânimo e alegria pela melodia alcançada com êxito, o brilho de uma palavra conteve-se pelo simples prazer de sentir mais do que as letras podem expressar. Porque toda a marca jazia na sombra do passado e a luz das lembranças tornaram-se devastadas por uma sensação sem som. O perdão da regalia, um amor corrompido tempos atrás.
Entre os feridos, as folhas persistiam em cair. Diante da força de uma voz solitária, com o coração partido entre o céu e a terra, flutuavam os fantasmas que compunham o balé das sombras. Vidas tórridas e límpidas no momento da intoxicação.
Toda cor se desprendia. Em tons de sépia subiam a lua e as estrelas, penduradas pelo liame de vida que as faziam farfalhar uma luz indistinta. E as folhas insistiam em cair. O dia desbotava e a noite crescia diante da suave melodia impregnada na voz solitária, enquanto todas as estrelas caíam distantes, abaixo do céu, como numa chuva de luzes. Ao redor de todo o campo de visão não podia-se ver nada além do já esquecido, do perdoado. Era o fim daquela festa envenenada, era o início de um novo caminho trilhado acima do sofrimento e da dor.
A voz, colecionadora de lágrimas, presenciou a crescente onda de euforia contagiante em seu coração, outrora despedaçado. Enquanto as estrelas caíam, mais que luzes subiam. Seus olhos iluminados pelo torpor de se sentir feliz. As folhas não caíam mais. Eram estrelas que caíam. Eram velhas lembranças que se partiam sobre o chão, deixavam cacos e refletiam fantasmas que nunca se apagariam, mas partiam. Era o fim daquele mundo, diante do colecionador de lágrimas. Ou era a última cena presenciada por seus olhos. E, por mais que nunca fosse possível voltar ao passado, ele deveria? Ou ele poderia?
O brilho de seu sentimento o manteve no silêncio pronunciado na forma da melodia que entoava. E se feria com o apagar do dia, se feria quando a noite surgia, se feria com as palavras nunca ditas. Se feria com os sorrisos que nunca aconteceriam. Mas não sofria. Se feria quando as estrelas caíam, se feria com as lágrimas que escorriam, se feria com a falta dos momentos que não viveu. Mas não sofria. Porque, enquanto as estrelas caíam, se partiam sobre o chão, entre as folhas amareladas, tudo se quebrava. Era sua redenção, seu perdão precioso diante de toda a cicatriz.
Era sua maior demonstração de amor incondicional. Poderia ser sua festa envenenada, poderia estar errado, poderia se enganar. Mas era correto, era belo. Era sua maior demonstração de amadurecimento. Naquele momento, tatuado em sua pele, foram pronunciadas as únicas palavras que descreveriam sua sensação.
"Nós mostraremos a todos eles o que nós significamos."
O céu se desfazia. Os elos que suspendiam a noite caíam. Toda a escuridão tornou-se depósito de luzes mortas pelo tempo e pelo significado de perdoar. Pelo modo mais bonito, menos tortuoso. Pelo modo mais generoso ele mostrou a grandeza que havia dentro de si, o significado mais humilde já mostrado em nome do amor conspurcado. O perdão. Não havia sacrifício nem dor. Não havia ressentimento. O deserto árido de sua mente tomou as lágrimas e se tornou paciente.
Outrora esconderia as cicatrizes para disfarçar o espanto dos olhos alheios. Agora se feria mais uma vez para garantir o perdão de seu algoz.
Em seus olhos havia perdão.
Em seus pensamentos, havia o perdão.
Em seu coração, havia o perdão. E isso bastava, pois confiava em seu direito de dar uma última demonstração de afeto, antes de partir para o fim do mundo, ou para a última coisa que veria. Talvez caminhasse para uma armadilha, para uma festa envenenada. Mas seu coração estaria limpo do sangue que correu por seus olhos, em outro tempo.
O colecionador de lágrimas deixou os fantasmas para trás, limpou os olhos da cegueira que o ódio o causou. Na total escuridão, as estrelas caídas reverberavam uma luz ínfima.
Mas, exaurida naquele timbre, a voz do colecionador de lágrimas não tinha medo, ou ódio. Havia paz. Ou sonhos.
Ou nada.
Apenas uma página em branco, pronta para recomeçar. Entre os feridos, restavam cicatrizes curadas pelo poder que o tempo instituiu nos corações humanos, o poder do perdão que restituiu a serenidade na voz outrora silenciosa, agora entoada ao redor de injeções de ânimo daquela festa. Se era envenenada, se eram estrelas, se haveria luta, ou se era apenas o eco de sua nova realidade, a felicidade, ninguém jamais saberia.
Porque o colecionador de lágrimas partiu para o fim do mundo, ou para a última coisa que veria, no mundo de seus sonhos. Marcado pelas cicatrizes, porque nada seria realmente esquecido. Mas aqueles fantasmas nunca o atormentariam novamente, porque um novo entendimento se estendeu diante de seus próprios conceitos.
Não haveria como chorar para que tudo acabasse, como gritar para que tudo acabasse. Não haveria como desejar que tudo acabasse. Não era possível rabiscar as linhas que traçaram a história de um passado, antes que ele acabasse.
Não se pode lutar contra tudo, mas tudo tem um tempo determinado por Deus.
Quando o passado foi passado e o tempo mostrou que a maior dor é não esquecer a dor, a verdade libertou seu coração e o colecionador de lágrimas se soltou das correntes que o prendiam nas lembranças, fazendo-as cair, estilhaçando estrelas.
Aquele era seu anúncio de perdão. Sua partida ao desconhecido que se chamava futuro. Poderia ser errante, ou errado. Poderia ser envenenado. Mas era verdadeiro, valioso.
FM.
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