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Os dias passavam cada vez mais rápido. As horas corriam por seus olhos vertiginosamente, como em passes lúdicos de mágica. E logo o presente tenro tornava-se um passado amarelado e distante. Lucy olhava o céu pintado com estrelas e sentia algo em seu interior, como se uma lembrança fluisse em suas veias. Talvez fosse apenas sono, mas seus olhos perderam-se na escuridão ladreada em pontos de luz mínimos.
O vento, pois, assustava. Sua força impulsionava os galhos das árvores e produziam ruídos sincronizados das folhas, que se chocavam umas nas outras. Os olhos tremeluzentes de Lucy brilhavam com lágrimas curtas e grossas, que se impunham sobre sua face pálida de forma impiedosa. Suas mãos a abraçaram e ela cerrou as pálpebras, erguendo o queixo para inspirar o ar da noite em sua totalidade. Seus cabelos ondulavam em torno de seu rosto, emoldurando seu semblante sombriamente.
Mais um de seus sonhos partidos colidia com sua própria verdade, fazendo-a perder o sono. Mais uma de suas esperanças perdidas se mostrava cruelmente revestida de dor e arrependimento.
-Eu preciso dormir um pouco... - Seus lábios custaram a produzir, e sua voz falhou.
Mais lembranças de sua vida farfalharam entre as estrelas, ligeiramente.
Como no dia em que o sol se punha longe, e as flores num tom de rosa vivo caíam sobre o chão. Naquele dia Lucy conheceu algo que nunca mais esqueceria, a morte. Porque as flores caíam. Seu ciclo de vida havia acabado, elas murchariam no chão. Pereceriam. Assim como tudo deve um dia perecer, num destino que não mudará. Pois o tempo passaria implacável, para todos. Para tudo. Todos um dia seriam abandonados por alguém arrebatado pela morte, então o sonho de viver para sempre se quebrou.
Num dia seco e sem nuvens, Lucy vislumbrou o momento em que seu sonho de Felizes para Sempre se partiu. A partir daquele dia, nunca mais acreditou em contos de fada.
Seu ceticismo só cresceu, até o ponto de deixar de acreditar que tinha o poder de sonhar. Mas ela só precisava dormir um pouco até seus pesadelos tornarem-se corriqueiros, quase reais. Até acordar a si própria com algo como um grito, porque a escuridão a engoliu no momento em que perdeu sua última esperança, um sonho infantil que alimentava em silêncio. Algo tão secreto em seus pensamentos, como tudo o que parecia aparente em sua voz.
Lucy escutou sua própria voz dizer:
-Por trás de meu sorriso há um coração que teima em sangrar. Talvez eu só precise dormir um pouco.
Até que o vento levasse tudo para longe. Para que cada sorriso fosse o último a ser fingido pelo sacrifício de permanecer em silêncio. Lucy queria que aquela fosse a última vez que ela olharia o espelho e veria além de seu próprio erro refletido.
Tudo se colide, se parte. Até os que nunca reclamam, geralmente esgotam. Até os que nunca se cansam, geralmente esgotam.
FM
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