Even in Death

quinta-feira, 11 de agosto de 2011
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Então, mantive a calma. Minha respiração frágil deteve-se por um momento longo demais para ser considerado um segundo. Logo que um sorriso de descrença surgiu em minha boca, pude constatar que meus lábios estavam desidratados e pequenas rachaduras ácidas se formaram. E logo o sorriso se dissipou. A sensação de sede instalou-se no fundo de minha garganta e meus dedos trêmulos percorreram a pele de minha têmpora, escorregando até a base do pescoço, vagarosamente. Debilmente, talvez.

A dor me oprimiu, fazendo com que o peso em meus ombros fosse grande demais para que meu corpo pudesse suportar. Meus pés adormecidos pela densa pressão permaneciam gélidos, meus joelhos debilitaram e se renderam a cair ali. Tudo o que se podia captar por meus pulmões de repente não parecia suficiente para me manter viva, e minha voz apresentou rouquidão ao pedir ajuda. Meus punhos se fecharam com uma força a ponto de fazer minhas unhas se cravarem na carne.

Meu corpo tinha uma coloração exangue e meus olhos mostravam pavor. Doce possessão que se consumia em mim. Meus gritos estrangulados ecoavam como medo por todo o lugar, até paredes invisíveis se formarem ao redor. Os elos de agonia se desmancharam e tudo rodopiou, até entrar numa profunda escuridão.

Uma névoa espiralada formou-se através de meus olhos, como lágrimas dissipadas. O sangue me cobriu. Todas as fatalidades do passado se reuniram como fotografias recortadas, queimadas, conspurcadas. Pinturas e vitrais estilhaçando, retalhando, explodindo contra mim. Um fogo que consumiu toda a minha memória, todas as minhas lembranças, as boas e as ruins. Tão frágeis e errantes, espalhando-se pelo chão. Até tudo desaparecer.

Minhas mãos se apertaram em volta do meu peito e eu senti um vazio sem explicação, ou era apenas o lugar onde devia jazer meu coração. Apenas um buraco, justamente um buraco. Mais um grito de horror ficou preso em minha garganta, sufocante. Rasgada em fragmentos de passado. Apenas um passado distante, ou um presente tão latente quanto minha dor. Todo o meu tormento se repetindo a cada nova noite, com formas de pesadelos vivos. Minha dor descansava em meu próprio paraíso. Mas ali era o lugar onde se encontravam as sepulturas de minhas lembranças, e novamente eu estava ali, em uma terra obscura, distante, partida em pedaços. Como sempre estive.

Mesmo na morte de meus pensamentos passados, há fantasmas que assombrarão meus sonhos. Para todo o sempre.

FM.

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