'
De trás pra frente, e aqui vamos nós.
"Ele despertou.
'Diga que está acabado. Sim, está acabado. Mas eu preciso de você, de qualquer forma. Diga que me ama, mas nem isso será o bastante.'
Todos os cacos sobre o chão. As estrelas eram expectadoras atentas e não havia qualquer indício de vento, por mais que a noite merecesse toda aquela violência dos ventos de outubro. Um vento seco e indolor. Um corpo embebido em sangue jazia adormecido ali. Como os cacos sobre o chão. Um longo rastro de sangue trilhava reflexos da noite de luz intensa, que reverberava da lua.
'Não que eu seja muito diferente, não que eu não veja a mentira morta que costumávamos ser.'
Um papel encharcado pelo sangue jazia ali, sem qualquer menção de movimento. E um silêncio profuso seguia incólume, através daquele espaço de tempo no qual o sangue se espalhou pelo chão, sobre os cacos. Enquanto as marcas de sangue retornavam a sua fonte inicial, o corpo de um anjo, os rastros desapareciam. E a coloração escarlate do papel esvaecia, sugada. Dava espaço ao branco imaculado, com rastos de uma caligrafia confusa.
'Eu estou morrendo porque estou mentindo pra mim mesma.'
Quando totalmente limpa do vermelho do sangue, a carta subiu pelo ar, lentamente. Assim como o corpo, que se erguia desajeitado, como que puxado pelo ar. Em sua face a expressão era de ódio e terror. Medo. Sem pressa a carta apoiou-se à mão trêmula que passou a segurá-la com vigor, amassando o papel entre os dedos. E todos os cacos se moviam-se no chão, subindo pelo ar, numa chuva. Pequenos pingos de vidro reluzente sugados até passarem pelo corpo ensanguentado, levando consigo as marcas e as gotas de sangue, faziam o corpo totalmente regenerado.
'Quanto mais fico com você, mas sozinha eu fico.'
E todos os cacos montaram-se num quebra-cabeças confuso de vitrais, atrás do corpo. Juntaram-se aos poucos, flutuando pelo ar, sugados pela moldura talhada em pequenos arcos que formavam espirais com rosas e espinhos. O anjo olhou para o grande espelho, quase completamente remontado, sem nenhum estilhaço agora. E uma luz forte e momentânea refletiu ali, atrás de seu corpo, desaparecendo após, mergulhando todo o lugar em uma escuridão feita sob as sombras da lua.
'Mas você pode me ouvir? Pode me curar?'
Todas as lágrimas reais que umedeciam o chão logo desapareceram, subindo pelo ar. Até que retornassem a face lívida e rolassem por seu rosto, até seus olhos, mareando-os novamente. A mão trêmula que cobria seus lábios hesitantes voltou à carta que jazia em sua mão.
'Eu tenho gritado por dentro, e eu sei que você sente a dor...'
A carta subiu até o alcance de seus olhos, que se arrastaram pelas letras, até o início do texto. Sua expressão ia do medo à tranquilidade, ao quase sorriso. A um sorriso.
A carta foi recolocada no invólucro, agora intocado. Não havia conhecimento das palavras ali, pois. Logo o anjo caminhou com passos invertidos até a varanda, de costas. Seu corpo virou-se e admirou o céu, presenciando sua imensidão por uma última vez. O papel em suas mãos era leve e seguro.
'Congelada em meu lugar, deixo o momento certo escapar...'
O sorriso se desfez e ele caminhou de costas, a passos invertidos, até o espelho. Sua imagem era refletida em meio a escuridão. Seus dedos se ergueram até a superfície do espelho e tocaram-na. Os olhos eram vazios de expressão e, por um momento curto demais para se considerar um segundo, sombras o cobriram. E o sorriso reapareceu.
Como que vazio. Tanto quanto seus olhos. Falso. Congelado. Esculpido como uma estátua de mármore, e o ar entrava lentamente por suas narinas, espalhando-se por seus pulmões. Aspirações de uma alma morta pela dor e pela mudança. A mudança de um hábito digno apenas da nobreza, pois o amor foi sua única fonte de vida, por tanto tempo.
'Eu pensei que era forte, e que sabia todas as palavras que precisava dizer...'
Porque o relógio suga sua vida a cada segundo que se passa. Mas para aquele anjo o tempo se contava de trás pra frente. Seus olhos abertos pesavam gradativamente, e suas últimas palavras antes de ele adormecer, foram...
'Você tem sonhado se tem achado que eu ainda pertenço a você.'
FM.


