O céu se banhava em tons mínimos de
azul desbotado, e o sol irradiava um brilho fraco e solitário, por espaços
entre nuvens acinzentadas. Obtuso, oblongo, fendido, apetalado. E, mesmo que
triste, possuía a marca de ser uma estrela branca. A brisa circulava
placidamente; carregava poucas folhas amareladas, caídas sobre o chão. Movia-se
até o ápice do céu e decaía novamente, para bruxulear através dos prados.
Dissipava-se ao redor das cerejeiras e ipês amarelos, na época em que a vida de
suas flores começava a morrer.
As flores. Pequenas e delicadas e
vivas. Não por muito tempo. Assim como a beleza enumerada impossível, e a morte
abateu-as aos poucos, durante os dias. Como se com canções entoadas para
crianças, elas também adormecessem num sono sem sonhos.
E caíam.
E caíam.
Impossivelmente belas novamente,
retornavam tranquilas à terra de onde vieram. Manchavam o chão de amarelo e
rosa, até secarem ali, como as palavras que escaparam mortas dos lábios frios
de suspiro silencioso.
Como as palavras escritas que falharam
à ponta do lápis. Inacabadas. E, enquanto as estações ofereciam cenários
modificáveis, os amantes se espelhavam nas sombras das flores caídas, para
declarar seu amor. Ali, naquele refúgio tenro de um parque urbano, no entremeio
paradoxal entre o campo e as construções de concreto, a solidez rígida da
solidão era o prefixo para qualquer nome exibido, expelido, retalhado. Qualquer
significado, pois, era irreal. Não podia ser dito. Era a frieza da morte que
arrebatava os vivos para prisões com grilhões imaginários.
Naquele lugar, os pássaros se
amontoavam e comiam as migalhas de pães que as pessoas, inconscientemente,
perdidas dentro de si mesmas, jogavam.
O sol rastejava pelo chão. Procurava
por uma vida fria e cinzenta, mareada pelo orvalho da manhã, ou pela
precipitação da garoa, no fim da tarde. Mas, naquele lugar, entre os bancos
distribuídos pela praça do parque, um fantasma exibia lágrimas e regozijava sua
cólera. E não haveria fim.
Embora houvesse medo da escuridão do futuro.
E o vento transparecesse seu temor pelos
próximos dias.
Ainda que a bruma incandescente do amanhecer
mostrasse toda mácula presente em seu amor.
E o sol desaparecesse do céu, humilde.
Ainda que, para sempre e sempre, nada
permanecesse, nem o silêncio. E a chuva contornasse os olhos dela.
FM.




