'
Completa escuridão. Havia alguns ruídos ao longe, incompreendidos. Algumas palavras ácidas e frio. Dedos repelidos pelo suor e uma garganta travada pela dor. Num tempo em que o vento não permitia novos passos. O sol castigava seus olhos secos e seu queixo tremia num movimento hesitante e sôfrego. Seus lábios áridos silenciaram diante da melodia que calava os ruídos torturantes e todos os poros de sua epiderme se eriçaram com a sensação passiva do remorso. Ou talvez da incompreensão.
Tinha sido um tiro no escuro.
Uma completa escuridão. Vista de ângulos onde a luz do sol penetrava a redoma de agonia na qual sua mente havia mergulhado tempos atrás. Sua negação seria sua sepultura. Sua solidão era o preço do silêncio. Ele estava perdido para sempre em seus devaneios insanos de possuir a estrela perdida da felicidade. Aquele era um anjo feito para não ser feliz. Com suas mãos atadas e seus lábios amordaçados, costurados de forma negligente. E seus olhos. Seus olhos. Sua íris ambarada não possuía sequer visão de vida. Era profunda e vazia, como suas ações. Caminhando sem direção por um deserto coberto de vento, onde o céu era banhado pelo lado escuro do sol.
Tinha sido um tiro na escuridão.
Em seus pensamentos, restava a memória queimada das melodias pressionadas contra o tempo. As lágrimas que escorriam por seu rosto, num límpido tom de cristal. Seus olhos numa coloração avermelhada e as olheiras arroxeadas caindo por sua pele, faziam parte da causa de seu horror. Para toda a eternidade, fadado ao esquecimento.
Porque um tiro havia sido dado ao escuro.
Seu semblante rendido à dor sucumbiram ao ódio, uma última vez. Para sentir a lufada quente da cólera que se instalou em seus sonhos, à medida que se transformavam em pesadelos. Suas lembranças queimavam como se nunca mais houvesse um novo adeus. Seu coração se perdeu num vazio distante, onde jaziam as sepulturas e as cinzas de sua vida.
E um tiro foi dado no escuro, para além de todo o redor.
Sem chance para um novo dia. Suas memórias desapareciam com o tempo. Queimavam diante do limiar de seu passado. Havia silêncio. Sem chance para um novo dia.
Ele permaneceria trancafiado em sua própria solidão. Seus olhos expeliam dor, seus lábios presos por linhas mal costuradas. Suas mãos atadas para sempre. Nada além de seu sofrimento existiria, enquanto aquele tiro permanecesse na escuridão.
FM.
Agridoce
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
19:57
quarta-feira, 20 de julho de 2011
'
As manhãs se extinguiram e as portas se abriam para uma nova sensação. Nada. A essência do vazio cobriu o céu e as nuvens partiram. Tudo era nada. E não havia terra fria ou chuva. Nem o intenso nublado cinza que geralmente inundava aquele lugar existia. Nem o aroma fétido da poluição cobria a imensidão, nem as lágrimas do sol desciam até ali, para iluminar os caminhos. Não existia nada. Nada além de um painel róseo e de alguns pesadelos. Era o vazio mais denso e rarefeito que Sophie já presenciara.
À medida em que caminhava, sentia que o vento deixara de existir. E a sensação de frio e calor. Não havia dor. Mas não havia nada, nem cor, nem escuridão. Em seus pensamentos, não restavam nem lembranças. Tudo era um grande e agridoce vazio. Ela tentou gritar, mas de sua garganta nenhum ruído escapou. Suas mãos se agarraram ao pescoço e ela se debateu em vão. Talvez sua garganta até produzisse voz, mas seus ouvidos não captavam nenhum som. Ela ajoelhou-se em algo que considerou macio demais para ser chão e deixou que algumas lágrimas se liberassem. Mas não havia lágrimas em seus olhos, a tez de sua pele estava seca e sua boca pedia por água.
Seu mundo girou. Deu várias voltas até que Sophie cambaleou pelo vazio, sem cair. Tentava sentar-se, mas o vazio interminável mostrava-se implacável até no momento em que flexionou os joelhos. Seus olhos visualizaram o lugar onde ela acharia o céu e o painel róseo parecia manchado por uma névoa tão branca quanto sua pele. Mas não era uma névoa comum.
Ela girou em volta do próprio corpo e viu-se perdida. Seus olhos faiscavam de medo e sua pele arrepiava, enquanto a névoa a envolvia e a transportava para um lugar diferente de tudo o que ela já tinha visto. Agora tudo era escuridão.
Presa em uma teia invisível, ela tentava se desvencilhar. Sophie gritava e conseguia ouvir o eco de sua voz tão distante que a sensação de frio e solidão se partiu em duas metades. E seus olhos sangravam. Lágrimas que mostravam o que suas palavras nunca poderiam dizer. Seus olhos feridos e cansados, mortos. Seu peito não palpitava mais e seus dedos enrijeciam com a morbidez de sua prisão. Ela olhou o alto novamente e pôde escutar o eco de seu grito transformado em canção.
-Você não está sozinha, Eu estarei bem ao seu lado para todo o sempre...
E somente no momento em que a luz refletida em voz circundou as grades imaginárias que a prendiam, ela pôde cair no chão, de joelhos.
Asas tremulavam plácidas ao seu redor, encobrindo-a. O frio acabou. Tudo acabou novamente. Tudo voltou ao vazio em que Sophie se encontrava, no início. Suas próprias asas. Ela engoliu em seco e ergueu-se. Todos os mínimos centímetros de sua epiderme doíam, mas ela manteve a expressão lívida. Seus olhos possuíam olheiras profundas e manchas de sangue que a chuva da noite anterior não conseguiram limpar. Suas faces encovadas tinham um tom exangue. Seus lábios pálidos estavam rachadas. Seu vestido agora tinha uma coloração enegrecida, como se queimada por labaredas de um fogo impiedoso.
O sabor em sua boca era agridoce. Suas asas haviam sido queimadas, assim como as vestes. Tatuagens de fitas pretas subiam por seus braços, formando espirais. Espirais de névoa que subiam por seus pés, que se erguiam do chão lentamente, pelo movimento de suas asas.
Até o infinito...
FM.
As manhãs se extinguiram e as portas se abriam para uma nova sensação. Nada. A essência do vazio cobriu o céu e as nuvens partiram. Tudo era nada. E não havia terra fria ou chuva. Nem o intenso nublado cinza que geralmente inundava aquele lugar existia. Nem o aroma fétido da poluição cobria a imensidão, nem as lágrimas do sol desciam até ali, para iluminar os caminhos. Não existia nada. Nada além de um painel róseo e de alguns pesadelos. Era o vazio mais denso e rarefeito que Sophie já presenciara.
À medida em que caminhava, sentia que o vento deixara de existir. E a sensação de frio e calor. Não havia dor. Mas não havia nada, nem cor, nem escuridão. Em seus pensamentos, não restavam nem lembranças. Tudo era um grande e agridoce vazio. Ela tentou gritar, mas de sua garganta nenhum ruído escapou. Suas mãos se agarraram ao pescoço e ela se debateu em vão. Talvez sua garganta até produzisse voz, mas seus ouvidos não captavam nenhum som. Ela ajoelhou-se em algo que considerou macio demais para ser chão e deixou que algumas lágrimas se liberassem. Mas não havia lágrimas em seus olhos, a tez de sua pele estava seca e sua boca pedia por água.
Seu mundo girou. Deu várias voltas até que Sophie cambaleou pelo vazio, sem cair. Tentava sentar-se, mas o vazio interminável mostrava-se implacável até no momento em que flexionou os joelhos. Seus olhos visualizaram o lugar onde ela acharia o céu e o painel róseo parecia manchado por uma névoa tão branca quanto sua pele. Mas não era uma névoa comum.
Ela girou em volta do próprio corpo e viu-se perdida. Seus olhos faiscavam de medo e sua pele arrepiava, enquanto a névoa a envolvia e a transportava para um lugar diferente de tudo o que ela já tinha visto. Agora tudo era escuridão.
Presa em uma teia invisível, ela tentava se desvencilhar. Sophie gritava e conseguia ouvir o eco de sua voz tão distante que a sensação de frio e solidão se partiu em duas metades. E seus olhos sangravam. Lágrimas que mostravam o que suas palavras nunca poderiam dizer. Seus olhos feridos e cansados, mortos. Seu peito não palpitava mais e seus dedos enrijeciam com a morbidez de sua prisão. Ela olhou o alto novamente e pôde escutar o eco de seu grito transformado em canção.
-Você não está sozinha, Eu estarei bem ao seu lado para todo o sempre...
E somente no momento em que a luz refletida em voz circundou as grades imaginárias que a prendiam, ela pôde cair no chão, de joelhos.
Asas tremulavam plácidas ao seu redor, encobrindo-a. O frio acabou. Tudo acabou novamente. Tudo voltou ao vazio em que Sophie se encontrava, no início. Suas próprias asas. Ela engoliu em seco e ergueu-se. Todos os mínimos centímetros de sua epiderme doíam, mas ela manteve a expressão lívida. Seus olhos possuíam olheiras profundas e manchas de sangue que a chuva da noite anterior não conseguiram limpar. Suas faces encovadas tinham um tom exangue. Seus lábios pálidos estavam rachadas. Seu vestido agora tinha uma coloração enegrecida, como se queimada por labaredas de um fogo impiedoso.
O sabor em sua boca era agridoce. Suas asas haviam sido queimadas, assim como as vestes. Tatuagens de fitas pretas subiam por seus braços, formando espirais. Espirais de névoa que subiam por seus pés, que se erguiam do chão lentamente, pelo movimento de suas asas.
Até o infinito...
FM.
Última Nota
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
20:03
quarta-feira, 6 de julho de 2011
'
Carta de Lucy à Sirius:
Não há tiro no escuro, assim como não há preparação sem alvo. O objetivo de cada um pode ser erguido diante de nuvens escuras e cheias de estática, mas é com quem está ao seu lado, com suas próprias deficiências e dores, que você deve se preocupar. Então não morrerei por você, não mastigarei meu tempo moendo lágrimas por você. Nunca mais perderei meu tempo sofrendo por algo que o tempo vai me dar razão. E talvez não haja caminho de volta.
Lucy.
Carta de Lucy à Sirius:
Não há tiro no escuro, assim como não há preparação sem alvo. O objetivo de cada um pode ser erguido diante de nuvens escuras e cheias de estática, mas é com quem está ao seu lado, com suas próprias deficiências e dores, que você deve se preocupar. Então não morrerei por você, não mastigarei meu tempo moendo lágrimas por você. Nunca mais perderei meu tempo sofrendo por algo que o tempo vai me dar razão. E talvez não haja caminho de volta.
Lucy.
Lost - Within Temptation
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
19:58
'
Minha esperança está em chamas,
os meus sonhos estão à venda
Eu danço num fio, mas não quero deixá-la
Eu caminho contra a corrente,
luto por aquilo em que acredito
Eu corro para o fim, tentando não desistir
Ela está perdida na escuridão, desaparecendo
Eu ainda estou aqui, gritando seu nome
Ela está assombrando o meu mundo de sonhos,
tentando sobreviver
Meu coração está congelado,
eu estou perdendo a razão
Me ajude, eu estou enterrada viva
Enterrada viva
Estou queimando as pontes e não há retorno
Estou tentando alcançá-la, eu sinto que ela anseia
Eu caminho contra a corrente,
luto por aquilo em que acredito
Eu corro para o fim tentando não desistir
Ela está perdida na escuridão, desaparecendo
Eu ainda estou aqui, gritando seu nome
Ela está assombrando o meu mundo de sonhos,
tentando sobreviver
Meu coração está congelado,
eu estou perdendo a razão
Me ajude, eu estou enterrada viva
Enterrada viva
Eu estou tentando reanimar o que já se afogou
Eles pensam que eu sou uma tola que não consegue perceber
A esperança joga um estranho jogo com a mente
Porque eu achava que o amor atava-se a ferida
Não posso reviver o que já se afogou
Ela não vai voltar
FM.
Minha esperança está em chamas,
os meus sonhos estão à venda
Eu danço num fio, mas não quero deixá-la
Eu caminho contra a corrente,
luto por aquilo em que acredito
Eu corro para o fim, tentando não desistir
Ela está perdida na escuridão, desaparecendo
Eu ainda estou aqui, gritando seu nome
Ela está assombrando o meu mundo de sonhos,
tentando sobreviver
Meu coração está congelado,
eu estou perdendo a razão
Me ajude, eu estou enterrada viva
Enterrada viva
Estou queimando as pontes e não há retorno
Estou tentando alcançá-la, eu sinto que ela anseia
Eu caminho contra a corrente,
luto por aquilo em que acredito
Eu corro para o fim tentando não desistir
Ela está perdida na escuridão, desaparecendo
Eu ainda estou aqui, gritando seu nome
Ela está assombrando o meu mundo de sonhos,
tentando sobreviver
Meu coração está congelado,
eu estou perdendo a razão
Me ajude, eu estou enterrada viva
Enterrada viva
Eu estou tentando reanimar o que já se afogou
Eles pensam que eu sou uma tola que não consegue perceber
A esperança joga um estranho jogo com a mente
Porque eu achava que o amor atava-se a ferida
Não posso reviver o que já se afogou
Ela não vai voltar
FM.
Buried Alive
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
19:55
'
Durou alguns dias até que eu pudesse retornar a ter vontade de escrever algo aqui. Acho que pelo fato de eu estar sendo mal interpretada pelas palavras e ações, eu nunca tive muitas pretensões, e perdi a vontade de mostrar algo, mostrar tudo. Mas, diante de tantos dias nos quais eu não pude detonar o que eu queria dizer, passei por dias ruins, é. Eu me vi mais uma vez tão perdida em palavras soltas quanto sempre estive. Enterrada viva novamente.
O poder de demonstrar emoções não ficou para todos e eu posso dizer com supremacia que sou daquelas que não tem muito para demonstrar, porque eu não acho que sejam necessárias palavras para falar o que se sente, e somente. São ações que provam a veracidade de palavras escritas ou ditas, não é verdade? Ninguém consegue fingir em tempo integral. E, se você quer saber mesmo, meu coração congelou anos atrás, e não pretende voltar a ativa.
Minha mente maculou-se a tantos anos que nem tenho a mínima ideia de quando e como aconteceu. Eu me perdi em meio a uma escuridão que preencheu um vazio ininterrupto por tantos dias e meses e anos, que me acostumei. Perdi minha consciência. Talvez esse lugar seja apenas um refúgio, o reino da Branca de Neve. Mas eu sei que caí num lugar onde é melhor o silêncio, e nada melhor que escritos para comprovar na sua leitura silenciosa das palavras que meu lugar é o silêncio.
E que você também se transforma em silêncio, às vezes mórbido, quando entra neste reino, enterrado na escuridão. Profusamente escrito por borrões de luz que apagam e acendem à medida que os dias passam por mim, mas eu me vi completamente enterrada nele, hoje, e por isso voltei a minha casa. Eu precisava relatar para meu próprio lugar criado por mim para derrubar minhas lágrimas, e não apenas guardá-las como tenho feito.
Não, eu não preciso de ajuda. De ninguém. Eu sou daquelas que sofrem sozinhas e não pedem ajuda. Nunca pedi, e você não vai me ver pedindo ajuda com facilidade. Se eu pedir um remédio, é porque estou à beira da morte. Você vai me ver sorrir, sempre, até se eu quiser chorar, porque meu corpo criou esse mecanismo de defesa. Porque eu precisava sobreviver às adversidades que se passaram, porque eu não podia pedir ajuda. Nunca pude, até quando eu queria. Não conseguia. Eu simplesmente nunca consegui pedir ajuda. E agora eu estou sozinha novamente, num vazio tão solitário quanto a anos atrás.
Lá vamos nós de novo. Porque eu sou tão fácil de decifrar e tão difícil de se fazer compreender. Porque eu só queria poder ser avaliada da forma como sou, não da forma como pareço ser. E ninguém nunca me pediu perdão por me julgar de forma tão dura e intensa, nem de dizer que eu sou a pior das pessoas quando eu só queria chorar. Porque o peso do mundo caiu sobre minhas costas e tudo o que eu pude fazer foi pedir desculpas para as paredes pela má impressão que causei.
Brilhante. Sou como um fantasma que viveu numa época distante e sobrevive de migalhas que friamente são dispostas em silêncio sobre o chão. Enterrada viva. Foi mais ou menos o que aconteceu. Eu nem ao menos falo nada para ninguém. E as vezes tenho a impressão de que todos sentem raiva perto de mim, que rejeitam qualquer das minhas ideias. Talvez seja. Talvez mais uma vez eu seja a mal interpretada, ou seja apenas a dura crítica esnobe da opinião alheia. A que não merece saber do que quiser, quando quiser, se quiser, até quando puder.
Que seja. Eu jurei pra mim mesma tantas vezes que cansei. E, por mais que seja óbvio, eu sei qe vou apanhar mais uma vez, porque o silêncio diário e a falta de convivência com seres humanos diversos me trouxe um pouco de inocência, e eu me odeio por isso. Porque eu sei que ainda sou a única, mesmo que todos falem o contrário a tanto tempo. E minhas palavras só fazem sentido pra mim. Que seja.
Tudo bem. Eu sei que estou sozinha e que ficarei sozinha, não precisa repetir. Eu sei que não tem muita gente ligando para além do próprio umbigo e que sei que só machuca a mim mesma a ideia de tanto tempo fugindo. Sei que é tudo uma grande farsa, um teatro vazio e impassível. Não é frieza natural, é distância concreta. É somente a amostra grátis do que será mais tarde uma indiferença frígida, e é disso que eu estou falando.
Um dia eu prometi sob a descrença, e eu cumpri. Eu cumpro. Sempre cumprirei. Mas eu fui a única a escrever naquele caderninho, porque ninguém achou que fosse mudar. Mas eu permaneci. E sinto falta, porque eu ainda estou aqui. Ainda sou um fantasma que chora sozinho no silêncio de uma salinha escura. E espera, em vão, por uma solução.
FM.
Durou alguns dias até que eu pudesse retornar a ter vontade de escrever algo aqui. Acho que pelo fato de eu estar sendo mal interpretada pelas palavras e ações, eu nunca tive muitas pretensões, e perdi a vontade de mostrar algo, mostrar tudo. Mas, diante de tantos dias nos quais eu não pude detonar o que eu queria dizer, passei por dias ruins, é. Eu me vi mais uma vez tão perdida em palavras soltas quanto sempre estive. Enterrada viva novamente.
O poder de demonstrar emoções não ficou para todos e eu posso dizer com supremacia que sou daquelas que não tem muito para demonstrar, porque eu não acho que sejam necessárias palavras para falar o que se sente, e somente. São ações que provam a veracidade de palavras escritas ou ditas, não é verdade? Ninguém consegue fingir em tempo integral. E, se você quer saber mesmo, meu coração congelou anos atrás, e não pretende voltar a ativa.
Minha mente maculou-se a tantos anos que nem tenho a mínima ideia de quando e como aconteceu. Eu me perdi em meio a uma escuridão que preencheu um vazio ininterrupto por tantos dias e meses e anos, que me acostumei. Perdi minha consciência. Talvez esse lugar seja apenas um refúgio, o reino da Branca de Neve. Mas eu sei que caí num lugar onde é melhor o silêncio, e nada melhor que escritos para comprovar na sua leitura silenciosa das palavras que meu lugar é o silêncio.
E que você também se transforma em silêncio, às vezes mórbido, quando entra neste reino, enterrado na escuridão. Profusamente escrito por borrões de luz que apagam e acendem à medida que os dias passam por mim, mas eu me vi completamente enterrada nele, hoje, e por isso voltei a minha casa. Eu precisava relatar para meu próprio lugar criado por mim para derrubar minhas lágrimas, e não apenas guardá-las como tenho feito.
Não, eu não preciso de ajuda. De ninguém. Eu sou daquelas que sofrem sozinhas e não pedem ajuda. Nunca pedi, e você não vai me ver pedindo ajuda com facilidade. Se eu pedir um remédio, é porque estou à beira da morte. Você vai me ver sorrir, sempre, até se eu quiser chorar, porque meu corpo criou esse mecanismo de defesa. Porque eu precisava sobreviver às adversidades que se passaram, porque eu não podia pedir ajuda. Nunca pude, até quando eu queria. Não conseguia. Eu simplesmente nunca consegui pedir ajuda. E agora eu estou sozinha novamente, num vazio tão solitário quanto a anos atrás.
Lá vamos nós de novo. Porque eu sou tão fácil de decifrar e tão difícil de se fazer compreender. Porque eu só queria poder ser avaliada da forma como sou, não da forma como pareço ser. E ninguém nunca me pediu perdão por me julgar de forma tão dura e intensa, nem de dizer que eu sou a pior das pessoas quando eu só queria chorar. Porque o peso do mundo caiu sobre minhas costas e tudo o que eu pude fazer foi pedir desculpas para as paredes pela má impressão que causei.
Brilhante. Sou como um fantasma que viveu numa época distante e sobrevive de migalhas que friamente são dispostas em silêncio sobre o chão. Enterrada viva. Foi mais ou menos o que aconteceu. Eu nem ao menos falo nada para ninguém. E as vezes tenho a impressão de que todos sentem raiva perto de mim, que rejeitam qualquer das minhas ideias. Talvez seja. Talvez mais uma vez eu seja a mal interpretada, ou seja apenas a dura crítica esnobe da opinião alheia. A que não merece saber do que quiser, quando quiser, se quiser, até quando puder.
Que seja. Eu jurei pra mim mesma tantas vezes que cansei. E, por mais que seja óbvio, eu sei qe vou apanhar mais uma vez, porque o silêncio diário e a falta de convivência com seres humanos diversos me trouxe um pouco de inocência, e eu me odeio por isso. Porque eu sei que ainda sou a única, mesmo que todos falem o contrário a tanto tempo. E minhas palavras só fazem sentido pra mim. Que seja.
Tudo bem. Eu sei que estou sozinha e que ficarei sozinha, não precisa repetir. Eu sei que não tem muita gente ligando para além do próprio umbigo e que sei que só machuca a mim mesma a ideia de tanto tempo fugindo. Sei que é tudo uma grande farsa, um teatro vazio e impassível. Não é frieza natural, é distância concreta. É somente a amostra grátis do que será mais tarde uma indiferença frígida, e é disso que eu estou falando.
Um dia eu prometi sob a descrença, e eu cumpri. Eu cumpro. Sempre cumprirei. Mas eu fui a única a escrever naquele caderninho, porque ninguém achou que fosse mudar. Mas eu permaneci. E sinto falta, porque eu ainda estou aqui. Ainda sou um fantasma que chora sozinho no silêncio de uma salinha escura. E espera, em vão, por uma solução.
FM.
A Blue Mockingjay*
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
19:24
'
Bem dentro da campina, sob o salgueiro
Uma cama de grama, um macio travesseiro verde
Deite sua cabeça, e feche seus olhos sonolentos
E quando de novo eles abrirem, o sol nascerá.
Aqui é seguro, aqui é quente
Aqui as margaridas te guardam de qualquer dano
Aqui seus sonhos são doces e o amanhã os tornará verdadeiros
Aqui é o lugar onde eu te amo.
Bem dentro da campina, escondido longe
Um manto de folhas, um raio de lua irradia
Esqueça suas tristezas e deixe seus problemas aquietarem
E quando de novo for amanhã, eles irão partir.
Aqui é seguro, aqui é quente
Aqui as margaridas te guardam de qualquer dano
Aqui seus sonhos são doces e o amanhã os tornará verdadeiros
Aqui é o lugar onde eu te amo.
*Canção tirada do Livro Jogos Vorazes. Por sinal, leitura boa. Recomendo.
Bem dentro da campina, sob o salgueiro
Uma cama de grama, um macio travesseiro verde
Deite sua cabeça, e feche seus olhos sonolentos
E quando de novo eles abrirem, o sol nascerá.
Aqui é seguro, aqui é quente
Aqui as margaridas te guardam de qualquer dano
Aqui seus sonhos são doces e o amanhã os tornará verdadeiros
Aqui é o lugar onde eu te amo.
Bem dentro da campina, escondido longe
Um manto de folhas, um raio de lua irradia
Esqueça suas tristezas e deixe seus problemas aquietarem
E quando de novo for amanhã, eles irão partir.
Aqui é seguro, aqui é quente
Aqui as margaridas te guardam de qualquer dano
Aqui seus sonhos são doces e o amanhã os tornará verdadeiros
Aqui é o lugar onde eu te amo.
*Canção tirada do Livro Jogos Vorazes. Por sinal, leitura boa. Recomendo.
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Iesu, Rex admirabilis
Et triumphator nobilis,
Dulcedo ineffabilis,
Totus desiderabilis.
Et triumphator nobilis,
Dulcedo ineffabilis,
Totus desiderabilis.
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