Tiro na Escuridão

terça-feira, 26 de julho de 2011
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Completa escuridão. Havia alguns ruídos ao longe, incompreendidos. Algumas palavras ácidas e frio. Dedos repelidos pelo suor e uma garganta travada pela dor. Num tempo em que o vento não permitia novos passos. O sol castigava seus olhos secos e seu queixo tremia num movimento hesitante e sôfrego. Seus lábios áridos silenciaram diante da melodia que calava os ruídos torturantes e todos os poros de sua epiderme se eriçaram com a sensação passiva do remorso. Ou talvez da incompreensão.

Tinha sido um tiro no escuro.

Uma completa escuridão. Vista de ângulos onde a luz do sol penetrava a redoma de agonia na qual sua mente havia mergulhado tempos atrás. Sua negação seria sua sepultura. Sua solidão era o preço do silêncio. Ele estava perdido para sempre em seus devaneios insanos de possuir a estrela perdida da felicidade. Aquele era um anjo feito para não ser feliz. Com suas mãos atadas e seus lábios amordaçados, costurados de forma negligente. E seus olhos. Seus olhos. Sua íris ambarada não possuía sequer visão de vida. Era profunda e vazia, como suas ações. Caminhando sem direção por um deserto coberto de vento, onde o céu era banhado pelo lado escuro do sol.

Tinha sido um tiro na escuridão.

Em seus pensamentos, restava a memória queimada das melodias pressionadas contra o tempo. As lágrimas que escorriam por seu rosto, num límpido tom de cristal. Seus olhos numa coloração avermelhada e as olheiras arroxeadas caindo por sua pele, faziam parte da causa de seu horror. Para toda a eternidade, fadado ao esquecimento.

Porque um tiro havia sido dado ao escuro.

Seu semblante rendido à dor sucumbiram ao ódio, uma última vez. Para sentir a lufada quente da cólera que se instalou em seus sonhos, à medida que se transformavam em pesadelos. Suas lembranças queimavam como se nunca mais houvesse um novo adeus. Seu coração se perdeu num vazio distante, onde jaziam as sepulturas e as cinzas de sua vida.

E um tiro foi dado no escuro, para além de todo o redor.

Sem chance para um novo dia. Suas memórias desapareciam com o tempo. Queimavam diante do limiar de seu passado. Havia silêncio. Sem chance para um novo dia.

Ele permaneceria trancafiado em sua própria solidão. Seus olhos expeliam dor, seus lábios presos por linhas mal costuradas. Suas mãos atadas para sempre. Nada além de seu sofrimento existiria, enquanto aquele tiro permanecesse na escuridão.

FM.

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