Buried Alive

quarta-feira, 6 de julho de 2011
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Durou alguns dias até que eu pudesse retornar a ter vontade de escrever algo aqui. Acho que pelo fato de eu estar sendo mal interpretada pelas palavras e ações, eu nunca tive muitas pretensões, e perdi a vontade de mostrar algo, mostrar tudo. Mas, diante de tantos dias nos quais eu não pude detonar o que eu queria dizer, passei por dias ruins, é. Eu me vi mais uma vez tão perdida em palavras soltas quanto sempre estive. Enterrada viva novamente.

O poder de demonstrar emoções não ficou para todos e eu posso dizer com supremacia que sou daquelas que não tem muito para demonstrar, porque eu não acho que sejam necessárias palavras para falar o que se sente, e somente. São ações que provam a veracidade de palavras escritas ou ditas, não é verdade? Ninguém consegue fingir em tempo integral. E, se você quer saber mesmo, meu coração congelou anos atrás, e não pretende voltar a ativa.

Minha mente maculou-se a tantos anos que nem tenho a mínima ideia de quando e como aconteceu. Eu me perdi em meio a uma escuridão que preencheu um vazio ininterrupto por tantos dias e meses e anos, que me acostumei. Perdi minha consciência. Talvez esse lugar seja apenas um refúgio, o reino da Branca de Neve. Mas eu sei que caí num lugar onde é melhor o silêncio, e nada melhor que escritos para comprovar na sua leitura silenciosa das palavras que meu lugar é o silêncio.

E que você também se transforma em silêncio, às vezes mórbido, quando entra neste reino, enterrado na escuridão. Profusamente escrito por borrões de luz que apagam e acendem à medida que os dias passam por mim, mas eu me vi completamente enterrada nele, hoje, e por isso voltei a minha casa. Eu precisava relatar para meu próprio lugar criado por mim para derrubar minhas lágrimas, e não apenas guardá-las como tenho feito.

Não, eu não preciso de ajuda. De ninguém. Eu sou daquelas que sofrem sozinhas e não pedem ajuda. Nunca pedi, e você não vai me ver pedindo ajuda com facilidade. Se eu pedir um remédio, é porque estou à beira da morte. Você vai me ver sorrir, sempre, até se eu quiser chorar, porque meu corpo criou esse mecanismo de defesa. Porque eu precisava sobreviver às adversidades que se passaram, porque eu não podia pedir ajuda. Nunca pude, até quando eu queria. Não conseguia. Eu simplesmente nunca consegui pedir ajuda. E agora eu estou sozinha novamente, num vazio tão solitário quanto a anos atrás.

Lá vamos nós de novo. Porque eu sou tão fácil de decifrar e tão difícil de se fazer compreender. Porque eu só queria poder ser avaliada da forma como sou, não da forma como pareço ser. E ninguém nunca me pediu perdão por me julgar de forma tão dura e intensa, nem de dizer que eu sou a pior das pessoas quando eu só queria chorar. Porque o peso do mundo caiu sobre minhas costas e tudo o que eu pude fazer foi pedir desculpas para as paredes pela má impressão que causei.

Brilhante. Sou como um fantasma que viveu numa época distante e sobrevive de migalhas que friamente são dispostas em silêncio sobre o chão. Enterrada viva. Foi mais ou menos o que aconteceu. Eu nem ao menos falo nada para ninguém. E as vezes tenho a impressão de que todos sentem raiva perto de mim, que rejeitam qualquer das minhas ideias. Talvez seja. Talvez mais uma vez eu seja a mal interpretada, ou seja apenas a dura crítica esnobe da opinião alheia. A que não merece saber do que quiser, quando quiser, se quiser, até quando puder.

Que seja. Eu jurei pra mim mesma tantas vezes que cansei. E, por mais que seja óbvio, eu sei qe vou apanhar mais uma vez, porque o silêncio diário e a falta de convivência com seres humanos diversos me trouxe um pouco de inocência, e eu me odeio por isso. Porque eu sei que ainda sou a única, mesmo que todos falem o contrário a tanto tempo. E minhas palavras só fazem sentido pra mim. Que seja.

Tudo bem. Eu sei que estou sozinha e que ficarei sozinha, não precisa repetir. Eu sei que não tem muita gente ligando para além do próprio umbigo e que sei que só machuca a mim mesma a ideia de tanto tempo fugindo. Sei que é tudo uma grande farsa, um teatro vazio e impassível. Não é frieza natural, é distância concreta. É somente a amostra grátis do que será mais tarde uma indiferença frígida, e é disso que eu estou falando.

Um dia eu prometi sob a descrença, e eu cumpri. Eu cumpro. Sempre cumprirei. Mas eu fui a única a escrever naquele caderninho, porque ninguém achou que fosse mudar. Mas eu permaneci. E sinto falta, porque eu ainda estou aqui. Ainda sou um fantasma que chora sozinho no silêncio de uma salinha escura. E espera, em vão, por uma solução.




FM.

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