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As manhãs se extinguiram e as portas se abriam para uma nova sensação. Nada. A essência do vazio cobriu o céu e as nuvens partiram. Tudo era nada. E não havia terra fria ou chuva. Nem o intenso nublado cinza que geralmente inundava aquele lugar existia. Nem o aroma fétido da poluição cobria a imensidão, nem as lágrimas do sol desciam até ali, para iluminar os caminhos. Não existia nada. Nada além de um painel róseo e de alguns pesadelos. Era o vazio mais denso e rarefeito que Sophie já presenciara.
À medida em que caminhava, sentia que o vento deixara de existir. E a sensação de frio e calor. Não havia dor. Mas não havia nada, nem cor, nem escuridão. Em seus pensamentos, não restavam nem lembranças. Tudo era um grande e agridoce vazio. Ela tentou gritar, mas de sua garganta nenhum ruído escapou. Suas mãos se agarraram ao pescoço e ela se debateu em vão. Talvez sua garganta até produzisse voz, mas seus ouvidos não captavam nenhum som. Ela ajoelhou-se em algo que considerou macio demais para ser chão e deixou que algumas lágrimas se liberassem. Mas não havia lágrimas em seus olhos, a tez de sua pele estava seca e sua boca pedia por água.
Seu mundo girou. Deu várias voltas até que Sophie cambaleou pelo vazio, sem cair. Tentava sentar-se, mas o vazio interminável mostrava-se implacável até no momento em que flexionou os joelhos. Seus olhos visualizaram o lugar onde ela acharia o céu e o painel róseo parecia manchado por uma névoa tão branca quanto sua pele. Mas não era uma névoa comum.
Ela girou em volta do próprio corpo e viu-se perdida. Seus olhos faiscavam de medo e sua pele arrepiava, enquanto a névoa a envolvia e a transportava para um lugar diferente de tudo o que ela já tinha visto. Agora tudo era escuridão.
Presa em uma teia invisível, ela tentava se desvencilhar. Sophie gritava e conseguia ouvir o eco de sua voz tão distante que a sensação de frio e solidão se partiu em duas metades. E seus olhos sangravam. Lágrimas que mostravam o que suas palavras nunca poderiam dizer. Seus olhos feridos e cansados, mortos. Seu peito não palpitava mais e seus dedos enrijeciam com a morbidez de sua prisão. Ela olhou o alto novamente e pôde escutar o eco de seu grito transformado em canção.
-Você não está sozinha, Eu estarei bem ao seu lado para todo o sempre...
E somente no momento em que a luz refletida em voz circundou as grades imaginárias que a prendiam, ela pôde cair no chão, de joelhos.
Asas tremulavam plácidas ao seu redor, encobrindo-a. O frio acabou. Tudo acabou novamente. Tudo voltou ao vazio em que Sophie se encontrava, no início. Suas próprias asas. Ela engoliu em seco e ergueu-se. Todos os mínimos centímetros de sua epiderme doíam, mas ela manteve a expressão lívida. Seus olhos possuíam olheiras profundas e manchas de sangue que a chuva da noite anterior não conseguiram limpar. Suas faces encovadas tinham um tom exangue. Seus lábios pálidos estavam rachadas. Seu vestido agora tinha uma coloração enegrecida, como se queimada por labaredas de um fogo impiedoso.
O sabor em sua boca era agridoce. Suas asas haviam sido queimadas, assim como as vestes. Tatuagens de fitas pretas subiam por seus braços, formando espirais. Espirais de névoa que subiam por seus pés, que se erguiam do chão lentamente, pelo movimento de suas asas.
Até o infinito...
FM.
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