'
***
-Eu irei.
-Sabe que não pode, Matthew. Quem está falando não é seu pai, apenas. Agora quem está falando é o rei.
-Pai, eu realmente não me importo. Eu preciso encontrar a princesa que me salvou. Eu vou procura-la.
-Você quase morreu, ao seguir viagem pra procurar “aventuras”. Já não te basta essa menina salvar você uma vez?
Mas o rei não acreditava que aquilo tivesse realmente ocorrido. Não imaginava de onde o filho marinheiro tirara a história, mas tinha uma certeza, não existia a possibilidade de uma princesa estar em alto mar e nadar com Matthew nos braços até a areia, deixa-lo lá e ter sumido. De onde ela vinha? Para onde teria ido? Era uma fantasia, um logro qualquer do sol e do mar, na cabeça do filho. Nisso ele acreditava.
-E o que eu vou fazer? Esperar de braços cruzados que ela venha até mim? E se isso não acontecer... – Matthew baixou o olhar e soltou o ar pela boca, vencido pela lembrança fraca que possuía da menina.
-Se ela gostar tanto de você, quanto você gosta dela, ela virá até aqui... Se não gostar, não vale a pena correr risco de morte. Ouça-me, eu sei do que estou falando. – o rei balbuciou, apertando o ombro do filho, sentado sobre a cama.
-Pai... Posso pedir uma coisa?
-Claro. – Matthew olhou nos olhos do pai e fungou.
-Mande uma guarda real para procurar por ela nos reinos vizinhos. Não vai ser difícil encontra-la, dessa forma. – o pai sorriu com o canto dos lábios.
-Providenciarei isso. Tenha paciência e seja sábio para esperar, agora isso é assunto real e eu encontrarei sua princesa.
O príncipe sorriu, sentiu uma ponta de esperança espinhar seu peito, era algo fácil de imaginar, um sonho para sonhar, talvez uma futura realidade a se criar, diante daquelas palavras do rei. Mas havia algo e seu pensamento que o fez refletir sobre aquela e todas as atitudes anteriores de seu pai. Que sempre quis exercer seu poder sobre o filho, como um soberano exerce sobre seus súditos, tirando de Matthew, desde criança, seu próprio direito de ser quem ele realmente queria ser.
Algo toma parte de mim
Algo perdido e antes nunca visto
E no momento em que eu comecei a acreditar
Algo foi levado de mim...
A vida está sempre mexendo comigo
Eles não podem relaxar e me deixar ser livre?
Eu não posso me livrar de toda essa angústia?
Eu tenho tentado me livrar daquele rosto, tudo em vão, em vão
Às vezes eu não agüento esse lugar
Às vezes é a minha vida que eu não posso experimentar
Às vezes eu não sinto o meu rosto
Algo toma parte de mim... Algo como um anjo salvador
Você e eu fomos feitos um para o outro
Algo toma parte de mim... Algo como um anjo perfeito
Me fazendo sentir sensações que nunca experimentei
Como se eu não tivesse escapatória
Quantas vezes eu já me senti assim?
Nenhuma só vez, diante das ondas do mar
Mas...
Nada na minha vida é de graça, é de graça
E agora eu não agüento esse lugar
Agora minha vida é algo que não quero experimentar
E eu não sinto mais do mesmo jeito
Você nunca sairá de meus sonhos
Algo toma parte de mim... Um anjo salvador
Você e eu fomos feitos um para o outro
Algo toma parte de mim... Um anjo perfeito
Então Lutarei! Por alguma coisa...
Lutarei! Por alguma coisa eu lutarei!
Então! Por algumas coisas...
Por você eu lutarei...
Algo toma parte de mim... Um anjo salvador
Você e eu fomos feitos um para o outro
Algo toma parte de mim... Um anjo perfeito
Parte de mim
***
O sol se punha, àquela hora. Ariel jogou os cabelos secos para trás e mirou o horizonte poente por uma última vez, com uma ideia não tão bela quanto o por do sol. Mergulhou na profundeza azul e nadou o mais rápido que podia, descendo cada vez mais fundo, até a luz do dia que acabava inexistir. Passou por sua casa e levou alguns amuletos no pescoço, voltou a nadar. Chegou ao seu destino em pouco tempo.
Aquela era a casa da Bruxa do Mar. Ariel mirou a caverna submarina e sentiu um arrepio cruzar o corpo, pela aparência mórbida do lugar. Várias enguias nadavam em volta das pedras escuras cobertas de musgo. A escuridão era densa a ponto de parecer tangível pelas mãos. A pequena sereia se abraçou e pensou em desistir.
-Venha, Ariel... Entre em minha casa... No fim, isso valerá... – uma voz serpentina e sem corpo ecoava ao redor da caverna, dentro dos ouvidos de Ariel. A menina soltou algumas bolhas pela boca e sussurrou para si mesma:
-Tenho que tentar. Preciso me libertar disso.
Ela entrou na caverna. Uma luz se espalhou abruptamente por todo o lugar e Ariel a visualizou. A bruxa do mar era uma sereia tão bonita que nem parecia real. Tinha longos cabelos claros como o sol matutino. A pele era branca o bastante para se confundir com o mármore que edificava o reino de seu pai. A boca e os traços de sua face eram delicadamente desenhados, parecia uma pintura vista através da água.
Mas no fundo de seus olhos azuis havia um fantasma sombrio e cadavérico que se debatia, preso por correntes assassinas.
-O que a traz aqui, Ariel...? – várias vozes femininas saíram da garganta da bela sereia, e as luzes que clareavam a caverna brilharam com mais força ao ouvir os timbres ecoando ali.
-Quero pernas. – a pequena sereia falou, sentindo o próprio timbre mais imperioso que seu verdadeiro sentimento no momento.
-Vejo um amor pulsar em seu coração... – as vozes gracejaram, afinadas como num cântico sincronizado. Ariel sorriu minimamente, assentindo.
-Preciso encontra-lo.
***
Continua...
FM.
A Princesa Dos Mares - 4ª parte
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
11:31
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
A Princesa Dos Mares - 3ª parte
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
10:56
sábado, 22 de janeiro de 2011
'
Uma bela imagem desacordada, pensou Ariel, enquanto puxava o humano até um lugar seguro. Ela nadava o mais rápido que podia, para chegar a terra em tempo de acordá-lo. Seus braços seguravam o corpo desacordado sem força. Um torpedo se formava atrás dela, enquanto batia a cauda contra a água, nadando sem esforço pelo mar outrora agitado. As nuvens começavam a dissipar no céu, e o sol surgia em alguns pontos, com sua luz radiante penetrando o cinza.
A pequena sereia logo entendeu a beleza de que tanto suas irmãs falavam. Aquela era a imagem mais bela que ela já havia presenciado. E logo a areia estava à vista, um grande farol se erguia numa colina, derrubando sua luz no mar. Aos poucos perdia vida para a luz que emanava do céu. Algumas gaivotas passeavam tranquilas, riscavam o céu de negro, manchavam o ruído produzido pelas ondas, com seu cantar. Ariel se arrastou até a areia e repousou o corpo do marinheiro humano ali, perto da água.
Por alguns segundos, seus olhos se fixaram nele, em seus traços fortes. Ariel tocou a face do humano com as pontas dos dedos, sentindo-as espinhar nos pelos ralos de seu maxilar. Seus lábios entreabriram e ela puxou o ar pela boca, sentindo que a falta da água era estranhamente reposta pela invisibilidade do vento. Então os olhos do humano se mexeram e a pequena sereia se retraiu. Lembrava-se do aviso de seu pai e de sua avó. Era proibido falar com Humanos. Mas algo a fazia ficar, como uma força inexplicável.
E a cor dos olhos dele era de um verde parecido com a água do mar, de tempos em tempos. Sua face produziu um sorriso e seus olhos se encantaram com a beleza dele. Foi momentâneo. Logo a pequena sereia ouviu gritos de pessoas e passos se aproximando. Por medo, ou cautela, ela olhou em volta e não viu ninguém ali, mas deixou os belos olhos verdes do humano a fitarem mais uma vez, para poder se arrastar de volta ao mar.
***
-E então Ariel, como foi na superfície? Achamos que se demorou demais lá. Viu algo interessante? – perguntou a irmã mais velha da pequena sereia, enquanto todas as irmãs se reuniam em volta da ruiva mais nova.
-Nada demais. O céu estava cinza... O vento é invisível, mas tive uma boa sensação quando tocou meu rosto. – ela sorriu, paciente. As irmãs não pareciam satisfeitas.
-Mesmo assim, eu soube que uma grande embarcação passou por aqui, hoje... Na hora em que você saiu.
-Ah sim... E eu tomei bastante cuidado para que ninguém me visse.
-Tinha humanos lá?! – uma assustada perguntou.
-Tinha. – Ariel retorquiu, resoluta. – Mas eu não quero mais falar sobre isso. Estou cansada.
E a pequena sereia saiu do aposento de cores claras e adornos em formas de conchas com pérolas de várias cores. Foi até seu lugar preferido no reino, uma torre de onde conseguia ver toda a região de corais, em sua explosão de cores vivas. Entreabriu os lábios e sentiu o sabor salgado da água entrar por sua boca. Em algum lugar de sua mente, uma voz pronunciou balbuciando que o ar era melhor que a água. E sua visão turvou por um instante, transformando a imagem dos corais na imagem do humano de olhos verdes.
Aquela imagem era ainda mais bela em suas memórias. O coração de Ariel se removeu por um instante do peito, num pungir dilacerante, mas não doía. Ela se sentia estranhamente bem. Sentia, ao pensar nele, que poderia até voar, como as gaivotas que planavam no céu. Tudo por aqueles olhos. E seu sorriso era o mais verdadeiro, tudo por aqueles olhos. Era um momento de euforia, o que se passava no interior de Ariel. Tudo por aqueles olhos.
***
Seu corpo ainda doído parecia ressacado. Matthew pestanejou e olhou a sua volta, tentando recobrar a visão. Franziu o cenho e apoiou a mão em algo que julgou macio demais para ser a areia da praia, e consistente demais para ser a água do mar. Estava são e salvo no leito de sua cama. Sentou-se e tentou buscar nas memórias o momento no qual sabia que tinha sido salvo, mas tudo que vinha a sua mente era a face rosada emoldurada por cabelos escuros que vira assim que acordara, sob o sol.
Mas não conseguia lembrar seu nome. Ou de que região era sua salvadora, ou o porque de tão bela menina estar tão longe, em mar aberto. Em uma resposta lógica, mas não muito animadora, ele distinguiu que havia tido alucinações e vertigens enquanto fugia da morte. Mas aquela face de anjo era real demais para ser alucinação, e se fosse... Aquela era a sua imagem de perfeição, produzida por sua mente, na hora em que foi salvo por seu anjo da guarda. Só podia ser, aquela era sua explicação.
Mas não era uma explicação lógica. Ele se perguntou se aquela era a maneira como a mente humana trabalhava, quando posta a pressão da morte.
-Eu ainda a encontrarei...
***
Dias e noites se passaram. Um mês se passou desde aquela manhã cinza, nublada, na qual uma grande embarcação cruzou o caminho da pequena sereia, num salvamento atormentador. Desde aquele dia, os que se seguiram perderam o sabor que a vida tinha. Ariel se entregara a uma ilusão de olhos verdes e expressão forte. Seus pensamentos a prendiam numa redoma de sonhos sem precedentes, e a face dele era o centro de todos os seus devaneios, ela dormia. Passava as horas divagando pela escuridão, nas profundezas frias do oceano. Ela se perguntava se o veria novamente, no porque de as circunstâncias os separarem.
Mas, com o passar das datas, a esperança de reencontrar o humano diminuíam em seu coração, transformando-o em deserto. Se ela deixasse de acreditar, no entanto, talvez não houvesse seu amanhã, pois seu coração devotava um amor crescente por aquela imagem viva em sua memória.
-Talvez, algum dia, eu estarei mais perto de você, se eu acreditar.
Nunca se sentira tão estranha. Tão triste, tão sozinha, tão sem vida, tão doente. Numa manhã tão cinzenta quanto aquela, saiu do reino e nadou até a superfície, perto do recife que adornava as águas límpidas do litoral de uma ilha. Sentou-se numa pedra e pôs-se a fitar a ilha e o farol onde deixou o humano. Fantasiou seu encontro com ele por algum tempo, um sorriso sutil espalhou-se por sua face pálida.
E entoou canções. Seu canto, porém, tinha algo de solitário demais para encantar a todos, novamente. Ariel não era mais a mesma, desde seu encontro com o humano que roubou seu coração e levou sua alegria, prendendo-a dentro do verde dos olhos, a tanto tempo.
Todo dia, toda noite
Eu vejo seu rosto na minha mente
Eu não sei se vou ver seus olhos de novo
Eu sei, você me deixou, mas, só por enquanto
Eu senti como se você estivesse bem aqui
As circunstâncias o tiraram de mim
Eu sinto seu olhar quando estou sozinha
Eu não consigo acreditar que você não está aqui, eu não concordo
Todo dia, toda noite
Eu vejo seu rosto na minha mente
Eu nunca vou ouvir suas palavras?
Nós vamos nos encontrar um dia
Todo dia, toda noite
Eu vejo seu rosto na minha mente
Eu verei seus olhos novamente, ouvirei suas palavras
Nós vamos nos encontrar novamente
Foi um dia chuvoso
A primeira, a última vez que uni nossas mãos
Estávamos nadando pelo mesmo caminho
Mas eu tive que ir. Deixar você sozinho
Você nunca mais olhou nos meus olhos
E é isso que me faz derramar as lágrimas do oceano
Aqui é o lugar onde posso orar
E agora eu tenho que orar pela sua alma
Para que você se cure
Pelo nosso reencontro...
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
***
Continua.
FM.
Uma bela imagem desacordada, pensou Ariel, enquanto puxava o humano até um lugar seguro. Ela nadava o mais rápido que podia, para chegar a terra em tempo de acordá-lo. Seus braços seguravam o corpo desacordado sem força. Um torpedo se formava atrás dela, enquanto batia a cauda contra a água, nadando sem esforço pelo mar outrora agitado. As nuvens começavam a dissipar no céu, e o sol surgia em alguns pontos, com sua luz radiante penetrando o cinza.
A pequena sereia logo entendeu a beleza de que tanto suas irmãs falavam. Aquela era a imagem mais bela que ela já havia presenciado. E logo a areia estava à vista, um grande farol se erguia numa colina, derrubando sua luz no mar. Aos poucos perdia vida para a luz que emanava do céu. Algumas gaivotas passeavam tranquilas, riscavam o céu de negro, manchavam o ruído produzido pelas ondas, com seu cantar. Ariel se arrastou até a areia e repousou o corpo do marinheiro humano ali, perto da água.
Por alguns segundos, seus olhos se fixaram nele, em seus traços fortes. Ariel tocou a face do humano com as pontas dos dedos, sentindo-as espinhar nos pelos ralos de seu maxilar. Seus lábios entreabriram e ela puxou o ar pela boca, sentindo que a falta da água era estranhamente reposta pela invisibilidade do vento. Então os olhos do humano se mexeram e a pequena sereia se retraiu. Lembrava-se do aviso de seu pai e de sua avó. Era proibido falar com Humanos. Mas algo a fazia ficar, como uma força inexplicável.
E a cor dos olhos dele era de um verde parecido com a água do mar, de tempos em tempos. Sua face produziu um sorriso e seus olhos se encantaram com a beleza dele. Foi momentâneo. Logo a pequena sereia ouviu gritos de pessoas e passos se aproximando. Por medo, ou cautela, ela olhou em volta e não viu ninguém ali, mas deixou os belos olhos verdes do humano a fitarem mais uma vez, para poder se arrastar de volta ao mar.
***
-E então Ariel, como foi na superfície? Achamos que se demorou demais lá. Viu algo interessante? – perguntou a irmã mais velha da pequena sereia, enquanto todas as irmãs se reuniam em volta da ruiva mais nova.
-Nada demais. O céu estava cinza... O vento é invisível, mas tive uma boa sensação quando tocou meu rosto. – ela sorriu, paciente. As irmãs não pareciam satisfeitas.
-Mesmo assim, eu soube que uma grande embarcação passou por aqui, hoje... Na hora em que você saiu.
-Ah sim... E eu tomei bastante cuidado para que ninguém me visse.
-Tinha humanos lá?! – uma assustada perguntou.
-Tinha. – Ariel retorquiu, resoluta. – Mas eu não quero mais falar sobre isso. Estou cansada.
E a pequena sereia saiu do aposento de cores claras e adornos em formas de conchas com pérolas de várias cores. Foi até seu lugar preferido no reino, uma torre de onde conseguia ver toda a região de corais, em sua explosão de cores vivas. Entreabriu os lábios e sentiu o sabor salgado da água entrar por sua boca. Em algum lugar de sua mente, uma voz pronunciou balbuciando que o ar era melhor que a água. E sua visão turvou por um instante, transformando a imagem dos corais na imagem do humano de olhos verdes.
Aquela imagem era ainda mais bela em suas memórias. O coração de Ariel se removeu por um instante do peito, num pungir dilacerante, mas não doía. Ela se sentia estranhamente bem. Sentia, ao pensar nele, que poderia até voar, como as gaivotas que planavam no céu. Tudo por aqueles olhos. E seu sorriso era o mais verdadeiro, tudo por aqueles olhos. Era um momento de euforia, o que se passava no interior de Ariel. Tudo por aqueles olhos.
***
Seu corpo ainda doído parecia ressacado. Matthew pestanejou e olhou a sua volta, tentando recobrar a visão. Franziu o cenho e apoiou a mão em algo que julgou macio demais para ser a areia da praia, e consistente demais para ser a água do mar. Estava são e salvo no leito de sua cama. Sentou-se e tentou buscar nas memórias o momento no qual sabia que tinha sido salvo, mas tudo que vinha a sua mente era a face rosada emoldurada por cabelos escuros que vira assim que acordara, sob o sol.
Mas não conseguia lembrar seu nome. Ou de que região era sua salvadora, ou o porque de tão bela menina estar tão longe, em mar aberto. Em uma resposta lógica, mas não muito animadora, ele distinguiu que havia tido alucinações e vertigens enquanto fugia da morte. Mas aquela face de anjo era real demais para ser alucinação, e se fosse... Aquela era a sua imagem de perfeição, produzida por sua mente, na hora em que foi salvo por seu anjo da guarda. Só podia ser, aquela era sua explicação.
Mas não era uma explicação lógica. Ele se perguntou se aquela era a maneira como a mente humana trabalhava, quando posta a pressão da morte.
-Eu ainda a encontrarei...
***
Dias e noites se passaram. Um mês se passou desde aquela manhã cinza, nublada, na qual uma grande embarcação cruzou o caminho da pequena sereia, num salvamento atormentador. Desde aquele dia, os que se seguiram perderam o sabor que a vida tinha. Ariel se entregara a uma ilusão de olhos verdes e expressão forte. Seus pensamentos a prendiam numa redoma de sonhos sem precedentes, e a face dele era o centro de todos os seus devaneios, ela dormia. Passava as horas divagando pela escuridão, nas profundezas frias do oceano. Ela se perguntava se o veria novamente, no porque de as circunstâncias os separarem.
Mas, com o passar das datas, a esperança de reencontrar o humano diminuíam em seu coração, transformando-o em deserto. Se ela deixasse de acreditar, no entanto, talvez não houvesse seu amanhã, pois seu coração devotava um amor crescente por aquela imagem viva em sua memória.
-Talvez, algum dia, eu estarei mais perto de você, se eu acreditar.
Nunca se sentira tão estranha. Tão triste, tão sozinha, tão sem vida, tão doente. Numa manhã tão cinzenta quanto aquela, saiu do reino e nadou até a superfície, perto do recife que adornava as águas límpidas do litoral de uma ilha. Sentou-se numa pedra e pôs-se a fitar a ilha e o farol onde deixou o humano. Fantasiou seu encontro com ele por algum tempo, um sorriso sutil espalhou-se por sua face pálida.
E entoou canções. Seu canto, porém, tinha algo de solitário demais para encantar a todos, novamente. Ariel não era mais a mesma, desde seu encontro com o humano que roubou seu coração e levou sua alegria, prendendo-a dentro do verde dos olhos, a tanto tempo.
Todo dia, toda noite
Eu vejo seu rosto na minha mente
Eu não sei se vou ver seus olhos de novo
Eu sei, você me deixou, mas, só por enquanto
Eu senti como se você estivesse bem aqui
As circunstâncias o tiraram de mim
Eu sinto seu olhar quando estou sozinha
Eu não consigo acreditar que você não está aqui, eu não concordo
Todo dia, toda noite
Eu vejo seu rosto na minha mente
Eu nunca vou ouvir suas palavras?
Nós vamos nos encontrar um dia
Todo dia, toda noite
Eu vejo seu rosto na minha mente
Eu verei seus olhos novamente, ouvirei suas palavras
Nós vamos nos encontrar novamente
Foi um dia chuvoso
A primeira, a última vez que uni nossas mãos
Estávamos nadando pelo mesmo caminho
Mas eu tive que ir. Deixar você sozinho
Você nunca mais olhou nos meus olhos
E é isso que me faz derramar as lágrimas do oceano
Aqui é o lugar onde posso orar
E agora eu tenho que orar pela sua alma
Para que você se cure
Pelo nosso reencontro...
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
***
Continua.
FM.
A Pontuação da Vida
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
18:53
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
'
So por mais alguns segundos, eu vi algo que sustentou todo o meu corpo em um momento. Foi a cena mais triste que vi durante todo o fim de semana. Devia ser mais um ponto final, em mais uma história humana fatídica. Mais uma vida que se esvaía com a pureza escarlate do sangue no asfalto. Sabe, eu tive um segundo de presença naquele ponto final, mas fi o bastante para que o cinza daquela tarde envolvesse meus pensamentos. Funerais sempre me fazem pensar.
Era o mar que ondulava em sua eternidade, era o sol que reinava no céu, àquela hora da manhã. Era a criança que brincava e sorria, alheia às últimas notícias, e a viagem acabou naquela mesma tarde. No meio do caminho, havia mais que estrada e algumas boas músicas. Havia um cadáver na estrada, esperando ser levado pelo carro do ITEP. Nunca fui familiarizada com cadáveres, por essa razão, enquanto os outros iam olhar, permaneci sentada no banco do carro, esperando.
O que eu nunca podia imaginar era que, do lugar onde eu estava, fosse possível visualizar o exato momento em que o cadáver foi removido do chão, colocado dentro do container do ITEP. Quer que eu diga a verdade? Foi tão triste quanto presenciar a morte de uma pessoa próxima a mim. Era tão frágil, tão vulnerável. Estava morto. Ponto final. Pontos finais me dão um frio na espinha.
É que o sinal de ponto final às vezes pode interromper tanta coisa. Como um casamento prestes a acontecer, como uma vida toda pela frente... Mas as vezes pode ser o ponto final que alivia uma dor, um sofrimento. Uns dizem que pontos finais podem ser castigo, mas eu não acredito nisso. Quem mandaria esse castigo para humanos? Deus? Não... Deus é um pai perfeito, pais perfeitos não precisam castigar os filhos, e, apesar de algumas religiões dividirem as pessoas em Filhos de Deus e reles criaturas...
Não penso que Deus faz distinção entre humanos. São todos suas criações, e a todos ele chamou de filhos. E ele é perfeito, não castiga ninguém. Ele é perfeito, escreve certo, por linhas certas. Mas dá o poder de escolha a nós... Aí nós entortamos tudo. E tem gente que ainda culpa Deus por seus problemas.
"Ai meu Deus, essa unha encravada ta me matando!"
Por favor, pense numa menina de quinze anos com um bebê recém nascido nos braços e a ferida recém aberta de ver os pais morrerem, o namorado morrer, a casa desabar e ficar sem nada, nem ninguém, como aconteceu no último desastre no Rio de Janeiro. Ali estavam vários pontos finais que deram sobra para as reticências da garota, ao ser perguntada por seu futuro.
Então, quando pensar na sua unha encravada, ou na internet que não funciona, ou na antena que não está funcionando, por isso você está perdendo a Novela da tarde... Ou no fato de não ter sorvete na geladeira, ou na roupa que você queria comprar, mas não tem o dinheiro no momento... Quando pensar nisso, lembre-se que esses são apenas parênteses da sua vida. E que Deus não está te maltratando, tudo o que te acontece são consequências dos seus atos.
Uma doença é uma fatalidade. Um acidente pode ser imprudência, outra fatalidade. Cadáveres na estrada e lágrimas e funerais são características de pontos finais, mas você não está num ponto final. Deixe exclamações tristes por causa de parênteses e construa exclamações felizes.
Muitas interrogações aparecerão, mas viva-as. A verdadeira beleza da vida não está em murmurar ou reclamar das adversidades, está em saber conviver com os obstáculos que fazem da nossa vida, uma vida humana. É por isso que eu continuo persistindo na teoria de que é preciso força, coragem, alegria e espírito esportivo, para conseguir sobreviver em nosso mundo. Sorria mais, antes que chegue seu ponto final. Todas as manhãs eu escuto uma oração que diz:
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.
Sacou a parada? Eu acredito nisso, sabe a sensação de dar um presente e ver que a pessoa gostou? Pelo menos pra mim é assim, é muito melhor dar que receber um presente. Experimente isso, é minha dica pra hoje. Não deixe que pontos finais te abalem, pois eles ficaram para quem já se foi. A pontuação da vida é você quem faz. Se você está aqui, deixe que suas palavras e seus atos iluminem o caminho por onde você passar. Você verá que tudo será mais feliz, até seu ponto final.
Até mais, boa noite.
FM.
So por mais alguns segundos, eu vi algo que sustentou todo o meu corpo em um momento. Foi a cena mais triste que vi durante todo o fim de semana. Devia ser mais um ponto final, em mais uma história humana fatídica. Mais uma vida que se esvaía com a pureza escarlate do sangue no asfalto. Sabe, eu tive um segundo de presença naquele ponto final, mas fi o bastante para que o cinza daquela tarde envolvesse meus pensamentos. Funerais sempre me fazem pensar.
Era o mar que ondulava em sua eternidade, era o sol que reinava no céu, àquela hora da manhã. Era a criança que brincava e sorria, alheia às últimas notícias, e a viagem acabou naquela mesma tarde. No meio do caminho, havia mais que estrada e algumas boas músicas. Havia um cadáver na estrada, esperando ser levado pelo carro do ITEP. Nunca fui familiarizada com cadáveres, por essa razão, enquanto os outros iam olhar, permaneci sentada no banco do carro, esperando.
O que eu nunca podia imaginar era que, do lugar onde eu estava, fosse possível visualizar o exato momento em que o cadáver foi removido do chão, colocado dentro do container do ITEP. Quer que eu diga a verdade? Foi tão triste quanto presenciar a morte de uma pessoa próxima a mim. Era tão frágil, tão vulnerável. Estava morto. Ponto final. Pontos finais me dão um frio na espinha.
É que o sinal de ponto final às vezes pode interromper tanta coisa. Como um casamento prestes a acontecer, como uma vida toda pela frente... Mas as vezes pode ser o ponto final que alivia uma dor, um sofrimento. Uns dizem que pontos finais podem ser castigo, mas eu não acredito nisso. Quem mandaria esse castigo para humanos? Deus? Não... Deus é um pai perfeito, pais perfeitos não precisam castigar os filhos, e, apesar de algumas religiões dividirem as pessoas em Filhos de Deus e reles criaturas...
Não penso que Deus faz distinção entre humanos. São todos suas criações, e a todos ele chamou de filhos. E ele é perfeito, não castiga ninguém. Ele é perfeito, escreve certo, por linhas certas. Mas dá o poder de escolha a nós... Aí nós entortamos tudo. E tem gente que ainda culpa Deus por seus problemas.
"Ai meu Deus, essa unha encravada ta me matando!"
Por favor, pense numa menina de quinze anos com um bebê recém nascido nos braços e a ferida recém aberta de ver os pais morrerem, o namorado morrer, a casa desabar e ficar sem nada, nem ninguém, como aconteceu no último desastre no Rio de Janeiro. Ali estavam vários pontos finais que deram sobra para as reticências da garota, ao ser perguntada por seu futuro.
Então, quando pensar na sua unha encravada, ou na internet que não funciona, ou na antena que não está funcionando, por isso você está perdendo a Novela da tarde... Ou no fato de não ter sorvete na geladeira, ou na roupa que você queria comprar, mas não tem o dinheiro no momento... Quando pensar nisso, lembre-se que esses são apenas parênteses da sua vida. E que Deus não está te maltratando, tudo o que te acontece são consequências dos seus atos.
Uma doença é uma fatalidade. Um acidente pode ser imprudência, outra fatalidade. Cadáveres na estrada e lágrimas e funerais são características de pontos finais, mas você não está num ponto final. Deixe exclamações tristes por causa de parênteses e construa exclamações felizes.
Muitas interrogações aparecerão, mas viva-as. A verdadeira beleza da vida não está em murmurar ou reclamar das adversidades, está em saber conviver com os obstáculos que fazem da nossa vida, uma vida humana. É por isso que eu continuo persistindo na teoria de que é preciso força, coragem, alegria e espírito esportivo, para conseguir sobreviver em nosso mundo. Sorria mais, antes que chegue seu ponto final. Todas as manhãs eu escuto uma oração que diz:
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.
Sacou a parada? Eu acredito nisso, sabe a sensação de dar um presente e ver que a pessoa gostou? Pelo menos pra mim é assim, é muito melhor dar que receber um presente. Experimente isso, é minha dica pra hoje. Não deixe que pontos finais te abalem, pois eles ficaram para quem já se foi. A pontuação da vida é você quem faz. Se você está aqui, deixe que suas palavras e seus atos iluminem o caminho por onde você passar. Você verá que tudo será mais feliz, até seu ponto final.
Até mais, boa noite.
FM.
A Princesa Dos Mares - 2ª parte
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
22:25
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
'
Um belo amanhecer cinzento fora da água. Na civilização submarina, aquele era um dia de festa. Ariel logo se dirigiu até a avó, na esperança de realizar seu sonho infantil de conhecer a superfície. E teve seu pedido atendido, mas, no momento em que Ariel saía do quarto da avó, esta murmurou alheia à sua própria consciência.
-Tome cuidado, menina, ou o sangue que reveste a cor de seus cabelos se esvairá na espuma do oceano.
E adormeceu. A pequena sereia observou a avó adormecida por algum tempo, sentindo a ansiedade por ver o tão famoso céu se transformar lentamente em medo. Ariel saiu dali, sendo vencida pela curiosidade, em direção à superfície. A medida em que a água ficava mais clara, os dedos de suas mãos delicadas formigavam de excitação. E ela viu o espelho d'água se aproximar, tornando a linha tênue que dividia superfície e mar mais visível.
Ariel parou a poucos centímetros do limite. Olhou atentamente ao redor, onde uns peixes iam para lá e para cá. Deixou umas bolhas se formarem em sua boca, soltando-as e cruzou aquela linha com os dedos. Se espantou no início, por ter sido tão fácil sair da água e voltou os dedos, os ergueu novamente e sentiu a brisa fria da manhã perpassar seus dedos, logo soube que se tratava do famoso vento que suas irmãs falavam.
E era tão maravilhoso quanto em sua imaginação. A pequena sereia emergiu e fechou os olhos, sentindo o vento cortar sua face molhada pela primeira vez. Pôs as mãos sobre o rosto e tocou a face meio seca, sorrindo boba. Ariel ergueu a cabeça e abriu os olhos, tentando se acostumar com a nova visão ao redor. Porém o céu não tinha as cores que suas irmãs falavam. Estava tão cinza quanto a areia que revestia o chão do mar. E ela divagou sobre o porquê de o céu mudar tanto de forma e cor, e sua sorte de não ver as cores que tanto ansiava em ver.
E um ruído estranho a fez olhar para o lado. Uma grande corrente de vento se desenrolou pela superfície, fazendo o mar calmo se transformar numa tormenta de ondas violentas. E, como labaredas no meio do oceano, os cabelos de Ariel voaram para trás, com o vento. Seus olhos se apertaram e lá ao longe ela viu algo que a fez nadar um pouco para trás. Era negro, era grande, uma enorme pedra que se movimentava no meio das ondas, imponente.
Uma grande embarcação. Ela se exasperou. Havia um humano caindo do gigante negro. Ariel nadou até lá, num impulso de salvar aquela vida.
***
Rendido ele estava. Matthew se encontrava perdido a seis passos da água, na prancha. Aquele era seu fim, não haveria volta para casa, ele engoliu em seco. Seu caminhar trêmulo à extremidade da embarcação era tão encurralado quanto seu sonho de cruzar aquele mar, na esperança de encontrar uma nova aventura. Um marinheiro à beira da morte no mar, sem chance de voltar para casa. Sem chance de ver o farol, no fim do dia, iluminando seu caminho.
Enquanto seus pés se aproximavam da queda, sua mente vagava longe, naquele momento ele acreditou que, ao morrer, se vê um filme da vida passando em frente aos olhos. E muitos arrependimentos pesaram em suas costas, muitos erros ele viu. Muitos desejos se remontaram em seu coração. E, por mais que tentasse se segurar em seus sonhos, não haveria mais nada, além da água gélida cortando seu corpo, como se mil espadas penetrassem sua pele, dali a pouco.
-PULA, marujo, Pula! Não temos paciência para a realeza. – bradou o homem que empunhava a espada ameaçadora, até o peito de Matthew.
Num último suspiro, o ar salgado da maresia penetrou suas narinas. Ouviu-se um trovão cortar o silêncio. Um prelúdio para a morte. E seu corpo entrou numa queda livre em direção a tormenta de ondas que se destacava no tom profundamente azul da água. Estava acabado. Ou pelo menos, ele pensou assim. Mas algo como fogo saía do mar e seus olhos captaram. Sua garganta gritou, à poucos centímetros da água.
-Salve-me!
Por favor, venha agora, eu estou caindo
Estou me segurando em tudo que acho ser seguro
Parece que eu achei a estrada para o mar
E eu estou tentando escapar
Eu gritei quando ouvi o trovão
Mas estou no meu um último suspiro
E com ele deixe-me dizer,
Deixe-me dizer
Salve-me agora
Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que
Talvez seis passos
Não sejam tão distantes assim.
Estou olhando para baixo agora que tudo acabou
Refletindo sobre todos os meus erros
Eu pensei que havia encontrado a estrada para algum lugar
Eu clamei aos céus "salve-me"
Mas estou em meu último suspiro
E com ele deixe-me dizer,
Deixe-me dizer
Salve-me agora
Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que
Talvez seis passos
Não sejam tão distantes assim.
Olhos tristes me seguem
Então eu ainda acredito que tenha restado algo para mim
Por favor, venha até mim...
Salve-me agora
Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que
Talvez seis passos
Não sejam tão distantes assim
Por favor, venha agora, eu estou caindo
Eu estou me segurando em tudo que acho ser seguro
Sei que somente você pode me salvar...
***
Continua.
FM.
Um belo amanhecer cinzento fora da água. Na civilização submarina, aquele era um dia de festa. Ariel logo se dirigiu até a avó, na esperança de realizar seu sonho infantil de conhecer a superfície. E teve seu pedido atendido, mas, no momento em que Ariel saía do quarto da avó, esta murmurou alheia à sua própria consciência.
-Tome cuidado, menina, ou o sangue que reveste a cor de seus cabelos se esvairá na espuma do oceano.
E adormeceu. A pequena sereia observou a avó adormecida por algum tempo, sentindo a ansiedade por ver o tão famoso céu se transformar lentamente em medo. Ariel saiu dali, sendo vencida pela curiosidade, em direção à superfície. A medida em que a água ficava mais clara, os dedos de suas mãos delicadas formigavam de excitação. E ela viu o espelho d'água se aproximar, tornando a linha tênue que dividia superfície e mar mais visível.
Ariel parou a poucos centímetros do limite. Olhou atentamente ao redor, onde uns peixes iam para lá e para cá. Deixou umas bolhas se formarem em sua boca, soltando-as e cruzou aquela linha com os dedos. Se espantou no início, por ter sido tão fácil sair da água e voltou os dedos, os ergueu novamente e sentiu a brisa fria da manhã perpassar seus dedos, logo soube que se tratava do famoso vento que suas irmãs falavam.
E era tão maravilhoso quanto em sua imaginação. A pequena sereia emergiu e fechou os olhos, sentindo o vento cortar sua face molhada pela primeira vez. Pôs as mãos sobre o rosto e tocou a face meio seca, sorrindo boba. Ariel ergueu a cabeça e abriu os olhos, tentando se acostumar com a nova visão ao redor. Porém o céu não tinha as cores que suas irmãs falavam. Estava tão cinza quanto a areia que revestia o chão do mar. E ela divagou sobre o porquê de o céu mudar tanto de forma e cor, e sua sorte de não ver as cores que tanto ansiava em ver.
E um ruído estranho a fez olhar para o lado. Uma grande corrente de vento se desenrolou pela superfície, fazendo o mar calmo se transformar numa tormenta de ondas violentas. E, como labaredas no meio do oceano, os cabelos de Ariel voaram para trás, com o vento. Seus olhos se apertaram e lá ao longe ela viu algo que a fez nadar um pouco para trás. Era negro, era grande, uma enorme pedra que se movimentava no meio das ondas, imponente.
Uma grande embarcação. Ela se exasperou. Havia um humano caindo do gigante negro. Ariel nadou até lá, num impulso de salvar aquela vida.
***
Rendido ele estava. Matthew se encontrava perdido a seis passos da água, na prancha. Aquele era seu fim, não haveria volta para casa, ele engoliu em seco. Seu caminhar trêmulo à extremidade da embarcação era tão encurralado quanto seu sonho de cruzar aquele mar, na esperança de encontrar uma nova aventura. Um marinheiro à beira da morte no mar, sem chance de voltar para casa. Sem chance de ver o farol, no fim do dia, iluminando seu caminho.
Enquanto seus pés se aproximavam da queda, sua mente vagava longe, naquele momento ele acreditou que, ao morrer, se vê um filme da vida passando em frente aos olhos. E muitos arrependimentos pesaram em suas costas, muitos erros ele viu. Muitos desejos se remontaram em seu coração. E, por mais que tentasse se segurar em seus sonhos, não haveria mais nada, além da água gélida cortando seu corpo, como se mil espadas penetrassem sua pele, dali a pouco.
-PULA, marujo, Pula! Não temos paciência para a realeza. – bradou o homem que empunhava a espada ameaçadora, até o peito de Matthew.
Num último suspiro, o ar salgado da maresia penetrou suas narinas. Ouviu-se um trovão cortar o silêncio. Um prelúdio para a morte. E seu corpo entrou numa queda livre em direção a tormenta de ondas que se destacava no tom profundamente azul da água. Estava acabado. Ou pelo menos, ele pensou assim. Mas algo como fogo saía do mar e seus olhos captaram. Sua garganta gritou, à poucos centímetros da água.
-Salve-me!
Por favor, venha agora, eu estou caindo
Estou me segurando em tudo que acho ser seguro
Parece que eu achei a estrada para o mar
E eu estou tentando escapar
Eu gritei quando ouvi o trovão
Mas estou no meu um último suspiro
E com ele deixe-me dizer,
Deixe-me dizer
Salve-me agora
Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que
Talvez seis passos
Não sejam tão distantes assim.
Estou olhando para baixo agora que tudo acabou
Refletindo sobre todos os meus erros
Eu pensei que havia encontrado a estrada para algum lugar
Eu clamei aos céus "salve-me"
Mas estou em meu último suspiro
E com ele deixe-me dizer,
Deixe-me dizer
Salve-me agora
Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que
Talvez seis passos
Não sejam tão distantes assim.
Olhos tristes me seguem
Então eu ainda acredito que tenha restado algo para mim
Por favor, venha até mim...
Salve-me agora
Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que
Talvez seis passos
Não sejam tão distantes assim
Por favor, venha agora, eu estou caindo
Eu estou me segurando em tudo que acho ser seguro
Sei que somente você pode me salvar...
***
Continua.
FM.
O novo antigo
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
21:27
'
Foi em mais uma noite mal dormida que eu pensei sobre algumas coisas. Sabe aquele momento entre o real e o sonho? Era exatamente meu estado, àquela hora. Não era algo novo pra mim, era só mais uma noite de pensamentos perdidos. Entre lembranças e algumas palavras, eu apreciei meus dias de criança. Alguns estão marcados em fotografias, outros em videos perdidos em minha antiga escola. Algumas recordações eu guardo com tanto zelo que não posso supor que se percam. Pequenas etiquetas, bilhetes, lupas. Recortes do meu passado.
O que eu pensei foi: "Mas até ontem... Isso era meu hoje." E o novo se tornou antigo em tão pouco tempo. Os anos passam sem que possamos contar com exatidão. As vezes eu acho que por essa razão eu escrevo aqui. É uma maneira de registrar meus pensamentos e momentos, para que não se percam no tempo. É tão triste quando não temos nada para contar.
Eu viajei dentro das minhas memórias novamente. Lembrei de um dia no qual eu estava sozinha em casa, ainda criança. O corredor era tão grande e vazio. Eu me imaginei rodopiando ali sem parar, até chegar à porta da sala. Poderia ser uma distração interessante.
Eu o fiz.
Rodopiei pelo corredor grande, branco e vazio. Olhava o teto e cambaleava pelas paredes, me divertindo. Coisas de criança. Até chegar à porta da sala e cair sentada. Tinha sido divertido. Eu descobri que branco extremo causa vertigem, e pensei em pintar hospitais de azul claro para que os doentes se sentissem melhor. Mais uma de minhas ideias mirabolantes.
Aquilo para mim era novo, mas hoje é tão antigo... Confesso que as vezes acho até patético. Me perdoem, era apenas uma criança. E eu tinha tantos sonhos partidos, queria que ao menos as outras pessoas tivessem uma vida melhor.
Mas não somente.
Eu lembrei do dia em que sentei na mesa da sala de jantar sozinha e escutei uma música que me fazia bem. Estranhamente me sentia movida além daquele lugar. Eu me transportei sem sair daquela cadeira, através dos coqueiros que via longe, pela janela da frente.
Era fim de tarde e as folhas daqueles coqueiros tinham um tom dourado, se mexiam com o vento. Levemente riscavam a matiz amarelada do céu, e eu fugia do meu único lugar, para lembrar de uma infância mais antiga. No momento em que lembrei desse momento, me dei conta de que sempre tive o hábito de divagar sobre meu passado, e viajar entre minhas memórias tão vivas quanto eu mesma estou.
E há muito mais de onde saíram essas lembranças. Acho que por lembrar dessas em especial, ontem, quis comentá-las. Mas hoje tive outra pequena recordação tirada de minhas memórias, e essa não era tão feliz quanto se apresentava na fotografia. Eu sorria ao lado do meu irmão, num parque de diversões, mas não era um sorriso de felicidade.
Era um sorriso de alegria momentânea, vivida pela ilusão de uma mera importância que nunca se constatou verdadeira. Um pequeno passeio feito a cada mês, algo que se distanciou de mim e me mostrou que a atenção de uma criança pode se comprar por um preço tão ínfimo...
Só hoje eu consigo compreender que aquilo era a maior demonstração de desprezo que poderia acontecer. Ainda bem que só hoje eu consigo ver. Eu já tinha feridas demais naquela época, para que me ocorresse perceber mais uma violência contra minha inteligência. E aquilo me ficou guardado com a etiqueta de bons dias, um pequeno pedaço de alegria do meu passado.
Num desses dias, eu reavivei minha lembrança. Eu era apenas uma criança. Hoje eu vejo que tudo o que eu sou hoje, já fui um dia. E nada mudou em minha personalidade, desde então. Eu ainda amo aquela música que tantas vezes me transportou a outro lugar. Com a qual eu sonhava com novos dias, em meu caminho de volta pra casa. Lembro bem do céu nublado da cidade, enquanto subíamos a avenida Bernardo Vieira. Lembro-me bem do vidro do carro molhado, alguns pingos se mexiam com o vento batendo ali. Lembro-me bem que aquela música fazia meus sentimentos se voltarem a um tipo de esperança, e ainda faz, como sempre fez.
Me foi dado um momento pelo Céu,
Enquanto estou caminhando cercada pela noite.
As estrelas muito acima de mim
Faço um pedido sob o luar.
No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
Estou no meu caminho para casa.
Eu consigo lembrar de cada novo dia.
Eu me movimento em silêncio em cada passo dado,
Neve caindo ao meu redor como anjos em vôo,
Longe na distância
Está o meu pedido sob o luar.
No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
No meu caminho para casa
Eu lembro todos os melhores dias.
Estou no meu caminho para casa.
Eu consigo lembrar de cada novo dia.
Descubra-o, descubra-o, descubra-o, adeus...
Descubra-o, descubra-o, descubra-o, adeus...
No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
On My way Home - Enya
FM.
Foi em mais uma noite mal dormida que eu pensei sobre algumas coisas. Sabe aquele momento entre o real e o sonho? Era exatamente meu estado, àquela hora. Não era algo novo pra mim, era só mais uma noite de pensamentos perdidos. Entre lembranças e algumas palavras, eu apreciei meus dias de criança. Alguns estão marcados em fotografias, outros em videos perdidos em minha antiga escola. Algumas recordações eu guardo com tanto zelo que não posso supor que se percam. Pequenas etiquetas, bilhetes, lupas. Recortes do meu passado.
O que eu pensei foi: "Mas até ontem... Isso era meu hoje." E o novo se tornou antigo em tão pouco tempo. Os anos passam sem que possamos contar com exatidão. As vezes eu acho que por essa razão eu escrevo aqui. É uma maneira de registrar meus pensamentos e momentos, para que não se percam no tempo. É tão triste quando não temos nada para contar.
Eu viajei dentro das minhas memórias novamente. Lembrei de um dia no qual eu estava sozinha em casa, ainda criança. O corredor era tão grande e vazio. Eu me imaginei rodopiando ali sem parar, até chegar à porta da sala. Poderia ser uma distração interessante.
Eu o fiz.
Rodopiei pelo corredor grande, branco e vazio. Olhava o teto e cambaleava pelas paredes, me divertindo. Coisas de criança. Até chegar à porta da sala e cair sentada. Tinha sido divertido. Eu descobri que branco extremo causa vertigem, e pensei em pintar hospitais de azul claro para que os doentes se sentissem melhor. Mais uma de minhas ideias mirabolantes.
Aquilo para mim era novo, mas hoje é tão antigo... Confesso que as vezes acho até patético. Me perdoem, era apenas uma criança. E eu tinha tantos sonhos partidos, queria que ao menos as outras pessoas tivessem uma vida melhor.
Mas não somente.
Eu lembrei do dia em que sentei na mesa da sala de jantar sozinha e escutei uma música que me fazia bem. Estranhamente me sentia movida além daquele lugar. Eu me transportei sem sair daquela cadeira, através dos coqueiros que via longe, pela janela da frente.
Era fim de tarde e as folhas daqueles coqueiros tinham um tom dourado, se mexiam com o vento. Levemente riscavam a matiz amarelada do céu, e eu fugia do meu único lugar, para lembrar de uma infância mais antiga. No momento em que lembrei desse momento, me dei conta de que sempre tive o hábito de divagar sobre meu passado, e viajar entre minhas memórias tão vivas quanto eu mesma estou.
E há muito mais de onde saíram essas lembranças. Acho que por lembrar dessas em especial, ontem, quis comentá-las. Mas hoje tive outra pequena recordação tirada de minhas memórias, e essa não era tão feliz quanto se apresentava na fotografia. Eu sorria ao lado do meu irmão, num parque de diversões, mas não era um sorriso de felicidade.
Era um sorriso de alegria momentânea, vivida pela ilusão de uma mera importância que nunca se constatou verdadeira. Um pequeno passeio feito a cada mês, algo que se distanciou de mim e me mostrou que a atenção de uma criança pode se comprar por um preço tão ínfimo...
Só hoje eu consigo compreender que aquilo era a maior demonstração de desprezo que poderia acontecer. Ainda bem que só hoje eu consigo ver. Eu já tinha feridas demais naquela época, para que me ocorresse perceber mais uma violência contra minha inteligência. E aquilo me ficou guardado com a etiqueta de bons dias, um pequeno pedaço de alegria do meu passado.
Num desses dias, eu reavivei minha lembrança. Eu era apenas uma criança. Hoje eu vejo que tudo o que eu sou hoje, já fui um dia. E nada mudou em minha personalidade, desde então. Eu ainda amo aquela música que tantas vezes me transportou a outro lugar. Com a qual eu sonhava com novos dias, em meu caminho de volta pra casa. Lembro bem do céu nublado da cidade, enquanto subíamos a avenida Bernardo Vieira. Lembro-me bem do vidro do carro molhado, alguns pingos se mexiam com o vento batendo ali. Lembro-me bem que aquela música fazia meus sentimentos se voltarem a um tipo de esperança, e ainda faz, como sempre fez.
Me foi dado um momento pelo Céu,
Enquanto estou caminhando cercada pela noite.
As estrelas muito acima de mim
Faço um pedido sob o luar.
No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
Estou no meu caminho para casa.
Eu consigo lembrar de cada novo dia.
Eu me movimento em silêncio em cada passo dado,
Neve caindo ao meu redor como anjos em vôo,
Longe na distância
Está o meu pedido sob o luar.
No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
No meu caminho para casa
Eu lembro todos os melhores dias.
Estou no meu caminho para casa.
Eu consigo lembrar de cada novo dia.
Descubra-o, descubra-o, descubra-o, adeus...
Descubra-o, descubra-o, descubra-o, adeus...
No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
On My way Home - Enya
FM.
Vagas Promessas de Ano Novo
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
19:53
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
'
Não que seja romântico, pra mim não é. Acho que meu olhar diante das coisas não tem o menor estímulo romântico de ser. Mas é que minha atenção, naquele instante, se prendia além das luzes brilhantes da cidade. Era mais que o vento frio beliscando meu corpo, mais que vozes que eu ouvia. Era como se eu tivesse me transportado num segundo a outra dimensão. Eu só conseguia repetir: Eu gostei desse lugar.
Era como um esplêndido paradoxo entre o lixo e a perfeita paisagem que estava bem à minha frente. Sabe, foi o melhor presente que eu podia ter recebido. Foi como se eu pudesse decidir entre as luzes da cidade e das estrelas, que se confundiam na escuridão da noite. Um manto de sombras e algumas árvores de galhos secos. Uns gatinhos que circulavam por ali. Sabe, eu sorri na escuridão e agradeci a Deus por ninguém ali perceber minha expressão, ao divisar o horizonte. Eu estava simplesmente fascinada com tudo aquilo.
Numa hora, escutei que aquele era um bom lugar pra pensar. E foi daí que desenrolei o método para contemplação do que ia escrever, quando chegasse a luz das palavras em meus dedos e minha história viesse até aqui. O reino de minha mente escrito nessas páginas virtuais. Acho que o início do ano é apenas um dia a mais. Nunca tive nenhuma simpatia e por mim, eu nem comemoraria mais um novo ano. É um tanto de besteira, ou pode ser que eu seja cética. Mas a virada do ano comemorada com simpatias, pra mim, é paranoia. Eu já tenho tantas, pra que mais uma?
Mas eu gosto de sentir o sabor da noite de ano novo. As pessoas parecem ter uma nova esperança e um novo fôlego para enfrentar o mundo e suas dificuldades. Dentro da noite, várias pessoas entram na roda de confraternização e esquecem os problemas por segundos, para pedir aos céus ou a qualquer um uma nova promessa de felicidade. É o que todos buscam, afinal. Mas eu acho bonita a maneira como todos tem um abraço e um sorriso a entregar na noite de Ano Novo. Eu considero realmente interessante o modo como todos tem essa cultura de comemorar a entrada do ano com fogos de artifício.
É um anúncio de uma nova guerra diária contra todos os obstáculos, na minha opinião. Mas eu deixo minha opinião sobre fogos de artifício para outra oportunidade, a chave dessas palavras está na palavra paradoxo. Veja bem, apesar de tudo, há um paradoxo no significado de Ano Novo? É apenas mais um ano. Tudo envelhece. Não há nada novo, só um contador progressivo que zera para começar de novo... E o que há de novo nisso? É um paradoxo? Poderia. Afinal de contas, o que há de novo em zerar um contador, para começar tudo da mesma forma?
1 de janeiro. 2 de janeiro. 3 de janeiro. São iguais, em qualquer ano. Só mudam os anos... 1782 não é 2011. Mas... São apenas números, porque comemorar como se tudo fosse mudar? Realmente muda? Não é ceticismo em promessas de anos novos, é um olhar crítico em certos costumes. A paz mundial não vai surgir do nada, porque jogaram um barquinho no mar com um colar de plástico, um perfume barato e uns terços. Aquilo só vai sujar a água. É lixo ali. Nada vai mudar até que ao invés de fazer promessas do tipo:
1- Esse ano eu vou estudar mais.
2- Esse ano eu vou comer menos.
3- Esse ano eu vou pra academia.
4- Esse ano eu vou malhar na academia, não vou passear lá.
5- Esse ano eu vou pintar o cabelo de vermelho.
6- Esse ano eu vou viajar pra fora do país.
7- Esse ano eu não vou chorar por amor.
8- Esse ano eu não vou desistir da academia.
9- Esse ano eu vou gastar menos dinheiro.
10- Esse ano eu vou ganhar MAIS dinheiro.
Você tire a bunda da cadeira e resolva fazer com que elas se tornem realidade.
Não adianta, mesmo. Fazer promessas é simples, em um minuto eu escrevi dez aqui. Entende? Mais que promessas, devem haver realizações. É aí que reside o verdadeiro paradoxo. Apesar da esperança de Ano Novo, à medida em que esse novo ano vai ficando velho, as promessas se perdem e vão se restaurar no próximo ano novo. Não te lembra promessas de políticos? Você os critica tanto, mas... No fim das contas, será que não faz o mesmo?
Porque não fazer diferente? Você tem as promessas e o poder de realizá-las ou não...
Sabe porque eu pensei nisso enquanto estava no alto daquele lugar? Eu estava diante de um paradoxo. Era uma bela paisagem a minha frente, um ano novo. Era o lixo fétido às minhas costas, um ano velho. Eu estava numa encruzilhada de caminhos e podia escolher para onde eu queria olhar. Não apenas uma paisagem. Eu pensei em todas as promessas que poderia fazer, no ano novo.
Mas eu decidi limpar toda a minha mente, eu decidi pela primeira vez não pensar em nada. Apenas no novo. Sem promessas, apenas um desejo. Eu desejei que pudesse sonhar com o que eu quisesse, sem me importar se era possível, ou não. Eu sonhei. Eu sonho. E é disso que eu me alimento, a cada dia. Não são promessas, são desejos de ano novo. São sonhos que eu quero realizar um dia. Não num ano novo, mas num dia qualquer, porque eu sei que se eu fizer mais que promessas, se eu lutar com a esperança de ano novo, eu conseguirei alcançar meus objetivos.
Qual é o seu objetivo? Você tem sonhos? Você fez promessas de ano novo? Não pense que são paradoxos, haja de acordo com sua vontade... Um bom ano, e que venham os próximos, mas... Pense bem, suas promessas são apenas promessas vagas de ano novo?
FM.
Não que seja romântico, pra mim não é. Acho que meu olhar diante das coisas não tem o menor estímulo romântico de ser. Mas é que minha atenção, naquele instante, se prendia além das luzes brilhantes da cidade. Era mais que o vento frio beliscando meu corpo, mais que vozes que eu ouvia. Era como se eu tivesse me transportado num segundo a outra dimensão. Eu só conseguia repetir: Eu gostei desse lugar.
Era como um esplêndido paradoxo entre o lixo e a perfeita paisagem que estava bem à minha frente. Sabe, foi o melhor presente que eu podia ter recebido. Foi como se eu pudesse decidir entre as luzes da cidade e das estrelas, que se confundiam na escuridão da noite. Um manto de sombras e algumas árvores de galhos secos. Uns gatinhos que circulavam por ali. Sabe, eu sorri na escuridão e agradeci a Deus por ninguém ali perceber minha expressão, ao divisar o horizonte. Eu estava simplesmente fascinada com tudo aquilo.
Numa hora, escutei que aquele era um bom lugar pra pensar. E foi daí que desenrolei o método para contemplação do que ia escrever, quando chegasse a luz das palavras em meus dedos e minha história viesse até aqui. O reino de minha mente escrito nessas páginas virtuais. Acho que o início do ano é apenas um dia a mais. Nunca tive nenhuma simpatia e por mim, eu nem comemoraria mais um novo ano. É um tanto de besteira, ou pode ser que eu seja cética. Mas a virada do ano comemorada com simpatias, pra mim, é paranoia. Eu já tenho tantas, pra que mais uma?
Mas eu gosto de sentir o sabor da noite de ano novo. As pessoas parecem ter uma nova esperança e um novo fôlego para enfrentar o mundo e suas dificuldades. Dentro da noite, várias pessoas entram na roda de confraternização e esquecem os problemas por segundos, para pedir aos céus ou a qualquer um uma nova promessa de felicidade. É o que todos buscam, afinal. Mas eu acho bonita a maneira como todos tem um abraço e um sorriso a entregar na noite de Ano Novo. Eu considero realmente interessante o modo como todos tem essa cultura de comemorar a entrada do ano com fogos de artifício.
É um anúncio de uma nova guerra diária contra todos os obstáculos, na minha opinião. Mas eu deixo minha opinião sobre fogos de artifício para outra oportunidade, a chave dessas palavras está na palavra paradoxo. Veja bem, apesar de tudo, há um paradoxo no significado de Ano Novo? É apenas mais um ano. Tudo envelhece. Não há nada novo, só um contador progressivo que zera para começar de novo... E o que há de novo nisso? É um paradoxo? Poderia. Afinal de contas, o que há de novo em zerar um contador, para começar tudo da mesma forma?
1 de janeiro. 2 de janeiro. 3 de janeiro. São iguais, em qualquer ano. Só mudam os anos... 1782 não é 2011. Mas... São apenas números, porque comemorar como se tudo fosse mudar? Realmente muda? Não é ceticismo em promessas de anos novos, é um olhar crítico em certos costumes. A paz mundial não vai surgir do nada, porque jogaram um barquinho no mar com um colar de plástico, um perfume barato e uns terços. Aquilo só vai sujar a água. É lixo ali. Nada vai mudar até que ao invés de fazer promessas do tipo:
1- Esse ano eu vou estudar mais.
2- Esse ano eu vou comer menos.
3- Esse ano eu vou pra academia.
4- Esse ano eu vou malhar na academia, não vou passear lá.
5- Esse ano eu vou pintar o cabelo de vermelho.
6- Esse ano eu vou viajar pra fora do país.
7- Esse ano eu não vou chorar por amor.
8- Esse ano eu não vou desistir da academia.
9- Esse ano eu vou gastar menos dinheiro.
10- Esse ano eu vou ganhar MAIS dinheiro.
Você tire a bunda da cadeira e resolva fazer com que elas se tornem realidade.
Não adianta, mesmo. Fazer promessas é simples, em um minuto eu escrevi dez aqui. Entende? Mais que promessas, devem haver realizações. É aí que reside o verdadeiro paradoxo. Apesar da esperança de Ano Novo, à medida em que esse novo ano vai ficando velho, as promessas se perdem e vão se restaurar no próximo ano novo. Não te lembra promessas de políticos? Você os critica tanto, mas... No fim das contas, será que não faz o mesmo?
Porque não fazer diferente? Você tem as promessas e o poder de realizá-las ou não...
Sabe porque eu pensei nisso enquanto estava no alto daquele lugar? Eu estava diante de um paradoxo. Era uma bela paisagem a minha frente, um ano novo. Era o lixo fétido às minhas costas, um ano velho. Eu estava numa encruzilhada de caminhos e podia escolher para onde eu queria olhar. Não apenas uma paisagem. Eu pensei em todas as promessas que poderia fazer, no ano novo.
Mas eu decidi limpar toda a minha mente, eu decidi pela primeira vez não pensar em nada. Apenas no novo. Sem promessas, apenas um desejo. Eu desejei que pudesse sonhar com o que eu quisesse, sem me importar se era possível, ou não. Eu sonhei. Eu sonho. E é disso que eu me alimento, a cada dia. Não são promessas, são desejos de ano novo. São sonhos que eu quero realizar um dia. Não num ano novo, mas num dia qualquer, porque eu sei que se eu fizer mais que promessas, se eu lutar com a esperança de ano novo, eu conseguirei alcançar meus objetivos.
Qual é o seu objetivo? Você tem sonhos? Você fez promessas de ano novo? Não pense que são paradoxos, haja de acordo com sua vontade... Um bom ano, e que venham os próximos, mas... Pense bem, suas promessas são apenas promessas vagas de ano novo?
FM.
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' Depois de um hiato de... MUITO tempo, eu senti saudade e abri o blog. Não tem nada a ver com o fato de mamãe estar ouvindo "F...
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' A confiança humana só se extinguirá no dia em que os homens deixarem de confiar em si mesmos, mas meu coração perdido cansou de ouvi...
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Escute-me O que as palavras não podem transmitir Sinta-me Não deixe o sol em coração enfraquecer FM.
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I dream in darkness... I sleep to die. Erase the silence. Erase my mind. Our burn ashes blacken the day A world of nothingness ...
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Esta é a minha versão da história de A Pequena Sereia . ' A brisa marinha circulava como se dançasse pelo céu, através da noite. Uma...
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Iesu, Rex admirabilis
Et triumphator nobilis,
Dulcedo ineffabilis,
Totus desiderabilis.
Et triumphator nobilis,
Dulcedo ineffabilis,
Totus desiderabilis.
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