'
Uma bela imagem desacordada, pensou Ariel, enquanto puxava o humano até um lugar seguro. Ela nadava o mais rápido que podia, para chegar a terra em tempo de acordá-lo. Seus braços seguravam o corpo desacordado sem força. Um torpedo se formava atrás dela, enquanto batia a cauda contra a água, nadando sem esforço pelo mar outrora agitado. As nuvens começavam a dissipar no céu, e o sol surgia em alguns pontos, com sua luz radiante penetrando o cinza.
A pequena sereia logo entendeu a beleza de que tanto suas irmãs falavam. Aquela era a imagem mais bela que ela já havia presenciado. E logo a areia estava à vista, um grande farol se erguia numa colina, derrubando sua luz no mar. Aos poucos perdia vida para a luz que emanava do céu. Algumas gaivotas passeavam tranquilas, riscavam o céu de negro, manchavam o ruído produzido pelas ondas, com seu cantar. Ariel se arrastou até a areia e repousou o corpo do marinheiro humano ali, perto da água.
Por alguns segundos, seus olhos se fixaram nele, em seus traços fortes. Ariel tocou a face do humano com as pontas dos dedos, sentindo-as espinhar nos pelos ralos de seu maxilar. Seus lábios entreabriram e ela puxou o ar pela boca, sentindo que a falta da água era estranhamente reposta pela invisibilidade do vento. Então os olhos do humano se mexeram e a pequena sereia se retraiu. Lembrava-se do aviso de seu pai e de sua avó. Era proibido falar com Humanos. Mas algo a fazia ficar, como uma força inexplicável.
E a cor dos olhos dele era de um verde parecido com a água do mar, de tempos em tempos. Sua face produziu um sorriso e seus olhos se encantaram com a beleza dele. Foi momentâneo. Logo a pequena sereia ouviu gritos de pessoas e passos se aproximando. Por medo, ou cautela, ela olhou em volta e não viu ninguém ali, mas deixou os belos olhos verdes do humano a fitarem mais uma vez, para poder se arrastar de volta ao mar.
***
-E então Ariel, como foi na superfície? Achamos que se demorou demais lá. Viu algo interessante? – perguntou a irmã mais velha da pequena sereia, enquanto todas as irmãs se reuniam em volta da ruiva mais nova.
-Nada demais. O céu estava cinza... O vento é invisível, mas tive uma boa sensação quando tocou meu rosto. – ela sorriu, paciente. As irmãs não pareciam satisfeitas.
-Mesmo assim, eu soube que uma grande embarcação passou por aqui, hoje... Na hora em que você saiu.
-Ah sim... E eu tomei bastante cuidado para que ninguém me visse.
-Tinha humanos lá?! – uma assustada perguntou.
-Tinha. – Ariel retorquiu, resoluta. – Mas eu não quero mais falar sobre isso. Estou cansada.
E a pequena sereia saiu do aposento de cores claras e adornos em formas de conchas com pérolas de várias cores. Foi até seu lugar preferido no reino, uma torre de onde conseguia ver toda a região de corais, em sua explosão de cores vivas. Entreabriu os lábios e sentiu o sabor salgado da água entrar por sua boca. Em algum lugar de sua mente, uma voz pronunciou balbuciando que o ar era melhor que a água. E sua visão turvou por um instante, transformando a imagem dos corais na imagem do humano de olhos verdes.
Aquela imagem era ainda mais bela em suas memórias. O coração de Ariel se removeu por um instante do peito, num pungir dilacerante, mas não doía. Ela se sentia estranhamente bem. Sentia, ao pensar nele, que poderia até voar, como as gaivotas que planavam no céu. Tudo por aqueles olhos. E seu sorriso era o mais verdadeiro, tudo por aqueles olhos. Era um momento de euforia, o que se passava no interior de Ariel. Tudo por aqueles olhos.
***
Seu corpo ainda doído parecia ressacado. Matthew pestanejou e olhou a sua volta, tentando recobrar a visão. Franziu o cenho e apoiou a mão em algo que julgou macio demais para ser a areia da praia, e consistente demais para ser a água do mar. Estava são e salvo no leito de sua cama. Sentou-se e tentou buscar nas memórias o momento no qual sabia que tinha sido salvo, mas tudo que vinha a sua mente era a face rosada emoldurada por cabelos escuros que vira assim que acordara, sob o sol.
Mas não conseguia lembrar seu nome. Ou de que região era sua salvadora, ou o porque de tão bela menina estar tão longe, em mar aberto. Em uma resposta lógica, mas não muito animadora, ele distinguiu que havia tido alucinações e vertigens enquanto fugia da morte. Mas aquela face de anjo era real demais para ser alucinação, e se fosse... Aquela era a sua imagem de perfeição, produzida por sua mente, na hora em que foi salvo por seu anjo da guarda. Só podia ser, aquela era sua explicação.
Mas não era uma explicação lógica. Ele se perguntou se aquela era a maneira como a mente humana trabalhava, quando posta a pressão da morte.
-Eu ainda a encontrarei...
***
Dias e noites se passaram. Um mês se passou desde aquela manhã cinza, nublada, na qual uma grande embarcação cruzou o caminho da pequena sereia, num salvamento atormentador. Desde aquele dia, os que se seguiram perderam o sabor que a vida tinha. Ariel se entregara a uma ilusão de olhos verdes e expressão forte. Seus pensamentos a prendiam numa redoma de sonhos sem precedentes, e a face dele era o centro de todos os seus devaneios, ela dormia. Passava as horas divagando pela escuridão, nas profundezas frias do oceano. Ela se perguntava se o veria novamente, no porque de as circunstâncias os separarem.
Mas, com o passar das datas, a esperança de reencontrar o humano diminuíam em seu coração, transformando-o em deserto. Se ela deixasse de acreditar, no entanto, talvez não houvesse seu amanhã, pois seu coração devotava um amor crescente por aquela imagem viva em sua memória.
-Talvez, algum dia, eu estarei mais perto de você, se eu acreditar.
Nunca se sentira tão estranha. Tão triste, tão sozinha, tão sem vida, tão doente. Numa manhã tão cinzenta quanto aquela, saiu do reino e nadou até a superfície, perto do recife que adornava as águas límpidas do litoral de uma ilha. Sentou-se numa pedra e pôs-se a fitar a ilha e o farol onde deixou o humano. Fantasiou seu encontro com ele por algum tempo, um sorriso sutil espalhou-se por sua face pálida.
E entoou canções. Seu canto, porém, tinha algo de solitário demais para encantar a todos, novamente. Ariel não era mais a mesma, desde seu encontro com o humano que roubou seu coração e levou sua alegria, prendendo-a dentro do verde dos olhos, a tanto tempo.
Todo dia, toda noite
Eu vejo seu rosto na minha mente
Eu não sei se vou ver seus olhos de novo
Eu sei, você me deixou, mas, só por enquanto
Eu senti como se você estivesse bem aqui
As circunstâncias o tiraram de mim
Eu sinto seu olhar quando estou sozinha
Eu não consigo acreditar que você não está aqui, eu não concordo
Todo dia, toda noite
Eu vejo seu rosto na minha mente
Eu nunca vou ouvir suas palavras?
Nós vamos nos encontrar um dia
Todo dia, toda noite
Eu vejo seu rosto na minha mente
Eu verei seus olhos novamente, ouvirei suas palavras
Nós vamos nos encontrar novamente
Foi um dia chuvoso
A primeira, a última vez que uni nossas mãos
Estávamos nadando pelo mesmo caminho
Mas eu tive que ir. Deixar você sozinho
Você nunca mais olhou nos meus olhos
E é isso que me faz derramar as lágrimas do oceano
Aqui é o lugar onde posso orar
E agora eu tenho que orar pela sua alma
Para que você se cure
Pelo nosso reencontro...
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
Talvez algum dia eu estarei mais perto de você se eu acreditar
***
Continua.
FM.
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