A Princesa Dos Mares - 2ª parte

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
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Um belo amanhecer cinzento fora da água. Na civilização submarina, aquele era um dia de festa. Ariel logo se dirigiu até a avó, na esperança de realizar seu sonho infantil de conhecer a superfície. E teve seu pedido atendido, mas, no momento em que Ariel saía do quarto da avó, esta murmurou alheia à sua própria consciência.

-Tome cuidado, menina, ou o sangue que reveste a cor de seus cabelos se esvairá na espuma do oceano.

E adormeceu. A pequena sereia observou a avó adormecida por algum tempo, sentindo a ansiedade por ver o tão famoso céu se transformar lentamente em medo. Ariel saiu dali, sendo vencida pela curiosidade, em direção à superfície. A medida em que a água ficava mais clara, os dedos de suas mãos delicadas formigavam de excitação. E ela viu o espelho d'água se aproximar, tornando a linha tênue que dividia superfície e mar mais visível.

Ariel parou a poucos centímetros do limite. Olhou atentamente ao redor, onde uns peixes iam para lá e para cá. Deixou umas bolhas se formarem em sua boca, soltando-as e cruzou aquela linha com os dedos. Se espantou no início, por ter sido tão fácil sair da água e voltou os dedos, os ergueu novamente e sentiu a brisa fria da manhã perpassar seus dedos, logo soube que se tratava do famoso vento que suas irmãs falavam.

E era tão maravilhoso quanto em sua imaginação. A pequena sereia emergiu e fechou os olhos, sentindo o vento cortar sua face molhada pela primeira vez. Pôs as mãos sobre o rosto e tocou a face meio seca, sorrindo boba. Ariel ergueu a cabeça e abriu os olhos, tentando se acostumar com a nova visão ao redor. Porém o céu não tinha as cores que suas irmãs falavam. Estava tão cinza quanto a areia que revestia o chão do mar. E ela divagou sobre o porquê de o céu mudar tanto de forma e cor, e sua sorte de não ver as cores que tanto ansiava em ver.

E um ruído estranho a fez olhar para o lado. Uma grande corrente de vento se desenrolou pela superfície, fazendo o mar calmo se transformar numa tormenta de ondas violentas. E, como labaredas no meio do oceano, os cabelos de Ariel voaram para trás, com o vento. Seus olhos se apertaram e lá ao longe ela viu algo que a fez nadar um pouco para trás. Era negro, era grande, uma enorme pedra que se movimentava no meio das ondas, imponente.

Uma grande embarcação. Ela se exasperou. Havia um humano caindo do gigante negro. Ariel nadou até lá, num impulso de salvar aquela vida.

***

Rendido ele estava. Matthew se encontrava perdido a seis passos da água, na prancha. Aquele era seu fim, não haveria volta para casa, ele engoliu em seco. Seu caminhar trêmulo à extremidade da embarcação era tão encurralado quanto seu sonho de cruzar aquele mar, na esperança de encontrar uma nova aventura. Um marinheiro à beira da morte no mar, sem chance de voltar para casa. Sem chance de ver o farol, no fim do dia, iluminando seu caminho.

Enquanto seus pés se aproximavam da queda, sua mente vagava longe, naquele momento ele acreditou que, ao morrer, se vê um filme da vida passando em frente aos olhos. E muitos arrependimentos pesaram em suas costas, muitos erros ele viu. Muitos desejos se remontaram em seu coração. E, por mais que tentasse se segurar em seus sonhos, não haveria mais nada, além da água gélida cortando seu corpo, como se mil espadas penetrassem sua pele, dali a pouco.

-PULA, marujo, Pula! Não temos paciência para a realeza. – bradou o homem que empunhava a espada ameaçadora, até o peito de Matthew.

Num último suspiro, o ar salgado da maresia penetrou suas narinas. Ouviu-se um trovão cortar o silêncio. Um prelúdio para a morte. E seu corpo entrou numa queda livre em direção a tormenta de ondas que se destacava no tom profundamente azul da água. Estava acabado. Ou pelo menos, ele pensou assim. Mas algo como fogo saía do mar e seus olhos captaram. Sua garganta gritou, à poucos centímetros da água.

-Salve-me!

Por favor, venha agora, eu estou caindo
Estou me segurando em tudo que acho ser seguro
Parece que eu achei a estrada para o mar
E eu estou tentando escapar
Eu gritei quando ouvi o trovão
Mas estou no meu um último suspiro
E com ele deixe-me dizer,
Deixe-me dizer

Salve-me agora
Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que
Talvez seis passos
Não sejam tão distantes assim.

Estou olhando para baixo agora que tudo acabou
Refletindo sobre todos os meus erros
Eu pensei que havia encontrado a estrada para algum lugar
Eu clamei aos céus "salve-me"
Mas estou em meu último suspiro
E com ele deixe-me dizer,
Deixe-me dizer

Salve-me agora
Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que
Talvez seis passos
Não sejam tão distantes assim.

Olhos tristes me seguem
Então eu ainda acredito que tenha restado algo para mim
Por favor, venha até mim...

Salve-me agora
Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que
Talvez seis passos
Não sejam tão distantes assim

Por favor, venha agora, eu estou caindo
Eu estou me segurando em tudo que acho ser seguro
Sei que somente você pode me salvar...


***

Continua.

FM.

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