A Princesa Dos Mares - 4ª parte

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
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***

-Eu irei.
-Sabe que não pode, Matthew. Quem está falando não é seu pai, apenas. Agora quem está falando é o rei.
-Pai, eu realmente não me importo. Eu preciso encontrar a princesa que me salvou. Eu vou procura-la.
-Você quase morreu, ao seguir viagem pra procurar “aventuras”. Já não te basta essa menina salvar você uma vez?

Mas o rei não acreditava que aquilo tivesse realmente ocorrido. Não imaginava de onde o filho marinheiro tirara a história, mas tinha uma certeza, não existia a possibilidade de uma princesa estar em alto mar e nadar com Matthew nos braços até a areia, deixa-lo lá e ter sumido. De onde ela vinha? Para onde teria ido? Era uma fantasia, um logro qualquer do sol e do mar, na cabeça do filho. Nisso ele acreditava.

-E o que eu vou fazer? Esperar de braços cruzados que ela venha até mim? E se isso não acontecer... – Matthew baixou o olhar e soltou o ar pela boca, vencido pela lembrança fraca que possuía da menina.
-Se ela gostar tanto de você, quanto você gosta dela, ela virá até aqui... Se não gostar, não vale a pena correr risco de morte. Ouça-me, eu sei do que estou falando. – o rei balbuciou, apertando o ombro do filho, sentado sobre a cama.
-Pai... Posso pedir uma coisa?
-Claro. – Matthew olhou nos olhos do pai e fungou.
-Mande uma guarda real para procurar por ela nos reinos vizinhos. Não vai ser difícil encontra-la, dessa forma. – o pai sorriu com o canto dos lábios.
-Providenciarei isso. Tenha paciência e seja sábio para esperar, agora isso é assunto real e eu encontrarei sua princesa.

O príncipe sorriu, sentiu uma ponta de esperança espinhar seu peito, era algo fácil de imaginar, um sonho para sonhar, talvez uma futura realidade a se criar, diante daquelas palavras do rei. Mas havia algo e seu pensamento que o fez refletir sobre aquela e todas as atitudes anteriores de seu pai. Que sempre quis exercer seu poder sobre o filho, como um soberano exerce sobre seus súditos, tirando de Matthew, desde criança, seu próprio direito de ser quem ele realmente queria ser.

Algo toma parte de mim
Algo perdido e antes nunca visto
E no momento em que eu comecei a acreditar
Algo foi levado de mim...
A vida está sempre mexendo comigo
Eles não podem relaxar e me deixar ser livre?
Eu não posso me livrar de toda essa angústia?
Eu tenho tentado me livrar daquele rosto, tudo em vão, em vão

Às vezes eu não agüento esse lugar
Às vezes é a minha vida que eu não posso experimentar
Às vezes eu não sinto o meu rosto
Algo toma parte de mim... Algo como um anjo salvador
Você e eu fomos feitos um para o outro
Algo toma parte de mim... Algo como um anjo perfeito
Me fazendo sentir sensações que nunca experimentei
Como se eu não tivesse escapatória
Quantas vezes eu já me senti assim?
Nenhuma só vez, diante das ondas do mar
Mas...
Nada na minha vida é de graça, é de graça

E agora eu não agüento esse lugar
Agora minha vida é algo que não quero experimentar
E eu não sinto mais do mesmo jeito
Você nunca sairá de meus sonhos
Algo toma parte de mim... Um anjo salvador
Você e eu fomos feitos um para o outro
Algo toma parte de mim... Um anjo perfeito

Então Lutarei! Por alguma coisa...
Lutarei! Por alguma coisa eu lutarei!
Então! Por algumas coisas...
Por você eu lutarei...

Algo toma parte de mim... Um anjo salvador
Você e eu fomos feitos um para o outro
Algo toma parte de mim... Um anjo perfeito
Parte de mim


***

O sol se punha, àquela hora. Ariel jogou os cabelos secos para trás e mirou o horizonte poente por uma última vez, com uma ideia não tão bela quanto o por do sol. Mergulhou na profundeza azul e nadou o mais rápido que podia, descendo cada vez mais fundo, até a luz do dia que acabava inexistir. Passou por sua casa e levou alguns amuletos no pescoço, voltou a nadar. Chegou ao seu destino em pouco tempo.

Aquela era a casa da Bruxa do Mar. Ariel mirou a caverna submarina e sentiu um arrepio cruzar o corpo, pela aparência mórbida do lugar. Várias enguias nadavam em volta das pedras escuras cobertas de musgo. A escuridão era densa a ponto de parecer tangível pelas mãos. A pequena sereia se abraçou e pensou em desistir.

-Venha, Ariel... Entre em minha casa... No fim, isso valerá... – uma voz serpentina e sem corpo ecoava ao redor da caverna, dentro dos ouvidos de Ariel. A menina soltou algumas bolhas pela boca e sussurrou para si mesma:
-Tenho que tentar. Preciso me libertar disso.

Ela entrou na caverna. Uma luz se espalhou abruptamente por todo o lugar e Ariel a visualizou. A bruxa do mar era uma sereia tão bonita que nem parecia real. Tinha longos cabelos claros como o sol matutino. A pele era branca o bastante para se confundir com o mármore que edificava o reino de seu pai. A boca e os traços de sua face eram delicadamente desenhados, parecia uma pintura vista através da água.

Mas no fundo de seus olhos azuis havia um fantasma sombrio e cadavérico que se debatia, preso por correntes assassinas.
-O que a traz aqui, Ariel...? – várias vozes femininas saíram da garganta da bela sereia, e as luzes que clareavam a caverna brilharam com mais força ao ouvir os timbres ecoando ali.
-Quero pernas. – a pequena sereia falou, sentindo o próprio timbre mais imperioso que seu verdadeiro sentimento no momento.
-Vejo um amor pulsar em seu coração... – as vozes gracejaram, afinadas como num cântico sincronizado. Ariel sorriu minimamente, assentindo.
-Preciso encontra-lo.

***

Continua...


FM.

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