O novo antigo

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
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Foi em mais uma noite mal dormida que eu pensei sobre algumas coisas. Sabe aquele momento entre o real e o sonho? Era exatamente meu estado, àquela hora. Não era algo novo pra mim, era só mais uma noite de pensamentos perdidos. Entre lembranças e algumas palavras, eu apreciei meus dias de criança. Alguns estão marcados em fotografias, outros em videos perdidos em minha antiga escola. Algumas recordações eu guardo com tanto zelo que não posso supor que se percam. Pequenas etiquetas, bilhetes, lupas. Recortes do meu passado.

O que eu pensei foi: "Mas até ontem... Isso era meu hoje." E o novo se tornou antigo em tão pouco tempo. Os anos passam sem que possamos contar com exatidão. As vezes eu acho que por essa razão eu escrevo aqui. É uma maneira de registrar meus pensamentos e momentos, para que não se percam no tempo. É tão triste quando não temos nada para contar.

Eu viajei dentro das minhas memórias novamente. Lembrei de um dia no qual eu estava sozinha em casa, ainda criança. O corredor era tão grande e vazio. Eu me imaginei rodopiando ali sem parar, até chegar à porta da sala. Poderia ser uma distração interessante.

Eu o fiz.

Rodopiei pelo corredor grande, branco e vazio. Olhava o teto e cambaleava pelas paredes, me divertindo. Coisas de criança. Até chegar à porta da sala e cair sentada. Tinha sido divertido. Eu descobri que branco extremo causa vertigem, e pensei em pintar hospitais de azul claro para que os doentes se sentissem melhor. Mais uma de minhas ideias mirabolantes.

Aquilo para mim era novo, mas hoje é tão antigo... Confesso que as vezes acho até patético. Me perdoem, era apenas uma criança. E eu tinha tantos sonhos partidos, queria que ao menos as outras pessoas tivessem uma vida melhor.

Mas não somente.

Eu lembrei do dia em que sentei na mesa da sala de jantar sozinha e escutei uma música que me fazia bem. Estranhamente me sentia movida além daquele lugar. Eu me transportei sem sair daquela cadeira, através dos coqueiros que via longe, pela janela da frente.

Era fim de tarde e as folhas daqueles coqueiros tinham um tom dourado, se mexiam com o vento. Levemente riscavam a matiz amarelada do céu, e eu fugia do meu único lugar, para lembrar de uma infância mais antiga. No momento em que lembrei desse momento, me dei conta de que sempre tive o hábito de divagar sobre meu passado, e viajar entre minhas memórias tão vivas quanto eu mesma estou.

E há muito mais de onde saíram essas lembranças. Acho que por lembrar dessas em especial, ontem, quis comentá-las. Mas hoje tive outra pequena recordação tirada de minhas memórias, e essa não era tão feliz quanto se apresentava na fotografia. Eu sorria ao lado do meu irmão, num parque de diversões, mas não era um sorriso de felicidade.

Era um sorriso de alegria momentânea, vivida pela ilusão de uma mera importância que nunca se constatou verdadeira. Um pequeno passeio feito a cada mês, algo que se distanciou de mim e me mostrou que a atenção de uma criança pode se comprar por um preço tão ínfimo...

Só hoje eu consigo compreender que aquilo era a maior demonstração de desprezo que poderia acontecer. Ainda bem que só hoje eu consigo ver. Eu já tinha feridas demais naquela época, para que me ocorresse perceber mais uma violência contra minha inteligência. E aquilo me ficou guardado com a etiqueta de bons dias, um pequeno pedaço de alegria do meu passado.

Num desses dias, eu reavivei minha lembrança. Eu era apenas uma criança. Hoje eu vejo que tudo o que eu sou hoje, já fui um dia. E nada mudou em minha personalidade, desde então. Eu ainda amo aquela música que tantas vezes me transportou a outro lugar. Com a qual eu sonhava com novos dias, em meu caminho de volta pra casa. Lembro bem do céu nublado da cidade, enquanto subíamos a avenida Bernardo Vieira. Lembro-me bem do vidro do carro molhado, alguns pingos se mexiam com o vento batendo ali. Lembro-me bem que aquela música fazia meus sentimentos se voltarem a um tipo de esperança, e ainda faz, como sempre fez.

Me foi dado um momento pelo Céu,
Enquanto estou caminhando cercada pela noite.
As estrelas muito acima de mim
Faço um pedido sob o luar.

No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
Estou no meu caminho para casa.
Eu consigo lembrar de cada novo dia.

Eu me movimento em silêncio em cada passo dado,
Neve caindo ao meu redor como anjos em vôo,
Longe na distância
Está o meu pedido sob o luar.

No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
No meu caminho para casa
Eu lembro todos os melhores dias.
Estou no meu caminho para casa.
Eu consigo lembrar de cada novo dia.

Descubra-o, descubra-o, descubra-o, adeus...
Descubra-o, descubra-o, descubra-o, adeus...

No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.
No meu caminho para casa
Eu lembro apenas dos bons dias.


On My way Home - Enya

FM.

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