Open Your Eyes

terça-feira, 26 de abril de 2011
'

Eu pensei em nem escrever, hoje. Mas alguns fatos mereceram minha atenção extrema, diante da lembrança do dia de hoje. Me ocorreu nem me importar com isso, passar por cima da data como outra qualquer. É que eu nunca fui muito boa com esse negócio de datas especiais. Todos os que me conhecem de verdade sabem que não é natural de mim costumar dar parabéns e etc. Acho que não tenho muito jeito de chegar em ninguém dessa forma, está além das minhas habilidades.

Não é que eu não goste ou não lembre, não me leve a mal. Não é insensibilidade, é só uma falta de tato da minha parte. Para mim, aniversários são como qualquer outro dia. Aprendi assim para sobreviver, e eu não vou comentar a história cansada do meu aniversário de 15 anos. O negócio é que hoje eu tive meus motivos para largar uma bolsa em mossoró e correr pra casa, só pra falar sobre o dia de hoje. Sobre o que me remete o dia de hoje, apesar da distância.

Bom, é que das minhas lembranças de infância sempre guardo lugares especiais e momentos que me marcaram de forma a mudar tudo o que eu posso chamar de futuro presente. Mas foi com um pequeno abrir de olhos e eu posso recordar tudo novamente, todo o melhor, pois são esses momentos que me mostraram que não havia só dor. As luzes da cidade me mostraram um dia que eu posso guardar o melhor de cada um e cada um será especial, à sua maneira.

E eu abri os olhos para ver seu sorriso aberto novamente. Seu abraço acolhedor pareceu tão familiar em algum tempo, hoje sobra saudade de um tempo em que eu tinha ao alcance das mãos. Suas palavras as vezes repreensivas, as vezes divertidas, sempre tinham uma mensagem a passar. Sua vida tão marcada e tão visivelmente crua, suas histórias que agradavam os ouvidos dos que escutavam. Sua voz e timbre que guardo tom a tom, na memória.

Suas maneiras meio rudes, porém sinceras. Suas risadas altas que ecoavam pela casa e seu gosto por música e leitura. Até seu gosto pelo desenho de plantas baixas de casas e suas manias de organização. Um perfeccionista que me ensinou a querer ser tudo quanto as ferramentas me possibilitassem. O autor das heranças que guardo com apreço, diante de fotografias de família e lembranças. Até sua mania de perguntar até o último instante, eu herdei. Mas minha curiosidade maior, hoje, é saber se ao abrir os olhos, ele estava feliz, nesta manhã.

Porque ele nunca será um estranho pra mim. Porque eu nunca o odiaria o bastante para negar que o amo, apesar da distância que existe. Porque eu sou bastante humana para reconhecer que sinto falta de sua presença e, sim, eu sinto saudade dele. Mais uma das dores que me cortam o peito, de vez em quando. Como agora. E, por mais que eu nem tenha ideia de se um dia ele vai ler isso aqui, escrevo.

Escrevo com a sinceridade mais pura que consigo produzir.

E por isso abro os olhos mais uma vez para presenciar sua maneira tão desajeitada de desejar parabéns e entregar o CD da minha banda favorita, tudo mandado por outra pessoa. Ou como nos dias em que eu me senti mais abandonada, em fevereiro de 2002, e, quando abri meus olhos, eles se encheram com uma grande caixa embrulhada num papel vermelho. Não havia presença, mas eu sabia que ele havia lembrado de mim em algum momento, e, por isso, eu amaria abrir a caixa e perceber que a boneca ali dentro era escolhida a dedo.

Eu não sei se ele lembra, mas eu lembro bem das noites coloridas com histórias sobre as aventuras de um macaco metido a pica-pau. Todas as noites, naquela casa na rua Pico da Tijuca, ele deitava em uma das duas camas e relatava de uma maneira a nos fazer rir até dormir. E eu podia escapar da minha tragédia infantil, nessas horas. E tudo era sincero. Tudo era verdade, e era meu. Particularmente meu. Como meus sonhos, minhas lembranças mais tenras são as de sua maneira metódica de organizar cada minúsculo trajeto de seus próximos passos, acompanhado dos registros já passados, e acho que herdei isso também.

Herdei muito, semelhança todos apontam de qualquer lado. "Fernanda só se parece com o pai." Pois é... Mas eu não estou escrevendo para falar somente de lembranças, até porque aniversários servem para mostrar que o passado passou e há um futuro com idade nova para acontecer, não é verdade?

Abri os olhos mais uma vez para poder dizer que cada um possui sua virtude e a virtude que eu mais aprecio nele é seu poder de autenticidade, sua palavra de verdade, eu sei que ele tem. Em algum lugar, eu sei, há mais que um deserto me separando dele, mas não há grão de areia que se conte diante de tudo o que eu sei que ele é. Há uma vida por trás de tudo o que eu digo e ele esteve lá, até que tudo se desfizesse em laços de saudade e dor.

Mas eu acredito que dentro da minha dor hoje só reside o desejo de poder abraçá-lo e desejar algo clichê, como todo mundo faz. Porque pode até ser que ele nem se importe, mas eu sinto muito por nunca ter dito nada do que vou dizer.

São simples e claras, são palavras que sempre rondaram minha mente, mas eu nunca tive coragem de dizer, para nenhum deles.

Quem está falando não é a atual pessoa que transfere as palavras para este lugar. Há um espectro menor que eu, que olha para cima e vê um teto branco, que abraça o irmão e pede para que ele pare de chorar. Porque tudo vai melhorar. Tudo vai mudar. Nada vai ficar. Há só um fantasma de uma criança que ama tanto uma vida que sabe que vai desmoronar, só não sabe quando. Há tanta incerteza em seu coração, e existe tanta tristeza por saber que o fim é necessariamente doloroso. Mas há tanto amor num perdão imediato. E não importa o quanto esse espectro sinta-se abandonado.

No momento em que as lágrimas queimam meus olhos e você se vai, sozinho, eu quero voltar para casa e esquecer que tudo aconteceu, eu só o quero de volta e fingir novamente que nada aconteceu. Pois, apesar de tempestade, você é o abrigo que me mantém segura. Você é tudo pra mim. E, enquanto você precisa ir, eu peço que fique, mesmo que em silêncio. E você sobrevive como uma das lembranças mais latentes dentro de mim, e, quando eu abro meus olhos, eu posso vê-lo novamente, em meus sonhos.

Eu sinto muito.

Sinto por viver metade viva, e uma das causas é sua ausência. Eu só queria poder estender a mão e te abraçar e te desejar o melhor. Só queria poder abrir seus olhos e mostrar que há mais escondido por trás dos meus olhos, que tristeza, que frieza. Mas, na sua ausência, eu desejo em silêncio, mais uma vez. Eu o amo, é, reconheço.

Eu sinto sua falta, mesmo que não sinta minha. Eu reconheço.

Feliz aniversário, papai.

PS: E eu nunca esqueço aniversários, não mesmo. Só não tenho jeito para isso.

PS.²: Feliz aniversário, Isabele. s2


FM.

1 comentários:

  1. Isabele Maire disse...:

    Eu li cada palavra. Mesmo. O texto é lindo, a essência que existe nele, principalmente. Obrigada pelo PS2.

Postar um comentário