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Em algum lugar, não me lembro onde, eu caí. Foi quase sem que eu percebesse, e meu mundo desmoronou de um modo violento. Foi como se tudo a minha volta estivesse colidindo e se partindo. A areia barrenta e avermelhada das ruas subia com o vento e tudo sumia num furacão de ilusões perdidas e sonhos destruídos. Edições de concreto caíam em frente aos meus olhos, como se um terremoto fizesse tudo sumir em meio ao vendaval. Era como se um fim tortuoso aguardasse para me engolir de forma crua e fria.
Foi sob a luz do sol que, de forma que já quase me escapa à memória, eu aprendi sobre todos os significados que me perseguem até hoje. Talvez, por causa dessa época, eu goste tanto de árvores grandes e com copas enormes. Principalmente se há tantas folhas no chão que quase é preciso mergulhar os pés entre elas para andar. E um dos barulhos que mais me agrada são os estalos que as folhas secas fazem quando se pisa nelas.
Foi naquele lugar que eu percebi que tudo havia caído, assim como as folhas secas. Ou talvez nunca tivesse existido de verdade. Ou talvez fosse tudo uma grande ilusão, um sonho, uma utopia. E, se fosse, ainda sinto a mesma formigação que sentia antes, numa inocência iluminada, como se tudo fosse dar certo.
São lampejos de alegria e esperança que ainda possuo, de tempos em tempos. São, de alguma forma, meu porto seguro. Por mais que eu saiba, hoje, que tudo não passa de uma ilusão, só pela sensação, nada mais importa. Pois é dessa época que guardo os meus maiores sonhos, por mais que todos tenham se partido, quando eu caí.
Talvez tivessem se perdido entre aquelas fileiras intermináveis de coqueiros, ou ainda se situem debaixo daquela palmeira. Porque ali a grama era tão verde e o céu era tão azul, e a brisa era tão amena. Um sonho meu era sentar ali, à sombra daquela palmeira, e ler um livro de minha preferência, talvez beber alguma coisa, um suco de laranja. Sonhos de criança, vai entender.
Mas, se tudo não passasse de ilusão, se todo o meu mundo não tivesse colidido e se quebrado em frente aos meus olhos, talvez eu ainda vivesse de uma fantasia. E, hoje, eu entendo que tudo o que se passou na minha vida teve um propósito. É nessas horas que minha fé se transforma em algo mais forte, é nesse ponto que eu entendo que eu estou exatamente no lugar onde eu deveria estar. Talvez esse seja meu propósito. Porque por mais que minha infância tenha sido um parque de ilusões, essas ilusões toda criança carrega, e muitas delas se partem, partem.
Muitas delas nem chegam ao ponto da vida em que podem entender. Só posso concluir que sinto falta de certas coisas que eu sei que nunca vão voltar. Sinto falta da formigação intensa que meus pés tinham quando eu deitava no chão do meu quarto e recebia correntes fortes de vento, pela janela. Sinto falta olhar pela janela e ver um mundo além do que existia de verdade, e tudo era mais feliz. Porque era ilusão.
A realidade, às vezes, pode machucar. Se foi assim, então, havia um propósito. Se meu coração se aperta em um sentimento de falta, há um propósito. Se, a cada ciclo, meu mundo se parte outra vez, me mostrando que nada passou de ilusão, assim é que a vida humana funciona. Hoje guardo experiências, guardo semblantes, guardo lugares que me marcaram, como a rua Pico da Tijuca e as quatro casas daquele quarteirão. Guardo imagens do passado, como todos guardam.
Guardo sabores e aromas e tatos. Guardo nomes e expressões, e tudo me parece vivo novamente, por mais que perdido por dentro. Guardo portões de madeira intransponíveis. Guardo músicas que nunca se perderam dentro de mim. Guardo melodias que ainda me fazem lembrar de um tempo que não voltará.
Mas, se há um tempo que não voltará, um novo tempo sempre virá.
E é por isso que eu estou exatamente onde deveria estar. É por isso que eu mantenho uma esperança que, mesmo que sem fundamentos sólidos, me faz sentir que tudo vai ser como eu sonho. E se assim não for, de alguma maneira tudo vai ser do jeito que deve ser. Eu não vivo mais no Parque de ilusões, vivo numa realidade com fios de sonhos que eu mesmo pinto todos os dias, no céu que eu criei para servir de mural. E de lá eles não sairão, não se partirão novamente. Pois, assim como as estrelas, atravessarão o tempo sem perder o espectro de luz.
Num novo parque de ilusões.
FM.
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