Don't Leave me Behind

sexta-feira, 15 de abril de 2011
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A escuridão do céu era manchada por nuvens acinzentadas. Comparava-se, pois, à névoa fria que circulava pela noite silenciosa. As vielas daquele lugar estavam completamente vazias e poucas luzes se moviam através da névoa. O silêncio se contava pelo som de gotas de água que caíam pelo telhado das casas e do latido dos cães na rua.

Mas uma guerra era travada ali.

Entre o barro escorregadio e fétido se estendiam feridos e mortos, como se enterrados em valas a céu aberto, indigentes vítimas de uma guerra sem sentido algum, vidas que presenciaram o horror e morreram numa esperança vaga de alcançar a paz. Persistiam em sangrar, numa terra em que a morte aprendeu a viver. E sobre sua face haviam lágrimas secas unidas à lama, mas sua visão era cega pela escuridão.

Naquele lugar, não havia movimento, exceto por um fio tênue, lívido, de vida. Através da névoa e do medo podiam-se ver olhos assustados e uma respiração falha. Podia-se divisar a solidão e as esperanças partidas de um anjo entre cadáveres e lama. Seus pés pálidos não guardavam receio de pisar sobre a terra, suas asas tão marcadas por cicatrizes e sangue quanto todos os mortos deitados sobre o chão. Suas vestes queimadas reluziam um brilho amarelado, ao entrar em contato com a luz fraca da rua.

Em seus olhos haviam tantas lágrimas quanto gotas de chuva no céu, à espera de sua queda livre e paciente. Mas tudo ao redor tornava-se cinza e só havia um espectro do que poderia existir em toda a parte. Vida. Arrasada pelo mais egoísta desejo humano, o poder. E o anjo não compreendia o porquê da morte em seu caminho, não entendia como funcionava a criação humana de matar. Não entendia sua dor, seu medo. A escuridão. Não entendia os olhos cegos que se admiravam o interior de si mesmos. Não se deixou compreender sobre o porquê de existir tanto rancor e inveja, tantas mentiras ao redor das mais belas criações.

E por seu corpo, como veneno, espalhou-se a angústia. De joelhos ele se jogou à terra e puxou suas vestes, apertando-as contra a palma da mão, onde deveria residir seu coração. Sua expressão era de terror pela visão, seus olhos temiam o futuro. E sentiu outro fio de vida se aproximar ligeiramente à sua presença, mas esse deixava um rastro de morte pelo caminho. O suspiro de seus lábios era gélido e seus dentes rangiam em sede do sangue de mais algumas vítimas, mas o escolhido já estava em sua mira.

Seus dedos cambalearam na pistola que empunhava. Um sorriso negro de satisfação traçou-se em sua face e as veias de sua mão saltaram quando o projétil foi disparado. Por um segundo em sua trajetória, cruzou o ar com a velocidade de torna-lo invisível ao olhar humano. Mas, ao perfurar vestes escurecidas pelo fogo e amareladas pela sujeira que havia no lugar, nada se sentiu além de uma dor sem som. Os olhos do anjo estreitaram-se por um instante e ele engoliu em seco, caiu sobre a terra como mais um humano sem identidade, entre todos os que jaziam ali.

Seus lábios tremiam, enquanto sua respiração falhava e diminuia, aos poucos. Seus olhos liberaram umas últimas lágrimas e a dor lacerante o consumiu em delírio. O anjo se contorceu em dor e fitou o céu uma última vez, para lembrar das estrelas como pontos de luz e esperança de que um dia tudo aquilo acabaria. Sua face pálida já tinha traços de frieza, tal qual as dos cadáveres ali. E seu último traço cálido esvaeceu. O suspiro o deixou. Mas a dor também o deixou.

Foi por uma réstia de segundo, e uma corrente de vento acariciou toda a rua, até o céu. Os pontos de luz continuavam estáticos, em meio às nuvens cinzentas e a lua surgiu em seu esplendor. Os olhos do anjo tomaram um brilho difuso com a luz que refletia da lua e seus lábios se moveram novamente. Até que sua cabeça se movesse; Até que suas mãos tomassem o tato do chão e o erguessem; Até que suas pernas o removessem de sua alcova e o anjo pudesse caminhar pela rua lamacenta outra vez.

Ao redor de seus pés haviam correntes que o prendiam ao chão, e não haviam asas. À sua volta haviam mentiras e medos, haviam lágrimas. Árvores austeras se erguiam altas e escurecidas. Nas copas muitas folhas cobriam a matiz leitosa da lua sobre a terra. Seus troncos sangravam como se houvessem veias e artérias, e elas pulsassem por dentro. O anjo se sentiu perdido por dentro, perseguindo um fim que ele não sabia bem como identificar.

No fim da rua coberta pelas árvores um palácio para loucos admitia que a luz sobrepujasse suas paredes, mas nada era visto além da escuridão. E o anjo moveu-se até lá, por entre as cinzas das mentiras que queimavam às suas costas, enquanto as pessoas gritavam e clamavam em sua dor. Tudo se tornou silencioso ao passar pela porta do lugar.

Um corredor longo e deserto se estendeu pela vereda. Todo o piso branco refletia a luz da lua, mas, em torno do corredor, os caminhos se formavam por fotografias recortadas, quadros quebrados e luminárias apagadas. Haviam móveis antigos, sem utilidade. Tudo coberto por uma poeira que obscurecia os labirintos intermináveis dos cômodos laterais. E, por um instante, o silêncio pacífico foi tudo o que se escutou, além do arrastar das correntes que o prendiam ao chão. Mas foi por pouco tempo.

Um murmúrio surgiu, ecoou pelo palácio e se ergueu até o teto do lugar, o céu. As palavras imaginadas pelo anjo ecoaram em sua própria consciência, e diziam somente:

"Não me deixe para trás."

Mas o murmúrio continuava mais forte, até se tornar uma voz viva dentro do corredor. As correntes perderam o peso, se retorceram e prenderam os membros do anjo, que se elevou pelo céu, como se voasse sem asas. Uma manta branca o envolveu, prendendo-o. Ele fitou o chão e uma mulher de idade avançada o visualizava de baixo, murmurava palavras desconexas. O anjo tentou soltar a voz para falar, mas uma mordaça invisível o prendeu fortemente. Seus olhos se arregalaram, mas ele não conseguia chorar.

O terror o cobriu. À medida em que agouros tornavam o ambiente ruidoso de uma maneira fantasmagórica, ele tentava soltar-se de sua prisão imaginária. A mulher andava com dificuldade, se arrastava para acompanhar o vôo da assombração que o assolava. Suas palavras foram então entendidas.

"Descance em Mim e Eu lhe Confortarei. Eu Vivi e Morri por você. Permaneça em Mim e Eu te prometo, Eu nunca te Abandonarei."

E seu vôo terminou. Foi uma queda violenta sobre o chão e o anjo sentou-se encolhido no piso branco. A velha mulher estendeu a mão ainda se aproximando, suas vestes mudavam de cor e sua aparência transfigurava-se. O anjo sentiu uma dor transpassar suas costas e tocou-as com as pontas dos dedos, mas sentiu algo quente e viscoso encharcar sua mão e a olhou, o branco pálido de seus dedos iluminados pela lua estava manchado por seu sangue. A velha senhora agora ereta em sua postura parecia maior.

Ela estendeu a mão novamente e não havia cor ali. Tampouco forma, era só luz. Não havia mais forma em nenhum de seus traços, era só luz. Como as das estrelas no céu, como a luz da lua. Apenas luz. Uma luz indistinta, sem cor. Uma luz liberta. E passou a existir tanta paz em todo o corpo do anjo que sua dor desapareceu. E todas as correntes esvaeceram. Todas as lágrimas sumiram.

E um brando sorriso se espalhou pela face da luz, tal qual ao do anjo. Distante de todo o sofrimento, sussurros vibrantes pausaram o sorriso. A melodia repetitiva de um piano inundou o palácio e todos os labirintos vieram por terra. Tudo se tornou luz, e tudo desapareceu.

***

Porque eu acordei. ¬¬'

FM.

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