Corações Apodrecidos

quinta-feira, 9 de setembro de 2010
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Era um dia de sol escaldante. Há dias eu procurava algo para escrever sobre, mas tudo me parecia tão banal. Foram dias em que meu silêncio se estendeu até minhas letras escritas, e foi mórbido.

Mas era um dia de sol escaldante. E eu andava, devaneava sobre a folhagem seca pelo caminho, percorria aquele lugar com os olhos quando escutei algo. Era uma pequena declaração, e eu sorri ao escutar. Não pelo significado da frase, mas pela luz que ela me proporcionou.

"Meu coração é podre."

Existem várias artérias pulsantes em cada parte do meu corpo, e elas são impulsionadas pelo meu coração. E é a partir dele que toda a vida circula em mim, dentro de meu sangue. Talvez, por essa razão, tantas pessoas digam que o amor vem de dentro do coração, numa simpática metáfora. Se, toda a nossa vida passa pelo coração para poder circular pelo corpo, talvez o amor circule junto com o sangue, percorrendo todo o nosso corpo.

Mas, durante uma pequena viagem pelo nosso corpo, o sangue, antes límpido e cheio de vida, se suja e perde a vitalidade, pelas veredas do nosso interior, até voltar ao coração. Como o amor, talvez. Nasce imaculado, puro, mas, com o tempo, dentro dos caminhos pelos quais envereda, se conspurca. E, em pulsos fracos, quando o coração não corresponde ao pedido de sangue para o corpo, este circula lentamente, quase parado, morto. Se um amor não possuir a resposta, logo a apatia vai se infiltrar em seu semblante e matá-lo, pouco a pouco.

E, se alguém ingerir veneno, este vai escorrer até seu sangue. Impregnando todo o caminho por ele percorrido, causará a morte. Talvez aconteça o mesmo com o amor, pois, ao ingerir os mais variados tipos de veneno, após receber golpes mortais, o amor pode enfraquecer-se tanto que chegue a morrer.

Então, talvez existam corações podres, realmente. Um coração pode apodrecer com o tempo, enchendo-se de feridas que nunca vão cicatrizar, com vestígios de palavras envenenadas, com uma face morta. Mas, a falta de credulidade só machuca. Corações podres deixam de acreditar, confiar. Corações podres têm medo de se entregar ao que poderia na verdade ser o caminho de sua vida. E medo é o contrário de amor. Corações podres são pobres, pois oferecem amor, mas estão bêbados de ódio. Corações podres só podem dizer com o que parecem, não o que realmente são, e isso sim é complicado.

Corações podres são insanos, amam o jeito como mentem para si mesmos, esperando tudo em volta queimar. E gostam da forma como se sente essa dor de amar sem sentimento, e observam as lágrimas do alvo de seu amor, como se fossem pequenas estrelas cadentes, que percorrem o infinito. E, mesmo assim, está tudo bem.

Corações podres são doentes. Corações apodrecidos poderiam ser vivos e felizes, se tentassem, porque todos podem.

Um coração humano apodrecido pelo tempo
Cheio de feridas que nunca vão cicatrizar
Com vestígios de palavras envenenadas
De sorrisos nunca feitos por essa face morta

Quando eu pude gritar com toda a voz
Somente escutei o eco das palavras
E menti pra mim com o que jamais ousei pensar
Perdi a direção ao tocar esperanças mortas

Sou apenas uma música triste
Com um coração apodrecido
E o silêncio me guiará até o fim
Até o fim
Como estrelas caindo
Lágrimas que percorrem o infinito

Quando a luz se tornar escuridão
Meus sonhos cadentes no céu
Como estrelas caindo
Como estrelas caindo
Lágrimas que percorrem o infinito
Meu coração apodrecido


FM.

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