Um exemplo de Generosidade

terça-feira, 14 de setembro de 2010
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Quando eu era criança, havia um mundo lá fora, como hoje. Mas, não como hoje, eu não o via da mesma maneira. Em meu olhar existia muito ao meu redor, foi a vida que eu conheci. Mas, em meu olhar, não cabia o verdadeiro sentido de existir, ou talvez aquele fosse o melhor jeito de ver a vida. Porque o olhar infantil tem apenas a inocência do descobrimento para se criar até o futuro.

Através do meu olhar, existia eu, um mundo e alguns sonhos partidos. Nunca fui uma pessoa muito otimista, nem quando criança. Mas eu sonhava. Assim como ainda sonho, eu sonhava. Talvez sonhasse com as mesmas coisas e, em matéria de sonhos, meu passado foi intensamente vivido. Pousando entre minhas memórias, eu sinto que meus sonhos foram as únicas fontes de vida que me habitaram por anos. Enquanto a morte, cruelmente, levava alguns amigos embora, enquanto as circunstâncias da vida me afastavam das pessoas que eu mais amava, eu sonhava com o dia em que tudo se restabeleceria.

Acredite, eu já perdi tantas pessoas quanto poderia perder. Mas eu nunca quis que isso crescesse dentro de mim como uma doença. Porque eu sei o quanto difícil é sentir algo preso na garganta, sufocante. Como um coração se partindo em pedaços, e eu não queria isso. A primeira vez em que eu senti como se algo tivesse sido arrancado de mim foi no ano de 2001. Naquele momento da minha vida eu já podia discernir que a morte levava embora as pessoas amadas e haveria a quebra do vínculo com elas.

Meu bisavô foi a pessoa mais generosa que eu já conheci em toda a minha vida. Seu olhar benevolente era tão verdadeiro quanto um olhar pode ser. Dentro de seu silêncio, nas marcas provocadas pelo tempo em seu corpo cansado, emanava uma luz que eu só enxergava nele. Em seu sorriso quase infantil eu via a simplicidade de um homem que passou pela vida e adquiriu sabedoria e o respeito das pessoas, como um ancião que era. Era meu espelho de virtudes, aquele homem. Sentia-me feliz quando chegava de viagem e o encontrava sentado naquela cadeira de balanço, perto da TV, assistindo a algum jornal.

Ele se erguia, no alto de sua idade, e abria um sorriso acolhedor. Estendia os braços e nos abraçava. Conversava sobre os mais variados assuntos, entendia sobre política e economia. Lembro das noites em que sentavam em volta da mesa da cozinha e os assuntos fluíam pela noite, naquele sítio. Eu era apenas uma criança, fingia que dormia, eu escutava. As mais variadas opiniões, eu as tomava em silêncio, como hoje. Mas eu admirava. Admirava aquele homem que, apesar de desgastado pelo tempo, possuía um brilho de jovem.

Humilde, nunca tirou os pés do chão para conseguir ir até o céu. Eu lembro de um dia nublado em que todos nos arrumamos para ir até uma plantação. Minha mãe me vestiu num vestido quadriculado e me pediu para calçar os tênis, pois as formigas poderiam machucar-me os pés. Nós fomos. Ele nos mostrava todas aquelas terras e nós, as crianças, corríamos entre as bananeiras. Em dado momento, eu mirei através do lugar e eles andavam lá na frente e os adultos o escutavam enquanto ele falava e apontava para algum lugar.

É a imagem que eu guardo com mais intensidade dele. Eu sentia orgulho de ele ser meu bisavô. Eu ainda sinto orgulho de pertencer à sua família. Uma das pessoas mais gentis que eu conheci. Uma das pessoas mais generosas que eu conheci, uma das pessoas mais humildes que eu conheci.

E, quando íamos embora daquele sítio, ele sempre acordava no escuro da madrugada para se despedir de nós. Sempre passava a mão sobre minha cabeça e me sorria, entregando uma cédula de um real, me pedindo para gastar com sabedoria. Eu sempre gastava aquele dinheiro com algum doce no meio do caminho, mas sempre lembrava dele quando pegava numa cédula de um real, e ainda lembro, quando raramente ainda encontro esse tipo de dinheiro por aí.

Num dia, porém, minha mãe falava impassível e tenho lembrança de sentir meu corpo estremecer, paralisando logo após. Meu pai pegou o telefone e ela se dirigiu até o quarto. A televisão era o único ruído, naquela manhã, após o telefonema. E, nunca, o som do silêncio me pareceu tão angustiante. Arrumávamos as malas para viajar e encontrá-lo pela última vez. A morte o havia levado embora.

Eu já me preparava para aquele dia há quatro meses, tempo no qual a agonia de contar os dias até sua morte o deve ter feito pensar no significado de toda a sua vida, e de lutar por ela com tudo o que havia em suas mãos cansadas. Mas, seu ciclo terminou, assim como o de minha bisavó terminara há alguns anos. E nós viajamos até sua casa, para vê-lo sair dali pela última vez.

Sempre tive receio de ver pessoas mortas, acho que por medo da quebra que existe entre a vida e a morte, um ponto final pode parecer assustador. Mas, naquela noite, me mantive acordada na sala, enquanto muitas pessoas se movimentavam e comentavam sobre sua morte. Alguns diziam: "Há alguns dias ele estava tão bem..." Outros comentavam à meia-voz: "Nunca mais..." Nunca mais.

Nunca mais eu veria seu brilho jovial no semblante castigado pelo tempo. Nunca mais eu ouviria seu caminhar arrastado pelo piso daquela casa. Nunca mais ele passaria a mão sobre minha cabeça e me pediria para ter sabedoria. E minha garganta apertou, era sufocante. Eu estava sentada numa cadeira e tudo era tão grande, do meu olhar infantil. Encolhi-me por ali e baixei os olhos, e confundiram com sono. Me levaram para a casa vizinha e me fizeram deitar para dormir. Mas meu coração havia se quebrado e meu sono tardava a chegar.

O som produzido por aquele silêncio era tão angustiante quanto podia ser. E o tom de eterno ali me fez derrubar algumas lágrimas pacientemente acolhedoras. Embalada por aquela noite fria em que o vento se movia com força pelo pátio de areia pálida, àquela hora tomado por uma imensidão azulada da lua, eu imaginava como seria a vida por ali, a partir daquele momento. Mas a expressão das pessoas que o viram pela última vez me fez ter a certeza de que tudo seria diferente demais.

E as últimas famosas palavras que disseram em homenagem a ele, no dia seguinte, foram saudosistas. Foi um dos únicos momentos em que vi meu pai chorar. Permitia que algumas lágrimas descessem por seu rosto avermelhado e ouvia alguem falar, como todos. Mais um momento de silêncio por ele.

Constatei que nunca tinha visto tantos carros num cortejo fúnebre. E, naquela tarde, eu estava sentada no batente da casa. Olhava o largo pátio de areia pálida, agora iluminado fortemente pelo sol, a ponto de causar dor nos olhos de quem se atrevia a fitá-lo por muito tempo. Eu repetia para mim mesma, em voz baixa: "3 de junho de 2001."

Uma música soava ao longe, ecoava pelo pátio. O vento seco formava alguns redemoinhos. Minha garganta ainda não desatara o nó que a comprimia. Ele partira para longe, para sempre. O vento acariciava tudo em torno de mim, os pássaros sobrevoavam aquele céu sem nuvens, formando alguns riscos negros no firmamento azul. Os galhos das árvores secas no horizonte se moviam lentamente, friamente.

Baixei minha visão pela segunda vez. Eu disse a mim mesma que nunca deixaria minha visão turvar diante das imagens do meu avô. Porque ele era meu exemplo de generosidade, era um homem forte e bondoso, era humilde. Era meu avô.

É mais um que as circunstâncias do tempo me tiraram. Mas seu exemplo ficará comigo para sempre.

Antonio Lino Bezerra.

FM.

4 comentários:

  1. Líllian Mayara disse...:

    Estou muito emocionada com esse texto, com essa linda homenagem a meu amado avô, que é exemplo para toda família, amado e respeitado até hoje. Não tenho palavras pra agradecer, por tudo que ele fez por mim e pela minha família, devo muito a ele, meu eterno e querido avô.

  1. Unknown disse...:

    Hoje falei dele com seu pai. Coincidência.
    Muito bonito o texto, e como Lillian, também estou emocionado. Meu avó que SEMPRE nos deixava 'tomar banho na caixa'. Pq só ele movia mundos e fundos pra mandar aquelas pessoas (então gente grande) apertarem o botão mágico que fazia sair água. Meu avô que sempre sonhou em me ver dirigindo. Muito lindo o texto. Parabéns, Fêh!

  1. jussane disse...:

    é esse foi e sempre será pra nós seis familiares o velho e querido tonheiro das barreiras!!
    fernanda as minhas lágrimas hoje é de tristeza e alegria de saber que ele foi um grande homem, que nos fez muito feliz um dia!!!!

  1. Unknown disse...:

    Lindo texto. E são boas as lembranças que ele me traz. Como todo mundo, emocionada também. Uma emoção boa, de fato. "Pq só ele movia mundos e fundos pra mandar aquelas pessoas (então gente grande) apertarem o botão mágico que fazia sair água." Sorte da gente que teve uma pessoa como ele no meio da nossa infância.

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