Bem-vindo à Existência

domingo, 5 de setembro de 2010
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"Sob a sombra da noite, todos são iguais em suas vozes, seus olhos, seus corações. Todos têm medos, têm desejos. Todos têm esperanças tão profundas que, mesmo que tentem, não podem esquecer ou ignorar."

E o sol já não brilhava com força, àquela hora. Apenas algumas réstias de luz clareavam a linha do horizonte, entre tons de laranja, rosa e azul. E o dia se movia lentamente, caminhando para a noite. Eu divisava todo aquele verde imóvel dos campos que ficavam para trás enquanto íamos ao nosso destino. Aquele verde. Tão vivo e parado. Tão deixado para trás. Tão imperceptível aos olhos da pressa. Para aquele verde o tempo não se conta em números de relógio, mas em olhares das mais diferentes histórias que por ele passam.

Durante esse pensamento eu me vi por dentro. Em algum lugar, eu vivo por dentro. Mas, será que eu não me perdi dentro de mim, como tantos outros? Talvez eu viva com os olhos entreabertos, ou fechados. Decidi por mim, naquele momento, que queria muito mais do que a vida podia oferecer. Era uma pequena esperança que crescia enquanto o dia se esvaía, na tarde de ontem.

E eu corri. Ao som de doces melodias, embalada pelo vento forte que vinha do mar, caminhei entre uma multidão. À princípio sem entender muito bem o que estava acontecendo, minha atenção fixa num ponto dentro da escuridão ao meu lado, o oceano.

Mas algo acontecia ali, e eu me dei conta de que devia rever minha atenção. Porque pessoas estavam ali. Não como os verdes campos que eu vi durante o fim de tarde. Não estavam paradas, esperando olhares de outras histórias. Eram pessoas que construíam suas próprias histórias e se movimentavam insistentemente pela avenida. Elas clamavam. Em todas elas, vozes mostravam algo de felicidade, leveza. Elas gritavam, entoavam suas canções preferidas e erguiam as mãos, mas havia algo além de alegria em suas almas.

Então eu vi uma criança. Ela sorria. Esperava por seu pai e sorria ao vê-lo sorrir. E cantava. Esperava pelas luzes que vinham do alto e a música se aproximava. Esperava e sorria. Esperava. Meu olhar se desviou dela e haviam dois homens que acenavam felizes para alguém no meio da multidão, e esperavam a resposta. Um casal se abraçava e sorria, esperando o carinho recíproco. Todos esperavam, ansiavam. E eu compreendi.

Havia esperança em cada face ali desenhada pelo tempo. Em cada existência ali, uma ponta de entusiasmo denunciava a esperança latente em cada coração.

E não existia medo, nem olhares nublados. Tudo era tão nítido e forte que nem parecia noite naquele lugar. O vento forte carregava a esperança até o céu, enlevando as vozes e acalentando os corações, para se misturar às estrelas que pulsavam lentamente seu brilho. Com uma intensidade que me fez sentir preenchida pelo seu entusiasmo.

Era como um desafio a mexer todas as pessoas que ainda viviam em sua acomodação. Todas as pessoas afastadas de um propósito. Como se o "hoje" nunca tivesse acontecido, elas cantavam, se deixavam levar pela esperança de um "amanhã". E, num olhar em especial, eu vi uma redenção que tinha muitas histórias para contar. Essa redenção não podia mais escapar de si mesma, mas o perdão estava ali, onde aquele olhar caiu.

Restava levantar do chão e se mexer, pois o "hoje" nunca aconteceu e não voltará. Só possuímos uma vida e nela temos que depositar todas as nossas esperanças, e isso nos fará felizes. Só haverá um futuro melhor se houver um passado intensamente vivido. Sonhe com tudo quanto você quer, mesmo que seja menos do que sua vida pode oferecer. Perdoe, pois só haverá leveza em seu olhar quando as decepções e os erros forem deixados para trás. E peça perdão pelos erros cometidos, pois a humildade de reconhecer seus enganos elevará seu espírito.

Foi algo que pensei durante a noite passada, dentro do silêncio que cobriu minhas últimas palavras, durante um breve sono, de volta pra casa.

Bem-vindos à existência humana.

FM.

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