O peso que o ar Mantém

sexta-feira, 24 de setembro de 2010
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Era repugnantemente frio ali. Tão solitária, a lua persistia em seu ritmo em torno do céu. Era complicado entender o porque de tudo ser igual, a cada dia. É complicado entender o peso que o ar mantém sobre nós, diante da vida em movimento contínuo. Mas era repugnantemente sombrio ali. Num vislumbre mínimo da ideia de estar sozinha, ela pensava, mas seu pensamento vagava pelo vale do esquecimento, e ela fitava o horizonte.

Em seus olhos a curiosidade se perdeu. Havia um tom cético banhado pelas diferentes matizes que contém uma lágrima. E seus ombros não suportavam o peso que o ar mantinha naquele lugar, como uma gaiola, a prendia em um amor camuflado com o que, na verdade, parecia ser ódio. Em algum momento, lhe ocorreu a ideia de doença. Ela não podia deixar que essa doença se espalhasse por seu corpo. Ela não queria. Ela queria. Ela deixou.

Mas o céu, impassível, prosseguia em seu papel eterno, estático. E o vento carregava seus cabelos através do vazio, lentamente. Placidamente, a fração de tristeza que abatia sua voz se consternava ao ponto de distribuir as lágrimas por seus traços, num semblante indiferente ao mundo.

E nada destruiria o que estava escondido em seu coração. Nem o desprezo, o desrespeito dele. Todo o amor sufocado em seu interior era vivo e pulsante, latente em emoções extremas. Vestida em pétalas de esperança e saudade, ela se mantinha esperando. Mas, complicado era não deixar que a vida tomasse seu rumo sem se importar com o que os outros diriam. Complicado era não deixar se permitir e viver, porque o tempo da vida é curto, escorre rapidamente numa ampulheta que conta os dias.

Enquanto isso, ela se tornava escrava de uma ilusão. Envolvida pelos elos que as memórias transformaram em tesouro, fatalidades de um passado intensamente vivido, ela existia. Apesar de seu amor, ele era o único que a fazia triste. E isso sim era complicado. O modo como seus olhos se hipnotizavam pela imagem intransponível dele era inexplicável. Seu corpo e sua respiração tomados pela possessão de um amor escravizado pela ilusão, e isso sim era complicado.

O peso que o ar mantinha em sua sensação inebriante de sofrer era denso. Ela rasgava os retalhos de seus sentimentos e buscava em seu interior a folha em branco, para recomeçar. Ela existia pela necessidade de se auto-obrigar a renovar sua saudade diante da figura endeusada dele. Mas, sempre existiam as contradições, e isso sim era complicado.

Pois os olhos dele mentiam a dor que ele sentia ao produzir as palavras erradas pelos lábios. Era real. Mas ele não se deixava permitir, e se afastava. Tentava matar seu próprio amor e nele cuspia. Rejeitava a ideia de vivê-lo, tão somente por medo. Mas ela o amava, e o restituía. Restaurava os estilhaços de um espelho e buscava um reflexo sorridente. E ainda restaura. Todos os dias remonta suas emoções e a cada dia seu coração renova suas esperanças.

Mas isso é complicado. Há toda uma história de dor por trás e algumas cicatrizes que nunca desaparecerão. O ar ainda será denso por algum tempo, e haverá uma névoa indistinta sobre seus olhos. Pois no rolar de suas lágrimas há muito mais que um amor banido tempos atrás e isso custou a morte sucessiva de suas esperanças apenas para deixá-lo ir. E ele seguia seu caminho, ambos em lados opostos. Presos pelas correntes da saudade, permaneciam juntos.

Eu ouvi dizer que anjos mentem para manter o controle. Talvez, no dia em que a verdade sair dos lábios dele, diretos e incisivos a ela, os elos se desfarão, e ela se libertará. E seu amor talvez não a maltrate tanto.

Enquanto isso, complicado é morrer um pouco, a cada dia. Ela espera pela volta dele, com o coração cheio de saudade e lembranças, carregado pela esperança de ter valido a pena ouvir que era complicado ficar ao lado de quem ama, apenas uma vez.

A noite se esvaía e o dia nascia. Nas pedras de sua alma, ondas de vento quebravam e se transformavam em leve brisa. Esse é o peso que o ar mantém em sua vida, como as ondas do mar se chocam contra as pedras e se abrandam, todo choque que seu amor sofrer até o dim dos dias o quebrará, mas, não como acontece com as ondas do mar, ela o reconstituirá, pois sua esperança é eternizada pela promessa de que um dia seu amor será recompensado.

FM.

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