A Esperança

sábado, 21 de janeiro de 2012
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Os ecos de gritos ainda podiam ser captados por seus ouvidos. Em seus pesadelos restava devastação. Talvez alguns buracos ainda abertos pelo fogo que queimou sua pele, estendendo o poder de suas asas flamejantes. Uma única bomba que perfurou fundo sua alma no último dia.

Viva demais para estar morta. Mortalmente viva e protegida, para se deixar morrer. Ainda que fosse seu único desejo.

Pois estava presa numa cadeia de grilhões pesados.
Condenada a viver com o peso da morte sobre os ombros.
Condensada na névoa de seus pensamentos confusos, no dia em que se perdeu.
Embora nada pudesse mais importar sobre sua história.
E suas lágrimas só representassem o cansaço dos dias da Grande Guerra.

Esperava o dia em que a espuma do mar levasse para longe sua dor. O dia em que sua nau singrará em um oceano que não lembre o sangue, onde as lembranças sejam mais brandas. Onde as flores não signifiquem medo. Onde um amante não precise entoar uma canção de morte para proteger sua amada, onde aja um lar. Onde os olhares não sejam ódio, onde os sorrisos não sejam um simples contorcer indesejado de lábios.

Onde se possa descansar. Sentir o vento correr livre, os raios de sol cobrindo a terra, onde a música não seja crime. Onde se possa escutar a água caindo nas pedras. Onde a chuva não seja uma queda ácida de poluição. Onde somente haja uma esperança. Onde o mais bravio dos gritos seja o de alegria. Onde a bruma incandescente da manhã embale a brisa amigável, como naquela música.

"Aqui é o lugar onde eu te amo."

Enquanto tudo desaparece, em seus sonhos resta A Esperança. Um tordo. Morte de uma esperança pelo favor de deixar todas as linhas de sangue para trás. Assim como o fogo que matou todo o amor que um dia chegou a possuir. Porque seu único sentido pairava entre o cheiro de canela e aneto. O lugar onde encontrava um refúgio para seus pesadelos, como sempre foi.

Tudo ficaria bem. Repetiria para si mesma. Mesmo que tantas fossem as cicatrizes e as marcas do passado.

Tudo ficaria bem.

[Para Katniss Everdeen. Sem nenhum spoiler, Isabele Maíre. auhauhau]

FM.

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