Loneliness

sábado, 17 de dezembro de 2016
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Rainha Branca de neve sentia-se presa em uma armadilha de solidão. Os ecos que a atormentavam não bastavam como companhia, nem as estações que permeavam seus olhos, com pastosos vendavais de lágrimas e últimas palavras, as que nunca pronunciou. Seu reino solitário, feito de sombras, memórias e poeira, padecia. Ruía em uníssono com seu mais profundo e mórbido desejo. No reduto mais indômito de sua sanidade, ela era julgada por seu silêncio, o que a fazia perecer.

Ela não queria se sentir só.

Por isso o fantasma que a alegrava era sua companhia, por um tempo. Ele era intangível, etéreo. Fluía na brisa e se esvaía entre os dedos, em espirais de fumaça, impossíveis. O espectro era apenas uma lembrança torpe do brilho que um dia já foi. Intocável, parecia longe demais para abraçar. O cheiro não era como ela lembrava, o olhar era apenas penumbra. Ele parecia se sentir tão preso quanto ela, para não se sentir só. E ela sofreu. Como nunca pensou que pudesse sofrer antes, como nunca quis.

Aquela dor era pior que os grilhões de sua solidão, preenchida com o escuro em que se mantinha.

Ela não sabia se era apenas ela, ou se todas as pessoas em seus mundos se sentiam assim tão sozinhas com seus fantasmas. Se todas as pessoas tinham seus fantasmas... Nem isso ela sabia. Só sabia que ser deixada sozinha até mesmo por sua sombra, no vazio, era dolorido. Deixada para trás, descartada como um brinquedo velho e quebrado, remendada. Desacreditada. Incapaz de lutar contra os fantasmas que a atormentavam, enfraquecida pela quantidade de silêncio contado em horas e dias. Ela se sentia abandonada até mesmo pela solidão, no fim.

Era capaz de ouvir apenas o som de sua voz, arranhada, destreinada depois de tudo.

E, quando falava, chamava por seu cativo e etéreo, o via pairar sobre si, impassível, adormecido como os sons, silencioso como somente ela conhecia. A pressão sempre crescia em seus ouvidos, até aquele silêncio se tornar insuportável, até rasgar sua alma. Até fazê-la expelir os resquícios de sua ingenuidade, e querer gritar por ajuda, por alguém que a retirasse daquele torpor. Só conseguia se sentir ainda mais sozinha.

Ainda mais abandonada. Para sempre, atormentada pelo fantasma ébrio em sua própria consciência.

Para sempre.

Mas ela ainda alimentava secretamente aquele desejo infantil de não sentir-se tão sozinha... De não ter apenas a própria voz para ouvir. De não ser sua única companhia, em um mundo tão solitário quanto o reino... em que perecia.

FM.




I've been screaming on the inside, and I know you feel the pain. Can you hear me? Not that I'm so diferent, not that I don't see the dying light of what we used to be. How can I forgive you? You changed. And I'm a liar by your side, I'm about to lose my mind.

The change - Evanescence

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