Voobrazhayemyy - Parte II

sábado, 17 de dezembro de 2016
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T Casper's Lullaby - Gasparzinho OST T

Era uma vez quatro brinquedos que caíam em um abismo escuro, infestado por tempestades de vento e uma nevasca terrível. Levados pelos vendavais, eles despencaram entre estrelas e flocos de neve, até o chão branco e macio. Seus nomes eram Voo, Braz, Hay e Emyy.
Voo era a mais velha deles. Era amorosa e tratava a todos como uma mãe. Ela era uma matrioska bonita, com três bonecas pintadas à mão, e usava um vestido vermelho, com um avental azul e um lenço amarelo na cabeça. Braz era sisudo, pessimista e um pouco rabugento, mas todos gostavam dele. Era um Zaleika, espécie de flauta com som melancólico. Hay era o soldadinho de chumbo mais bonito de seu regimento. Usava uma farda azul e segurava uma carabina negra no ombro. Era corajoso, forte, e parecia sempre pronto para enfrentar os maiores perigos...
...Coisa que Emyy, a bailarina de cerâmica, nunca faria. Ela era muito medrosa, pouco corajosa, sempre tentou se arriscar o mínimo possível, para não se machucar. Ela era mesmo muito boba.
Aqueles brinquedos despencaram pelo céu deserto, e imaginaram que era seu fim, e que se quebrariam quando chegassem ao chão, mas não foi o que aconteceu. Eles colidiram contra o chão branco e macio como um travesseiro de penas, com sons ocos. Voo, a matrioska, gritou, mas sua voz foi abafada pela neve que cobria sua boca. As notas melancólicas de Braz soaram sua música sombria no ar, em um assobio, e Hay foi o primeiro a escapar de seu buraco.
Ele correu para salvar Voo, e depois puxou Braz pelo bocal. Os dois caíram na neve, e riram, talvez por alívio, já que ninguém estava quebrado. Voo chamou a atenção dos dois, e apontou para Emyy, que estava deitada na neve.
Emyy fitava o céu, com a expressão triste. Lá no alto ela via as estrelas presas na escuridão, suspensas por algo que ela desconhecia, enquanto outras caíam até o chão, para forrá-lo de branco, talvez porque se sentissem muito sozinhas... Tão longe. Ela também viu o trenó que fugia para a próxima cidade, rapidamente, levando seus sinos, seu calor e seu cheiro de biscoitos recém saídos do forno. O senhor de vermelho ainda precisava entregar os presentes de natal de todas as crianças do mundo.
“Emyy? Está tudo bem? Ou você se quebrou? ” Hay parecia genuinamente preocupado com a bailarina, que o olhou e pestanejou lentamente.
“Estou bem. Não que você precise saber.”
Hay estreitou os olhos.
“Mal-educada.”
Os dois trocaram um olhar ferino, e sustentaram a provocação por alguns instantes, até ouvirem o assobio de Braz no ar. Então o soldado fez uma careta e se afastou da bailarina, que ouviu seus passos pesados achatarem os flocos de neve.
Hay e Emyy não se davam bem. Eles se provocavam o tempo inteiro. Emyy não suportava a arrogância de Hay, e Hay detestava a falta de seriedade de Emyy. Os dois não conversavam sem que tudo acabasse em brigas, que sempre eram apartadas por Voo ou Braz. Assim, os quatro mantinham, dentro de seus conflitos, uma unidade. Eles todos eram amigos, apesar de Hay ser um chato.
Emyy soltou um suspiro e viu o ar condensar acima dela, como uma baforada de fumaça. Ela se sentou e limpou a neve dos braços e dos cabelos esculpidos em cerâmica. A bailarina se ergueu, fitou o lugar ao seu redor, e um frio percorreu sua espinha.
Longos corredores se erguiam ao redor dos quatro brinquedos, semelhantes a um labirinto, com várias direções a seguir. Ela viu que as paredes eram de pedra escura, cobertas de limo esverdeado e úmido, além da densa camada de neve que parecia esconder seu real tamanho. Em alguns pontos as paredes eram apenas gradeados pretos, que protegiam cruzes de madeira desgastada em sua demarcação. Uma das paredes era feita de mármore branco rajado de teias cinzentas, com duas argolas de prata penduradas em sua extensão.
Emyy olhou para cima e viu os topos das paredes. Algumas eram adornadas por anjos de pedra com asas baixas e aparência tristonha, outras tinham cruzes esculpidas em diversos tamanhos. A neve se acumulava em tudo, ali. Dava uma aura ainda mais fantasmagórica à visão.
“Onde estamos?” Ela perguntou, andando até Voo. Emyy sentia medo, mas não estava disposta a admitir isso na frente de Hay.
“Parece com um cemitério.” O soldado informou, com uma voz implacável. Ele caminhou pela neve e ergueu a carabina, encostando-a na argola de prata, que mal se mexeu com o esforço de Hay. “Perderemos o natal, e a criança que nos receberia ficará... Bem, sem presente.” Ele encolheu os ombros, e Braz assobiou tristemente.
“Hay, filho, você lembra qual era o nome da criança a quem seríamos entregues?”
“Sim, senhora. Princesa Agnes Valentina Ruth Ianzen Lockhart, primeira filha do rei Richard II.” Hay respondeu a Voo, que pressionou as mãos gordinhas juntas. “É, uma princesa de verdade.” Ele completou, e Braz soltou outro assobio, mais agudo, e mais sombrio. “E não sabemos nem ao menos onde estamos. ” Sua voz sempre constante falhou, e Hay pigarreou.
“Nunca conseguiremos encontrar a garota.” Braz cantarolou, melodioso.

“Bem... ” Hay parecia concordar.

TTT



Continua...

FM.

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