Ah, hoje eu sou apenas uma gota de água
E eu estou descendo uma montanha
Venha amanhã eu estarei no oceano
vou estar subindo com a maré da manhã
Start of time - Gabrielle Aplin
Todo fim de ano eu refaço meu caminho até o ponto em que estou. A cada ano o volume de lembranças aumenta e, com tanto para recapitular, algo importante sempre se perde. Por isso guardo memórias em vídeos, fotos, palavras, textos, música, ou mesmo com sonhos que nunca saem da minha memória. Transformo-as em pedras para construir com elas minha vida, pilares importantes que me sustentam e me fazem o que sou. Meu comportamento, minhas convicções, opiniões, minhas predileções. Ou as pessoas que estão comigo em minha jornada.
Mas há mistérios dentro de minhas memórias, momentos que eternizo em segundos que modificam minha percepção de felicidade. Nunca falo deles porque não sei se alguém me entenderia, aposto que sim. Eles trazem para mim um tipo de felicidade antiga e desmotivada, que emana um torpor leve, preenche meus pensamentos e se afoga em minha garganta, presa em um suspiro. É apenas uma percepção, um segundo que sei que será eterno.
Não é um momento importante, ou algo que me fará diferente. É apenas uma forma nova de ver o lugar que habito, e observar o quão grata eu sou por poder viver. Pode ser uma hora à noite, quando eu olho o céu e sinto a brisa morna. Ou pode ser quando eu vejo aquela luz da manhã, tênue e branca, entrando pela janela, ao som dos passarinhos. Pode ser aquele céu tão azul quanto ele pode ser ao meio-dia, sem qualquer nuvem para manchar.
Pode ser aquele som de música ruim que toca nos bares no domingo à tarde, ou o farfalhar das carnaúbas numa tarde de outubro, antes do corte, que me lembra o ruído do mar. A TV ligada naquela novela nostálgica. Pode ser ver o caminho familiar e ter a certeza de estar voltando para casa. Pode ser aquela música que não se ouve há muitos anos, ou o cheiro de perfume que lembra outra época. Pode ser aquela capa de caderno que você não via há séculos... Ou aquela capa de livro que usava na escola.
Pode ser aquele catálogo de loja com material escolar, com o anúncio de Volta às Aulas, em janeiro, ou receber o último boletim e saber que está de férias, e voltar pra casa, olhar pela janela do ônibus e ver o céu nublado. Pode ser aquela viagem que te lembra um sonho realizado, ou aquela sensação de frio que esfumaça o ar que sai da boca. Pode ser um envelope que guarda uma esperança, ou um plano feito sentada numa cadeira de balanço, debaixo da noite mais clara do ano.
Pode ser aquela noite em que se escapuliu para passar mais tempo na internet, e criar as histórias mais insanas, mais reais, que mais fincaram raízes. Pode ser um momento compartilhado no meio da tarde, perto da sala dos professores, para falar sobre sonhos fantásticos de vidas passadas, futuras. Pode ser aquela chuva tão pesada que não permite ver um palmo a frente do rosto, sozinha na rua.
Pode ser aquela música de abertura de desenho que nunca esquecerá, ou aquele clipe que ficaria preso em sua lembrança, mesmo que o nome seja apenas Talvez... Pode ser aquele um real de pirulitos para dividir com amigos, ou aquela tiara colorida, ou até mesmo aqueles trabalhos de escola que ensinaram mais do que o professor poderia falar.
Pode ser aquela propaganda que fazia chorar, cantar, pensar. Pode ser aquela manhã de sábado com Em Busca do Vale Encantado, ou outras manhãs com Bambuluá. Aquela manhã de 11 de setembro, diante da TV, pronta para ver dragon ball, e vendo o evento que mudaria mais uma vez a história da humanidade. Poderia ser aquela manhã nublada, desligando a TV para ir ao hospital, e almoçar naquele restaurante, e ainda sentir o gosto daquele macarrão. Poderia ser aquele fim de tarde, vendo o sol ir embora, e se despedir de alguém, e ouvir "seja feliz".
Pode ser até mesmo aquele momento na escola em que todos saem, para ficar sozinha na sala de aula, e comer o lanche ali, com as luzes apagadas. Pode ser aquela sala de aula gigantesca para uma menina tão pequena, com um caderno da vaca da parmalat, ou aquele caderno rosa da Minnie, com muitos adesivos que nunca foram usados. Podem ser aquelas conversas que ouvia das meninas, ou aquele dia em que a professora entregou uma folha com a capa das provas do bimestre, em comemoração à primavera.
Pode ser a inspiração para o primeiro poema, que se tornaria um mantra para atrair a chuva, mais tarde. Pode ser então o dia de chuva, sentada em uma bacia, ouvindo aquela música do Renato Russo. Pode ser a ida para a escola, se esgueirando das poças de lama. Poderia ser a fascinação pelos temas de biologia e história, e pelas vegetações que existiam no mundo. Padrarias, tundra, coníferas... Seus preferidos. Os mais frios, com neve, árticos, com noites iluminadas pelas auroras boreais.
O céu.
Pode ser sua fascinação pelo céu, por isso a insistência para conhecer aquele telescópio famoso, Hubble, que está agora no espaço vazio, silencioso, escuro, cheio de astros e envolvido pelo desconhecido que ela gostaria de desbravar. Por isso o planetário que insistiu em recriar, por acreditar que o universo está lá para ser observado. E por tantas lembranças, uma marcante que nada representa é mergulhar nas ilustrações de galáxias e naquela frase que leu no livro de ciências da terceira série. "Se um único homem atingir a plenitude do amor, neutralizará o ódio de milhões." Não saber quem é Gandhi nunca foi pecado para uma criança.
Essas não são lembranças fugazes. São impressões fortes, vivas e com cores, e elas nunca irão. Um dia eu soube como acontecia, mas nunca descobrirei o porquê, nem quero. O mistério de guardar momentos de felicidade desmotivada a faz mais bela. E eu só descobri isso quando, numa noite, à caminho da faculdade, eu caminhava pelo pavimento, indo para a aula, e senti o vento bater em meu rosto. Tudo estava escuro, e eu olhei para o céu.
Primeiro me lembrei de um lugar tão desmotivado quanto aquele, muitos anos atrás, quando eu passava pela rua da minha antiga casa e cantei uma música que passava na novela da época. "Uma vez mais...". Naquele momento, lá na faculdade, eu percebi que aquela sensação de alegria que me percorreu era única, singular. Rara. "Esse é um daqueles momentos que vou me lembrar para sempre."
Eu estava certa, sobre isso. Nunca esqueci daquela impressão.
E não há mal em olhar para o passado no final do ano, para refletir. É a hora exata de fazê-lo, no entanto. Porque com a chegada de um novo ano, há de se preparar para o que está por vir. Porque é quando uma nova jornada começa. É quando o sentimento de página em branco retorna para a vida, e então é possível recomeçar. Continuar. Evoluir. Para sempre, em ciclos intermináveis, até o fim. E se sua caminhada for bem fincada no chão, ou no ar, ou em qualquer lugar...
Nunca haverá fim.
FM.



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