'
Eu não quero muito nesse natal
Só tem uma coisa que eu preciso
Eu não me importo se não há presentes em baixo da árvore de natal
Eu só quero você para mim
Mais do que você pode imaginar
Faça o meu desejo se realizar
Tudo que eu quero de natal é você
Eu não quero muito nesse natal, só tem uma coisa que eu preciso
Eu não me importo se não há presentes em baixo da árvore de
natal
Eu não preciso pendurar a minha meia na lareira
Papai Noel não vai me fazer feliz com um brinquedo no dia do natal
Eu só quero você para mim
Mais do que você pode imaginar
Faça o meu desejo se realizar
Tudo que eu quero de natal é você
Eu não vou pedir muito nesse natal
Eu não vou nem querer neve
Eu só vou ficar esperando debaixo dessa árvore
Eu não vou fazer uma lista de presentes e mandar para o pólo norte para S. Nicolau
Nem vou ficar acordado até tarde para ouvir os sininhos das renas
Porque eu só quero você aqui esta noite
Me segurando bem apertado
O que mais eu posso fazer
Oh baby tudo que eu quero de natal é você
Oh nossas vidas estão brilhando por todo o lado
E o barulho das risadas das crianças está pelo ar
E todo mundo está cantando, eu escuto aqueles sinos tocando
Eu não quero muito para esse natal
Isso é tudo que eu estou pedindo
Eu só quero ver meu amor parado na minha porta
Eu só quero você para mim
Mais do que você pode imaginar
Faça meu desejo se realizar
Tudo que eu quero de natal é você
Tudo o que quero é você
All I want for Christmas is you - My Chemical Romance
FM.
All I Want For Christmas Is You
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
18:13
domingo, 26 de dezembro de 2010
I don't Regret
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
15:41
'
They’re telling me they’re concerned for the way I am living
That I’ll miss it all why would I think that God is that trusting
I can’t explain all the words He has spoken to my heart
Why I’d want him more
And I don’t regret choosing you
And I’m not ashamed
That it’s you who holds my heart
Why do we think if we trust God too much He will fail us
Nothing has come when I chose that in me I’d trust
Separate me you have called out to follow you blindly
I won’t fear you’re leading me
And I don’t regret choosing you
And I’m not ashamed
That it’s you who holds my heart
You have shown my ever wandering heart what love is
What on earth is more important than to have all of you
And I don’t regret choosing you
And I’m not ashamed
That it’s you who holds my heart
My heart
FM.
They’re telling me they’re concerned for the way I am living
That I’ll miss it all why would I think that God is that trusting
I can’t explain all the words He has spoken to my heart
Why I’d want him more
And I don’t regret choosing you
And I’m not ashamed
That it’s you who holds my heart
Why do we think if we trust God too much He will fail us
Nothing has come when I chose that in me I’d trust
Separate me you have called out to follow you blindly
I won’t fear you’re leading me
And I don’t regret choosing you
And I’m not ashamed
That it’s you who holds my heart
You have shown my ever wandering heart what love is
What on earth is more important than to have all of you
And I don’t regret choosing you
And I’m not ashamed
That it’s you who holds my heart
My heart
FM.
Emily's Song - Acorde do Amanhecer
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
18:40
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
'
Era noite num mundo morto. Frio, calmo e sem sonhos. Por muito tempo, era noite naquele lugar. E alguém vagava entre os augúrios do vento constante no vazio. E não havia dor, só algumas lágrimas tão perdidas quanto seus pés, em um caminhar lento e relutante. Era apenas mais uma noite. O silêncio era interrompido pelo chamado de suas lágrimas eternas. Mas ela gritava por dentro, rompendo as barreiras de um amor que poderia ser visto através da morte.
Emily chorava. Pois eram as evidências de seu fim que a faziam começar. Seus dedos outrora ágeis e corados agora se preenchiam num azulado exangue. Seus olhos tinham um aspecto perdido, entristecido. E suas mãos buscaram, numa tentativa de sanar sua loucura, tocar a chama de uma vela. E não havia calor. Buscou uma adaga, se cortou. Mas em Emily não havia mais dor. Era verdade que a vida tinha partido, e que a morte nela estava. Mas ela não deixava de sofrer, e não demorou. Em seu rosto se viu lágrimas a rolar.
A presunção da morte era aterradora, como o amanhecer seria, ao ignorar Emily, perdida na escuridão. Pois ela não mais sentiria calor. Ficaria muito abaixo dos pesadelos e da solidão. Emily logo percebeu que sua respiração era inexistente e ela não sentia mais nada, a não ser seu vazio peculiar. Ela havia perdido seu caminho, mas nada empobreceria seu amor real, algo que ela deixara para trás, contra a vontade, de luto por ela. Todos os caminhos a levavam de volta à escuridão.
Emily repousava fria na Terra. Ela sussurrava, talvez assombrando algum lugar lá fora. Mas ela acreditava que seu amor a veria através da morte. Porém, ela repousava. E não havia espaço pra mais ninguém. Ela estava sozinha. Ou não. Seu amor dissera que não a abandonaria, ela não estaria sozinha. Mas ela estava sozinha.
Ela não estava sozinha. Haveria alguém sempre ao seu lado. Deitado ao seu lado numa felicidade silenciosa. E sua morte faria sentido, ou não. Quem poderia lhe dizer? Se ela tocasse uma vela, não sentiria dor, isso era irreal. Tanto fazia o frio ou o calor, pois seu corpo não sentia mais. Seu coração estava despedaçado, mesmo que parado. A morte nela estava, mas Emily ainda teria muitas lágrimas para dar.
Enquanto isso suas dúvidas a corroiam, numa caminhada lenta e relutante, através das sombras que escondiam o acorde do amanhecer, que trazia suas respostas.
Quando toco a vela acesa, falta seu calor
Se me corto com uma faca não há dor
É verdade que ela vive e que a morte em mim está
Mas não deixo de sofrer
Não demora vai se ver no meu rosto uma lágrima rolar
Quando toco a vela acesa eu não sinto dor
Tanto faz se estou no frio ou no calor
O meu coração não bate mas ainda assim se parte
E não deixa de sofrer recusando se render
A morte em mim está mas ainda tenho lágrimas pra dar
FM.
Era noite num mundo morto. Frio, calmo e sem sonhos. Por muito tempo, era noite naquele lugar. E alguém vagava entre os augúrios do vento constante no vazio. E não havia dor, só algumas lágrimas tão perdidas quanto seus pés, em um caminhar lento e relutante. Era apenas mais uma noite. O silêncio era interrompido pelo chamado de suas lágrimas eternas. Mas ela gritava por dentro, rompendo as barreiras de um amor que poderia ser visto através da morte.
Emily chorava. Pois eram as evidências de seu fim que a faziam começar. Seus dedos outrora ágeis e corados agora se preenchiam num azulado exangue. Seus olhos tinham um aspecto perdido, entristecido. E suas mãos buscaram, numa tentativa de sanar sua loucura, tocar a chama de uma vela. E não havia calor. Buscou uma adaga, se cortou. Mas em Emily não havia mais dor. Era verdade que a vida tinha partido, e que a morte nela estava. Mas ela não deixava de sofrer, e não demorou. Em seu rosto se viu lágrimas a rolar.
A presunção da morte era aterradora, como o amanhecer seria, ao ignorar Emily, perdida na escuridão. Pois ela não mais sentiria calor. Ficaria muito abaixo dos pesadelos e da solidão. Emily logo percebeu que sua respiração era inexistente e ela não sentia mais nada, a não ser seu vazio peculiar. Ela havia perdido seu caminho, mas nada empobreceria seu amor real, algo que ela deixara para trás, contra a vontade, de luto por ela. Todos os caminhos a levavam de volta à escuridão.
Emily repousava fria na Terra. Ela sussurrava, talvez assombrando algum lugar lá fora. Mas ela acreditava que seu amor a veria através da morte. Porém, ela repousava. E não havia espaço pra mais ninguém. Ela estava sozinha. Ou não. Seu amor dissera que não a abandonaria, ela não estaria sozinha. Mas ela estava sozinha.
Ela não estava sozinha. Haveria alguém sempre ao seu lado. Deitado ao seu lado numa felicidade silenciosa. E sua morte faria sentido, ou não. Quem poderia lhe dizer? Se ela tocasse uma vela, não sentiria dor, isso era irreal. Tanto fazia o frio ou o calor, pois seu corpo não sentia mais. Seu coração estava despedaçado, mesmo que parado. A morte nela estava, mas Emily ainda teria muitas lágrimas para dar.
Enquanto isso suas dúvidas a corroiam, numa caminhada lenta e relutante, através das sombras que escondiam o acorde do amanhecer, que trazia suas respostas.
Quando toco a vela acesa, falta seu calor
Se me corto com uma faca não há dor
É verdade que ela vive e que a morte em mim está
Mas não deixo de sofrer
Não demora vai se ver no meu rosto uma lágrima rolar
Quando toco a vela acesa eu não sinto dor
Tanto faz se estou no frio ou no calor
O meu coração não bate mas ainda assim se parte
E não deixa de sofrer recusando se render
A morte em mim está mas ainda tenho lágrimas pra dar
FM.
A Princesa Dos Mares - 1ª parte
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
16:56
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Esta é a minha versão da história de A Pequena Sereia.
'
A brisa marinha circulava como se dançasse pelo céu, através da noite. Uma névoa úmida e esbranquiçada bruxuleava lentamente acima do oceano de ondas plácidas e cor tão escura quanto o ébano. Na linha do horizonte noturno, mar e céu se confundiam, pela falta que a lua fazia ali. As estrelas, no entanto, brilhavam solitárias, sujando o céu negro com suas formas e constelações. Aquele era o céu mais cheio de estrelas que existia sobre a face da Terra.
No espelho d'água não havia reflexos. Tudo tão obscuro e tranquilo que amedrontava até os mais corajosos humanos que tentavam entrar naquelas águas que banhavam corais. Os corais. A despeito da ausência de cor de todo o lugar, os corais eram como um refúgio de tonalidades diversas, logo embaixo da água. E havia vida ali. Os murmúrios do vento superior não se comparavam à vida em sua plenitude, como na civilização abaixo da água.
Cardumes de peixes escuros se confundiam com a água pela ausência de luz. Outros peixes vagavam solitários por ali. Uns pequenos se escondiam entre os poríferos, corais coloridos. Alguns pequenos crustáceos se movimentavam pela terra embaixo da água. E algo como uma luz emanava distante, através dos movimentos lentos que a água produzia na escuridão. Um reino submarino se erguia imponente, de onde surgia a luz. Grandes torres que pareciam emergir a superfície, tudo edificado na mais branca rocha que havia nos oceanos. Por ali, segredos jaziam escondidos entre água e rocha.
Essa é a história de seis irmãs sereias. Princesas dos mares. Filhas do rei daquele reino, as seis irmãs perderam a mãe. Eram, no entanto, jovens demais para lembrar seus traços, seu perfume, seu sorriso. Foram criadas pela avó, uma anciã sábia do reino.
Desde a mais velha à mais nova, foi informado pela avó que, a cada ano que passasse, quando completassem quinze anos, cada uma receberia como presente a permissão para visitar a superfície e conhecer o que havia além da água.
Mesmo que a nenhuma delas fosse permitido falar com humanos. Mesmo que nenhuma delas fosse permitida de sair da água. Mesmo que nenhuma delas fosse permitida deixar o reino. Ao completar quinze anos, ver a superfície que estava acima delas era uma convidativa, fantasiosa, porém perigosa, aventura.
Assim, a cada ano, quando cada uma das seis irmãs completava seus quinze anos, iam à superfície e viam tudo ao redor, encantadas.
Voltavam ao reino contando cada mínimo detalhe do que havia além da água. Como tudo era límpido e contavam sobre como era sentir o vento cortar o rosto. Se havia chuva, a água, diferentemente da água do mar, tinha um sabor adocicado. Se fazia sol, aquela era a luz mais radiante que existia no infinito. Se era noite, o céu era tão denso quanto o mar, mas se era dia, a cor do céu podia variar, dependendo da hora. E era tão maravilhoso poder apreciar a variação de matizes que havia no céu. Laranjas, rosas, amarelos, azuis. O arco-íris. Tão belo quanto os corais que adornavam o chão do oceano, as flores do mar.
E a cada palavra, a mais nova das irmãs fantasiava acerca das experiências das irmãs. Até que uma delas disse que em uma de suas visitas, o céu estava tão vermelho quanto suas longas madeixas, e tocou os cabelos da irmã mais nova, que se chamava Ariel.
-O céu estava tão vermelho quanto seus cabelos, Ariel... Era tão assustadoramente bonito! E então, das grandes nuvens escuras que manchavam o céu avermelhado, surgiram gotas de água adocicada, numa chuva tão forte que me fez confundir o que era superfície e a nossa água de verdade.
A menina mexeu a mão na água, fazendo pequenas bolhas entre os dedos.
-O céu parecia sangrar, como seus cabelos, Ariel.
A pequena princesa sereia ouvia a irmã mais velha, suspirando e esperando pelo dia em que também veria tudo aquilo que as irmãs viam. E um dia ela também contaria às crianças como era lá em cima. E sentiria o prazer de ver a surpresa, a admiração e o medo presentes nos olhares de seus futuros ouvintes. E sorriria ao fazê-lo.
Aquele dia chegou. O amanhecer traria consigo uma nova idade a Ariel e em seu destino havia mais que um colorido céu para ver, pois seu futuro se desenrolaria a partir dali.
***
Longe dali, um homem fitava o mar com o olhar perdido. Pensava nas nuvens que se aproximavam na linha do horizonte, fazendo-o chorar mais uma vez, naquele início de manhã. Mas ele não podia adiar sua viagem por mais um dia. Encheu o peito de coragem, trocando a lâmpada do farol.
Um homem do litoral no início do dia
olha fixo o horizonte com ventos do mar em seu rosto
Ilha tempestuosa, estações todas iguais
Ancoragem com registro e o barco com o nome de Princesa do Mar
Um mar com um litoral para um conhecido príncipe
Ele acende o farol, luz na extremidade do mundo.
Mostrando o caminho para iluminar a esperança em seu coração
Esse que veio de longe em suas jornadas para casa
Isso não está há muito tempo esquecido
Essa é a luz no fim do mundo
Mesmo que veja o horizonte chorar
As lágrimas que ele deixou pra trás há muito tempo
O albatroz está voando, fazendo dele um sonho
No tempo antes dele tornou-se um dos mundos não vistos
Princesas nas torres, crianças no campo
A vida deu tudo a ele, uma ilha do universo
Agora precisa de um amor além de uma lembrança
Além de um fantasma na névoa
Ele arma as velas uma última vez, dizendo adeus para o mundo
Âncora ao mar, o leito do mar longe abaixo
Grama ainda nos seus pés e um sorriso abaixo da testa
Isso está há muito tempo esquecido
Agora há uma luz no fim do mundo
O horizonte ainda chora
As lágrimas que ele deixou pra trás há muito tempo
Há muito tempo...
Não há muito tempo...
***
Continua.
FM.
'
A brisa marinha circulava como se dançasse pelo céu, através da noite. Uma névoa úmida e esbranquiçada bruxuleava lentamente acima do oceano de ondas plácidas e cor tão escura quanto o ébano. Na linha do horizonte noturno, mar e céu se confundiam, pela falta que a lua fazia ali. As estrelas, no entanto, brilhavam solitárias, sujando o céu negro com suas formas e constelações. Aquele era o céu mais cheio de estrelas que existia sobre a face da Terra.
No espelho d'água não havia reflexos. Tudo tão obscuro e tranquilo que amedrontava até os mais corajosos humanos que tentavam entrar naquelas águas que banhavam corais. Os corais. A despeito da ausência de cor de todo o lugar, os corais eram como um refúgio de tonalidades diversas, logo embaixo da água. E havia vida ali. Os murmúrios do vento superior não se comparavam à vida em sua plenitude, como na civilização abaixo da água.
Cardumes de peixes escuros se confundiam com a água pela ausência de luz. Outros peixes vagavam solitários por ali. Uns pequenos se escondiam entre os poríferos, corais coloridos. Alguns pequenos crustáceos se movimentavam pela terra embaixo da água. E algo como uma luz emanava distante, através dos movimentos lentos que a água produzia na escuridão. Um reino submarino se erguia imponente, de onde surgia a luz. Grandes torres que pareciam emergir a superfície, tudo edificado na mais branca rocha que havia nos oceanos. Por ali, segredos jaziam escondidos entre água e rocha.
Essa é a história de seis irmãs sereias. Princesas dos mares. Filhas do rei daquele reino, as seis irmãs perderam a mãe. Eram, no entanto, jovens demais para lembrar seus traços, seu perfume, seu sorriso. Foram criadas pela avó, uma anciã sábia do reino.
Desde a mais velha à mais nova, foi informado pela avó que, a cada ano que passasse, quando completassem quinze anos, cada uma receberia como presente a permissão para visitar a superfície e conhecer o que havia além da água.
Mesmo que a nenhuma delas fosse permitido falar com humanos. Mesmo que nenhuma delas fosse permitida de sair da água. Mesmo que nenhuma delas fosse permitida deixar o reino. Ao completar quinze anos, ver a superfície que estava acima delas era uma convidativa, fantasiosa, porém perigosa, aventura.
Assim, a cada ano, quando cada uma das seis irmãs completava seus quinze anos, iam à superfície e viam tudo ao redor, encantadas.
Voltavam ao reino contando cada mínimo detalhe do que havia além da água. Como tudo era límpido e contavam sobre como era sentir o vento cortar o rosto. Se havia chuva, a água, diferentemente da água do mar, tinha um sabor adocicado. Se fazia sol, aquela era a luz mais radiante que existia no infinito. Se era noite, o céu era tão denso quanto o mar, mas se era dia, a cor do céu podia variar, dependendo da hora. E era tão maravilhoso poder apreciar a variação de matizes que havia no céu. Laranjas, rosas, amarelos, azuis. O arco-íris. Tão belo quanto os corais que adornavam o chão do oceano, as flores do mar.
E a cada palavra, a mais nova das irmãs fantasiava acerca das experiências das irmãs. Até que uma delas disse que em uma de suas visitas, o céu estava tão vermelho quanto suas longas madeixas, e tocou os cabelos da irmã mais nova, que se chamava Ariel.
-O céu estava tão vermelho quanto seus cabelos, Ariel... Era tão assustadoramente bonito! E então, das grandes nuvens escuras que manchavam o céu avermelhado, surgiram gotas de água adocicada, numa chuva tão forte que me fez confundir o que era superfície e a nossa água de verdade.
A menina mexeu a mão na água, fazendo pequenas bolhas entre os dedos.
-O céu parecia sangrar, como seus cabelos, Ariel.
A pequena princesa sereia ouvia a irmã mais velha, suspirando e esperando pelo dia em que também veria tudo aquilo que as irmãs viam. E um dia ela também contaria às crianças como era lá em cima. E sentiria o prazer de ver a surpresa, a admiração e o medo presentes nos olhares de seus futuros ouvintes. E sorriria ao fazê-lo.
Aquele dia chegou. O amanhecer traria consigo uma nova idade a Ariel e em seu destino havia mais que um colorido céu para ver, pois seu futuro se desenrolaria a partir dali.
***
Longe dali, um homem fitava o mar com o olhar perdido. Pensava nas nuvens que se aproximavam na linha do horizonte, fazendo-o chorar mais uma vez, naquele início de manhã. Mas ele não podia adiar sua viagem por mais um dia. Encheu o peito de coragem, trocando a lâmpada do farol.
Um homem do litoral no início do dia
olha fixo o horizonte com ventos do mar em seu rosto
Ilha tempestuosa, estações todas iguais
Ancoragem com registro e o barco com o nome de Princesa do Mar
Um mar com um litoral para um conhecido príncipe
Ele acende o farol, luz na extremidade do mundo.
Mostrando o caminho para iluminar a esperança em seu coração
Esse que veio de longe em suas jornadas para casa
Isso não está há muito tempo esquecido
Essa é a luz no fim do mundo
Mesmo que veja o horizonte chorar
As lágrimas que ele deixou pra trás há muito tempo
O albatroz está voando, fazendo dele um sonho
No tempo antes dele tornou-se um dos mundos não vistos
Princesas nas torres, crianças no campo
A vida deu tudo a ele, uma ilha do universo
Agora precisa de um amor além de uma lembrança
Além de um fantasma na névoa
Ele arma as velas uma última vez, dizendo adeus para o mundo
Âncora ao mar, o leito do mar longe abaixo
Grama ainda nos seus pés e um sorriso abaixo da testa
Isso está há muito tempo esquecido
Agora há uma luz no fim do mundo
O horizonte ainda chora
As lágrimas que ele deixou pra trás há muito tempo
Há muito tempo...
Não há muito tempo...
***
Continua.
FM.
White Night Fantasy 2ª parte
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
21:56
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
'
Um anjo que vagava entre as fronteiras da Terra e do céu, perto do amanhecer aterrador.
Doces pequenas palavras foram feitas para o silêncio,
não para serem faladas.
Todo coração descongelado toca canções com cuidado
Dedilhando seu violino, uma mão de poeta.
E em sua memória persistem momentos nunca desperdiçados
Descanse enquanto tudo está intocado, desvelado.
Mergulhe nos olhos enquanto eles ainda estão cegos.
Ame enquanto a noite ainda esconde o amanhecer aterrador.
A neve caminhará além das terras distantes
Através de uma noite branca imaginária
Reverberando a paz de um semblante vazio e límpido
Sem as mágoas que um dia o afogaram na escuridão.
E enquanto seus lábios estiverem vermelhos
Enquanto tudo se resumir ao silêncio
Enquanto tudo estiver intocado, desvelado
Enquanto seus olhos estiverem cegos
Enquanto a noite esconder o amanhecer aterrador
Ele se residirá em sonhos infantis
E de lá não sairá, porque não há nada mais
Somente uma noite branca imaginária
Com doces palavras que silenciaram
Com canções cuidadosamente entoadas
Com suas memórias imaculadamente vivas.
E da morte não se ouvirá notícia
Enquanto o anjo entristecido absorver a dor de quem sobrevive fora das montanhas além da Terra da noite branca imaginária.
Boa noite, bons sonhos.
FM.
Um anjo que vagava entre as fronteiras da Terra e do céu, perto do amanhecer aterrador.
Doces pequenas palavras foram feitas para o silêncio,
não para serem faladas.
Todo coração descongelado toca canções com cuidado
Dedilhando seu violino, uma mão de poeta.
E em sua memória persistem momentos nunca desperdiçados
Descanse enquanto tudo está intocado, desvelado.
Mergulhe nos olhos enquanto eles ainda estão cegos.
Ame enquanto a noite ainda esconde o amanhecer aterrador.
A neve caminhará além das terras distantes
Através de uma noite branca imaginária
Reverberando a paz de um semblante vazio e límpido
Sem as mágoas que um dia o afogaram na escuridão.
E enquanto seus lábios estiverem vermelhos
Enquanto tudo se resumir ao silêncio
Enquanto tudo estiver intocado, desvelado
Enquanto seus olhos estiverem cegos
Enquanto a noite esconder o amanhecer aterrador
Ele se residirá em sonhos infantis
E de lá não sairá, porque não há nada mais
Somente uma noite branca imaginária
Com doces palavras que silenciaram
Com canções cuidadosamente entoadas
Com suas memórias imaculadamente vivas.
E da morte não se ouvirá notícia
Enquanto o anjo entristecido absorver a dor de quem sobrevive fora das montanhas além da Terra da noite branca imaginária.
Boa noite, bons sonhos.
FM.
O poder da falta de Compreensão
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
09:57
domingo, 12 de dezembro de 2010
'
Não há entendimento. Por falta de ouvido, por falta de verbo, pela viseira que se colocou. E não há entendimento. Pela falta de opinião, pelo sentimento de perfeição, nunca erra, nunca se submete, sempre erra, sempre escuta, nunca ouve. Porque não há entendimento. Há silêncio, há medo, há frio, sempre sozinhos. Apenas porque não há entendimento. Tudo rege a falta de compreensão por achar que todos estão errados.
Há sofrimento.
E todos se reuniram para ocupar suas vidas em acabar com outra, em sua mente. Claramente ninguém mais tem nada para fazer, além de planejar meticulosamente cada passo para fazer alguém sofrer. E é muito óbvio que, na verdade, a pessoa menos ocupada e cheia de manias de perseguição está certa outra vez. Nunca erra, nunca se submete a não ter razão, no fim, sempre erra, sempre escuta, nunca ouve.
São somente gritos e ignorância que separam a cada dia mais os vínculos. O poder da falta de compreensão se manifesta de uma maneira a maltratar não só o ignorante, como também todos à sua volta. Logicamente a culpa não se remete somente a ele, mas... O que custaria escutar para entender e poupar as pessoas de sua expressão frígida? Pra que fingir para os outros que está tudo bem, quando na realidade se morre por dentro? Pra que eu me importaria com a vizinha da língua quilométrica?
E, por tudo, há silêncio. Porque se há palavra, não há compreensão. Prefere-se a solidão, tênue fio de lucidez a se partir no momento da verbalização, porque a menor tentativa de produzir diálogo se transforma numa ferina discussão. Mas...
Só por hoje eu vou ignorar. Afinal de contas, eu sou só uma sem noção que não sabe de nada, e é melhor que eu ponha os fones de ouvido para esquecer que há vida ao meu redor. E que eu saia de perto, porque eu sou totalmente diferente e minha presença só poderia fazer mal. Talvez porque eu seja uma inútil, e em toda a verdade de suas palavras, eu nunca esqueço que o dia em que eu nasci não é mais que arrependimento.
Dane-se. Antes eu queria uma resposta de quem me abandonou primeiro, porque é ali que se encontra a fonte primária de todo o tormento que se desenrolou na minha vida desde que eu tinha 5 anos. Mas não mais. Eu sei que Deus pode me escutar, e ele vê. É dele que eu espero o poder da compreensão. Eu não desejo vingança, porque fracos se vingam. Os fortes perdoam. Eu só quero ignorar. Eu espero um dia poder ignorar toda a chaga que se formou, toda a cicatriz que me marca.
Enquanto isso, eu vivo sob o poder da falta de compreensão.
FM.
Não há entendimento. Por falta de ouvido, por falta de verbo, pela viseira que se colocou. E não há entendimento. Pela falta de opinião, pelo sentimento de perfeição, nunca erra, nunca se submete, sempre erra, sempre escuta, nunca ouve. Porque não há entendimento. Há silêncio, há medo, há frio, sempre sozinhos. Apenas porque não há entendimento. Tudo rege a falta de compreensão por achar que todos estão errados.
Há sofrimento.
E todos se reuniram para ocupar suas vidas em acabar com outra, em sua mente. Claramente ninguém mais tem nada para fazer, além de planejar meticulosamente cada passo para fazer alguém sofrer. E é muito óbvio que, na verdade, a pessoa menos ocupada e cheia de manias de perseguição está certa outra vez. Nunca erra, nunca se submete a não ter razão, no fim, sempre erra, sempre escuta, nunca ouve.
São somente gritos e ignorância que separam a cada dia mais os vínculos. O poder da falta de compreensão se manifesta de uma maneira a maltratar não só o ignorante, como também todos à sua volta. Logicamente a culpa não se remete somente a ele, mas... O que custaria escutar para entender e poupar as pessoas de sua expressão frígida? Pra que fingir para os outros que está tudo bem, quando na realidade se morre por dentro? Pra que eu me importaria com a vizinha da língua quilométrica?
E, por tudo, há silêncio. Porque se há palavra, não há compreensão. Prefere-se a solidão, tênue fio de lucidez a se partir no momento da verbalização, porque a menor tentativa de produzir diálogo se transforma numa ferina discussão. Mas...
Só por hoje eu vou ignorar. Afinal de contas, eu sou só uma sem noção que não sabe de nada, e é melhor que eu ponha os fones de ouvido para esquecer que há vida ao meu redor. E que eu saia de perto, porque eu sou totalmente diferente e minha presença só poderia fazer mal. Talvez porque eu seja uma inútil, e em toda a verdade de suas palavras, eu nunca esqueço que o dia em que eu nasci não é mais que arrependimento.
Dane-se. Antes eu queria uma resposta de quem me abandonou primeiro, porque é ali que se encontra a fonte primária de todo o tormento que se desenrolou na minha vida desde que eu tinha 5 anos. Mas não mais. Eu sei que Deus pode me escutar, e ele vê. É dele que eu espero o poder da compreensão. Eu não desejo vingança, porque fracos se vingam. Os fortes perdoam. Eu só quero ignorar. Eu espero um dia poder ignorar toda a chaga que se formou, toda a cicatriz que me marca.
Enquanto isso, eu vivo sob o poder da falta de compreensão.
FM.
A long Nightmare
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
18:26
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
'
A noite que eu prefiro esquecer se seguiu sem que eu pudesse dormir. Algo me perturbava profundamente, apertava meu coração. Deitada, eu olhava o teto escuro do meu quarto e me perguntava o porque de já ser 12:23 e eu não conseguir fechar os olhos para descansar. E, assim que meus olhos pesaram e eu entrei num mundo paralelo ao real, tudo não passou de um pesadelo.
Alguém pedia ajuda. Alguém estendia a mão e me implorava. Eram flashs de uma época que eu considerava morta. Eu fechava as janelas que tantas vezes fechei sentindo medo e elas se abriam novamente, com um vento devastador. Eu chorava, fechando-as novamente, e lá estavam as grandes janelas escuras abertas novamente, mostrando-me aquele lugar iluminado pelo sol do fim de tarde.
Quando pensei estar novamente na realidade, senti uma mão em minhas costas e vi um sorriso solitário no corredor escuro, que sumiu. Mais uma vez eu estava sozinha num cômodo, e era cedo da manhã. Senti a brisa fria de outros tempos e ouvi o ruído produzido pelos carros na estrada ali perto. Os pássaros entoavam seu canto ao longe. E mais uma vez eu senti alguém me seguir e me pedir ajuda, mas não era mais algo quieto e lento.
A violência com que tudo se movimentava me lembrou a sensação de um terremoto. Os augúrios que se lançavam sobre meus ouvidos e o vento que levou toda a casa embora, deixando o velho espaço esbranquiçado, como uma folha branca, me deixou sozinha, novamente. Caí de joelhos sobre a imensidão branca e um buraco se formou dentro de meu coração, dilacerando-o lentamente. E eu nunca havia me sentido tão triste, nem quando meus pesadelos eram os da vida real.
Mas eu acordei. E ainda eram 3:01 h. Encolhi-me na cama e esperei o sono voltar, mas as imagens do pesadelo me voltaram aos olhos e eu os abri novamente, na esperança de que tudo fosse apenas um sonho, realmente.
Tudo estava acabado.
O fim daquela noite levaria a angústia.
Ou, pelo menos, talvez.
FM.
A noite que eu prefiro esquecer se seguiu sem que eu pudesse dormir. Algo me perturbava profundamente, apertava meu coração. Deitada, eu olhava o teto escuro do meu quarto e me perguntava o porque de já ser 12:23 e eu não conseguir fechar os olhos para descansar. E, assim que meus olhos pesaram e eu entrei num mundo paralelo ao real, tudo não passou de um pesadelo.
Alguém pedia ajuda. Alguém estendia a mão e me implorava. Eram flashs de uma época que eu considerava morta. Eu fechava as janelas que tantas vezes fechei sentindo medo e elas se abriam novamente, com um vento devastador. Eu chorava, fechando-as novamente, e lá estavam as grandes janelas escuras abertas novamente, mostrando-me aquele lugar iluminado pelo sol do fim de tarde.
Quando pensei estar novamente na realidade, senti uma mão em minhas costas e vi um sorriso solitário no corredor escuro, que sumiu. Mais uma vez eu estava sozinha num cômodo, e era cedo da manhã. Senti a brisa fria de outros tempos e ouvi o ruído produzido pelos carros na estrada ali perto. Os pássaros entoavam seu canto ao longe. E mais uma vez eu senti alguém me seguir e me pedir ajuda, mas não era mais algo quieto e lento.
A violência com que tudo se movimentava me lembrou a sensação de um terremoto. Os augúrios que se lançavam sobre meus ouvidos e o vento que levou toda a casa embora, deixando o velho espaço esbranquiçado, como uma folha branca, me deixou sozinha, novamente. Caí de joelhos sobre a imensidão branca e um buraco se formou dentro de meu coração, dilacerando-o lentamente. E eu nunca havia me sentido tão triste, nem quando meus pesadelos eram os da vida real.
Mas eu acordei. E ainda eram 3:01 h. Encolhi-me na cama e esperei o sono voltar, mas as imagens do pesadelo me voltaram aos olhos e eu os abri novamente, na esperança de que tudo fosse apenas um sonho, realmente.
Tudo estava acabado.
O fim daquela noite levaria a angústia.
Ou, pelo menos, talvez.
FM.
White Night Fantasy 1ª parte
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
12:30
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
'
Um sonho distante, através das montanhas cobertas de neve. O sopro gélido do vento noturno ressoava como um canto fantasmagórico, por entre os galhos secos das poucas árvores que povoavam os arredores dali. Liberto da luz que o sol se envaidecia em reverberar pelo infinito, o céu transmitia o reflexo leitoso da lua envolvida por um halo esbranquiçado, brevemente escondida por rastros de nuvens que passavam por ali.
O firmamento era modestamente pintado por estrelas que surgiam à medida que escurecia naquele sonho distante. E toda a Terra estava mergulhada numa intensa nevasca. O globo parecia coberto por uma mortalha alva, imaculada. Os prolongamentos dos galhos enregelados tinham um aspecto brilhante, moldado pela fina e delicada camada de gelo que revestia tudo por ali. As sombras se moviam lentamente, acompanhando a posse da lua sobre o céu, para reinar diante de seus súditos e amantes. Não havia sequer signo longínquo de vida através das montanhas cobertas de neve. Até ali.
Escondida pelo gelo e pelas paredes que formavam o vale entre as montanhas, uma pequena cabana erguia-se nostálgica. Como uma lembrança borrada de um tempo antigo, e a corrente de vento e neve passava por ela, tristemente. A imagem soturna de um passado intensamente vivido. Enlevou-se a corrente de vento, aproximando-se daquela pequena casa. Pequenas luzes farfalhavam um brilho colorido, e uma guirlanda pomposa pendia na porta, cheia de pequenos querubins que empunhavam suas cornetas.
A lua ainda resplandecia sua luz placidamente e as estrelas a acompanhavam, impassíveis. As portas trancafiadas e austeras tinham um posicionamento hostil em relação à visitas, ao passo que as pequenas luzes convidavam até o forasteiro da neve mais cruel e rude a entrar. Mas algo se movia dentro da casa, e lá dentro o ambiente possuia uma temperatura confortável. A luz da lareira produzia um calor ameno para o frio entorpecente que fazia lá fora.
O cheiro de biscoitos e café quentes inundava toda a pequena casa de um cômodo. Da lareira pendiam meias vazias, uma poltrona grande de veludo avermelhado compunha a pequena sala e um banquinho de apoio para os pés jazia logo a frente, convidando o corpo cansado a recostar-se ali. Algo com tom de alegria pintava as paredes e circulava junto ao odor quente e apreciável dos biscoitos. Mas algo morria ali.
Uma pequena janela de vidro espelhava toda a alegria interior em sobreposição à paisagem morta das montanhas cobertas de neve. Dedos pálidos escorregavam pelo vidro, assim como as lágrimas que rolavam pelo semblante perdido daquele anjo solitário. Em seus olhos sombrios se destacava a cor azul acinzentada. À despeito do calor da casa, as maçãs de sua face permaneciam lívidas, reveladas pelo reflexo no vidro embaçado, como um fantasma na escuridão da noite exterior. Suas longas vestes branco prateadas pareciam esculpidas em mármore, escorrendo por seu corpo, até o chão.
Em seu coração, o peso de tantos pecados recaía novamente. Sua respiração prestes a sucumbir. A tristeza que caminhava por seu corpo, através de suas veias, espalhava-se por seu peito, subindo por suas faces. Seus olhos queimavam. Derramavam mais lágrimas perfeitamente brilhantes. Lavavam o espírito doente daquele anjo entristecido.
Havia uma percepção frígida da solidão ao seu lado. Sua visão se locomoveu através da pequena casa e abriu a porta, exortando a corrente gélida de vento e neve a entrar no ambiente da pequena cabana. A mesma corrente que impulsionou aquele anjo para além do conforto, sob a lua e em meio às montanhas cobertas de neve. Movimentos frívolos ondulavam por suas vestes, que se confundiam com a cobertura branca da terra. Ele caminhava lentamente pelo lugar ermo, arrastando os pés descalços através da pequena estrada, se afastando da casa. Aproximava-se das árvores de galhos secos cristalizados e fitava o céu, sentindo que as estrelas caíam lentamente, em forma de flocos de neve, sobre aquele lugar.
E só assim ele podia acreditar em sua redenção. Antes o peso sobre seus ombros não cedia, inexorável. Agora, ao caminhar além daquelas colinas, perto do céu, podia acreditar que seu medo e todo o seu sofrimento se dissiparia. Seus olhos prateados eram apedrejados pelo gotejar de lágrimas em sua face. De quando em quando, seus dedos pálidos enxugavam seu semblante. E o vento melodioso percorria todo o lugar, envolvendo-o nos flocos de neve. Sua dor, seu silêncio, a solidão e cair sozinho como uma pedra em um buraco tão profundo a ponto de não conseguir produzir sequer palavra, um pedido de ajuda.
E assim ele se mantinha, perambulando enquanto o amanhecer se escondia, aterrador.
To be continued...
Um sonho distante, através das montanhas cobertas de neve. O sopro gélido do vento noturno ressoava como um canto fantasmagórico, por entre os galhos secos das poucas árvores que povoavam os arredores dali. Liberto da luz que o sol se envaidecia em reverberar pelo infinito, o céu transmitia o reflexo leitoso da lua envolvida por um halo esbranquiçado, brevemente escondida por rastros de nuvens que passavam por ali.
O firmamento era modestamente pintado por estrelas que surgiam à medida que escurecia naquele sonho distante. E toda a Terra estava mergulhada numa intensa nevasca. O globo parecia coberto por uma mortalha alva, imaculada. Os prolongamentos dos galhos enregelados tinham um aspecto brilhante, moldado pela fina e delicada camada de gelo que revestia tudo por ali. As sombras se moviam lentamente, acompanhando a posse da lua sobre o céu, para reinar diante de seus súditos e amantes. Não havia sequer signo longínquo de vida através das montanhas cobertas de neve. Até ali.
Escondida pelo gelo e pelas paredes que formavam o vale entre as montanhas, uma pequena cabana erguia-se nostálgica. Como uma lembrança borrada de um tempo antigo, e a corrente de vento e neve passava por ela, tristemente. A imagem soturna de um passado intensamente vivido. Enlevou-se a corrente de vento, aproximando-se daquela pequena casa. Pequenas luzes farfalhavam um brilho colorido, e uma guirlanda pomposa pendia na porta, cheia de pequenos querubins que empunhavam suas cornetas.
A lua ainda resplandecia sua luz placidamente e as estrelas a acompanhavam, impassíveis. As portas trancafiadas e austeras tinham um posicionamento hostil em relação à visitas, ao passo que as pequenas luzes convidavam até o forasteiro da neve mais cruel e rude a entrar. Mas algo se movia dentro da casa, e lá dentro o ambiente possuia uma temperatura confortável. A luz da lareira produzia um calor ameno para o frio entorpecente que fazia lá fora.
O cheiro de biscoitos e café quentes inundava toda a pequena casa de um cômodo. Da lareira pendiam meias vazias, uma poltrona grande de veludo avermelhado compunha a pequena sala e um banquinho de apoio para os pés jazia logo a frente, convidando o corpo cansado a recostar-se ali. Algo com tom de alegria pintava as paredes e circulava junto ao odor quente e apreciável dos biscoitos. Mas algo morria ali.
Uma pequena janela de vidro espelhava toda a alegria interior em sobreposição à paisagem morta das montanhas cobertas de neve. Dedos pálidos escorregavam pelo vidro, assim como as lágrimas que rolavam pelo semblante perdido daquele anjo solitário. Em seus olhos sombrios se destacava a cor azul acinzentada. À despeito do calor da casa, as maçãs de sua face permaneciam lívidas, reveladas pelo reflexo no vidro embaçado, como um fantasma na escuridão da noite exterior. Suas longas vestes branco prateadas pareciam esculpidas em mármore, escorrendo por seu corpo, até o chão.
Em seu coração, o peso de tantos pecados recaía novamente. Sua respiração prestes a sucumbir. A tristeza que caminhava por seu corpo, através de suas veias, espalhava-se por seu peito, subindo por suas faces. Seus olhos queimavam. Derramavam mais lágrimas perfeitamente brilhantes. Lavavam o espírito doente daquele anjo entristecido.
Havia uma percepção frígida da solidão ao seu lado. Sua visão se locomoveu através da pequena casa e abriu a porta, exortando a corrente gélida de vento e neve a entrar no ambiente da pequena cabana. A mesma corrente que impulsionou aquele anjo para além do conforto, sob a lua e em meio às montanhas cobertas de neve. Movimentos frívolos ondulavam por suas vestes, que se confundiam com a cobertura branca da terra. Ele caminhava lentamente pelo lugar ermo, arrastando os pés descalços através da pequena estrada, se afastando da casa. Aproximava-se das árvores de galhos secos cristalizados e fitava o céu, sentindo que as estrelas caíam lentamente, em forma de flocos de neve, sobre aquele lugar.
E só assim ele podia acreditar em sua redenção. Antes o peso sobre seus ombros não cedia, inexorável. Agora, ao caminhar além daquelas colinas, perto do céu, podia acreditar que seu medo e todo o seu sofrimento se dissiparia. Seus olhos prateados eram apedrejados pelo gotejar de lágrimas em sua face. De quando em quando, seus dedos pálidos enxugavam seu semblante. E o vento melodioso percorria todo o lugar, envolvendo-o nos flocos de neve. Sua dor, seu silêncio, a solidão e cair sozinho como uma pedra em um buraco tão profundo a ponto de não conseguir produzir sequer palavra, um pedido de ajuda.
E assim ele se mantinha, perambulando enquanto o amanhecer se escondia, aterrador.
To be continued...
Pontos Referenciais: Uma questão de opinião?
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
18:26
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
As sombras quase não existiam, num vestígio gritante que anunciava o meio do dia, o sol reinando solitário num céu sem nuvens, lá no alto. A atmosfera inteira parecia mergulhada numa intensa luz quente e seca. Meus olhos perdidos se fixavam em pontos da estrada, enquanto ela ficava para trás. Meus pensamentos divagaram primeiramente na sensação de que estamos parados dentro do carro, enquanto o caminho se move para que cheguemos a casa.
Parece coisa de criança, mas foi justamente o que me ocorreu naquela situação. Talvez um impulso infantil remetido a um mistério ao qual só consegui desvendar durante uma aula de física que dizia que "Tudo depende do referencial".
Considero a Física bonita por isso. Não é trocadilho. Nem brincadeira, tampouco ironia. É que todas as frases da física são perfeitamente aplicáveis à vida. Pense bem no princípio de: Toda ação tem reação.
Bom, mas meus pensamentos se puseram a vaguear sobre o sentido da dependência de um referencial para haver uma comparação. E uma expressão hirta se desenvolveu em minha face. A base da comparação sempre se fez presente em minha vida.
Alguns momentos de minha infância se desdobraram em linhas de pequenas histórias que eu já produzia, conduzindo meus personagens aos lugares que eu queria conhecer. Lembro de uma vez em que um de meus personagens ficou preso dentro de uma loja de brinquedos por uma noite. Que criança nunca sonhou em ficar presa dentro de um lugar repleto de brinquedos à completa disposição, esperando em prateleiras gigantescas para serem usados? Mas, tudo depende de um referencial. Uma criança que possui um quarto de brinquedos exclusivo, não deve pensar em querer ficar presa em uma loja de brinquedos, pela ideia de que já possui tantos brinquedos sem precisar ficar "presa".
Uso isso para representar meu ponto de reflexão. Dependendo do referencial, se pode dizer que a vida é boa ou ruim. Pode-se dizer quantos sorvetes se quer, dependendo da fome. Pode-se descrever uma paisagem como linda, ou como horrível, dependendo da figuração de beleza para cada um. Veja bem, cada um possui suas preferências, e é essa diversidade de pensamentos que forma a raça humana, e que a faz tão interessante. Se fossem todos iguais, não seria tão divertido viver.
Como num informe publicitário de O Boticário, uma legião de mulheres de vestidos cinza, cortes e cor de cabelos iguais, sapatos iguais. Até que uma delas põe a cor vermelha nos lábios e torna a diferença interessante. Dependendo do referencial, aquilo pode ser uma boa propaganda, ou pode ser uma proposta apelativa de dizer que a mulher só vai chamar atenção se usar um batom de O Boticário, ou ainda pode levar uma mulher a comprar aquele batom, sem que ao menos ela tenha entendido a mensagem do informe.
Tudo vai depender de seu referencial de opinião. É aí que reside a chave do discurso. A opinião. Não basta uma opinião sozinha, é necessário analisar-se seu ponto referencial, de onde nascem tais ideias e comentários. Em que cultura está inserida a mente que produz essa opinião? Sobre que influências ela está? Discursos considerados preconceituosos para uns, podem ser a extrema sublimação da verdade para outros. Entenda, eu não defendo preconceitos, eu defendo moderação de ideias. Defendo o respeito às diferenças, às culturas, às influências, às opiniões.
Todos têm suas excentricidades, eu falei hoje. Que vivam com elas, são essas diferenças que moldam as diferentes culturas, e são por elas que se guiam as mais variadas teorias semióticas, os signos de diferenciação e a miscigenação humana. E, para cada ponto referencial, em particular, vão se enraizar conceitos, opiniões, preferências.
Vou me tomar como exemplo disso: Gosto da cor preta. Prefiro livros de literatura estrangeira, assim como prefiro o som de uma guitarra distorcida ou de um piano a uma zabumba e uma sanfona. Não tenho nada contra quem prefere a cor amarela, adora os livros de Paulo Coelho e não vive sem o novo repertório semanal da banda Aviões do Forró. São apenas choques de pontos referenciais diversos, essa é a minha compreensão.
Penso que essas particularidades são essenciais e não desvio da minha opinião de que os referenciais de cada um são a base para seu entendimento. Quando se expõe uma opinião publicamente, ela fica sujeita a críticas e interpelações. É alvo de depreciação, até. Mas não é defendida tão diferentemente quanto a opinião do crítico mais voraz. Afinal, há um embate de ideias.
Se é verdade ou não, eu não sei. Eu preciso analisar segundo meus próprios preceitos. Num piscar de olhos eu posso falar, posso deixar passar, posso me calar. Tudo depende de minhas escolhas, do meu ponto de vista. Se eu não me importar, pode ser até que eu esteja errada, mas isso não é uma questão de opinião.
A questão toma uma vertente problemática quando cada um vive em seu próprio casulo e encara a profundidade das diferentes almas como mentiras e forma preconceitos a respeito de cada um. Cada um em sua direção, sem respeitar as diferenças. Fita-se a vida dos outros e línguas afiadas expurgam comentários ferinos contra os princípios alheios de sua própria perspectiva. Isso demonstra ignorância, do meu ponto referencial.
E todos sugerem soluções para as "doenças" da sociedade, mas não reparam que a única doença é a falta de respeito que existe entre cada um, em sua diferença. E por isso se discute a liquidez das relações humanas. Conhecer verdadeiramente alguém, em nosso mundo individual, pode atingir o íntimo das pessoas e provocar medo, porque todos estão bem certos que a verdade cabe dentro da palma da mão fechada, sem se importar em abri-la para deixar o respeito se instalar.
Mas, tudo bem... Isso é apenas minha opinião, é apenas uma questão de opinião e cada um possui a sua. Ou pode não ser uma questão de opinião, depende de seu ponto referencial.
Algo que imaginei em meu caminho cansado para casa, incialmente fitando a estrada, depois de pálpebras cerradas, hoje mesmo, mais cedo.
FM.
Parece coisa de criança, mas foi justamente o que me ocorreu naquela situação. Talvez um impulso infantil remetido a um mistério ao qual só consegui desvendar durante uma aula de física que dizia que "Tudo depende do referencial".
Considero a Física bonita por isso. Não é trocadilho. Nem brincadeira, tampouco ironia. É que todas as frases da física são perfeitamente aplicáveis à vida. Pense bem no princípio de: Toda ação tem reação.
Bom, mas meus pensamentos se puseram a vaguear sobre o sentido da dependência de um referencial para haver uma comparação. E uma expressão hirta se desenvolveu em minha face. A base da comparação sempre se fez presente em minha vida.
Alguns momentos de minha infância se desdobraram em linhas de pequenas histórias que eu já produzia, conduzindo meus personagens aos lugares que eu queria conhecer. Lembro de uma vez em que um de meus personagens ficou preso dentro de uma loja de brinquedos por uma noite. Que criança nunca sonhou em ficar presa dentro de um lugar repleto de brinquedos à completa disposição, esperando em prateleiras gigantescas para serem usados? Mas, tudo depende de um referencial. Uma criança que possui um quarto de brinquedos exclusivo, não deve pensar em querer ficar presa em uma loja de brinquedos, pela ideia de que já possui tantos brinquedos sem precisar ficar "presa".
Uso isso para representar meu ponto de reflexão. Dependendo do referencial, se pode dizer que a vida é boa ou ruim. Pode-se dizer quantos sorvetes se quer, dependendo da fome. Pode-se descrever uma paisagem como linda, ou como horrível, dependendo da figuração de beleza para cada um. Veja bem, cada um possui suas preferências, e é essa diversidade de pensamentos que forma a raça humana, e que a faz tão interessante. Se fossem todos iguais, não seria tão divertido viver.
Como num informe publicitário de O Boticário, uma legião de mulheres de vestidos cinza, cortes e cor de cabelos iguais, sapatos iguais. Até que uma delas põe a cor vermelha nos lábios e torna a diferença interessante. Dependendo do referencial, aquilo pode ser uma boa propaganda, ou pode ser uma proposta apelativa de dizer que a mulher só vai chamar atenção se usar um batom de O Boticário, ou ainda pode levar uma mulher a comprar aquele batom, sem que ao menos ela tenha entendido a mensagem do informe.
Tudo vai depender de seu referencial de opinião. É aí que reside a chave do discurso. A opinião. Não basta uma opinião sozinha, é necessário analisar-se seu ponto referencial, de onde nascem tais ideias e comentários. Em que cultura está inserida a mente que produz essa opinião? Sobre que influências ela está? Discursos considerados preconceituosos para uns, podem ser a extrema sublimação da verdade para outros. Entenda, eu não defendo preconceitos, eu defendo moderação de ideias. Defendo o respeito às diferenças, às culturas, às influências, às opiniões.
Todos têm suas excentricidades, eu falei hoje. Que vivam com elas, são essas diferenças que moldam as diferentes culturas, e são por elas que se guiam as mais variadas teorias semióticas, os signos de diferenciação e a miscigenação humana. E, para cada ponto referencial, em particular, vão se enraizar conceitos, opiniões, preferências.
Vou me tomar como exemplo disso: Gosto da cor preta. Prefiro livros de literatura estrangeira, assim como prefiro o som de uma guitarra distorcida ou de um piano a uma zabumba e uma sanfona. Não tenho nada contra quem prefere a cor amarela, adora os livros de Paulo Coelho e não vive sem o novo repertório semanal da banda Aviões do Forró. São apenas choques de pontos referenciais diversos, essa é a minha compreensão.
Penso que essas particularidades são essenciais e não desvio da minha opinião de que os referenciais de cada um são a base para seu entendimento. Quando se expõe uma opinião publicamente, ela fica sujeita a críticas e interpelações. É alvo de depreciação, até. Mas não é defendida tão diferentemente quanto a opinião do crítico mais voraz. Afinal, há um embate de ideias.
Se é verdade ou não, eu não sei. Eu preciso analisar segundo meus próprios preceitos. Num piscar de olhos eu posso falar, posso deixar passar, posso me calar. Tudo depende de minhas escolhas, do meu ponto de vista. Se eu não me importar, pode ser até que eu esteja errada, mas isso não é uma questão de opinião.
A questão toma uma vertente problemática quando cada um vive em seu próprio casulo e encara a profundidade das diferentes almas como mentiras e forma preconceitos a respeito de cada um. Cada um em sua direção, sem respeitar as diferenças. Fita-se a vida dos outros e línguas afiadas expurgam comentários ferinos contra os princípios alheios de sua própria perspectiva. Isso demonstra ignorância, do meu ponto referencial.
E todos sugerem soluções para as "doenças" da sociedade, mas não reparam que a única doença é a falta de respeito que existe entre cada um, em sua diferença. E por isso se discute a liquidez das relações humanas. Conhecer verdadeiramente alguém, em nosso mundo individual, pode atingir o íntimo das pessoas e provocar medo, porque todos estão bem certos que a verdade cabe dentro da palma da mão fechada, sem se importar em abri-la para deixar o respeito se instalar.
Mas, tudo bem... Isso é apenas minha opinião, é apenas uma questão de opinião e cada um possui a sua. Ou pode não ser uma questão de opinião, depende de seu ponto referencial.
Algo que imaginei em meu caminho cansado para casa, incialmente fitando a estrada, depois de pálpebras cerradas, hoje mesmo, mais cedo.
FM.
A Menina do Lápis Mágico
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
13:28
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Seus filmes favoritos eram os de aventura, de preferência com seres mitológicos como dragões e fadas. Mas hipogrifos eram sua verdadeira paixão. Imaginar uma águia com corpo de leão atiçava sua imaginação. Sua verdadeira paixão era explorar o desconhecido e caminhar pelas ruas à procura de novas descobertas. As vezes podia-se ver seus olhinhos perspicazes se movimentando ativamente ao redor da casa, em busca de uma nova aventura diária.
Sua música preferida falava de uma menina que tinha um amor não correspondido, e ela achava lindo o jeito como a mocinha dizia:
“E será que vamos terminar juntos?
Não, eu acho que não, não é para ser
Porque eu não sou a pessoa certa”
Seu livro preferido era a tragédia romântica de Shakespeare, Romeu e Julieta. Por vezes e mais vezes se imaginou encenando algumas frases de Julieta, e sorria ao fazê-lo com a emoção de uma atriz.
Fascinava-a sentir o sofrimento daquelas mulheres imaginárias. Toda aquela melancolia da tragédia cotidiana a faziam fantasiar sobre as mais variadas aventuras, com princesas presas em torres altas, esperando por seus príncipes encantados. E ela sonhava, mesmo que acordada, seus olhos se esvaziavam por alguns momentos e a superfície deixava de existir, como em passe de mágica.
Ela tinha os mais variados tipos de situações imaginárias. Sua cabeça parecia um emaranhado indistinto de realidade e imaginação, e ela vivia. Esse emaranhado, no entanto, tinha uma saída de emergência. Aquela não era qualquer menina. Ela possuía um tesouro, tinha em seu poder um lápis que transformava seus sonhos e fantasias em realidade. Bastava desenhar num papel, e para tanto ela tinha um caderno. E tudo em sua vida se baseava em desejos realizados. Aquela era a menina do lápis mágico.
Com seu lápis preso ao punho esquerdo, rabiscava os mais diferentes contornos pelas folhas em branco, dando formas aos dias que se seguiriam. Ela tinha o poder de transformar seus devaneios em vida. E em seu quarto os desenhos se espalhavam pelas paredes, as letras de músicas rabiscadas entre um castelo e outro.
Por isso ela sorria. Como se nada mais precisasse acontecer, ela sorria. E em seus olhos a felicidade era tão plena, porque ao seu redor tudo era seu e seu lápis mágico a ajudaria pelo resto de sua vida. Por isso seu sono era brando. Aquela menina vasculhava sua memória a cada noite, buscava seus novos desejos e os guardava em algum lugar, para logo pela manhã, desenhar tudo e conseguir tudo de novo.
Mas, num belo dia, a névoa matutina sumia lentamente com o surgimento do sol. As pessoas despertavam de seu sono, interrompendo seus sonhos. Alguns perturbadores. Outros quietos. Uns felizes. Outros nem lembravam do que sonhavam.
Outros nem sonhavam.
A menina teve uma dessas noites. Em sua memória não jazia nenhum indício de sonho ou devaneio, e ela acordou sobressaltada de seu sono sem sonhos. Suas pálpebras se abriram com dificuldade, a visão ainda acostumando-se ao sol que entrava insistentemente pela janela, acordando. Sentada sobre a cama, ela bocejou. Uma interrogação pairou sobre sua lembrança e ela se perguntou:
“Mas o que irei desenhar hoje? Que sonho eu realizarei hoje?”
A menina não soube responder a sua pergunta. Seus olhos procuraram pelas próprias mãos e, em seu campo de visão, ela encontrou sua tragédia cotidiana mais grave. Um lado da cama estava sujo por pedaços negros de um lápis que jurava ser mágico. Seu lápis se partira. Não haveria mais sonhos a realizar, não haveria mais imaginação para desenhar sobre as folhas brancas de papel.
E a menina do lápis mágico deixou os ombros caírem, sem conseguir acreditar no que seus olhos viam. Um soluço se prendeu em sua garganta e a menina saltou diante do lápis quebrado, sujando as pequenas e pálidas mãos com o carvão de que o lápis era feito.
”O que será de mim agora? Como farei tudo ser verdade? Porque isso aconteceu comigo?”
Mais perguntas que pairaram no ar e permaneceram sem a devida resposta. A pobre menina pôs-se a deixar um pranto morno e triste cair diante de sua expressão recém acordada.
Os dias se passaram e aquela menina deixara de sonhar. Havia uma sombra pintada com os restos do lápis de carvão em seus olhos, como um fantasma que revestia seu discernimento sobre o que era a verdade.
E a chuva do alto verão era torrencial, àquela época. Mas, naquele dia nublado, a menina do lápis mágico resolveu sair para explorar. Talvez na esperança de encontrar um novo lápis e só então voltar a sonhar e realizar seus sonhos num passe de mágica. Os passos que suas galochas amarelas davam eram pesados e espalhavam a água das poças formadas pela irregularidade do revestimento na estrada.
Ela fitava todos os lugares com seu olhar vivo, mas, um pássaro avermelhado chamou sua atenção e a menina começou a segui-lo. Olhava o céu e seguia os passos do pequeno passarinho. Esbarrou em algo e arregalou os olhos ao perceber, o velho senhor do fim da rua estava bem em pé, em sua frente. A menina deu dois passos para trás, mas o velho a impediu e ela sentiu medo.
“Não tenha medo, garotinha. Eu só queria dizer algo.”
A menina do lápis mágico permaneceu em silêncio. Algo além do medo instalou-se em seu íntimo. Ela se sentiu curiosa.
“Os sonhos não são feitos de carvão e, para realiza-los, não é preciso mágica.”
A menina entreabriu os lábios, pensando no que o velho proferia com a voz rouca e gasta pelo tempo.
“Os sonhos são feitos da esperança que você guarda aqui.”
Seu dedo grosseiro apontou diretamente ao peito da menina do lápis mágico.
“Existem coisas que não podem ser medidas pelos padrões convencionais. Elas têm outra dimensão, outro peso. É o caso da imaginação. É o caso da fantasia. É o caso dos sonhos. Não existe nada impossível, se você acreditar de verdade. Aquiete seu coração, ponha um sorriso em sua voz. Persiga aquele passarinho, julgando-o liberdade. Lembre-se sempre de seus desenhos e do que você ainda pode desenhar. Antes de dormir, saiba que o que acontece é apenas um boa noite, não haverá adeus. Seja feliz, e realize todos os seus desejos pela força que existe dentro de você, essa é a maior mágica de todas...”
A menina não conseguia produzir sequer palavra. Mas imaginava tanto que sua mente se embaralhou novamente, num emaranhado de fantasias que havia se desfeito no dia em que seu lápis se partiu.
Seus olhos se fecharam por um segundo e uma onda de arrepios cruzou seu corpo, precedendo uma corrente de vento ágil que se espalhou pela rua e ela se decidiu a abrir os olhos e agradecer as palavras daquele senhor. Porém, quando suas pálpebras permitiram a entrada de luz em seus olhos, não havia ninguém na rua. Ela voltou para casa e, no fim da noite, pensou em cada palavra que havia escutado daquela voz. Pegou um lápis qualquer de seu estojo e seu caderno antigo.
Folheou sorrindo e na última página, escreveu:
Aqui é o território dos meus sonhos, e nada nem ninguém jamais os quebrarão, por mais fortes ou menos felizes que sejam. O poder dos meus sonhos é somente meu.
Ao terminar, sua despedida do dia se fez num boa noite... E boa noite não quer dizer adeus. No alvorecer seguinte, ela acordaria e perseguiria seus sonhos novamente, para sempre e sempre, sem cessar. Seria sua mais nova aventura, e, por mais que houvessem tragédias cotidianas, decepções e perdas, a menina do lápis mágico decidiu que aquela seria a aventura mais interessante de sua vida.
Fim
FM.
Sua música preferida falava de uma menina que tinha um amor não correspondido, e ela achava lindo o jeito como a mocinha dizia:
“E será que vamos terminar juntos?
Não, eu acho que não, não é para ser
Porque eu não sou a pessoa certa”
Seu livro preferido era a tragédia romântica de Shakespeare, Romeu e Julieta. Por vezes e mais vezes se imaginou encenando algumas frases de Julieta, e sorria ao fazê-lo com a emoção de uma atriz.
Fascinava-a sentir o sofrimento daquelas mulheres imaginárias. Toda aquela melancolia da tragédia cotidiana a faziam fantasiar sobre as mais variadas aventuras, com princesas presas em torres altas, esperando por seus príncipes encantados. E ela sonhava, mesmo que acordada, seus olhos se esvaziavam por alguns momentos e a superfície deixava de existir, como em passe de mágica.
Ela tinha os mais variados tipos de situações imaginárias. Sua cabeça parecia um emaranhado indistinto de realidade e imaginação, e ela vivia. Esse emaranhado, no entanto, tinha uma saída de emergência. Aquela não era qualquer menina. Ela possuía um tesouro, tinha em seu poder um lápis que transformava seus sonhos e fantasias em realidade. Bastava desenhar num papel, e para tanto ela tinha um caderno. E tudo em sua vida se baseava em desejos realizados. Aquela era a menina do lápis mágico.
Com seu lápis preso ao punho esquerdo, rabiscava os mais diferentes contornos pelas folhas em branco, dando formas aos dias que se seguiriam. Ela tinha o poder de transformar seus devaneios em vida. E em seu quarto os desenhos se espalhavam pelas paredes, as letras de músicas rabiscadas entre um castelo e outro.
Por isso ela sorria. Como se nada mais precisasse acontecer, ela sorria. E em seus olhos a felicidade era tão plena, porque ao seu redor tudo era seu e seu lápis mágico a ajudaria pelo resto de sua vida. Por isso seu sono era brando. Aquela menina vasculhava sua memória a cada noite, buscava seus novos desejos e os guardava em algum lugar, para logo pela manhã, desenhar tudo e conseguir tudo de novo.
Mas, num belo dia, a névoa matutina sumia lentamente com o surgimento do sol. As pessoas despertavam de seu sono, interrompendo seus sonhos. Alguns perturbadores. Outros quietos. Uns felizes. Outros nem lembravam do que sonhavam.
Outros nem sonhavam.
A menina teve uma dessas noites. Em sua memória não jazia nenhum indício de sonho ou devaneio, e ela acordou sobressaltada de seu sono sem sonhos. Suas pálpebras se abriram com dificuldade, a visão ainda acostumando-se ao sol que entrava insistentemente pela janela, acordando. Sentada sobre a cama, ela bocejou. Uma interrogação pairou sobre sua lembrança e ela se perguntou:
“Mas o que irei desenhar hoje? Que sonho eu realizarei hoje?”
A menina não soube responder a sua pergunta. Seus olhos procuraram pelas próprias mãos e, em seu campo de visão, ela encontrou sua tragédia cotidiana mais grave. Um lado da cama estava sujo por pedaços negros de um lápis que jurava ser mágico. Seu lápis se partira. Não haveria mais sonhos a realizar, não haveria mais imaginação para desenhar sobre as folhas brancas de papel.
E a menina do lápis mágico deixou os ombros caírem, sem conseguir acreditar no que seus olhos viam. Um soluço se prendeu em sua garganta e a menina saltou diante do lápis quebrado, sujando as pequenas e pálidas mãos com o carvão de que o lápis era feito.
”O que será de mim agora? Como farei tudo ser verdade? Porque isso aconteceu comigo?”
Mais perguntas que pairaram no ar e permaneceram sem a devida resposta. A pobre menina pôs-se a deixar um pranto morno e triste cair diante de sua expressão recém acordada.
Os dias se passaram e aquela menina deixara de sonhar. Havia uma sombra pintada com os restos do lápis de carvão em seus olhos, como um fantasma que revestia seu discernimento sobre o que era a verdade.
E a chuva do alto verão era torrencial, àquela época. Mas, naquele dia nublado, a menina do lápis mágico resolveu sair para explorar. Talvez na esperança de encontrar um novo lápis e só então voltar a sonhar e realizar seus sonhos num passe de mágica. Os passos que suas galochas amarelas davam eram pesados e espalhavam a água das poças formadas pela irregularidade do revestimento na estrada.
Ela fitava todos os lugares com seu olhar vivo, mas, um pássaro avermelhado chamou sua atenção e a menina começou a segui-lo. Olhava o céu e seguia os passos do pequeno passarinho. Esbarrou em algo e arregalou os olhos ao perceber, o velho senhor do fim da rua estava bem em pé, em sua frente. A menina deu dois passos para trás, mas o velho a impediu e ela sentiu medo.
“Não tenha medo, garotinha. Eu só queria dizer algo.”
A menina do lápis mágico permaneceu em silêncio. Algo além do medo instalou-se em seu íntimo. Ela se sentiu curiosa.
“Os sonhos não são feitos de carvão e, para realiza-los, não é preciso mágica.”
A menina entreabriu os lábios, pensando no que o velho proferia com a voz rouca e gasta pelo tempo.
“Os sonhos são feitos da esperança que você guarda aqui.”
Seu dedo grosseiro apontou diretamente ao peito da menina do lápis mágico.
“Existem coisas que não podem ser medidas pelos padrões convencionais. Elas têm outra dimensão, outro peso. É o caso da imaginação. É o caso da fantasia. É o caso dos sonhos. Não existe nada impossível, se você acreditar de verdade. Aquiete seu coração, ponha um sorriso em sua voz. Persiga aquele passarinho, julgando-o liberdade. Lembre-se sempre de seus desenhos e do que você ainda pode desenhar. Antes de dormir, saiba que o que acontece é apenas um boa noite, não haverá adeus. Seja feliz, e realize todos os seus desejos pela força que existe dentro de você, essa é a maior mágica de todas...”
A menina não conseguia produzir sequer palavra. Mas imaginava tanto que sua mente se embaralhou novamente, num emaranhado de fantasias que havia se desfeito no dia em que seu lápis se partiu.
Seus olhos se fecharam por um segundo e uma onda de arrepios cruzou seu corpo, precedendo uma corrente de vento ágil que se espalhou pela rua e ela se decidiu a abrir os olhos e agradecer as palavras daquele senhor. Porém, quando suas pálpebras permitiram a entrada de luz em seus olhos, não havia ninguém na rua. Ela voltou para casa e, no fim da noite, pensou em cada palavra que havia escutado daquela voz. Pegou um lápis qualquer de seu estojo e seu caderno antigo.
Folheou sorrindo e na última página, escreveu:
Aqui é o território dos meus sonhos, e nada nem ninguém jamais os quebrarão, por mais fortes ou menos felizes que sejam. O poder dos meus sonhos é somente meu.
Ao terminar, sua despedida do dia se fez num boa noite... E boa noite não quer dizer adeus. No alvorecer seguinte, ela acordaria e perseguiria seus sonhos novamente, para sempre e sempre, sem cessar. Seria sua mais nova aventura, e, por mais que houvessem tragédias cotidianas, decepções e perdas, a menina do lápis mágico decidiu que aquela seria a aventura mais interessante de sua vida.
Fim
FM.
Como se chegou a isso?
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
13:35
sábado, 6 de novembro de 2010
'
Como chegou a isso?
O tempo passa e toda a vida perpassa as esquinas de cada olhar, sem dar um aviso prévio de que tudo vai morrer um dia.
Mas, como se chegou a isso?
Anos e meses e semanas e dias são apenas a noção cronológica do que está acima de nossa compreensão.
Porque se chegou a isso?
Acho que simplesmente por eu ter notado que tudo tem passado tão rápido que mal tenho tempo de apreciar meu tempo psicológico. Sim, eu tenho estado tonta com a velocidade com que os números cronológicos tem passado. E o presente já é passado, que já é um passado longe, um passado que já quase não tenho lembrança, e se perde. E minhas perguntas mais uma vez se formam.
Como se chegou a isso? Porque se chegou a isso? Mas... Como se chegou a isso?
É mais do que eu consigo imaginar. Entorpecidos pelos caminhos da pressa dos prazos, talvez se exija mais que palavras para constatar a verdade que abate nossa noção de tempo. Eu só queria entender porque não consigo achar tão simples que tudo passe rápido. Eu sinto que conforme os dias se vão, menos tempo eu tenho para viver tudo o que quero.
Ou talvez seja uma forma simples de perguntar quando vou morrer. Mas sei que não vou obter resposta. É tudo uma grande surpresa, o dia do fim. Indefinidamente, pode ser daqui a um século, ou pode ser no próximo segundo. Só temos a obrigação de esperar, e viver. E o tempo está passando. Mas o tempo não está acabando, só passando.
Eu só estou cansada de tomar uma dose de dor todos os dias e ter a consciência de que o tempo está passando. E eu ainda não vivi tudo o que quero. Injetar liberdade nas veias e realizar todos os meus sonhos. Mas eu tenho uma pequena lista que quero realizar. Sim, acho que todos tem, mesmo que só na caixinha de desejos do inconsciente de cada um. Aí estão alguns dos meus desejos:
1- Comprar um panda de pelúcia anti-alérgico.
2- Observar as estrelas através de uma luneta.
3- Assistir a um show da minha banda preferida.
4- Ganhar um presente que venha numa caixa com fita. (quem se habilita a me ajudar a realizar esse?)
5- Esquecer de tudo por um instante.
6- Comer uma caixa de chocolates sozinha.
7- Terminar de escrever meu livro.
8- Aprender a tocar piano, harpa e flauta transversal.
9- Tomar banho de chuva e estender a língua, para apanhar alguma gota do céu.
10- Ver o sol nascer sem ter dormido, na passagem do ano novo.
Como cheguei a isso?
Só percebi que tenho tanto a fazer e desejo que se torne verdade, sei que vai se tornar verdade, eu espero que se torne verdade. Mas, como vai chegar a isso? Basta acreditar. Confiar que vai acontecer. Eu não vou espirrar ao chegar perto de uma pelúcia. Vocês ainda me verão dedilhar um piano e as notas não vão ser um emaranhado confuso e leigo. Eu colocarei um ponto final na história que escrevi. Um dia eu vou comprar o ingresso pro show e esse dia só não vai ser melhor que o show em si.
As estrelas serão enormes aos meus olhos, porque lentes de aumento me ajudarão a ver e alguém um dia vai chegar perto de mim e estenderá uma caixa prateada com uma fita grande e sedosa vermelha, formando um laço bonito. E, não importa o que tenha dentro, eu vou abrir a fita e a tampa da caixa e só esse ato já vale pelo presente. E, mesmo parecendo egoísta, quero comprar uma caixa de chocolates e comer um a um, sem dividir com ninguém.
E, como já fiz quando criança, na imensidão branca e cinza da chuva e das nuvens, apanharei algumas gotas com a língua, imaginando o gosto do céu em minha boca. Um novo ano se erguerá majestosamente impulsionado pelo sol, e eu estarei lá para testemunhar.
Um dia, eu sei... Conseguirei esvaziar a mente por completo, e a sensação de alegria se espalhará de tal maneira sobre meu peito que se extinguirão o medo e a desconfiança no futuro em mim. E tudo será melhor.
Você também deve ter uma listinha de tudo o que te torna essa figura tão humana. Mesmo que não admita, todos temos sonhos. O anseio de realizar algo nos empurra para uma palavrinha chamada: Vida. Não é um clichê, é a verdade. Na sua listinha pode ter um desejo como:
- Tocar em alguma peça de museu que tenha uma plaquinha do lado que diz: "Proibido tocar" pelo prazer que existe na palavra: Proibido. -
Ou algo como:
- Sentar na cadeira do cobrador só pra saber como é viajar de ônibus sentado de lado. -
Ou ainda:
- Passar no vestibular de Moda e Design e cursar, mesmo sem saber desenhar um boneco de palitinhos. -
Você tem desejos, todos temos. Que tal contar algum? O tempo está apenas passando, então, como você vai chegar a isso?
FM.
Como chegou a isso?
O tempo passa e toda a vida perpassa as esquinas de cada olhar, sem dar um aviso prévio de que tudo vai morrer um dia.
Mas, como se chegou a isso?
Anos e meses e semanas e dias são apenas a noção cronológica do que está acima de nossa compreensão.
Porque se chegou a isso?
Acho que simplesmente por eu ter notado que tudo tem passado tão rápido que mal tenho tempo de apreciar meu tempo psicológico. Sim, eu tenho estado tonta com a velocidade com que os números cronológicos tem passado. E o presente já é passado, que já é um passado longe, um passado que já quase não tenho lembrança, e se perde. E minhas perguntas mais uma vez se formam.
Como se chegou a isso? Porque se chegou a isso? Mas... Como se chegou a isso?
É mais do que eu consigo imaginar. Entorpecidos pelos caminhos da pressa dos prazos, talvez se exija mais que palavras para constatar a verdade que abate nossa noção de tempo. Eu só queria entender porque não consigo achar tão simples que tudo passe rápido. Eu sinto que conforme os dias se vão, menos tempo eu tenho para viver tudo o que quero.
Ou talvez seja uma forma simples de perguntar quando vou morrer. Mas sei que não vou obter resposta. É tudo uma grande surpresa, o dia do fim. Indefinidamente, pode ser daqui a um século, ou pode ser no próximo segundo. Só temos a obrigação de esperar, e viver. E o tempo está passando. Mas o tempo não está acabando, só passando.
Eu só estou cansada de tomar uma dose de dor todos os dias e ter a consciência de que o tempo está passando. E eu ainda não vivi tudo o que quero. Injetar liberdade nas veias e realizar todos os meus sonhos. Mas eu tenho uma pequena lista que quero realizar. Sim, acho que todos tem, mesmo que só na caixinha de desejos do inconsciente de cada um. Aí estão alguns dos meus desejos:
1- Comprar um panda de pelúcia anti-alérgico.
2- Observar as estrelas através de uma luneta.
3- Assistir a um show da minha banda preferida.
4- Ganhar um presente que venha numa caixa com fita. (quem se habilita a me ajudar a realizar esse?)
5- Esquecer de tudo por um instante.
6- Comer uma caixa de chocolates sozinha.
7- Terminar de escrever meu livro.
8- Aprender a tocar piano, harpa e flauta transversal.
9- Tomar banho de chuva e estender a língua, para apanhar alguma gota do céu.
10- Ver o sol nascer sem ter dormido, na passagem do ano novo.
Como cheguei a isso?
Só percebi que tenho tanto a fazer e desejo que se torne verdade, sei que vai se tornar verdade, eu espero que se torne verdade. Mas, como vai chegar a isso? Basta acreditar. Confiar que vai acontecer. Eu não vou espirrar ao chegar perto de uma pelúcia. Vocês ainda me verão dedilhar um piano e as notas não vão ser um emaranhado confuso e leigo. Eu colocarei um ponto final na história que escrevi. Um dia eu vou comprar o ingresso pro show e esse dia só não vai ser melhor que o show em si.
As estrelas serão enormes aos meus olhos, porque lentes de aumento me ajudarão a ver e alguém um dia vai chegar perto de mim e estenderá uma caixa prateada com uma fita grande e sedosa vermelha, formando um laço bonito. E, não importa o que tenha dentro, eu vou abrir a fita e a tampa da caixa e só esse ato já vale pelo presente. E, mesmo parecendo egoísta, quero comprar uma caixa de chocolates e comer um a um, sem dividir com ninguém.
E, como já fiz quando criança, na imensidão branca e cinza da chuva e das nuvens, apanharei algumas gotas com a língua, imaginando o gosto do céu em minha boca. Um novo ano se erguerá majestosamente impulsionado pelo sol, e eu estarei lá para testemunhar.
Um dia, eu sei... Conseguirei esvaziar a mente por completo, e a sensação de alegria se espalhará de tal maneira sobre meu peito que se extinguirão o medo e a desconfiança no futuro em mim. E tudo será melhor.
Você também deve ter uma listinha de tudo o que te torna essa figura tão humana. Mesmo que não admita, todos temos sonhos. O anseio de realizar algo nos empurra para uma palavrinha chamada: Vida. Não é um clichê, é a verdade. Na sua listinha pode ter um desejo como:
- Tocar em alguma peça de museu que tenha uma plaquinha do lado que diz: "Proibido tocar" pelo prazer que existe na palavra: Proibido. -
Ou algo como:
- Sentar na cadeira do cobrador só pra saber como é viajar de ônibus sentado de lado. -
Ou ainda:
- Passar no vestibular de Moda e Design e cursar, mesmo sem saber desenhar um boneco de palitinhos. -
Você tem desejos, todos temos. Que tal contar algum? O tempo está apenas passando, então, como você vai chegar a isso?
FM.
O som adormecido das Palavras
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
14:16
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
'
"Há sonhos perdidos, canções que ninguém canta. Algo inatingível pela lógica humana. E ninguém pode questionar a fé que cada um possui dentro de si mesmo. Existem verdades na vida que ultrapassam todas as barreiras passíveis de entendimento. Como sons adormecidos, calam-se as palavras."
Parecia que tudo havia mudado. De quando em quando, ela ainda se encostava na parede e desejava ouvir o mesmo som que as folhas produziam ao se chocarem com o movimento do vento. Desejava sentir aquela brisa deitada no chão de piso branco. Seus olhos vivos poderiam olhar para o céu de um azul tão azul quanto numa pintura. E as nuvens rajariam o firmamento de branco, esses eram sons adormecidos.
Seus dedos perpassariam aquela parede novamente. Ela veria os coqueiros daquela janela e sorriria ao escutar suas melodias preferidas ecoarem naquele por ali. Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir todo o amor que sentia sem saber, disfarçado em jogos noturnos de baralho e no cheiro do café que todas as tardes enchia a rua inteira. Mas aquilo estava fora de seu entendimento, outrora.
E a vida era mais leve. Uma fantasiosa aventura solitária pelos traços de desenhos que ela mesma compunha, empunhando lápis e deslizando-o sobre o papel. Seus livros eram mais que tesouros, eram seu refúgio para os dias em que sabia estar sozinha. E ela tinha sonhos. Um deles era guardar todos os momentos de plenitude em sua vida, não muitos, mas todos.
Como na noite de 22 de novembro de 2004, as luzes do quintal vizinho irrompiam pelas sombras de seu quarto e ela sorriu ao entrar lá. Sentiu uma sensação que poucas vezes sentira. Como se estivesse completa, em sua visão infantil. Sentou-se sobre o chão, encostada no guarda roupa. Admirou aquela imagem feita de sombras e luz por algum tempo, até ter a certeza de que nunca a esqueceria.
E o vento soprava lentamente para dentro do quarto. Ela sabia que aquele momento registrado estava além de qualquer explicação. E as palavras a calariam, como sons adormecidos.
Tudo havia mudado. Vez ou outra, quando deitada, antes de dormir, ainda lembrava de quando deitava em seu grande cubo e olhava o teto, pedindo para que aquele dia nunca acabasse. Que nunca acabasse... Nunca acabasse... Acabasse... E rendia-se ao sono, dormia. Era apenas uma criança, mas sabia que seus pedidos não seriam atendidos, e se sentia só. Mergulhava em um mundo no qual não entendia, mas não se importou. Se deixou permitir porque sabia a vida ultrapassava qualquer entendimento.
Como no dia em que voltava para casa e o tempo virou. O céu sempre azul vivo transformou-se em branco, como gostava de ver. Cinza. Até escurecer mais e despencar sobre a Terra, em forma de chuva. Grossas gotas de chuva, violentas rajadas de vento. E ela corria. Sozinha na rua, corria. Sentia o vento cortar seu rosto arrendondado infantil e corria de braços abertos. Sorria, então. As casas ao seu redor estavam todas fechadas, a única testemunha de sua pequena loucura era o cachorro de uma delas. Um grande Husk siberiano branco, tinha um olho azul, o outro castanho. Latia alto enquanto ela corria. E a felicidade clandestina que ela sentia naquele momento de vida ultrapassava qualquer entendimento.
Mas ela acordava de seus devaneios, por vezes, e voltava à realidade. Desejava que tudo voltasse, para que aquele frio tão acolhedor retornasse a ser sentido por sua pele. E desejava que sobre seu rosto houvessem gotas de chuva, não lágrimas. Mas tudo havia mudado. Restara a saudade, algumas músicas e uns livros. Todo o seu universo se formou sobre a base de suas lembranças, vivas e em perpétuo movimento. Para sempre e sempre, uma vida que ultrapassaria toda e qualquer tentativa de entendimento.
Porque nem tudo na vida precisa de explicações e teorias. Há momentos em que a beleza reside na falta de verbalidade para ultrapassar as barreiras de entendimento. Então, deixe esse erro de querer compreender tudo. Drene o ar de seus pulmões até que possa inalar as faíscas de sua voz interior. Rasgue todos os pedaços de lógica que possui, ao menos uma vez.
Permita-se não entender o que acontece. Veja as estrelas no céu, elas são a figura eterna de um poema morto. Tão vivas aos nossos olhos, verdadeiramente mortas. Cristais brilhantes que deixaram de existir a tanto tempo e ainda viajam pelo tempo, como fantasmas, e brilham por nossa noite. E quem precisa entender mais que a beleza de poder contemplar o céu noturno? Com sons adormecidos, nada mais é preciso.
As barreiras do entendimento humano são quebradas no momento em que o som das palavras adormece em cada timbre, para que sensações sejam a única explicação.
FM.
"Há sonhos perdidos, canções que ninguém canta. Algo inatingível pela lógica humana. E ninguém pode questionar a fé que cada um possui dentro de si mesmo. Existem verdades na vida que ultrapassam todas as barreiras passíveis de entendimento. Como sons adormecidos, calam-se as palavras."
Parecia que tudo havia mudado. De quando em quando, ela ainda se encostava na parede e desejava ouvir o mesmo som que as folhas produziam ao se chocarem com o movimento do vento. Desejava sentir aquela brisa deitada no chão de piso branco. Seus olhos vivos poderiam olhar para o céu de um azul tão azul quanto numa pintura. E as nuvens rajariam o firmamento de branco, esses eram sons adormecidos.
Seus dedos perpassariam aquela parede novamente. Ela veria os coqueiros daquela janela e sorriria ao escutar suas melodias preferidas ecoarem naquele por ali. Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir todo o amor que sentia sem saber, disfarçado em jogos noturnos de baralho e no cheiro do café que todas as tardes enchia a rua inteira. Mas aquilo estava fora de seu entendimento, outrora.
E a vida era mais leve. Uma fantasiosa aventura solitária pelos traços de desenhos que ela mesma compunha, empunhando lápis e deslizando-o sobre o papel. Seus livros eram mais que tesouros, eram seu refúgio para os dias em que sabia estar sozinha. E ela tinha sonhos. Um deles era guardar todos os momentos de plenitude em sua vida, não muitos, mas todos.
Como na noite de 22 de novembro de 2004, as luzes do quintal vizinho irrompiam pelas sombras de seu quarto e ela sorriu ao entrar lá. Sentiu uma sensação que poucas vezes sentira. Como se estivesse completa, em sua visão infantil. Sentou-se sobre o chão, encostada no guarda roupa. Admirou aquela imagem feita de sombras e luz por algum tempo, até ter a certeza de que nunca a esqueceria.
E o vento soprava lentamente para dentro do quarto. Ela sabia que aquele momento registrado estava além de qualquer explicação. E as palavras a calariam, como sons adormecidos.
Tudo havia mudado. Vez ou outra, quando deitada, antes de dormir, ainda lembrava de quando deitava em seu grande cubo e olhava o teto, pedindo para que aquele dia nunca acabasse. Que nunca acabasse... Nunca acabasse... Acabasse... E rendia-se ao sono, dormia. Era apenas uma criança, mas sabia que seus pedidos não seriam atendidos, e se sentia só. Mergulhava em um mundo no qual não entendia, mas não se importou. Se deixou permitir porque sabia a vida ultrapassava qualquer entendimento.
Como no dia em que voltava para casa e o tempo virou. O céu sempre azul vivo transformou-se em branco, como gostava de ver. Cinza. Até escurecer mais e despencar sobre a Terra, em forma de chuva. Grossas gotas de chuva, violentas rajadas de vento. E ela corria. Sozinha na rua, corria. Sentia o vento cortar seu rosto arrendondado infantil e corria de braços abertos. Sorria, então. As casas ao seu redor estavam todas fechadas, a única testemunha de sua pequena loucura era o cachorro de uma delas. Um grande Husk siberiano branco, tinha um olho azul, o outro castanho. Latia alto enquanto ela corria. E a felicidade clandestina que ela sentia naquele momento de vida ultrapassava qualquer entendimento.
Mas ela acordava de seus devaneios, por vezes, e voltava à realidade. Desejava que tudo voltasse, para que aquele frio tão acolhedor retornasse a ser sentido por sua pele. E desejava que sobre seu rosto houvessem gotas de chuva, não lágrimas. Mas tudo havia mudado. Restara a saudade, algumas músicas e uns livros. Todo o seu universo se formou sobre a base de suas lembranças, vivas e em perpétuo movimento. Para sempre e sempre, uma vida que ultrapassaria toda e qualquer tentativa de entendimento.
Porque nem tudo na vida precisa de explicações e teorias. Há momentos em que a beleza reside na falta de verbalidade para ultrapassar as barreiras de entendimento. Então, deixe esse erro de querer compreender tudo. Drene o ar de seus pulmões até que possa inalar as faíscas de sua voz interior. Rasgue todos os pedaços de lógica que possui, ao menos uma vez.
Permita-se não entender o que acontece. Veja as estrelas no céu, elas são a figura eterna de um poema morto. Tão vivas aos nossos olhos, verdadeiramente mortas. Cristais brilhantes que deixaram de existir a tanto tempo e ainda viajam pelo tempo, como fantasmas, e brilham por nossa noite. E quem precisa entender mais que a beleza de poder contemplar o céu noturno? Com sons adormecidos, nada mais é preciso.
As barreiras do entendimento humano são quebradas no momento em que o som das palavras adormece em cada timbre, para que sensações sejam a única explicação.
FM.
Ainda que o silêncio Permaneça
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
13:01
domingo, 10 de outubro de 2010
'
Aquele que nunca viu a tristeza
Não reconhecerá a alegria
Não verá que cada novo nascer do sol
Possui um brilho que reflete em nós
Aquecendo nossa pele
Fazendo-nos vivos a cada dia
Aquele que nunca provou a dor
Não reconhecerá o alívio
Pois não sentiu o frio cortante de sofrer
Nunca viu a marca do sangue
Jorrando nosso sofrimento
Junto com as lágrimas que caem
Aquele que nunca foi sincero
Não reconhecerá a verdade
Quando ela estiver em frente aos olhos
Pois não sabe que a confiança
É um sentimento nobre
Mas é frágil demais para se restaurar
E não importa o tamanho de sua dor agora
Saiba que por mais forte que ela pareça
Ela pode ser jogada ao vento
Pode ser esquecida pela vida ao seu redor
Ainda que o silêncio permaneça
A alegria que há em você surgirá
Pois a angústia que seu corpo sente doer
Nunca será maior que a vida em você
Ainda que o silêncio permaneça
Tudo na vida é temporário, lembre-se que...
Tudo na vida é temporário. Tudo.
FM.
Aquele que nunca viu a tristeza
Não reconhecerá a alegria
Não verá que cada novo nascer do sol
Possui um brilho que reflete em nós
Aquecendo nossa pele
Fazendo-nos vivos a cada dia
Aquele que nunca provou a dor
Não reconhecerá o alívio
Pois não sentiu o frio cortante de sofrer
Nunca viu a marca do sangue
Jorrando nosso sofrimento
Junto com as lágrimas que caem
Aquele que nunca foi sincero
Não reconhecerá a verdade
Quando ela estiver em frente aos olhos
Pois não sabe que a confiança
É um sentimento nobre
Mas é frágil demais para se restaurar
E não importa o tamanho de sua dor agora
Saiba que por mais forte que ela pareça
Ela pode ser jogada ao vento
Pode ser esquecida pela vida ao seu redor
Ainda que o silêncio permaneça
A alegria que há em você surgirá
Pois a angústia que seu corpo sente doer
Nunca será maior que a vida em você
Ainda que o silêncio permaneça
Tudo na vida é temporário, lembre-se que...
Tudo na vida é temporário. Tudo.
FM.
Lúgubre Visita (Soneto)
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
11:48
terça-feira, 28 de setembro de 2010
'
Lágrimas correm por seu semblante
Uma tristeza corrói suas entranhas
Escuras nuvens movem-se a diante
Andando pelas estradas estranhas
Nenhuma esperança, só morbidez
Frios ventos continuam a soprar
Portões rangem, sombria rispidez
Uma densa névoa paira sobre o ar
A consternação punge o coração
Um corpo jaz sob sepulcro soturno
Gárgulas olham com quietação
A flor cai no túmulo devagar
Ainda orvalhada, e a esperança ressurge
Em fracos raios de sol a brilhar.
FM.
Lágrimas correm por seu semblante
Uma tristeza corrói suas entranhas
Escuras nuvens movem-se a diante
Andando pelas estradas estranhas
Nenhuma esperança, só morbidez
Frios ventos continuam a soprar
Portões rangem, sombria rispidez
Uma densa névoa paira sobre o ar
A consternação punge o coração
Um corpo jaz sob sepulcro soturno
Gárgulas olham com quietação
A flor cai no túmulo devagar
Ainda orvalhada, e a esperança ressurge
Em fracos raios de sol a brilhar.
FM.
Ninguém nunca ouviria aquele coração Chorar
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
11:39
'
Então você caminha lentamente em direção ao infinito
E o cansaço é fatalmente explicado por seus olhos
Rendido ao fardo de morrer solitário neste lugar
E ninguém nunca veria seu coração sangrar
Porque o tempo caberá em suas mãos a partir de
Quando a luz que emana de seu corpo se esvair
Agora seus olhos de ressaca choram
Lavando as mãos dos pecados que ainda virão
E a morte chora tristemente, sozinha no infinito
Doce luto a pestear os anjos melancólicos que cantam
Ao passar uma onda lenta de dor por este lugar
Roubando todo o branco de suas vestes, deixando o negro
Uma melodia mortal entoada por todas as vozes
Compartilhando um momento dentro da noite
Quem poderia ser feliz ao caminhar para o suicídio?
Somente aquele que não suporta mais a vida
Então você não ouvirá seu coração chorar
Então compartilhe um momento de silêncio dentro da noite
Então olhe as estrelas, perto da morte
Agora não existe chance para uma nova vida
Sangrando por dentro, vendo a morte se aproximar
(Ninguém ouviria aquele coração chorar)
Perdido no tempo, adormecido pela fadiga
(As súplicas da voz sem chance de voltar à vida)
Morto e sem medo, esperando sua redenção
(Ninguém nunca ouviria aquele coração chorar)
FM.
Então você caminha lentamente em direção ao infinito
E o cansaço é fatalmente explicado por seus olhos
Rendido ao fardo de morrer solitário neste lugar
E ninguém nunca veria seu coração sangrar
Porque o tempo caberá em suas mãos a partir de
Quando a luz que emana de seu corpo se esvair
Agora seus olhos de ressaca choram
Lavando as mãos dos pecados que ainda virão
E a morte chora tristemente, sozinha no infinito
Doce luto a pestear os anjos melancólicos que cantam
Ao passar uma onda lenta de dor por este lugar
Roubando todo o branco de suas vestes, deixando o negro
Uma melodia mortal entoada por todas as vozes
Compartilhando um momento dentro da noite
Quem poderia ser feliz ao caminhar para o suicídio?
Somente aquele que não suporta mais a vida
Então você não ouvirá seu coração chorar
Então compartilhe um momento de silêncio dentro da noite
Então olhe as estrelas, perto da morte
Agora não existe chance para uma nova vida
Sangrando por dentro, vendo a morte se aproximar
(Ninguém ouviria aquele coração chorar)
Perdido no tempo, adormecido pela fadiga
(As súplicas da voz sem chance de voltar à vida)
Morto e sem medo, esperando sua redenção
(Ninguém nunca ouviria aquele coração chorar)
FM.
O peso que o ar Mantém
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
13:18
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
'
Era repugnantemente frio ali. Tão solitária, a lua persistia em seu ritmo em torno do céu. Era complicado entender o porque de tudo ser igual, a cada dia. É complicado entender o peso que o ar mantém sobre nós, diante da vida em movimento contínuo. Mas era repugnantemente sombrio ali. Num vislumbre mínimo da ideia de estar sozinha, ela pensava, mas seu pensamento vagava pelo vale do esquecimento, e ela fitava o horizonte.
Em seus olhos a curiosidade se perdeu. Havia um tom cético banhado pelas diferentes matizes que contém uma lágrima. E seus ombros não suportavam o peso que o ar mantinha naquele lugar, como uma gaiola, a prendia em um amor camuflado com o que, na verdade, parecia ser ódio. Em algum momento, lhe ocorreu a ideia de doença. Ela não podia deixar que essa doença se espalhasse por seu corpo. Ela não queria. Ela queria. Ela deixou.
Mas o céu, impassível, prosseguia em seu papel eterno, estático. E o vento carregava seus cabelos através do vazio, lentamente. Placidamente, a fração de tristeza que abatia sua voz se consternava ao ponto de distribuir as lágrimas por seus traços, num semblante indiferente ao mundo.
E nada destruiria o que estava escondido em seu coração. Nem o desprezo, o desrespeito dele. Todo o amor sufocado em seu interior era vivo e pulsante, latente em emoções extremas. Vestida em pétalas de esperança e saudade, ela se mantinha esperando. Mas, complicado era não deixar que a vida tomasse seu rumo sem se importar com o que os outros diriam. Complicado era não deixar se permitir e viver, porque o tempo da vida é curto, escorre rapidamente numa ampulheta que conta os dias.
Enquanto isso, ela se tornava escrava de uma ilusão. Envolvida pelos elos que as memórias transformaram em tesouro, fatalidades de um passado intensamente vivido, ela existia. Apesar de seu amor, ele era o único que a fazia triste. E isso sim era complicado. O modo como seus olhos se hipnotizavam pela imagem intransponível dele era inexplicável. Seu corpo e sua respiração tomados pela possessão de um amor escravizado pela ilusão, e isso sim era complicado.
O peso que o ar mantinha em sua sensação inebriante de sofrer era denso. Ela rasgava os retalhos de seus sentimentos e buscava em seu interior a folha em branco, para recomeçar. Ela existia pela necessidade de se auto-obrigar a renovar sua saudade diante da figura endeusada dele. Mas, sempre existiam as contradições, e isso sim era complicado.
Pois os olhos dele mentiam a dor que ele sentia ao produzir as palavras erradas pelos lábios. Era real. Mas ele não se deixava permitir, e se afastava. Tentava matar seu próprio amor e nele cuspia. Rejeitava a ideia de vivê-lo, tão somente por medo. Mas ela o amava, e o restituía. Restaurava os estilhaços de um espelho e buscava um reflexo sorridente. E ainda restaura. Todos os dias remonta suas emoções e a cada dia seu coração renova suas esperanças.
Mas isso é complicado. Há toda uma história de dor por trás e algumas cicatrizes que nunca desaparecerão. O ar ainda será denso por algum tempo, e haverá uma névoa indistinta sobre seus olhos. Pois no rolar de suas lágrimas há muito mais que um amor banido tempos atrás e isso custou a morte sucessiva de suas esperanças apenas para deixá-lo ir. E ele seguia seu caminho, ambos em lados opostos. Presos pelas correntes da saudade, permaneciam juntos.
Eu ouvi dizer que anjos mentem para manter o controle. Talvez, no dia em que a verdade sair dos lábios dele, diretos e incisivos a ela, os elos se desfarão, e ela se libertará. E seu amor talvez não a maltrate tanto.
Enquanto isso, complicado é morrer um pouco, a cada dia. Ela espera pela volta dele, com o coração cheio de saudade e lembranças, carregado pela esperança de ter valido a pena ouvir que era complicado ficar ao lado de quem ama, apenas uma vez.
A noite se esvaía e o dia nascia. Nas pedras de sua alma, ondas de vento quebravam e se transformavam em leve brisa. Esse é o peso que o ar mantém em sua vida, como as ondas do mar se chocam contra as pedras e se abrandam, todo choque que seu amor sofrer até o dim dos dias o quebrará, mas, não como acontece com as ondas do mar, ela o reconstituirá, pois sua esperança é eternizada pela promessa de que um dia seu amor será recompensado.
FM.
Era repugnantemente frio ali. Tão solitária, a lua persistia em seu ritmo em torno do céu. Era complicado entender o porque de tudo ser igual, a cada dia. É complicado entender o peso que o ar mantém sobre nós, diante da vida em movimento contínuo. Mas era repugnantemente sombrio ali. Num vislumbre mínimo da ideia de estar sozinha, ela pensava, mas seu pensamento vagava pelo vale do esquecimento, e ela fitava o horizonte.
Em seus olhos a curiosidade se perdeu. Havia um tom cético banhado pelas diferentes matizes que contém uma lágrima. E seus ombros não suportavam o peso que o ar mantinha naquele lugar, como uma gaiola, a prendia em um amor camuflado com o que, na verdade, parecia ser ódio. Em algum momento, lhe ocorreu a ideia de doença. Ela não podia deixar que essa doença se espalhasse por seu corpo. Ela não queria. Ela queria. Ela deixou.
Mas o céu, impassível, prosseguia em seu papel eterno, estático. E o vento carregava seus cabelos através do vazio, lentamente. Placidamente, a fração de tristeza que abatia sua voz se consternava ao ponto de distribuir as lágrimas por seus traços, num semblante indiferente ao mundo.
E nada destruiria o que estava escondido em seu coração. Nem o desprezo, o desrespeito dele. Todo o amor sufocado em seu interior era vivo e pulsante, latente em emoções extremas. Vestida em pétalas de esperança e saudade, ela se mantinha esperando. Mas, complicado era não deixar que a vida tomasse seu rumo sem se importar com o que os outros diriam. Complicado era não deixar se permitir e viver, porque o tempo da vida é curto, escorre rapidamente numa ampulheta que conta os dias.
Enquanto isso, ela se tornava escrava de uma ilusão. Envolvida pelos elos que as memórias transformaram em tesouro, fatalidades de um passado intensamente vivido, ela existia. Apesar de seu amor, ele era o único que a fazia triste. E isso sim era complicado. O modo como seus olhos se hipnotizavam pela imagem intransponível dele era inexplicável. Seu corpo e sua respiração tomados pela possessão de um amor escravizado pela ilusão, e isso sim era complicado.
O peso que o ar mantinha em sua sensação inebriante de sofrer era denso. Ela rasgava os retalhos de seus sentimentos e buscava em seu interior a folha em branco, para recomeçar. Ela existia pela necessidade de se auto-obrigar a renovar sua saudade diante da figura endeusada dele. Mas, sempre existiam as contradições, e isso sim era complicado.
Pois os olhos dele mentiam a dor que ele sentia ao produzir as palavras erradas pelos lábios. Era real. Mas ele não se deixava permitir, e se afastava. Tentava matar seu próprio amor e nele cuspia. Rejeitava a ideia de vivê-lo, tão somente por medo. Mas ela o amava, e o restituía. Restaurava os estilhaços de um espelho e buscava um reflexo sorridente. E ainda restaura. Todos os dias remonta suas emoções e a cada dia seu coração renova suas esperanças.
Mas isso é complicado. Há toda uma história de dor por trás e algumas cicatrizes que nunca desaparecerão. O ar ainda será denso por algum tempo, e haverá uma névoa indistinta sobre seus olhos. Pois no rolar de suas lágrimas há muito mais que um amor banido tempos atrás e isso custou a morte sucessiva de suas esperanças apenas para deixá-lo ir. E ele seguia seu caminho, ambos em lados opostos. Presos pelas correntes da saudade, permaneciam juntos.
Eu ouvi dizer que anjos mentem para manter o controle. Talvez, no dia em que a verdade sair dos lábios dele, diretos e incisivos a ela, os elos se desfarão, e ela se libertará. E seu amor talvez não a maltrate tanto.
Enquanto isso, complicado é morrer um pouco, a cada dia. Ela espera pela volta dele, com o coração cheio de saudade e lembranças, carregado pela esperança de ter valido a pena ouvir que era complicado ficar ao lado de quem ama, apenas uma vez.
A noite se esvaía e o dia nascia. Nas pedras de sua alma, ondas de vento quebravam e se transformavam em leve brisa. Esse é o peso que o ar mantém em sua vida, como as ondas do mar se chocam contra as pedras e se abrandam, todo choque que seu amor sofrer até o dim dos dias o quebrará, mas, não como acontece com as ondas do mar, ela o reconstituirá, pois sua esperança é eternizada pela promessa de que um dia seu amor será recompensado.
FM.
Pequeno apontamento sobre Saudade (O peso que o ar Mantém)
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
15:15
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
'
A fadiga me pesava os olhos naquele fim de tarde, num caminho que estou acostumada a fazer todos os dias. O sol se despedia do dia e eu sorria fracamente, ao escutar as palavras animadas das pessoas ao meu redor. E, dentre todas as palavras produzidas pelos mais variados timbres ali, uma declaração infantil me produziu lágrimas instantâneas.
Essa é uma história sobre o significado da saudade. Eu poderia comentar sobre significados de dicionários e estudiosos. Poderia apresentar teses científicas e gráficos matemáticos, mas nada seria tão simples e puro quanto as palavras de uma criança entre seus oito, dez anos. Nas palavras dele, a uma criança foi perguntado se ela sentiria falta, saudade de seu pai, recém falecido. E a criança respondeu que sim, lentamente.
Mas, a essa mesma criança, foi perguntado: "Você sabe o que significa saudade?". A criança, pacientemente, respondeu: "Querer ter alguém por perto e não poder ter."
Essas palavras reverberaram dentro de mim como ondas gigantescas num oceano plácido. Quase no mesmo instante em que as luzes da iluminação pública encheram meus olhos naquele início de noite, as lágrimas me acompanharam. Minha voz travou quase inconscientemente. Eu fui pega de surpresa pela sabedoria dessa criança, a qual eu nem ao menos sei o nome. E eu refleti sobre esse significado, numa pequena história que imaginei, a qual eu mostrarei a vocês, logo mais.
Por agora eu gostaria de saber qual o significado de saudade, para cada um de vocês. Pensem, em seu íntimo. Cada coração possui, em seus espaços mais escondidos, algo que desponta de vez em quando, a mostrar toda a dor de uma saudade, um amor verdadeiro. E só sabe o que essa dor significa, quem a sente.
Então, mesmo que você não saiba o que escrever sobre saudade, pense... Reflita sobre isso. Talvez você encontre mais respostas do que imagina.
FM.
A fadiga me pesava os olhos naquele fim de tarde, num caminho que estou acostumada a fazer todos os dias. O sol se despedia do dia e eu sorria fracamente, ao escutar as palavras animadas das pessoas ao meu redor. E, dentre todas as palavras produzidas pelos mais variados timbres ali, uma declaração infantil me produziu lágrimas instantâneas.
Essa é uma história sobre o significado da saudade. Eu poderia comentar sobre significados de dicionários e estudiosos. Poderia apresentar teses científicas e gráficos matemáticos, mas nada seria tão simples e puro quanto as palavras de uma criança entre seus oito, dez anos. Nas palavras dele, a uma criança foi perguntado se ela sentiria falta, saudade de seu pai, recém falecido. E a criança respondeu que sim, lentamente.
Mas, a essa mesma criança, foi perguntado: "Você sabe o que significa saudade?". A criança, pacientemente, respondeu: "Querer ter alguém por perto e não poder ter."
Essas palavras reverberaram dentro de mim como ondas gigantescas num oceano plácido. Quase no mesmo instante em que as luzes da iluminação pública encheram meus olhos naquele início de noite, as lágrimas me acompanharam. Minha voz travou quase inconscientemente. Eu fui pega de surpresa pela sabedoria dessa criança, a qual eu nem ao menos sei o nome. E eu refleti sobre esse significado, numa pequena história que imaginei, a qual eu mostrarei a vocês, logo mais.
Por agora eu gostaria de saber qual o significado de saudade, para cada um de vocês. Pensem, em seu íntimo. Cada coração possui, em seus espaços mais escondidos, algo que desponta de vez em quando, a mostrar toda a dor de uma saudade, um amor verdadeiro. E só sabe o que essa dor significa, quem a sente.
Então, mesmo que você não saiba o que escrever sobre saudade, pense... Reflita sobre isso. Talvez você encontre mais respostas do que imagina.
FM.
Um exemplo de Generosidade
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
21:50
terça-feira, 14 de setembro de 2010
'
Quando eu era criança, havia um mundo lá fora, como hoje. Mas, não como hoje, eu não o via da mesma maneira. Em meu olhar existia muito ao meu redor, foi a vida que eu conheci. Mas, em meu olhar, não cabia o verdadeiro sentido de existir, ou talvez aquele fosse o melhor jeito de ver a vida. Porque o olhar infantil tem apenas a inocência do descobrimento para se criar até o futuro.
Através do meu olhar, existia eu, um mundo e alguns sonhos partidos. Nunca fui uma pessoa muito otimista, nem quando criança. Mas eu sonhava. Assim como ainda sonho, eu sonhava. Talvez sonhasse com as mesmas coisas e, em matéria de sonhos, meu passado foi intensamente vivido. Pousando entre minhas memórias, eu sinto que meus sonhos foram as únicas fontes de vida que me habitaram por anos. Enquanto a morte, cruelmente, levava alguns amigos embora, enquanto as circunstâncias da vida me afastavam das pessoas que eu mais amava, eu sonhava com o dia em que tudo se restabeleceria.
Acredite, eu já perdi tantas pessoas quanto poderia perder. Mas eu nunca quis que isso crescesse dentro de mim como uma doença. Porque eu sei o quanto difícil é sentir algo preso na garganta, sufocante. Como um coração se partindo em pedaços, e eu não queria isso. A primeira vez em que eu senti como se algo tivesse sido arrancado de mim foi no ano de 2001. Naquele momento da minha vida eu já podia discernir que a morte levava embora as pessoas amadas e haveria a quebra do vínculo com elas.
Meu bisavô foi a pessoa mais generosa que eu já conheci em toda a minha vida. Seu olhar benevolente era tão verdadeiro quanto um olhar pode ser. Dentro de seu silêncio, nas marcas provocadas pelo tempo em seu corpo cansado, emanava uma luz que eu só enxergava nele. Em seu sorriso quase infantil eu via a simplicidade de um homem que passou pela vida e adquiriu sabedoria e o respeito das pessoas, como um ancião que era. Era meu espelho de virtudes, aquele homem. Sentia-me feliz quando chegava de viagem e o encontrava sentado naquela cadeira de balanço, perto da TV, assistindo a algum jornal.
Ele se erguia, no alto de sua idade, e abria um sorriso acolhedor. Estendia os braços e nos abraçava. Conversava sobre os mais variados assuntos, entendia sobre política e economia. Lembro das noites em que sentavam em volta da mesa da cozinha e os assuntos fluíam pela noite, naquele sítio. Eu era apenas uma criança, fingia que dormia, eu escutava. As mais variadas opiniões, eu as tomava em silêncio, como hoje. Mas eu admirava. Admirava aquele homem que, apesar de desgastado pelo tempo, possuía um brilho de jovem.
Humilde, nunca tirou os pés do chão para conseguir ir até o céu. Eu lembro de um dia nublado em que todos nos arrumamos para ir até uma plantação. Minha mãe me vestiu num vestido quadriculado e me pediu para calçar os tênis, pois as formigas poderiam machucar-me os pés. Nós fomos. Ele nos mostrava todas aquelas terras e nós, as crianças, corríamos entre as bananeiras. Em dado momento, eu mirei através do lugar e eles andavam lá na frente e os adultos o escutavam enquanto ele falava e apontava para algum lugar.
É a imagem que eu guardo com mais intensidade dele. Eu sentia orgulho de ele ser meu bisavô. Eu ainda sinto orgulho de pertencer à sua família. Uma das pessoas mais gentis que eu conheci. Uma das pessoas mais generosas que eu conheci, uma das pessoas mais humildes que eu conheci.
E, quando íamos embora daquele sítio, ele sempre acordava no escuro da madrugada para se despedir de nós. Sempre passava a mão sobre minha cabeça e me sorria, entregando uma cédula de um real, me pedindo para gastar com sabedoria. Eu sempre gastava aquele dinheiro com algum doce no meio do caminho, mas sempre lembrava dele quando pegava numa cédula de um real, e ainda lembro, quando raramente ainda encontro esse tipo de dinheiro por aí.
Num dia, porém, minha mãe falava impassível e tenho lembrança de sentir meu corpo estremecer, paralisando logo após. Meu pai pegou o telefone e ela se dirigiu até o quarto. A televisão era o único ruído, naquela manhã, após o telefonema. E, nunca, o som do silêncio me pareceu tão angustiante. Arrumávamos as malas para viajar e encontrá-lo pela última vez. A morte o havia levado embora.
Eu já me preparava para aquele dia há quatro meses, tempo no qual a agonia de contar os dias até sua morte o deve ter feito pensar no significado de toda a sua vida, e de lutar por ela com tudo o que havia em suas mãos cansadas. Mas, seu ciclo terminou, assim como o de minha bisavó terminara há alguns anos. E nós viajamos até sua casa, para vê-lo sair dali pela última vez.
Sempre tive receio de ver pessoas mortas, acho que por medo da quebra que existe entre a vida e a morte, um ponto final pode parecer assustador. Mas, naquela noite, me mantive acordada na sala, enquanto muitas pessoas se movimentavam e comentavam sobre sua morte. Alguns diziam: "Há alguns dias ele estava tão bem..." Outros comentavam à meia-voz: "Nunca mais..." Nunca mais.
Nunca mais eu veria seu brilho jovial no semblante castigado pelo tempo. Nunca mais eu ouviria seu caminhar arrastado pelo piso daquela casa. Nunca mais ele passaria a mão sobre minha cabeça e me pediria para ter sabedoria. E minha garganta apertou, era sufocante. Eu estava sentada numa cadeira e tudo era tão grande, do meu olhar infantil. Encolhi-me por ali e baixei os olhos, e confundiram com sono. Me levaram para a casa vizinha e me fizeram deitar para dormir. Mas meu coração havia se quebrado e meu sono tardava a chegar.
O som produzido por aquele silêncio era tão angustiante quanto podia ser. E o tom de eterno ali me fez derrubar algumas lágrimas pacientemente acolhedoras. Embalada por aquela noite fria em que o vento se movia com força pelo pátio de areia pálida, àquela hora tomado por uma imensidão azulada da lua, eu imaginava como seria a vida por ali, a partir daquele momento. Mas a expressão das pessoas que o viram pela última vez me fez ter a certeza de que tudo seria diferente demais.
E as últimas famosas palavras que disseram em homenagem a ele, no dia seguinte, foram saudosistas. Foi um dos únicos momentos em que vi meu pai chorar. Permitia que algumas lágrimas descessem por seu rosto avermelhado e ouvia alguem falar, como todos. Mais um momento de silêncio por ele.
Constatei que nunca tinha visto tantos carros num cortejo fúnebre. E, naquela tarde, eu estava sentada no batente da casa. Olhava o largo pátio de areia pálida, agora iluminado fortemente pelo sol, a ponto de causar dor nos olhos de quem se atrevia a fitá-lo por muito tempo. Eu repetia para mim mesma, em voz baixa: "3 de junho de 2001."
Uma música soava ao longe, ecoava pelo pátio. O vento seco formava alguns redemoinhos. Minha garganta ainda não desatara o nó que a comprimia. Ele partira para longe, para sempre. O vento acariciava tudo em torno de mim, os pássaros sobrevoavam aquele céu sem nuvens, formando alguns riscos negros no firmamento azul. Os galhos das árvores secas no horizonte se moviam lentamente, friamente.
Baixei minha visão pela segunda vez. Eu disse a mim mesma que nunca deixaria minha visão turvar diante das imagens do meu avô. Porque ele era meu exemplo de generosidade, era um homem forte e bondoso, era humilde. Era meu avô.
É mais um que as circunstâncias do tempo me tiraram. Mas seu exemplo ficará comigo para sempre.
Antonio Lino Bezerra.
FM.
Quando eu era criança, havia um mundo lá fora, como hoje. Mas, não como hoje, eu não o via da mesma maneira. Em meu olhar existia muito ao meu redor, foi a vida que eu conheci. Mas, em meu olhar, não cabia o verdadeiro sentido de existir, ou talvez aquele fosse o melhor jeito de ver a vida. Porque o olhar infantil tem apenas a inocência do descobrimento para se criar até o futuro.
Através do meu olhar, existia eu, um mundo e alguns sonhos partidos. Nunca fui uma pessoa muito otimista, nem quando criança. Mas eu sonhava. Assim como ainda sonho, eu sonhava. Talvez sonhasse com as mesmas coisas e, em matéria de sonhos, meu passado foi intensamente vivido. Pousando entre minhas memórias, eu sinto que meus sonhos foram as únicas fontes de vida que me habitaram por anos. Enquanto a morte, cruelmente, levava alguns amigos embora, enquanto as circunstâncias da vida me afastavam das pessoas que eu mais amava, eu sonhava com o dia em que tudo se restabeleceria.
Acredite, eu já perdi tantas pessoas quanto poderia perder. Mas eu nunca quis que isso crescesse dentro de mim como uma doença. Porque eu sei o quanto difícil é sentir algo preso na garganta, sufocante. Como um coração se partindo em pedaços, e eu não queria isso. A primeira vez em que eu senti como se algo tivesse sido arrancado de mim foi no ano de 2001. Naquele momento da minha vida eu já podia discernir que a morte levava embora as pessoas amadas e haveria a quebra do vínculo com elas.
Meu bisavô foi a pessoa mais generosa que eu já conheci em toda a minha vida. Seu olhar benevolente era tão verdadeiro quanto um olhar pode ser. Dentro de seu silêncio, nas marcas provocadas pelo tempo em seu corpo cansado, emanava uma luz que eu só enxergava nele. Em seu sorriso quase infantil eu via a simplicidade de um homem que passou pela vida e adquiriu sabedoria e o respeito das pessoas, como um ancião que era. Era meu espelho de virtudes, aquele homem. Sentia-me feliz quando chegava de viagem e o encontrava sentado naquela cadeira de balanço, perto da TV, assistindo a algum jornal.
Ele se erguia, no alto de sua idade, e abria um sorriso acolhedor. Estendia os braços e nos abraçava. Conversava sobre os mais variados assuntos, entendia sobre política e economia. Lembro das noites em que sentavam em volta da mesa da cozinha e os assuntos fluíam pela noite, naquele sítio. Eu era apenas uma criança, fingia que dormia, eu escutava. As mais variadas opiniões, eu as tomava em silêncio, como hoje. Mas eu admirava. Admirava aquele homem que, apesar de desgastado pelo tempo, possuía um brilho de jovem.
Humilde, nunca tirou os pés do chão para conseguir ir até o céu. Eu lembro de um dia nublado em que todos nos arrumamos para ir até uma plantação. Minha mãe me vestiu num vestido quadriculado e me pediu para calçar os tênis, pois as formigas poderiam machucar-me os pés. Nós fomos. Ele nos mostrava todas aquelas terras e nós, as crianças, corríamos entre as bananeiras. Em dado momento, eu mirei através do lugar e eles andavam lá na frente e os adultos o escutavam enquanto ele falava e apontava para algum lugar.
É a imagem que eu guardo com mais intensidade dele. Eu sentia orgulho de ele ser meu bisavô. Eu ainda sinto orgulho de pertencer à sua família. Uma das pessoas mais gentis que eu conheci. Uma das pessoas mais generosas que eu conheci, uma das pessoas mais humildes que eu conheci.
E, quando íamos embora daquele sítio, ele sempre acordava no escuro da madrugada para se despedir de nós. Sempre passava a mão sobre minha cabeça e me sorria, entregando uma cédula de um real, me pedindo para gastar com sabedoria. Eu sempre gastava aquele dinheiro com algum doce no meio do caminho, mas sempre lembrava dele quando pegava numa cédula de um real, e ainda lembro, quando raramente ainda encontro esse tipo de dinheiro por aí.
Num dia, porém, minha mãe falava impassível e tenho lembrança de sentir meu corpo estremecer, paralisando logo após. Meu pai pegou o telefone e ela se dirigiu até o quarto. A televisão era o único ruído, naquela manhã, após o telefonema. E, nunca, o som do silêncio me pareceu tão angustiante. Arrumávamos as malas para viajar e encontrá-lo pela última vez. A morte o havia levado embora.
Eu já me preparava para aquele dia há quatro meses, tempo no qual a agonia de contar os dias até sua morte o deve ter feito pensar no significado de toda a sua vida, e de lutar por ela com tudo o que havia em suas mãos cansadas. Mas, seu ciclo terminou, assim como o de minha bisavó terminara há alguns anos. E nós viajamos até sua casa, para vê-lo sair dali pela última vez.
Sempre tive receio de ver pessoas mortas, acho que por medo da quebra que existe entre a vida e a morte, um ponto final pode parecer assustador. Mas, naquela noite, me mantive acordada na sala, enquanto muitas pessoas se movimentavam e comentavam sobre sua morte. Alguns diziam: "Há alguns dias ele estava tão bem..." Outros comentavam à meia-voz: "Nunca mais..." Nunca mais.
Nunca mais eu veria seu brilho jovial no semblante castigado pelo tempo. Nunca mais eu ouviria seu caminhar arrastado pelo piso daquela casa. Nunca mais ele passaria a mão sobre minha cabeça e me pediria para ter sabedoria. E minha garganta apertou, era sufocante. Eu estava sentada numa cadeira e tudo era tão grande, do meu olhar infantil. Encolhi-me por ali e baixei os olhos, e confundiram com sono. Me levaram para a casa vizinha e me fizeram deitar para dormir. Mas meu coração havia se quebrado e meu sono tardava a chegar.
O som produzido por aquele silêncio era tão angustiante quanto podia ser. E o tom de eterno ali me fez derrubar algumas lágrimas pacientemente acolhedoras. Embalada por aquela noite fria em que o vento se movia com força pelo pátio de areia pálida, àquela hora tomado por uma imensidão azulada da lua, eu imaginava como seria a vida por ali, a partir daquele momento. Mas a expressão das pessoas que o viram pela última vez me fez ter a certeza de que tudo seria diferente demais.
E as últimas famosas palavras que disseram em homenagem a ele, no dia seguinte, foram saudosistas. Foi um dos únicos momentos em que vi meu pai chorar. Permitia que algumas lágrimas descessem por seu rosto avermelhado e ouvia alguem falar, como todos. Mais um momento de silêncio por ele.
Constatei que nunca tinha visto tantos carros num cortejo fúnebre. E, naquela tarde, eu estava sentada no batente da casa. Olhava o largo pátio de areia pálida, agora iluminado fortemente pelo sol, a ponto de causar dor nos olhos de quem se atrevia a fitá-lo por muito tempo. Eu repetia para mim mesma, em voz baixa: "3 de junho de 2001."
Uma música soava ao longe, ecoava pelo pátio. O vento seco formava alguns redemoinhos. Minha garganta ainda não desatara o nó que a comprimia. Ele partira para longe, para sempre. O vento acariciava tudo em torno de mim, os pássaros sobrevoavam aquele céu sem nuvens, formando alguns riscos negros no firmamento azul. Os galhos das árvores secas no horizonte se moviam lentamente, friamente.
Baixei minha visão pela segunda vez. Eu disse a mim mesma que nunca deixaria minha visão turvar diante das imagens do meu avô. Porque ele era meu exemplo de generosidade, era um homem forte e bondoso, era humilde. Era meu avô.
É mais um que as circunstâncias do tempo me tiraram. Mas seu exemplo ficará comigo para sempre.
Antonio Lino Bezerra.
FM.
Corações Apodrecidos
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
17:41
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
'
Era um dia de sol escaldante. Há dias eu procurava algo para escrever sobre, mas tudo me parecia tão banal. Foram dias em que meu silêncio se estendeu até minhas letras escritas, e foi mórbido.
Mas era um dia de sol escaldante. E eu andava, devaneava sobre a folhagem seca pelo caminho, percorria aquele lugar com os olhos quando escutei algo. Era uma pequena declaração, e eu sorri ao escutar. Não pelo significado da frase, mas pela luz que ela me proporcionou.
"Meu coração é podre."
Existem várias artérias pulsantes em cada parte do meu corpo, e elas são impulsionadas pelo meu coração. E é a partir dele que toda a vida circula em mim, dentro de meu sangue. Talvez, por essa razão, tantas pessoas digam que o amor vem de dentro do coração, numa simpática metáfora. Se, toda a nossa vida passa pelo coração para poder circular pelo corpo, talvez o amor circule junto com o sangue, percorrendo todo o nosso corpo.
Mas, durante uma pequena viagem pelo nosso corpo, o sangue, antes límpido e cheio de vida, se suja e perde a vitalidade, pelas veredas do nosso interior, até voltar ao coração. Como o amor, talvez. Nasce imaculado, puro, mas, com o tempo, dentro dos caminhos pelos quais envereda, se conspurca. E, em pulsos fracos, quando o coração não corresponde ao pedido de sangue para o corpo, este circula lentamente, quase parado, morto. Se um amor não possuir a resposta, logo a apatia vai se infiltrar em seu semblante e matá-lo, pouco a pouco.
E, se alguém ingerir veneno, este vai escorrer até seu sangue. Impregnando todo o caminho por ele percorrido, causará a morte. Talvez aconteça o mesmo com o amor, pois, ao ingerir os mais variados tipos de veneno, após receber golpes mortais, o amor pode enfraquecer-se tanto que chegue a morrer.
Então, talvez existam corações podres, realmente. Um coração pode apodrecer com o tempo, enchendo-se de feridas que nunca vão cicatrizar, com vestígios de palavras envenenadas, com uma face morta. Mas, a falta de credulidade só machuca. Corações podres deixam de acreditar, confiar. Corações podres têm medo de se entregar ao que poderia na verdade ser o caminho de sua vida. E medo é o contrário de amor. Corações podres são pobres, pois oferecem amor, mas estão bêbados de ódio. Corações podres só podem dizer com o que parecem, não o que realmente são, e isso sim é complicado.
Corações podres são insanos, amam o jeito como mentem para si mesmos, esperando tudo em volta queimar. E gostam da forma como se sente essa dor de amar sem sentimento, e observam as lágrimas do alvo de seu amor, como se fossem pequenas estrelas cadentes, que percorrem o infinito. E, mesmo assim, está tudo bem.
Corações podres são doentes. Corações apodrecidos poderiam ser vivos e felizes, se tentassem, porque todos podem.
Um coração humano apodrecido pelo tempo
Cheio de feridas que nunca vão cicatrizar
Com vestígios de palavras envenenadas
De sorrisos nunca feitos por essa face morta
Quando eu pude gritar com toda a voz
Somente escutei o eco das palavras
E menti pra mim com o que jamais ousei pensar
Perdi a direção ao tocar esperanças mortas
Sou apenas uma música triste
Com um coração apodrecido
E o silêncio me guiará até o fim
Até o fim
Como estrelas caindo
Lágrimas que percorrem o infinito
Quando a luz se tornar escuridão
Meus sonhos cadentes no céu
Como estrelas caindo
Como estrelas caindo
Lágrimas que percorrem o infinito
Meu coração apodrecido
FM.
Era um dia de sol escaldante. Há dias eu procurava algo para escrever sobre, mas tudo me parecia tão banal. Foram dias em que meu silêncio se estendeu até minhas letras escritas, e foi mórbido.
Mas era um dia de sol escaldante. E eu andava, devaneava sobre a folhagem seca pelo caminho, percorria aquele lugar com os olhos quando escutei algo. Era uma pequena declaração, e eu sorri ao escutar. Não pelo significado da frase, mas pela luz que ela me proporcionou.
"Meu coração é podre."
Existem várias artérias pulsantes em cada parte do meu corpo, e elas são impulsionadas pelo meu coração. E é a partir dele que toda a vida circula em mim, dentro de meu sangue. Talvez, por essa razão, tantas pessoas digam que o amor vem de dentro do coração, numa simpática metáfora. Se, toda a nossa vida passa pelo coração para poder circular pelo corpo, talvez o amor circule junto com o sangue, percorrendo todo o nosso corpo.
Mas, durante uma pequena viagem pelo nosso corpo, o sangue, antes límpido e cheio de vida, se suja e perde a vitalidade, pelas veredas do nosso interior, até voltar ao coração. Como o amor, talvez. Nasce imaculado, puro, mas, com o tempo, dentro dos caminhos pelos quais envereda, se conspurca. E, em pulsos fracos, quando o coração não corresponde ao pedido de sangue para o corpo, este circula lentamente, quase parado, morto. Se um amor não possuir a resposta, logo a apatia vai se infiltrar em seu semblante e matá-lo, pouco a pouco.
E, se alguém ingerir veneno, este vai escorrer até seu sangue. Impregnando todo o caminho por ele percorrido, causará a morte. Talvez aconteça o mesmo com o amor, pois, ao ingerir os mais variados tipos de veneno, após receber golpes mortais, o amor pode enfraquecer-se tanto que chegue a morrer.
Então, talvez existam corações podres, realmente. Um coração pode apodrecer com o tempo, enchendo-se de feridas que nunca vão cicatrizar, com vestígios de palavras envenenadas, com uma face morta. Mas, a falta de credulidade só machuca. Corações podres deixam de acreditar, confiar. Corações podres têm medo de se entregar ao que poderia na verdade ser o caminho de sua vida. E medo é o contrário de amor. Corações podres são pobres, pois oferecem amor, mas estão bêbados de ódio. Corações podres só podem dizer com o que parecem, não o que realmente são, e isso sim é complicado.
Corações podres são insanos, amam o jeito como mentem para si mesmos, esperando tudo em volta queimar. E gostam da forma como se sente essa dor de amar sem sentimento, e observam as lágrimas do alvo de seu amor, como se fossem pequenas estrelas cadentes, que percorrem o infinito. E, mesmo assim, está tudo bem.
Corações podres são doentes. Corações apodrecidos poderiam ser vivos e felizes, se tentassem, porque todos podem.
Um coração humano apodrecido pelo tempo
Cheio de feridas que nunca vão cicatrizar
Com vestígios de palavras envenenadas
De sorrisos nunca feitos por essa face morta
Quando eu pude gritar com toda a voz
Somente escutei o eco das palavras
E menti pra mim com o que jamais ousei pensar
Perdi a direção ao tocar esperanças mortas
Sou apenas uma música triste
Com um coração apodrecido
E o silêncio me guiará até o fim
Até o fim
Como estrelas caindo
Lágrimas que percorrem o infinito
Quando a luz se tornar escuridão
Meus sonhos cadentes no céu
Como estrelas caindo
Como estrelas caindo
Lágrimas que percorrem o infinito
Meu coração apodrecido
FM.
Carta aos meus amigos.
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
18:30
terça-feira, 7 de setembro de 2010
'
Antes de vocês, eu nunca vi ninguém que pudesse chamar de amigo
É o silêncio de suas vozes que tenho como companhia aqui?
Tem uma frase de caneca que responde a essa pergunta
“Amigos são a certeza de jamais sermos solidão.”
Eu não quero que ninguém me ame como eu os amo.
Não espero resposta. Meu amor é gratuito. Um amor humano
Falho, mas é o mais puro sentimento que eu tenho
Suas amizades são o que me mantém vendo sentido em tudo
Foi com vocês que eu consegui ser mais humana
O que eu mais sinto falta é de escutar vocês. Ouvir vocês
Ouvir as risadas alegres e as palavras para cada momento.
Com vocês eu tive os melhores dias da minha vida
Momentos onde minha alegria não cabia em mim
E eu guardo uma caixa com algumas lembranças nossas
Marcas de uma história que ajudaram a me construir
Hoje sou melhor que antes. Hoje posso dizer que tive uma vida.
Vocês sabem que tudo aqui é verdade, vocês sabem
Foi com vocês que eu consegui ser mais humana
Perto de vocês eu vejo um sorriso verdadeiro no espelho
E é por causa de vocês que eu hoje tenho tudo o que tenho
Eu posso dizer que tenho amigos de verdade, e que eu os amo
E que eles são sagrados pra mim, que são meus anjos.
Somente Deus sabe o quanto vocês são importantes pra mim.
Somente Deus sabe o quanto vocês são importantes pra mim.
Há um tempo que não vai voltar
Um novo tempo sempre virá
Há um tempo que não vai voltar
Um novo tempo sempre virá
FM.
Antes de vocês, eu nunca vi ninguém que pudesse chamar de amigo
É o silêncio de suas vozes que tenho como companhia aqui?
Tem uma frase de caneca que responde a essa pergunta
“Amigos são a certeza de jamais sermos solidão.”
Eu não quero que ninguém me ame como eu os amo.
Não espero resposta. Meu amor é gratuito. Um amor humano
Falho, mas é o mais puro sentimento que eu tenho
Suas amizades são o que me mantém vendo sentido em tudo
Foi com vocês que eu consegui ser mais humana
O que eu mais sinto falta é de escutar vocês. Ouvir vocês
Ouvir as risadas alegres e as palavras para cada momento.
Com vocês eu tive os melhores dias da minha vida
Momentos onde minha alegria não cabia em mim
E eu guardo uma caixa com algumas lembranças nossas
Marcas de uma história que ajudaram a me construir
Hoje sou melhor que antes. Hoje posso dizer que tive uma vida.
Vocês sabem que tudo aqui é verdade, vocês sabem
Foi com vocês que eu consegui ser mais humana
Perto de vocês eu vejo um sorriso verdadeiro no espelho
E é por causa de vocês que eu hoje tenho tudo o que tenho
Eu posso dizer que tenho amigos de verdade, e que eu os amo
E que eles são sagrados pra mim, que são meus anjos.
Somente Deus sabe o quanto vocês são importantes pra mim.
Somente Deus sabe o quanto vocês são importantes pra mim.
Há um tempo que não vai voltar
Um novo tempo sempre virá
Há um tempo que não vai voltar
Um novo tempo sempre virá
FM.
Bem-vindo à Existência
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
14:47
domingo, 5 de setembro de 2010
'
"Sob a sombra da noite, todos são iguais em suas vozes, seus olhos, seus corações. Todos têm medos, têm desejos. Todos têm esperanças tão profundas que, mesmo que tentem, não podem esquecer ou ignorar."
E o sol já não brilhava com força, àquela hora. Apenas algumas réstias de luz clareavam a linha do horizonte, entre tons de laranja, rosa e azul. E o dia se movia lentamente, caminhando para a noite. Eu divisava todo aquele verde imóvel dos campos que ficavam para trás enquanto íamos ao nosso destino. Aquele verde. Tão vivo e parado. Tão deixado para trás. Tão imperceptível aos olhos da pressa. Para aquele verde o tempo não se conta em números de relógio, mas em olhares das mais diferentes histórias que por ele passam.
Durante esse pensamento eu me vi por dentro. Em algum lugar, eu vivo por dentro. Mas, será que eu não me perdi dentro de mim, como tantos outros? Talvez eu viva com os olhos entreabertos, ou fechados. Decidi por mim, naquele momento, que queria muito mais do que a vida podia oferecer. Era uma pequena esperança que crescia enquanto o dia se esvaía, na tarde de ontem.
E eu corri. Ao som de doces melodias, embalada pelo vento forte que vinha do mar, caminhei entre uma multidão. À princípio sem entender muito bem o que estava acontecendo, minha atenção fixa num ponto dentro da escuridão ao meu lado, o oceano.
Mas algo acontecia ali, e eu me dei conta de que devia rever minha atenção. Porque pessoas estavam ali. Não como os verdes campos que eu vi durante o fim de tarde. Não estavam paradas, esperando olhares de outras histórias. Eram pessoas que construíam suas próprias histórias e se movimentavam insistentemente pela avenida. Elas clamavam. Em todas elas, vozes mostravam algo de felicidade, leveza. Elas gritavam, entoavam suas canções preferidas e erguiam as mãos, mas havia algo além de alegria em suas almas.
Então eu vi uma criança. Ela sorria. Esperava por seu pai e sorria ao vê-lo sorrir. E cantava. Esperava pelas luzes que vinham do alto e a música se aproximava. Esperava e sorria. Esperava. Meu olhar se desviou dela e haviam dois homens que acenavam felizes para alguém no meio da multidão, e esperavam a resposta. Um casal se abraçava e sorria, esperando o carinho recíproco. Todos esperavam, ansiavam. E eu compreendi.
Havia esperança em cada face ali desenhada pelo tempo. Em cada existência ali, uma ponta de entusiasmo denunciava a esperança latente em cada coração.
E não existia medo, nem olhares nublados. Tudo era tão nítido e forte que nem parecia noite naquele lugar. O vento forte carregava a esperança até o céu, enlevando as vozes e acalentando os corações, para se misturar às estrelas que pulsavam lentamente seu brilho. Com uma intensidade que me fez sentir preenchida pelo seu entusiasmo.
Era como um desafio a mexer todas as pessoas que ainda viviam em sua acomodação. Todas as pessoas afastadas de um propósito. Como se o "hoje" nunca tivesse acontecido, elas cantavam, se deixavam levar pela esperança de um "amanhã". E, num olhar em especial, eu vi uma redenção que tinha muitas histórias para contar. Essa redenção não podia mais escapar de si mesma, mas o perdão estava ali, onde aquele olhar caiu.
Restava levantar do chão e se mexer, pois o "hoje" nunca aconteceu e não voltará. Só possuímos uma vida e nela temos que depositar todas as nossas esperanças, e isso nos fará felizes. Só haverá um futuro melhor se houver um passado intensamente vivido. Sonhe com tudo quanto você quer, mesmo que seja menos do que sua vida pode oferecer. Perdoe, pois só haverá leveza em seu olhar quando as decepções e os erros forem deixados para trás. E peça perdão pelos erros cometidos, pois a humildade de reconhecer seus enganos elevará seu espírito.
Foi algo que pensei durante a noite passada, dentro do silêncio que cobriu minhas últimas palavras, durante um breve sono, de volta pra casa.
Bem-vindos à existência humana.
FM.
"Sob a sombra da noite, todos são iguais em suas vozes, seus olhos, seus corações. Todos têm medos, têm desejos. Todos têm esperanças tão profundas que, mesmo que tentem, não podem esquecer ou ignorar."
E o sol já não brilhava com força, àquela hora. Apenas algumas réstias de luz clareavam a linha do horizonte, entre tons de laranja, rosa e azul. E o dia se movia lentamente, caminhando para a noite. Eu divisava todo aquele verde imóvel dos campos que ficavam para trás enquanto íamos ao nosso destino. Aquele verde. Tão vivo e parado. Tão deixado para trás. Tão imperceptível aos olhos da pressa. Para aquele verde o tempo não se conta em números de relógio, mas em olhares das mais diferentes histórias que por ele passam.
Durante esse pensamento eu me vi por dentro. Em algum lugar, eu vivo por dentro. Mas, será que eu não me perdi dentro de mim, como tantos outros? Talvez eu viva com os olhos entreabertos, ou fechados. Decidi por mim, naquele momento, que queria muito mais do que a vida podia oferecer. Era uma pequena esperança que crescia enquanto o dia se esvaía, na tarde de ontem.
E eu corri. Ao som de doces melodias, embalada pelo vento forte que vinha do mar, caminhei entre uma multidão. À princípio sem entender muito bem o que estava acontecendo, minha atenção fixa num ponto dentro da escuridão ao meu lado, o oceano.
Mas algo acontecia ali, e eu me dei conta de que devia rever minha atenção. Porque pessoas estavam ali. Não como os verdes campos que eu vi durante o fim de tarde. Não estavam paradas, esperando olhares de outras histórias. Eram pessoas que construíam suas próprias histórias e se movimentavam insistentemente pela avenida. Elas clamavam. Em todas elas, vozes mostravam algo de felicidade, leveza. Elas gritavam, entoavam suas canções preferidas e erguiam as mãos, mas havia algo além de alegria em suas almas.
Então eu vi uma criança. Ela sorria. Esperava por seu pai e sorria ao vê-lo sorrir. E cantava. Esperava pelas luzes que vinham do alto e a música se aproximava. Esperava e sorria. Esperava. Meu olhar se desviou dela e haviam dois homens que acenavam felizes para alguém no meio da multidão, e esperavam a resposta. Um casal se abraçava e sorria, esperando o carinho recíproco. Todos esperavam, ansiavam. E eu compreendi.
Havia esperança em cada face ali desenhada pelo tempo. Em cada existência ali, uma ponta de entusiasmo denunciava a esperança latente em cada coração.
E não existia medo, nem olhares nublados. Tudo era tão nítido e forte que nem parecia noite naquele lugar. O vento forte carregava a esperança até o céu, enlevando as vozes e acalentando os corações, para se misturar às estrelas que pulsavam lentamente seu brilho. Com uma intensidade que me fez sentir preenchida pelo seu entusiasmo.
Era como um desafio a mexer todas as pessoas que ainda viviam em sua acomodação. Todas as pessoas afastadas de um propósito. Como se o "hoje" nunca tivesse acontecido, elas cantavam, se deixavam levar pela esperança de um "amanhã". E, num olhar em especial, eu vi uma redenção que tinha muitas histórias para contar. Essa redenção não podia mais escapar de si mesma, mas o perdão estava ali, onde aquele olhar caiu.
Restava levantar do chão e se mexer, pois o "hoje" nunca aconteceu e não voltará. Só possuímos uma vida e nela temos que depositar todas as nossas esperanças, e isso nos fará felizes. Só haverá um futuro melhor se houver um passado intensamente vivido. Sonhe com tudo quanto você quer, mesmo que seja menos do que sua vida pode oferecer. Perdoe, pois só haverá leveza em seu olhar quando as decepções e os erros forem deixados para trás. E peça perdão pelos erros cometidos, pois a humildade de reconhecer seus enganos elevará seu espírito.
Foi algo que pensei durante a noite passada, dentro do silêncio que cobriu minhas últimas palavras, durante um breve sono, de volta pra casa.
Bem-vindos à existência humana.
FM.
Até o fim da Melodia
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
12:58
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
'
"Dizem que anjos sangram em silêncio para proteger, e este é meu silêncio por você. Até o fim da melodia, por você."
E, numa noite qualquer, a brisa entra fria pela janela do quarto. A mesma que faz as folhas das árvores se mexerem. Ali, no frio daquele cômodo, um anjo escreve suas memórias mórbidas. Até o fim da melodia, pelos vastos campos de sua mente, ele caminha.
Suas mãos gélidas e sua face pálida, os cabelos caídos nos ombros. As lágrimas que umedecem o lençol são a imagem da solidão que se instalou em sua vida. Da dor que o consome conforme os dias se vão. Até o fim da melodia, o conforto de seu silêncio será seu túmulo.
Pois seus segredos estão tatuados bem abaixo de sua pele. Ele ainda pressiona as fotos amareladas contra o corpo. Suas lágrimas ainda rolam calmas por seu rosto magro.
E um turbilhão de vozes gira em sua cabeça, até as mãos irem à testa, onde os dedos pressionados na pele causam uma falsa impressão de conforto. Com as pálpebras cerradas ele busca ar para os pulmões e, até o fim da melodia, seu fôlego será o que lhe sustentará a vida.
A escuridão que lhe impede a visão queima seus olhos, esconde-os na sombra da ignorância. O sangue que abandona seu corpo pinta suas cobertas. O frio entorpece a dor silenciosa em seu corpo. Porque, até o fim da melodia, anos sangrarão em silêncio para proteger.
E então, até o fim da melodia, seu coração pulsará. Sua voz será calma e seus olhos estarão cobertos escondendo seus medos, os retalhos de seus anseios, os poucos rastros de felicidade que o satisfazem por segundos. Momentos fugidios de uma sobrevida. Até o fim da melodia.
FM.
Escrito em 9 de fevereiro de 2009. Uma noite qualquer...
"Dizem que anjos sangram em silêncio para proteger, e este é meu silêncio por você. Até o fim da melodia, por você."
E, numa noite qualquer, a brisa entra fria pela janela do quarto. A mesma que faz as folhas das árvores se mexerem. Ali, no frio daquele cômodo, um anjo escreve suas memórias mórbidas. Até o fim da melodia, pelos vastos campos de sua mente, ele caminha.
Suas mãos gélidas e sua face pálida, os cabelos caídos nos ombros. As lágrimas que umedecem o lençol são a imagem da solidão que se instalou em sua vida. Da dor que o consome conforme os dias se vão. Até o fim da melodia, o conforto de seu silêncio será seu túmulo.
Pois seus segredos estão tatuados bem abaixo de sua pele. Ele ainda pressiona as fotos amareladas contra o corpo. Suas lágrimas ainda rolam calmas por seu rosto magro.
E um turbilhão de vozes gira em sua cabeça, até as mãos irem à testa, onde os dedos pressionados na pele causam uma falsa impressão de conforto. Com as pálpebras cerradas ele busca ar para os pulmões e, até o fim da melodia, seu fôlego será o que lhe sustentará a vida.
A escuridão que lhe impede a visão queima seus olhos, esconde-os na sombra da ignorância. O sangue que abandona seu corpo pinta suas cobertas. O frio entorpece a dor silenciosa em seu corpo. Porque, até o fim da melodia, anos sangrarão em silêncio para proteger.
E então, até o fim da melodia, seu coração pulsará. Sua voz será calma e seus olhos estarão cobertos escondendo seus medos, os retalhos de seus anseios, os poucos rastros de felicidade que o satisfazem por segundos. Momentos fugidios de uma sobrevida. Até o fim da melodia.
FM.
Escrito em 9 de fevereiro de 2009. Uma noite qualquer...
"Illumina Tenebras"
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
13:18
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
'
"Saiba que, quando você apaga as luzes, as estrelas ficam mais cintilantes."
Ontem à noite, admirei a lua por alguns instantes, poucos segundos. Em todo o seu esplendor de estado, ela iluminava a escuridão da noite e e trazia algumas lembranças.
Aquela noite de Novembro era habitualmente quente, mas o vento que corría ali era frio e acariciava as paredes por onde se espalhava. Na minha caminhada de volta à minha casa eu apreciava a noite e o céu. Inspirava aquele ar, já sabendo o que me aguardava dali a algum tempo. E eu mirei a lua. Cheia. Cheia como ontem. Uma aura leitosa em volta daquele astro era a representação de toda a luz que o sol refletia.
E eu a olhava, naquela noite, como ontem, para as estrelas que brilhavam timidamente, como entristecidas por não conseguirem se igualar a lua. Me entristeci. Sim, era um sopro de lucidez em meio ao meu êxtase de estar ali. O fogo que queimava em minha memória e me fazia lembrar daquela noite de novembro se apagou no momento em que minha consciência gritou que novembro não voltaria, nada do que eu tinha seria meu novamente.
E veio a escuridão. Um estado de ausência de luz. Tão seguramente impenetrável e tão tangível pelo tempo. E meus olhos se desarmaram. Senti medo. Um medo que me corroeu durante uma tempestade de tempo e que voltou naquele momento. Algo que me impedia de falar à plena voz. Senti medo de me perder novamente, de perder novamente.
Porque eu ja perdi tudo. E eu sei que nada dura para sempre. Mas meu coração já se machucou demais para perder os pedaços que eu consegui restituir. Por isso eu desisti de sentir. Dentro da escuridão eu me senti acolhida. Mas a lua teimava em refletir um brilho leitoso sobre mim.
E eu reparei, no momento em que minha cabeça repousou sobre o travesseiro, que a escuridão não existe por si mesma. Afinal, ao ser atingida pela luz, deixa de existir e revela as matizes, os tons, as cores que existem ao redor da sombra morta.
E minhas teorias cairam mais uma vez. Como uma luz na escuridão em que eu estava mergulhada, eu compreendi que posso criar as luzes que mostrarão as cores vindas de mim. É como se eu pudesse valsar, rodopiando num salão cheio de vitrais com imagens do meu passado. Em sua plenitude de cores, vivas como eu. E nada poderia me tocar, somente as cores.
E ao som de uma música, a história da minha vida se desenrolaria em vivas notas e vozes. Teria sabores e cheiros, todos os sentidos humanos. Eu sentiria os arrepios e aquela sensação de liberdade. Ouviria as risadas e lá no alto, nos vitrais, eu enxergaria a mim mesma e diria que fui iluminada pelo sabor de ter vivido intensamente. E não me arrependeria.
E a escuridão se iluminaria, a noite caminharia assim, para sempre.
Sorri. Adormeci. Acordei hoje pela manhã e agora posto mais um devaneio meu, como tantos outros que já escrevi.
FM.
"Saiba que, quando você apaga as luzes, as estrelas ficam mais cintilantes."
Ontem à noite, admirei a lua por alguns instantes, poucos segundos. Em todo o seu esplendor de estado, ela iluminava a escuridão da noite e e trazia algumas lembranças.
Aquela noite de Novembro era habitualmente quente, mas o vento que corría ali era frio e acariciava as paredes por onde se espalhava. Na minha caminhada de volta à minha casa eu apreciava a noite e o céu. Inspirava aquele ar, já sabendo o que me aguardava dali a algum tempo. E eu mirei a lua. Cheia. Cheia como ontem. Uma aura leitosa em volta daquele astro era a representação de toda a luz que o sol refletia.
E eu a olhava, naquela noite, como ontem, para as estrelas que brilhavam timidamente, como entristecidas por não conseguirem se igualar a lua. Me entristeci. Sim, era um sopro de lucidez em meio ao meu êxtase de estar ali. O fogo que queimava em minha memória e me fazia lembrar daquela noite de novembro se apagou no momento em que minha consciência gritou que novembro não voltaria, nada do que eu tinha seria meu novamente.
E veio a escuridão. Um estado de ausência de luz. Tão seguramente impenetrável e tão tangível pelo tempo. E meus olhos se desarmaram. Senti medo. Um medo que me corroeu durante uma tempestade de tempo e que voltou naquele momento. Algo que me impedia de falar à plena voz. Senti medo de me perder novamente, de perder novamente.
Porque eu ja perdi tudo. E eu sei que nada dura para sempre. Mas meu coração já se machucou demais para perder os pedaços que eu consegui restituir. Por isso eu desisti de sentir. Dentro da escuridão eu me senti acolhida. Mas a lua teimava em refletir um brilho leitoso sobre mim.
E eu reparei, no momento em que minha cabeça repousou sobre o travesseiro, que a escuridão não existe por si mesma. Afinal, ao ser atingida pela luz, deixa de existir e revela as matizes, os tons, as cores que existem ao redor da sombra morta.
E minhas teorias cairam mais uma vez. Como uma luz na escuridão em que eu estava mergulhada, eu compreendi que posso criar as luzes que mostrarão as cores vindas de mim. É como se eu pudesse valsar, rodopiando num salão cheio de vitrais com imagens do meu passado. Em sua plenitude de cores, vivas como eu. E nada poderia me tocar, somente as cores.
E ao som de uma música, a história da minha vida se desenrolaria em vivas notas e vozes. Teria sabores e cheiros, todos os sentidos humanos. Eu sentiria os arrepios e aquela sensação de liberdade. Ouviria as risadas e lá no alto, nos vitrais, eu enxergaria a mim mesma e diria que fui iluminada pelo sabor de ter vivido intensamente. E não me arrependeria.
E a escuridão se iluminaria, a noite caminharia assim, para sempre.
Sorri. Adormeci. Acordei hoje pela manhã e agora posto mais um devaneio meu, como tantos outros que já escrevi.
FM.
6 de Janeiro de 2001
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
11:36
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
'
A casa estava para ser esvaziada naquela manhã. Eram 8:00 h quando meus olhos se abriram. Ela me pedia para levantar e me arrumar, partiríamos em alguns instantes e deixaríamos toda uma vida para trás, mas eu estava feliz. Corri até o banheiro e me olhei pela última vez naquele espelho pequeno de moldura branca. Sorri e olhei tudo em volta.
Juntei todos os meus cd's e meus livros. Guardei os brinquedos e dei uma pequena volta pela casa. Eu estava completamente feliz. Era uma manhã ensolarada e livre. A brisa soprava friamente amena, o caminhão parado lá fora já estava cheio, àquela hora. Passei os dedos pela parede do corredor, como de costume. Era toda uma vida deixada para trás, sim, mas era um recomeço, pelo menos pensava eu.
Eu estava feliz.
Foi um curto percurso de carro. Algumas ruas que eu já estava acostumada a atravessar. Mas naquele percurso, havia algo de definitivo. Era como sentir as mãos do tempo agindo de forma a mudar tudo na minha vida. As memórias permaneceram, mas o passado já havia passado. Aquele era um momento no qual eu passei muito tempo me preparando para acontecer. Eu adorei aquela mudança.
E, ao entrar naquela casa, o cheiro de novo invadiu minhas narinas e eu sorri firmemente, sem conseguir parar. Era tudo tão branco, as portas de cor tão escura quanto meus cabelos. O piso de cerâmica que nós dois havíamos escolhido juntos, dispostos em diagonal. As cores quase imperceptivelmente diferentes entre o teto e as paredes. A luminárias limpas e claras.
Eu caminhei pelo longo corredor até meu quarto e entrei, ainda vazio. Meus olhos de criança se ergueram e fitaram todo o cubo que era meu quarto, enorme à minha estatura. Imaculadamente branco. As janelas grandes e de cor escura deixavam entrar uma forte corrente de vento e naquele momento eu me senti mais livre que em toda a minha vida. Foi uma das sensações mais fortes que já me ocorreram até hoje.
E, enquanto preenchiam aquele espaço com meus móveis, eu rodava pelos cômodos, vendo todos aqueles anos de espectativa e detalhismo se transformarem em algo concretamente realizado. Era um momento de quebra, pelo menos eu pensava assim.
Durou pouco. Foi um belo dia, aquele 6 de janeiro de 2001. Passou. Mais uma vez a mão do tempo se ergueu sobre minha condição humana e agiu na vida, mas minhas memórias permaneceram. E continuarão comigo, mesmo que passe mais dez anos, até que a morte me extingua.
FM.
A casa estava para ser esvaziada naquela manhã. Eram 8:00 h quando meus olhos se abriram. Ela me pedia para levantar e me arrumar, partiríamos em alguns instantes e deixaríamos toda uma vida para trás, mas eu estava feliz. Corri até o banheiro e me olhei pela última vez naquele espelho pequeno de moldura branca. Sorri e olhei tudo em volta.
Juntei todos os meus cd's e meus livros. Guardei os brinquedos e dei uma pequena volta pela casa. Eu estava completamente feliz. Era uma manhã ensolarada e livre. A brisa soprava friamente amena, o caminhão parado lá fora já estava cheio, àquela hora. Passei os dedos pela parede do corredor, como de costume. Era toda uma vida deixada para trás, sim, mas era um recomeço, pelo menos pensava eu.
Eu estava feliz.
Foi um curto percurso de carro. Algumas ruas que eu já estava acostumada a atravessar. Mas naquele percurso, havia algo de definitivo. Era como sentir as mãos do tempo agindo de forma a mudar tudo na minha vida. As memórias permaneceram, mas o passado já havia passado. Aquele era um momento no qual eu passei muito tempo me preparando para acontecer. Eu adorei aquela mudança.
E, ao entrar naquela casa, o cheiro de novo invadiu minhas narinas e eu sorri firmemente, sem conseguir parar. Era tudo tão branco, as portas de cor tão escura quanto meus cabelos. O piso de cerâmica que nós dois havíamos escolhido juntos, dispostos em diagonal. As cores quase imperceptivelmente diferentes entre o teto e as paredes. A luminárias limpas e claras.
Eu caminhei pelo longo corredor até meu quarto e entrei, ainda vazio. Meus olhos de criança se ergueram e fitaram todo o cubo que era meu quarto, enorme à minha estatura. Imaculadamente branco. As janelas grandes e de cor escura deixavam entrar uma forte corrente de vento e naquele momento eu me senti mais livre que em toda a minha vida. Foi uma das sensações mais fortes que já me ocorreram até hoje.
E, enquanto preenchiam aquele espaço com meus móveis, eu rodava pelos cômodos, vendo todos aqueles anos de espectativa e detalhismo se transformarem em algo concretamente realizado. Era um momento de quebra, pelo menos eu pensava assim.
Durou pouco. Foi um belo dia, aquele 6 de janeiro de 2001. Passou. Mais uma vez a mão do tempo se ergueu sobre minha condição humana e agiu na vida, mas minhas memórias permaneceram. E continuarão comigo, mesmo que passe mais dez anos, até que a morte me extingua.
FM.
Lágrimas do Sol (A Little Dream)
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
14:35
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
'
Um dia, vi a tristeza nos olhos dos homens. Oprimidos por seus anseios, dúvidas e dor, eles caminhavam. Uma multidão num cortejo sem fim. Haviam marcas de violência e fragilidade em seus passos, sua história os fazia moverem-se através do tempo, sem perceber a vida ao seu redor. E eu os julguei mortos. Não como os mortos, pois estes não possuem mais as chagas do sofrimento, mas como impassíveis.
E vi o mal que se comete debaixo do sol. Vi alguns corações insanos nos prazeres terrenos, perdidos. Vi outros corações na casa do luto, pesteados pela tristeza. Vi o silêncio que cobriu o céu naquele instante. Era o sol que sumia, por entre as nuvens. Eu pedi pelas poucas esperanças que ainda restavam naquele lugar, pela restauração. Pela vida em sua plenitude.
E gotas de chuva começaram a cair. A luz do dia ainda pairava fracamente pela terra, e os semblantes cansados fitaram o firmamento. Eram lágrimas de um sol que lavava aqueles espíritos errantes. Eram lágrimas do amanhecer, lágrimas de lassidão, de compaixão. Entre as nuvens, réstias de luz surgiam lentamente.
Nesse instante vi anjos cortando o alvorecer. Um vento começou a soprar do oriente, ardentemente em volta do solo. No céu, grandes melodias eram entoadas pelas vozes doces do daquele lugar. E, nos olhos das pessoas que fitavam o céu, havia paz. As vozes saíam com força de suas gargantas. Em cada coração se refazia a promessa da esperança que iria renascer.
Um pequeno sonho que tive noite passada.
FM.
Um dia, vi a tristeza nos olhos dos homens. Oprimidos por seus anseios, dúvidas e dor, eles caminhavam. Uma multidão num cortejo sem fim. Haviam marcas de violência e fragilidade em seus passos, sua história os fazia moverem-se através do tempo, sem perceber a vida ao seu redor. E eu os julguei mortos. Não como os mortos, pois estes não possuem mais as chagas do sofrimento, mas como impassíveis.
E vi o mal que se comete debaixo do sol. Vi alguns corações insanos nos prazeres terrenos, perdidos. Vi outros corações na casa do luto, pesteados pela tristeza. Vi o silêncio que cobriu o céu naquele instante. Era o sol que sumia, por entre as nuvens. Eu pedi pelas poucas esperanças que ainda restavam naquele lugar, pela restauração. Pela vida em sua plenitude.
E gotas de chuva começaram a cair. A luz do dia ainda pairava fracamente pela terra, e os semblantes cansados fitaram o firmamento. Eram lágrimas de um sol que lavava aqueles espíritos errantes. Eram lágrimas do amanhecer, lágrimas de lassidão, de compaixão. Entre as nuvens, réstias de luz surgiam lentamente.
Nesse instante vi anjos cortando o alvorecer. Um vento começou a soprar do oriente, ardentemente em volta do solo. No céu, grandes melodias eram entoadas pelas vozes doces do daquele lugar. E, nos olhos das pessoas que fitavam o céu, havia paz. As vozes saíam com força de suas gargantas. Em cada coração se refazia a promessa da esperança que iria renascer.
Um pequeno sonho que tive noite passada.
FM.
Aonde você Irá?
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
14:10
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
'
Ontem me deparei com uma situação interessante. Durante meu silêncio na noite, sozinha no meio de tantas pessoas, comigo mesma pensei em aonde estaria indo meus pés. Tão longe quanto poderiam ir, até o céu. De repente aquelas paredes brancas se desmancharam e em alguns segundos eu sumi dali. As pessoas ao redor gritavam, clamavam, e eu simplesmente voei para longe, em pensamento.
Divaguei sobre o sentido de saber que eu sou. Sobre onde eu estava... Sobre para onde eu iria. Sentada naquele lugar, sem entender muito bem as palavras ditas ali, eu somente busquei as respostas para minhas perguntas. Abri um pequeno livro preto, sagrado, e me deparei com uma lição. Mais uma dentre tantas que já presenciei.
Eu sou tão importante quanto qualquer um é. Não sou melhor que ninguém, não tenho o direito de julgar ninguém, portanto não o faço. Não aponto meu dedo e procuro não ser injusta em meus comentários. As vezes eu cumpro o papel de tudo quanto eu quero ser, mas eu sei quem realmente sou. Sou apenas mais alguém que vive nessa terra e busca algum sentido para viver. Só não sei para onde vou. Minhas escolhas vão me levando como o vento e a lua distribuem as marés. Eu sou aquela que chora quando está sozinha, mas eu peço ajuda a quem confio.
Eu sei que ninguém poderá me salvar de mim mesma. Sei que não posso escapar de mim.
Tenho a impressão de, às vezes, enxergar através dos olhos daqueles que observo. Alguns estão assustados demais para ver a realidade. Ninguém ouvirá e verá seus pedidos, ninguém nunca ouvirá seu coração sangrar, se nunca se pronunciar, mesmo que apenas diante de Deus. Você será deixado para trás, se tentar encarar toda a dor de si, sozinho. Eu sei que posso ouvir seus sussurros. Mas sozinho, você não poderá me ouvir, mesmo se eu gritar.
E aonde você irá? Ninguém conseguirá te salvar de si mesmo, você não pode tentar escapar da verdade, mesmo que assustado, você não pode abandonar tudo e se fechar para a vida. Você não pode escapar.
Um dia, eu me cansei de falar palavras que ninguém entende. Ponderei sobre meus temas e refleti, em busca de respostas. Não sei se essas são palavras jogadas ao vento, mas elas são puramente minhas.
Está claro que ninguém vive a vida sozinho? Então... Aonde você irá? Tão sozinhos quanto você, existem milhões. Ninguém tentará te salvar de si mesmo. Você não poderá escapar da verdade, mesmo que assustado, eu sei que pode parecer assustador encarar a dor, mas você não pode fugir. Não pode rejeitar isso, não poderá escapar nunca... Afinal, aonde você irá? Que caminho você pretende seguir? Quais são as suas respostas? Ouça seu coração. Respeite sua inconsciência e busque o alívio na mão que absorve sua dor. Uma mão que não é material, mas que tira tudo o que te machuca de perto de você, e sua vida não será mais tão solitária quanto parecia antes.
Foi um pequeno pensamento que tive noite passada, enquanto divagava sobre quem sou, ou para onde irei.
FM.
Ontem me deparei com uma situação interessante. Durante meu silêncio na noite, sozinha no meio de tantas pessoas, comigo mesma pensei em aonde estaria indo meus pés. Tão longe quanto poderiam ir, até o céu. De repente aquelas paredes brancas se desmancharam e em alguns segundos eu sumi dali. As pessoas ao redor gritavam, clamavam, e eu simplesmente voei para longe, em pensamento.
Divaguei sobre o sentido de saber que eu sou. Sobre onde eu estava... Sobre para onde eu iria. Sentada naquele lugar, sem entender muito bem as palavras ditas ali, eu somente busquei as respostas para minhas perguntas. Abri um pequeno livro preto, sagrado, e me deparei com uma lição. Mais uma dentre tantas que já presenciei.
Eu sou tão importante quanto qualquer um é. Não sou melhor que ninguém, não tenho o direito de julgar ninguém, portanto não o faço. Não aponto meu dedo e procuro não ser injusta em meus comentários. As vezes eu cumpro o papel de tudo quanto eu quero ser, mas eu sei quem realmente sou. Sou apenas mais alguém que vive nessa terra e busca algum sentido para viver. Só não sei para onde vou. Minhas escolhas vão me levando como o vento e a lua distribuem as marés. Eu sou aquela que chora quando está sozinha, mas eu peço ajuda a quem confio.
Eu sei que ninguém poderá me salvar de mim mesma. Sei que não posso escapar de mim.
Tenho a impressão de, às vezes, enxergar através dos olhos daqueles que observo. Alguns estão assustados demais para ver a realidade. Ninguém ouvirá e verá seus pedidos, ninguém nunca ouvirá seu coração sangrar, se nunca se pronunciar, mesmo que apenas diante de Deus. Você será deixado para trás, se tentar encarar toda a dor de si, sozinho. Eu sei que posso ouvir seus sussurros. Mas sozinho, você não poderá me ouvir, mesmo se eu gritar.
E aonde você irá? Ninguém conseguirá te salvar de si mesmo, você não pode tentar escapar da verdade, mesmo que assustado, você não pode abandonar tudo e se fechar para a vida. Você não pode escapar.
Um dia, eu me cansei de falar palavras que ninguém entende. Ponderei sobre meus temas e refleti, em busca de respostas. Não sei se essas são palavras jogadas ao vento, mas elas são puramente minhas.
Está claro que ninguém vive a vida sozinho? Então... Aonde você irá? Tão sozinhos quanto você, existem milhões. Ninguém tentará te salvar de si mesmo. Você não poderá escapar da verdade, mesmo que assustado, eu sei que pode parecer assustador encarar a dor, mas você não pode fugir. Não pode rejeitar isso, não poderá escapar nunca... Afinal, aonde você irá? Que caminho você pretende seguir? Quais são as suas respostas? Ouça seu coração. Respeite sua inconsciência e busque o alívio na mão que absorve sua dor. Uma mão que não é material, mas que tira tudo o que te machuca de perto de você, e sua vida não será mais tão solitária quanto parecia antes.
Foi um pequeno pensamento que tive noite passada, enquanto divagava sobre quem sou, ou para onde irei.
FM.
Escudos Retorcidos (Flores de Papel)
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
17:52
domingo, 8 de agosto de 2010
'
Meus pensamentos me mantém lúcida durante meus dias. É por eles que não perco o sentido e a direção. É neles que encontro os sentidos que busco naquilo que não compreendo. Mas é em meus pensamentos que se formam meus escudos. Barreiras que me ajudam a proteger do mal que possa me atingir, é com esses escudos que me firo por não conseguir sentir tanto quanto gostaria.
Em minhas palavras introspectivas eu abri caminhos para a lucidez. Foi na solidão que aprendi o valor de todas as ações do ser humano. Em minha observação eu deixei cessar o som dos meus gritos e o medo das noites silenciosas, onde minhas mãos trêmulas perdiam o controle. Hoje eu somente anseio pelos sonhos de meu sono profundo.
Pois são meus sonhos, os suspiros de minha inconsciência, que continuam latentes em vida e choram toda a virtude de meus sorrisos reprimidos, trocados por crises falsas de riso. Meus sonhos são a luz imaginária que me guiam diante de todo o tempo que ainda virá, até que eu entre num sono profundo demais para acordar.
Todos os dias, assim que acordo e quando vou dormir, peço a Deus que me proteja dos meus escudos próprios. Peço que Ele ilumine meus olhos para que eu possa enxergar a virtude nos olhos do outro. E eu sei que um dia, meus pensamentos me levarão a um lugar onde meus escudos serão totalmente retorcidos.
Quando isso acontecer, haverá uma luz que servirá para clarear não somente as trevas físicas de um lugar. Ela se aprofundará em minha alma. E os monstros nunca mais chamarão meu nome. Eu permanecerei num lugar onde o vento sussurra doces palavras e as gotas de chuva contam as histórias.
Pois quando eu deito a cabeça e espero por respirar sem peso algum, sinto que um anjo derrama flores de papel sobre mim, onde escrevo palavras de alívio e alegria, onde ele sorri para mim e eu me lembro de meus bons sonhos, meus bons pensamentos. Num campo de flores de papel, com doces nuvens de ninar, sem mentiras eu assisto a paz que tanto sonhei durante toda a minha vida.
Num campo de flores de papel.
FM.
Meus pensamentos me mantém lúcida durante meus dias. É por eles que não perco o sentido e a direção. É neles que encontro os sentidos que busco naquilo que não compreendo. Mas é em meus pensamentos que se formam meus escudos. Barreiras que me ajudam a proteger do mal que possa me atingir, é com esses escudos que me firo por não conseguir sentir tanto quanto gostaria.
Em minhas palavras introspectivas eu abri caminhos para a lucidez. Foi na solidão que aprendi o valor de todas as ações do ser humano. Em minha observação eu deixei cessar o som dos meus gritos e o medo das noites silenciosas, onde minhas mãos trêmulas perdiam o controle. Hoje eu somente anseio pelos sonhos de meu sono profundo.
Pois são meus sonhos, os suspiros de minha inconsciência, que continuam latentes em vida e choram toda a virtude de meus sorrisos reprimidos, trocados por crises falsas de riso. Meus sonhos são a luz imaginária que me guiam diante de todo o tempo que ainda virá, até que eu entre num sono profundo demais para acordar.
Todos os dias, assim que acordo e quando vou dormir, peço a Deus que me proteja dos meus escudos próprios. Peço que Ele ilumine meus olhos para que eu possa enxergar a virtude nos olhos do outro. E eu sei que um dia, meus pensamentos me levarão a um lugar onde meus escudos serão totalmente retorcidos.
Quando isso acontecer, haverá uma luz que servirá para clarear não somente as trevas físicas de um lugar. Ela se aprofundará em minha alma. E os monstros nunca mais chamarão meu nome. Eu permanecerei num lugar onde o vento sussurra doces palavras e as gotas de chuva contam as histórias.
Pois quando eu deito a cabeça e espero por respirar sem peso algum, sinto que um anjo derrama flores de papel sobre mim, onde escrevo palavras de alívio e alegria, onde ele sorri para mim e eu me lembro de meus bons sonhos, meus bons pensamentos. Num campo de flores de papel, com doces nuvens de ninar, sem mentiras eu assisto a paz que tanto sonhei durante toda a minha vida.
Num campo de flores de papel.
FM.
Pijamas rajados de Sangue
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
22:37
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
E eram apenas pijamas listrados a caminhar no dia cinza
Eram cinzas de lembranças espalhadas no vento frio
Eram faces mudas e tristes a caminhar entre correntes
Era o triste som do desespero que circulava por ali
Mas as mesmas mãos que ofereceram o ódio para repelir
Aqueles pescoços errantes que obrigados a aceitar
Uma ideia de brincar de morte a cada instante
Eram as mãos pelas quais toda a pérola era retirada
E naqueles olhos infantis havia algo de infelicidade
Nos dedos delicados de criança havia sangue e cinzas
De cada parte sua que foi apagada por fardas alinhadas
Das cantigas de roda agora restavam as memórias
E eram passeios sem volta que levavam os queridos
Levavam os bons dias para longe, para sempre
Deixavam a dor da perda de mais um laço de amor
Liberavam mais lágrimas sobre olhos cansados
E apenas aquele solo era testemunha de tudo
Apenas aqueles pijamas rajados de sangue poderiam explicar
Adormecido no tempo
Sujo pelo ódio de tempos atrás
Marcado por todo o medo
Aquele solo era testemunha
Morto no tempo por uma guerra muda
Apagado por fardas alinhadas
E ver o sol nascer em mais um dia cinza
Ver a honra e glória alheia varrendo sua história
Uma guerra muda
Pijamas rajados de sangue
Brincando de morte
Mais corpos caídos
FM.
Eram cinzas de lembranças espalhadas no vento frio
Eram faces mudas e tristes a caminhar entre correntes
Era o triste som do desespero que circulava por ali
Mas as mesmas mãos que ofereceram o ódio para repelir
Aqueles pescoços errantes que obrigados a aceitar
Uma ideia de brincar de morte a cada instante
Eram as mãos pelas quais toda a pérola era retirada
E naqueles olhos infantis havia algo de infelicidade
Nos dedos delicados de criança havia sangue e cinzas
De cada parte sua que foi apagada por fardas alinhadas
Das cantigas de roda agora restavam as memórias
E eram passeios sem volta que levavam os queridos
Levavam os bons dias para longe, para sempre
Deixavam a dor da perda de mais um laço de amor
Liberavam mais lágrimas sobre olhos cansados
E apenas aquele solo era testemunha de tudo
Apenas aqueles pijamas rajados de sangue poderiam explicar
Adormecido no tempo
Sujo pelo ódio de tempos atrás
Marcado por todo o medo
Aquele solo era testemunha
Morto no tempo por uma guerra muda
Apagado por fardas alinhadas
E ver o sol nascer em mais um dia cinza
Ver a honra e glória alheia varrendo sua história
Uma guerra muda
Pijamas rajados de sangue
Brincando de morte
Mais corpos caídos
FM.
Uma lição Matinal.
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
21:44
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
"Nós sempre temos a tendência de ver coisas que não existem, e ficar cegos para as grandes lições que estão diante de nossos olhos."
Deixei o dia me levar, hoje. Durante essa manhã, ponderei sobre um autor. Miguel de Cervantes de repente me pareceu fascinante. Sob o vento matutino, em minha caminhada até a sala de aula pude refletir, no meu silêncio, sobre um de seus personagens. Dom Quixote é o rei da ordem desordenada.
Louco ou sonhador? Quem ousaria dizer que os gigantes de suas batalhas eram apenas moinhos? Ele possuía imaginação fértil, mas em seu coração havia uma pureza que não o fazia mentir. Eu chegaria a dizer que algo em Dom Quixote transpira coragem. Sim, por que não? Ele enfrentava todos os monstros e maiores desafios, destemido. É uma grande lição, sim. Ele possuía um medo, no entanto. Largar seus sonhos e cair numa dura realidade lhe fazia transparecer seu pior.
Uma vez me disseram que medo é perícia, que é necessário e que ninguém vive sem ele. E coragem? Às vezes, muitas vezes, é tão necessário quanto o medo. É a característica da virtude pregada por Aristóteles. O justo meio entre os dois é saber quando usar a coragem e o medo ao seu favor.
Também já ouvi que sentimentos existem para serem usados, logo, eu poderia ter escolhido ser curiosa. Fazer o que gosto, contar a verdade, dizer o que sinto, me expressar. Eu poderia ter escolhido ser independente, falar o que penso, me importar. Andar por aí, fazer amizades verdadeiras. Falar olhando nos olhos. Eu poderia ter escolhido sonhar.
Mas, muitas vezes por medo, por minha falta de coragem, eu falhei nisso.
Se todos nós fizéssemos como Dom Quixote, no sentido de enfrentar os obstáculos de nossas vidas em busca de um objetivo de peito aberto, sem se importar com o tamanho das paredes que bloqueam nossa passagem, se talvez a criação desses obstáculos em nossas mentes pudessem ser apagadas com o simples sopro de lucidez da coragem, tudo seria diferente.
Segundo dicionários, coragem significa firmeza de espírito, energia diante do perigo; valentia; perseverança.
Em uma curta análise, logo, a lição de perseverança do personagem mais famoso de Miguel de Cervantes deveria sobressair à sua "loucura". Aliás, se havia loucura nas veias de D. Quixote, não era maior que sua intrepidez. Entusiasta e criativo, mais que qualquer outro adjetivo que já tenha sido imposto a ele. Bastaria que caísse um olhar diferente e todos poderiam entender que a figura latente e febril de sua coragem o faziam permanecer em suas aventuras.
Mas isso é apenas uma humilde opinião... Uma pequena lição na qual pensei hoje pela manhã, à caminho da sala de aula.
Entre aqueles que estão emudecidos, poucos são os que ficam em silêncio.
Que tal ter um pouco de coragem e enfrentar o que se deve enfrentar? Pode ser tão ou mais interessante que guardar as palavras em sua mente, as ações dentro de sua cabeça.
FM.
Deixei o dia me levar, hoje. Durante essa manhã, ponderei sobre um autor. Miguel de Cervantes de repente me pareceu fascinante. Sob o vento matutino, em minha caminhada até a sala de aula pude refletir, no meu silêncio, sobre um de seus personagens. Dom Quixote é o rei da ordem desordenada.
Louco ou sonhador? Quem ousaria dizer que os gigantes de suas batalhas eram apenas moinhos? Ele possuía imaginação fértil, mas em seu coração havia uma pureza que não o fazia mentir. Eu chegaria a dizer que algo em Dom Quixote transpira coragem. Sim, por que não? Ele enfrentava todos os monstros e maiores desafios, destemido. É uma grande lição, sim. Ele possuía um medo, no entanto. Largar seus sonhos e cair numa dura realidade lhe fazia transparecer seu pior.
Uma vez me disseram que medo é perícia, que é necessário e que ninguém vive sem ele. E coragem? Às vezes, muitas vezes, é tão necessário quanto o medo. É a característica da virtude pregada por Aristóteles. O justo meio entre os dois é saber quando usar a coragem e o medo ao seu favor.
Também já ouvi que sentimentos existem para serem usados, logo, eu poderia ter escolhido ser curiosa. Fazer o que gosto, contar a verdade, dizer o que sinto, me expressar. Eu poderia ter escolhido ser independente, falar o que penso, me importar. Andar por aí, fazer amizades verdadeiras. Falar olhando nos olhos. Eu poderia ter escolhido sonhar.
Mas, muitas vezes por medo, por minha falta de coragem, eu falhei nisso.
Se todos nós fizéssemos como Dom Quixote, no sentido de enfrentar os obstáculos de nossas vidas em busca de um objetivo de peito aberto, sem se importar com o tamanho das paredes que bloqueam nossa passagem, se talvez a criação desses obstáculos em nossas mentes pudessem ser apagadas com o simples sopro de lucidez da coragem, tudo seria diferente.
Segundo dicionários, coragem significa firmeza de espírito, energia diante do perigo; valentia; perseverança.
Em uma curta análise, logo, a lição de perseverança do personagem mais famoso de Miguel de Cervantes deveria sobressair à sua "loucura". Aliás, se havia loucura nas veias de D. Quixote, não era maior que sua intrepidez. Entusiasta e criativo, mais que qualquer outro adjetivo que já tenha sido imposto a ele. Bastaria que caísse um olhar diferente e todos poderiam entender que a figura latente e febril de sua coragem o faziam permanecer em suas aventuras.
Mas isso é apenas uma humilde opinião... Uma pequena lição na qual pensei hoje pela manhã, à caminho da sala de aula.
Entre aqueles que estão emudecidos, poucos são os que ficam em silêncio.
Que tal ter um pouco de coragem e enfrentar o que se deve enfrentar? Pode ser tão ou mais interessante que guardar as palavras em sua mente, as ações dentro de sua cabeça.
FM.
Boa noite.
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
17:17
terça-feira, 3 de agosto de 2010
'
Durma bem.
Eu estarei ao seu lado.
Velarei seu sono.
Romperei com teu medo.
Permanecerei acordada, admirando seus sonhos.
As luzes da noite serão minhas testemunhas.
Deixe as lágrimas.
Seque os olhos, criança.
Boa noite não quer dizer adeus.
Quando seus olhos abrirem pela manhã, eu estarei ao seu lado.
Durma bem.
FM.
Durma bem.
Eu estarei ao seu lado.
Velarei seu sono.
Romperei com teu medo.
Permanecerei acordada, admirando seus sonhos.
As luzes da noite serão minhas testemunhas.
Deixe as lágrimas.
Seque os olhos, criança.
Boa noite não quer dizer adeus.
Quando seus olhos abrirem pela manhã, eu estarei ao seu lado.
Durma bem.
FM.
Um pequeno Ex-planeta.
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
22:19
quarta-feira, 28 de julho de 2010
'
Dentro de tudo quanto eu poderia sonhar em encontrar hoje, uma coisa me fugiu os planos que tinha na mente. Foi tanto quanto minha mente suportou lembrar, e me trouxe paz. Uma sensação que me faz leve... Como uma criança. Talvez eu nem lembrasse como era, mas me aconteceu. Um momento nostálgico depois de um dia regado à lágrimas silenciosas.
Eu via rostos familiares, em minha visão do passado. Por mais que desgastados pelo tempo no qual ficaram mergulhados, pareciam vivos outra vez. Faces que me diziam sua expressão com olhos infantis. Haviam estrelas e planetas no teto daquela sala. Pessoas caminhavam ali, maravilhadas com a decoração daquele planetário.
Entre tantos corpos celestes havia um que me chamava a atenção. Naquele tempo plutão ainda era um planeta. Pequeno entre os tantos outros espalhados pelo teto, bolas de isopor pintadas por nossas mãos. Uma pequena bola de isopor. E sempre me chamou atenção sua delicadeza revestida de azul.
Dois dias apresentando a formação de Vênus, mas era de Plutão que eu gostava. Plutão tinha um encanto diferente aos meus olhos. Pequeno, misterioso, escuro... O mais distante do sol. Não tinha vida, como a Terra. Não tinha o brilho de Vênus. Não tinha a grandeza de Júpiter, nem os anéis de saturno.
Mas possuía um mistério particular, e isso me inebriava. Sempre gostei de observar o céu a noite e imaginar o infinito no qual estamos mergulhados. Já me imaginei tão longe quanto Plutão.
E minha reflexão de criança voltou à tona.
Sem vida. Sem brilho. Pequeno e feio. Desprezado. Mas plutão continua lá, em sua órbita, placidamente girando ao redor do sol, como todos os outros. Como todos os grandes e belos, continua ali. Na escuridão de sua distância, permanece queito. Quem sabe esperando a vez de poder mostrar sua força.
Mas eu era criança... E plutão era um planeta. Não mais.
Quem sabe esse pequeno ex-planeta um dia não mostra a todos os que o desprezam do que ele é capaz?
Nunca se sabe... Afinal, o futuro é um mistério tão infinito quanto o céu.
FM.
Dentro de tudo quanto eu poderia sonhar em encontrar hoje, uma coisa me fugiu os planos que tinha na mente. Foi tanto quanto minha mente suportou lembrar, e me trouxe paz. Uma sensação que me faz leve... Como uma criança. Talvez eu nem lembrasse como era, mas me aconteceu. Um momento nostálgico depois de um dia regado à lágrimas silenciosas.
Eu via rostos familiares, em minha visão do passado. Por mais que desgastados pelo tempo no qual ficaram mergulhados, pareciam vivos outra vez. Faces que me diziam sua expressão com olhos infantis. Haviam estrelas e planetas no teto daquela sala. Pessoas caminhavam ali, maravilhadas com a decoração daquele planetário.
Entre tantos corpos celestes havia um que me chamava a atenção. Naquele tempo plutão ainda era um planeta. Pequeno entre os tantos outros espalhados pelo teto, bolas de isopor pintadas por nossas mãos. Uma pequena bola de isopor. E sempre me chamou atenção sua delicadeza revestida de azul.
Dois dias apresentando a formação de Vênus, mas era de Plutão que eu gostava. Plutão tinha um encanto diferente aos meus olhos. Pequeno, misterioso, escuro... O mais distante do sol. Não tinha vida, como a Terra. Não tinha o brilho de Vênus. Não tinha a grandeza de Júpiter, nem os anéis de saturno.
Mas possuía um mistério particular, e isso me inebriava. Sempre gostei de observar o céu a noite e imaginar o infinito no qual estamos mergulhados. Já me imaginei tão longe quanto Plutão.
E minha reflexão de criança voltou à tona.
Sem vida. Sem brilho. Pequeno e feio. Desprezado. Mas plutão continua lá, em sua órbita, placidamente girando ao redor do sol, como todos os outros. Como todos os grandes e belos, continua ali. Na escuridão de sua distância, permanece queito. Quem sabe esperando a vez de poder mostrar sua força.
Mas eu era criança... E plutão era um planeta. Não mais.
Quem sabe esse pequeno ex-planeta um dia não mostra a todos os que o desprezam do que ele é capaz?
Nunca se sabe... Afinal, o futuro é um mistério tão infinito quanto o céu.
FM.
Stars on the Floor. 2ª parte.
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
16:13
terça-feira, 27 de julho de 2010
Estrelas no chão. 2ª parte.
Retornava ao seu mundo, ela chorava
Colidia com o chão e se partia
E deixava seu suspiro, sumia
Voltava a realidade e acordava...
Sophie respirava e caminhava pelo desconhecido. No controle débio de suas mãos errantes, ela refletia. Fitava a si mesma pela matiz da lua que morria lentamente no horizonte. Apagava a si mesma por completo, tudo o que fora antes. Sophie erguia-se dos sonhos mortos restituída de sua vida. Em seus olhos haviam as réstias de luz que denunciavam uma nova esperança e um sorriso brotava lento em seus lábios.
Durante o crepúsculo matutino a vida de Sophie sofria uma epifania. Ela não desistiria até que a vida se esvaisse de suas veias. Neste momento o sol rastejava no horizonte, acordando. Espalhava seu calor nascente pela névoa fria que cobrira a longa noite em Sophie. Iluminava sua face e mostrava um traço de coragem em sua expressão. Marcas da força que a erguia das sombras. E as estrelas se rendiam ao brilho em toda ela, cadentes. Descendo pelo céu, felizes enfim... Davam lugar a Sophie, deitando-se sobre o chão.
Todo o ódio que antes não poderia ser medido pelo conhecimento humano desmoronou. Altas paredes de concreto se quebraram e foram levadas pelo vento e pela luz daquele lugar. E uma grama verde tomou conta do cinza do solo. O vigor da luz não se abalava pelas poucas nuvens que manchavam o firmamento e a brisa acariciava os cabelos de Sophie.
Neste momento, o medo a abandonou. A escuridão se esvaeceu por completo. O amanhecer quebrou o silêncio dentro de seu coração e desprendeu o timbre suave daquele anjo. Ela sabia que todo o tempo no qual passara esquecida era mínimo perto daqueles segundos onde ela sentia a vida em toda a sua intensidade. Haviam marcas em seu coração, nada seria realmente esquecido, mas seu sorriso resplandecia a paz da felicidade plena.
Quando seu coração permaneceu escondido, seus olhos estavam cegos. Sua voz não produzia as palavras que ela queria pronunciar. Mas aquilo agora era deixado para trás. As lágrimas secas em seu semblante representavam a felicidade, pois é certo que ela só se faz inteira na virtude dos que choram, que buscam sem cessar. O sol da manhã rastejava naquele lugar trazendo um novo sopro de vida em seu caminhar. Sophie fugiria de seu passado, daquele filme de horror. Havia um fio de luz que a guiaria através do desespero e a levaria em direção ao sol.
Ela se libertava entre os rastros de luz num vôo sem fim, placidamente. Seu corpo e sua mente gritavam a glória e ela sorria insistentemente, para sempre e sempre. Embalsamada pelo tempo, pela esperança...
Porque mesmo que tristezas percorram sua mente, mesmo que o desespero corroa suas alegrias, o sol sempre nascerá outra vez... Noites frias se tornarão dia, as estrelas se renderão ao brilho de seu sorriso e se espalharão pelo chão. Tudo passará; Tudo passa. Tudo na vida é temporário.
Agora ela estava feliz, finalmente feliz.
The End.
FM.
Retornava ao seu mundo, ela chorava
Colidia com o chão e se partia
E deixava seu suspiro, sumia
Voltava a realidade e acordava...
Sophie respirava e caminhava pelo desconhecido. No controle débio de suas mãos errantes, ela refletia. Fitava a si mesma pela matiz da lua que morria lentamente no horizonte. Apagava a si mesma por completo, tudo o que fora antes. Sophie erguia-se dos sonhos mortos restituída de sua vida. Em seus olhos haviam as réstias de luz que denunciavam uma nova esperança e um sorriso brotava lento em seus lábios.
Durante o crepúsculo matutino a vida de Sophie sofria uma epifania. Ela não desistiria até que a vida se esvaisse de suas veias. Neste momento o sol rastejava no horizonte, acordando. Espalhava seu calor nascente pela névoa fria que cobrira a longa noite em Sophie. Iluminava sua face e mostrava um traço de coragem em sua expressão. Marcas da força que a erguia das sombras. E as estrelas se rendiam ao brilho em toda ela, cadentes. Descendo pelo céu, felizes enfim... Davam lugar a Sophie, deitando-se sobre o chão.
Todo o ódio que antes não poderia ser medido pelo conhecimento humano desmoronou. Altas paredes de concreto se quebraram e foram levadas pelo vento e pela luz daquele lugar. E uma grama verde tomou conta do cinza do solo. O vigor da luz não se abalava pelas poucas nuvens que manchavam o firmamento e a brisa acariciava os cabelos de Sophie.
Neste momento, o medo a abandonou. A escuridão se esvaeceu por completo. O amanhecer quebrou o silêncio dentro de seu coração e desprendeu o timbre suave daquele anjo. Ela sabia que todo o tempo no qual passara esquecida era mínimo perto daqueles segundos onde ela sentia a vida em toda a sua intensidade. Haviam marcas em seu coração, nada seria realmente esquecido, mas seu sorriso resplandecia a paz da felicidade plena.
Quando seu coração permaneceu escondido, seus olhos estavam cegos. Sua voz não produzia as palavras que ela queria pronunciar. Mas aquilo agora era deixado para trás. As lágrimas secas em seu semblante representavam a felicidade, pois é certo que ela só se faz inteira na virtude dos que choram, que buscam sem cessar. O sol da manhã rastejava naquele lugar trazendo um novo sopro de vida em seu caminhar. Sophie fugiria de seu passado, daquele filme de horror. Havia um fio de luz que a guiaria através do desespero e a levaria em direção ao sol.
Ela se libertava entre os rastros de luz num vôo sem fim, placidamente. Seu corpo e sua mente gritavam a glória e ela sorria insistentemente, para sempre e sempre. Embalsamada pelo tempo, pela esperança...
Porque mesmo que tristezas percorram sua mente, mesmo que o desespero corroa suas alegrias, o sol sempre nascerá outra vez... Noites frias se tornarão dia, as estrelas se renderão ao brilho de seu sorriso e se espalharão pelo chão. Tudo passará; Tudo passa. Tudo na vida é temporário.
Agora ela estava feliz, finalmente feliz.
The End.
FM.
Awake and unafraid, asleep or dead.
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
11:31
quinta-feira, 3 de junho de 2010
'
Antes que eu conte uma história sobre perdas, considere quem eu sou. Eu arranquei do meu coração a maioria das necessidades, joguei-as fora. Apaguei-me por completo para não sofrer diante de qualquer fato.
Eu desisti do amanhã por causa do ontem. Desisti do amanhã e vivo o hoje. E pode-se dizer que nenhuma verdade me machucará, nenhum motivo me corroerá. Meu leito são minhas ações, eu não sou o que aparento. Apenas um olhar mais perspicaz sobre mim e você verá. Meu isolamento é o trajeto que percorro por entre as luzes da noite. O efeito que a verdade possui sobre mim é a indiferença por qualquer sentimento, porque a dor que sinto é o momento em que vejo a solidão, uma morte viva.
Retalhando a alma e entregando o coração, nunca saberei ser diferente. Apagada e pressionada pelo destino de permanecer só entre as colinas de concreto. Duras palavras sempre são escutadas por essa audição, sem qualquer consolo ou eufemismo, mas eu prossigo.
Posso até estar acordada e não ter medo, mas estarei adormecida e morta.
FM.
Antes que eu conte uma história sobre perdas, considere quem eu sou. Eu arranquei do meu coração a maioria das necessidades, joguei-as fora. Apaguei-me por completo para não sofrer diante de qualquer fato.
Eu desisti do amanhã por causa do ontem. Desisti do amanhã e vivo o hoje. E pode-se dizer que nenhuma verdade me machucará, nenhum motivo me corroerá. Meu leito são minhas ações, eu não sou o que aparento. Apenas um olhar mais perspicaz sobre mim e você verá. Meu isolamento é o trajeto que percorro por entre as luzes da noite. O efeito que a verdade possui sobre mim é a indiferença por qualquer sentimento, porque a dor que sinto é o momento em que vejo a solidão, uma morte viva.
Retalhando a alma e entregando o coração, nunca saberei ser diferente. Apagada e pressionada pelo destino de permanecer só entre as colinas de concreto. Duras palavras sempre são escutadas por essa audição, sem qualquer consolo ou eufemismo, mas eu prossigo.
Posso até estar acordada e não ter medo, mas estarei adormecida e morta.
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The Ghost of You.
Escrito por
Fernanda Medeiros
às
15:29
terça-feira, 25 de maio de 2010
'
Uma constante icógnita. A promessa secreta de realizar tudo a que se propõe fazer. E sua felicidade contagia todos ao redor, como uma doença. A cura. Uma presença que se faz importante a qualquer minuto, e como poderia ser diferente?
Uma criança eterna. Sentada no chão frio de um quarto, dedos delicados segurando pequenos brinquedos de plástico, voz infantil. Sorriso distraído e a pureza do sentimento que emanava de sua respiração, abrigava meu coração. Eu o amo pois ele foi um dos únicos que me fez sorrir de verdade.
Pequenas esculturas no chão. Estradas e casas de barro naquela varanda. Risadas. Eu lembro delas. Estão marcadas em minha memória. Uma pessoa da qual eu nunca senti o mínimo de irritação. E por isso eu o amo. Porque sempre que precisei, ele estendeu a mão e me ajudou. Me acompanhou.
As horas da madrugada ao som de um relógio antigo passavam rapidamente ao seu lado. E as palavras fluiam naturalmente de nossas mentes, horas a fio acordados. E durantes as horas em que o sol reinava, buscávamos o fim virtual de qualquer jogo. Preparávamos cartões de aniversário no computador, mesmo que não fossem usados, nós os fazíamos.
Nossas músicas preferidas eram as mesmas. As interpretações das letras se faziam naquele quarto de piso avermelhado, muitas vezes durante às madrugadas acordados. Fantasiávamos sobre como seria o filme de qualquer livro que líamos em comum. Que éramos fãs. Comentávamos sobre histórias de terror e ele me contava as melhores piadas.
E ele ria das próprias piadas. Sua risada silábica sempre me contagiou. Comíamos sorvetes estranhos e assistíamos novelas juntos[A usurpadora, sim, porque não?]. Marchávamos no asfalto em frente à sua casa. Pregávamos sustos em algum distraído que passava pela rua. Assistíamos filmes de terror juntos e escondíamos os olhos das imagens mais pesadas. Inventávamos comidas esquisitas que sempre ficavam boas, se era ele que fazia.
E eu podia me dizer criança. Somente nesse tempo, dentro de alguns períodos, eu vivia como uma criança comum. E vivia. É desse tempo que conto minhas histórias infantis, minhas pequenas aventuras e corridas na areia.
Mas ele é uma criança eterna. Cresceu e continua com o mesmo brilho nos olhos. A magia da descoberta de um mundo novo a cada dia.
Suas antigas preferidas,
Papercut.
The Kill.
The Ghost of You.
Você sabe quem você é e o quanto importa pra mim.
FM.
Uma constante icógnita. A promessa secreta de realizar tudo a que se propõe fazer. E sua felicidade contagia todos ao redor, como uma doença. A cura. Uma presença que se faz importante a qualquer minuto, e como poderia ser diferente?
Uma criança eterna. Sentada no chão frio de um quarto, dedos delicados segurando pequenos brinquedos de plástico, voz infantil. Sorriso distraído e a pureza do sentimento que emanava de sua respiração, abrigava meu coração. Eu o amo pois ele foi um dos únicos que me fez sorrir de verdade.
Pequenas esculturas no chão. Estradas e casas de barro naquela varanda. Risadas. Eu lembro delas. Estão marcadas em minha memória. Uma pessoa da qual eu nunca senti o mínimo de irritação. E por isso eu o amo. Porque sempre que precisei, ele estendeu a mão e me ajudou. Me acompanhou.
As horas da madrugada ao som de um relógio antigo passavam rapidamente ao seu lado. E as palavras fluiam naturalmente de nossas mentes, horas a fio acordados. E durantes as horas em que o sol reinava, buscávamos o fim virtual de qualquer jogo. Preparávamos cartões de aniversário no computador, mesmo que não fossem usados, nós os fazíamos.
Nossas músicas preferidas eram as mesmas. As interpretações das letras se faziam naquele quarto de piso avermelhado, muitas vezes durante às madrugadas acordados. Fantasiávamos sobre como seria o filme de qualquer livro que líamos em comum. Que éramos fãs. Comentávamos sobre histórias de terror e ele me contava as melhores piadas.
E ele ria das próprias piadas. Sua risada silábica sempre me contagiou. Comíamos sorvetes estranhos e assistíamos novelas juntos[A usurpadora, sim, porque não?]. Marchávamos no asfalto em frente à sua casa. Pregávamos sustos em algum distraído que passava pela rua. Assistíamos filmes de terror juntos e escondíamos os olhos das imagens mais pesadas. Inventávamos comidas esquisitas que sempre ficavam boas, se era ele que fazia.
E eu podia me dizer criança. Somente nesse tempo, dentro de alguns períodos, eu vivia como uma criança comum. E vivia. É desse tempo que conto minhas histórias infantis, minhas pequenas aventuras e corridas na areia.
Mas ele é uma criança eterna. Cresceu e continua com o mesmo brilho nos olhos. A magia da descoberta de um mundo novo a cada dia.
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